O poderoso pasteleiro
Golpista conhecido, morador do interior de Goiás se passou por alto funcionário do Palácio do Planalto para conseguir um emprego e acabou apanhado pela polícia
Marcelo Lima dos Anjos, 34 anos, é daqueles metidos a esperto que adoram se mostrar. De tão autoconfiante, costuma se meter em enrascadas inacreditáveis, que atribui a um estranho desvio de comportamento: ele sente prazer em se passar por gente influente e gosta de tirar proveito disso. Sua mais recente peripécia mobilizou gabinetes importantes de Brasília. Morador de Formosa (GO), onde trabalha numa modesta pastelaria, Marcelo se passou pelo secretário executivo da Casa Civil da Presidência, Beto Vasconcelos. Falando como se fosse o próprio secretário, por vários dias e a partir de mais de um telefone celular, ele disparou telefonemas para órgãos do governo e empresas privadas. Nas ligações, sempre o falso Beto Vasconcelos pedia emprego para um amigo – no caso, o próprio Marcelo. "Eu queria arrumar um emprego pra mim mesmo e tive a ideia de me passar pelo secretário e então indicar o meu nome, porque eu sei que ninguém recusa um pedido da Casa Civil", conta, sem o menor sinal de culpa. A escolha do personagem a ser mimetizado, Marcelo diria mais tarde, surgiu da leitura de uma reportagem. Dono do segundo posto mais importante da Casa Civil, abaixo apenas da ministra Gleisi Hoffmann, o petista Beto Vasconcelos ocupa o cargo desde o início do atual governo e, coisa rara, goza da simpatia da presidente Dilma Rousseff, de quem é amigo.
O estratagema do impostor esteve perto de dar certo. Ousado, ele conseguiu bons contatos. Conversou, por, exemplo, com o presidente interino da Agência Nacional Aviação Civil (Anac). Falou também com com uma diretora executiva da Vale no Rio. Nessa conversa, o falso Beto conseguiu até agendar uma entrevista de emprego para Marcelo. Ele só não contava que, àquela altura, já estivesse sendo caçado pelapolícia federal. A informação de que alguém vinha se passando pelo secretário havia chegado ao Planalto, que acionou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e a PF. De repente, o impostor virou assunto de estado. Dois inquéritos foram abertos, com quebra de sigilo telefônico e tudo. Em 13 de setembro, ao sair da entrevista de emprego na Vale, o pasteleiro foi preso. Descobriu-se, depois, que não foi a primeira vez. Ele já havia sido detido em outras duas oportunidades: uma em Salvador, coletando doações em nome do arcebispo, e a outra em Brasília, dando aulas na UnB sem sequer ter curso superior. Mais abusado, impossível.

