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WEBCLIPPING – 26/10/2003 - PRIMEIRA EDIÇÃO |
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CIDADANIA |
Registro
civil: mutirão envolve 8 mil cartórios
À
procura de uma identidade
Pais
recorrem aos postos para registrar seus filhos
Ministros
estimulam o registro de nascimento
Luta
contra anonimato
Campanha
ajuda quem perdeu documento
Milhares
obtêm o registro no Maranhão
Campanha
pelo registro civil tem pequena adesão
Documento
único no futuro
Anistia
vai custar R$ 4,7 bilhões
Pedidos
somam 40 mil
Anistiados
cobram a fatura
Os
jovens e a criminalidade
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COLUNAS |
INFORME
ECONÔMICO
INFORME
JB
BOECHAT
AUGUSTO
NUNES
ANCELMO
GOIS
PANORAMA
ECONÔMICO
PANORAMA
POLÍTICO
MÁRCIO
MOREIRA ALVES
PAINEL
PAINEL
S/A
DORA
KRAMER
JOELMIR
BETING
BRASÍLIA
- DF
CLÁUDIO
HUMBERTO
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CONCORRÊNCIA |
Disputa
põe Alca em xeque
Brasil-Estados
Unidos
Governo
federal vai autorizar a contratação temporária no Cade
Agências
do governo vão abrir suas 7.577 vagas aos poucos
Ação
pede fim de DDD dentro de Petrópolis
Erros e
acertos
Gigantes
e aliados pela própria natureza
OMC
registra menos ações de antidumping
Ex-integrante
denuncia suposto cartel no RS
Empresas
estudam ação na Justiça por danos morais
SDE
fecha o 1º acordo da história
Delator
diz ter sofrido atentado
Justiça
suspende decisões do Cade
FRASES
Planos
de Lula para integrar continente preocupam ONGs
Europa
acena com a redução de subsídios
Lula não
administrará sonhos, diz Aznar
Mais uma
arma contra o livre comércio
Agências
vão elevar nota do País, diz Canuto
Agências:
da água para o vinho, mas...
TAM toca
o Plano B enquanto fusão não sai
Especialista
vê Brasil em armadilha na Alca
Enquanto
discute soberania, País perde espaço no comércio mundial
O Brasil
que não tem medo da Alca
O Brasil
no mundo
Resolução
da Anvisa pode reduzir custos
Estágio
de verão em Direito Econômico
Claro
vai entrar em São Paulo
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CONSUMIDOR |
Linha
dura
Apenas
um detalhe
Brasileiro
compromete um terço de sua renda com pagamento de tarifas
Inadimplência
é maior na conta de energia
Velox:
instalação lenta e prazo não cumprido
Efeito
colateral... no bolso
Transgênicos
USP
realiza simpósio sobre transgênicos
ONGs se
distanciam do governo
Os
transgênicos
Transgênico
cria atrito entre governadores
Prazo
para assinatura do termo da soja foi adiado
Transgênico
cria atrito entre quatro Estados
STF
indefere liminar sobre soja transgênica
Golpe do
telefone será investigado na Capital
Ambientalistas
acusam governo de negligência
ONGs
defendem Ibama
Soja
transgênica entra sorrateira na dieta
A semana
em que o Paraná disse "não" ao transgênico
Tarifas
levam 30% do orçamento doméstico
Mamão
transgênico
Governador
sanciona projeto dos transgênicos
Brasileiros
têm prejuízos com ações de biopirataria
Planos
deixam usuários na mão
Cliente
de empresa clandestina dá à luz com ajuda do Santa Clara
Soja
transgênica é bem-vinda no complexo
O avanço
da soja transgênica
Soja
transgênica se alastra no país
Tática é
forçar a liberação pelo governo
Oeste de
SC desafia a legislação e planta
Maior
prejuízo fica com caminhoneiros
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ELABORAÇÃO LEGISLATIVA |
Calheiros:
Estatuto será modificado
Vitória
da maioria
Senado
altera texto original
A
tragédia das armas
‘A arma
me deu coragem e destruiu a minha vida’
O diz, o
estatudo
RISCO DE
TER ARMA EM CASA
Violência
vai ou não parar?
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EXECUÇÃO PENAL |
Correio
amoroso além do cárcere
Estado
terá nova escola de gestão penitenciária
Saiba
por que a cadeia é usina de crime
Situação
caótica
Chalita
e vice da Febem divergiram
Mães de
presos “cumprem pena” junto com os filhos
Aposentada
viaja 635 km
Manicure
sofre em dobro
Dona-de-casa
vive amargura
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EXPLORAÇÃO SEXUAL |
Atentados
à vida
Exploração
sexual tem rota gaúcha
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INSTITUCIONAL |
Brasgentina
Magistrados
reclamam de interferência
Um
candidato entediado ou em discordância?
Imagens
hipócritas
Menos
verba para meio ambiente
Cinco
escritórios serão instalados até julho próximo
Morador
vira "juiz de paz" na periferia
Feliz
Ano Novo
Estado
lastimável
Soda
cáustica
Maurício
Corrêa pede menos críticas
Erramos
PMDB
pode ter só dois ministérios
Proposta
de reforma não é a que o Governo quer
A
palavra é prata, o silêncio é ouro
Crise
leva magistrados ao debate
Campanha
atrai poucas pessoas em Pernambuco
Demissão
não serve de exemplo
Destino
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POVOS INDÍGENAS |
Índios
cobram apuração do incêndio
Ambientalista
acusa Governo Lula de descumprir programa
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REFORMA DO JUDICIÁRIO |
Em busca
do Judiciário ideal
Para
desembargador, querem manter o Judiciário sob freios
Reforma
do Judiciário não é a que o governo quer
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SEGURANÇA PÚBLICA |
Alunos
realizam exposição
EUA
temeram falta de rigor fiscal de Lula
O estilo
Viana de persuasão
Polícia
Rodoviária vai parar ônibus na Ponte
Mauricinhos
do tráfico
Pai de
chefe de gangue também é acusado
O estilo
Viana de persuasão
Ministro
quer fortalecer ouvidorias policiais
Secretário
diz que violência diminuiu 16,7%
Ativista
é protegido por "sombras" da PF
Promotora
ameaçada pede ação federal
Quadrilhas
criam "mercado" para matadores
SP
também tem grupos, diz ONG
No
Centro do Guilherme, isolamento
Procurador
reforça as críticas
Falta
ouvir a voz do povo
DESARMAMENTO
Perigo
em decorrência de longos trechos desertos
PF
apreende R$ 300 mil em cigarro contrabandeado
PRF
apreende contrabando de agrotóxicos
Motorista
é preso com 45 quilos de maconha
Juiz,
autor de denúncias, foi assassinado em 1999
Raridades
em risco na biblioteca
Negócio
a qualquer preço
Falhas
na segurança
Polícia
investiga esquema
Solução
é investir em educação
Nilmário
vê avanço no controle das armas
Questão
fundiária é mais grave que narcotráfico
Serviço
público não vai abrir amanhã
Terminais
privados têm até o dia 30 para apresentar estudo de segurança
Sumiço –
A Polícia Federal investiga o sumiço de contêiner que continha mais de 1 milhão
de CD’s piratas no entreposto Depósito Franco do Paraguai no Porto de
Paranaguá. O contêiner de prefixo FSCU 620315-4, de 40 pés, tinha carga
avaliada em R$ 1 milhão.
Roubo de
carga no alvo da polícia
Alimentos
e cigarros são os filões
RMR
lidera número de ocorrências
Escolta
e monitoramento via satélite
Sem
proteção, vítimas do tráfico vivem ameaçadas
Governo
tem projeto experimental
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CIDADANIA |
O ESTADO DE S. PAULO | GERAL | 26/10/2003
Registro civil: mutirão envolve 8 mil cartórios
Cerca de 8 mil cartórios em todo o País participaram ontem do Dia Nacional de Mobilização pelo Registro Civil de Nascimento. Segundo o ministro Nilmário Miranda, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, o programa foi o ponto de partida do Plano Nacional de Erradicação do Sub-registro.
JORNAL DE BRASÍLIA | CIDADE | 26/10/2003
À procura de
uma identidade
No Dia de Mobilização para
o Registro Civil, cartórios do DF registram pouco movimento
No Dia Nacional de Mobilização para o Registro Civil de Nascimento, os
cartórios do Distrito Federal registraram pouco movimentado. A baixa procura é
reflexo do pequeno percentual de crianças sem certidão de nascimento no DF, já
que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas
6% dos menores de um ano não têm certidão de nascimento. No entanto, no Norte
do Brasil, o problema do sub-registro predomina em 53,1% da população infantil.
É a área mais afetada, seguida do Nordeste, onde 44,4% das crianças não existem
legalmente. Com a campanha, a Secretaria Nacional
de Direitos Humanos prevê realizar 300 mil registros de nascimento e
erradicar o sub-registro no País até 2006. "O registro civil é o primeiro
passo para o exercício da cidadania. A pessoa que não tem registro é como se
não existisse como cidadão", explica o secretário de Direitos Humanos,
Nilmário Miranda. As crianças que não têm certidão de nascimento não são
cidadãs. Elas não podem ser matriculadas em escolas, nem têm acesso aos
serviços públicos de saúde. Quando crescerem, não podem tirar carteira de
trabalho, de identidade, título de eleitor, CPF nem têm acesso aos benefícios
sociais oferecidos pelo governo. Além disso, sem registro, a criança fica mais
vulnerável ao trabalho infantil, por não ter como comprovar sua idade,
tornando-se alvo fácil do tráfico de crianças, pois não existe legalmente.
Segundo o presidente da Associação dos Notários e Registradores do DF (Anoreg),
Luiz Gustavo Leão, o engajamento de Brasília – 16 cartórios e 4 maternidades
fizeram plantão para atender a sociedade – é simbólico. "A média prevista
de 50 atendimentos por cartório não será atingida pelo DF. Não passaremos de 20
certidões emitidas", diz. Seis maternidades públicas do DF, responsáveis
por 90% dos partos em hospitais públicos, estão permanentemente mobilizadas
para registrar seus recém-nascidos. O projeto Maternidade Cidadã mantém os
postos de atendimento nas maternidades dos hospitais regionais da Asa Sul, Asa
Norte, Taguatinga, Ceilândia, Gama e no Hospital Universitário. Cerca de duas
mil crianças são registradas por mês. Mas uma das principais causas que ainda
fazem os pais adiarem o registro do recém-nascido é a desinformação. Eles não
sabem que a certidão de nascimento é gratuita. Outro fator é quando o pai não
deseja reconhecer a criança como filho. "A qualquer momento o nome do pai
pode ser inserido na certidão", explica o presidente da Anoreg, Luiz
Gustavo Leão.
DIÁRIO DO NORDESTE | CIDADES | 26/10/2003
Pais recorrem
aos postos para registrar seus filhos
A META da campanha é que
todas as crianças de zero a sete anos tenham o direito ao registro de
nascimento assegurado até maio de 2004
O
Dia Nacional de Mobilização para o Registro Civil foi marcado por diferentes
histórias de brasileiros que puderam conquistar o direito à cidadania. O
presidente da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen
Brasil), Jaime Alencar Araripe estima que, somente em Fortaleza, foram
expedidos 1.500 registros, nos dez postos montados para a campanha.
A movimentação foi intensa na Escola Júlia Alves Pessoa, localizada no Grande
Bom Jardim, onde a Campanha foi concentrada, juntamente com o programa “Governo
do Estado com Você”, coordenado pela Secretaria do Trabalho e Empreendedorismo
(Sete).
A fila para o registro de nascimento estava tão grande que a desempregada
Fátima Cavalcante chegou a ter uma crise nervosa com o filho de dois meses no
colo. Atendida prontamente, saiu olhando para a certidão sorrindo como quem não
estava acreditando. “Eu não estava em condições de ir ao Centro”, declarou.
Nesse mesmo momento, a dona de casa Teresa Alves Nogueira, 54 anos, se
aproximava da realização de um antigo sonho. Dar à filha, de 30 anos, o seu
primeiro registro e, com isso, garantir-lhe o direito de registrar seus quatro
filhos, que só freqüentam a escola por caridade, segundo suas informações. “Eu
dei essa filha para uma família criar, mas eles morreram e nós só nos
reencontramos quando ela já era mãe. Agora está tão perto e estou muito feliz”,
contou Teresa.
Alencar Araripe contou que a meta é que todas as crianças de zero a sete anos
tenham o direito ao registro de nascimento assegurado até maio de 2004. “Nós
iremos continuar a campanha em todos os cartórios, até dezembro”, esclareceu.
Coordenador da campanha por parte da Secretaria da Ação Social (SAS), Francisco
Antônio Noca destacou que, com a falta de dinheiro para o transporte, vários
parceiros deverão continuar levando aos bairros mais pobres esse tipo de ação.
DIÁRIO DO NORDESTE | NACIONAL | 26/10/2003
Ministros estimulam o registro de nascimento
Brasília
- Cerca de oito mil cartórios em todo o país funcionaram ontem em esquema
especial de plantão para emitir o documento fundamental para a constituição da
cidadania a todos os brasileiros e brasileiras que ainda não o possuem. Ontem
foi o Dia Nacional de Mobilização pelo Registro de Nascimento. A meta para o
dia é registrar pelo menos cem mil dos três milhões de pessoas que não possuem
o documento.
Ministros de diversas pastas acompanharam pessoalmente o trabalho de registrar
as pessoas. Nilmário Miranda (Secretaria Especial de Direitos Humanos) visitaram,
no fim da manhã, cartório no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte. José
Graziano (Segurança Alimentar) e Matilde Ribeiro (Secretaria Especial de
Políticas de Promoção para a Igualdade Racial) estiveram à tarde em cartório no
bairro da Liberdade, em São Paulo.
Mesmo sendo gratuita a emissão do documento, a cada ano, 830 mil crianças
deixam de ser registradas no primeiro ano de vida. A estimativa é que cerca de
três milhões de brasileiros não possuem o registro de nascimento. Por não
existirem legalmente, essas pessoas enfrentam dificuldade de garantir seus
direitos e acessar benefícios sociais.
O POPULAR - GO | CIDADES | 26/10/2003
Luta contra
anonimato
Universitários percorreram
bairros da capital e interior, durante mutirão nacional pelo registro civil
Marília Assunção
A dona de casa Alice Laurentina da Silva descobriu ontem que poderia e deveria
ter registrado o neto, Mateus Souza Silva, hoje com 9 meses, mesmo sem que o
pai da criança desejasse figurar na certidão de nascimento. Ela recebeu a
informação durante o mutirão nacional, realizado ontem com a intenção de
erradicar a falta de registro de nascimento, um documento que é a base da
história de todo cidadão.
Moradora da invasão Emílio Póvoa, no Setor Norte Ferroviário, Alice ouviu a
explicação vinda dos estudantes de Direito Flávio Ferreira Passos, de 21 anos,
e Daiany Ferreira de Sá, 21, que dedicaram o sábado ensolarado à campanha,
junto com outros 200 estudantes universitários. Entrando pelas vielas estreitas
do setor, um dos mais carentes da cidade, eles foram perguntando de casa em
casa quem ainda não tinha registro e, ao final, atenderam milhares de pessoas.
Na casa de Alice, onde residem 12 pessoas, a resposta apontava para o pequeno
Mateus. “A mãe faz questão que o nome do pai esteja escrito e a gente não sabia
se podia pôr, pensava que tinha de fazer o exame (DNA) primeiro”, justificou a
avó.
Os estudantes explicaram a ela que isso não era necessário e que poderiam levar
a mãe, quando ela retornasse do trabalho de arrumadeira, até o Cartório de
Registro Civil mais próximo que estivesse envolvido na campanha – 4 cartórios
na Capital e outros 196 em todo Estado. Enquanto se decidia, a mulher ouviu
informações sobre as vantagens que a certidão daria ao neto.
Exclusão
A falta de esclarecimento transforma famílias como a de Alice em reféns da
falta de documentos. Sem a certidão, o cidadão deixa de ter acesso a muitos
benefícios sociais e tem dificuldade para quase tudo, desde freqüentar a escola
até arrumar um trabalho com carteira assinada. Assim, a falta do registro
torna-se aliada da exclusão social. Foi isso o que a campanha de ontem procurou
combater.
E é a falta de informação um dos motivos mais prováveis para que, em Estados
como Goiás, com uma gama razoável de programas sociais, cerca de 100 mil
habitantes (13% da população) ainda não tenham certidão de nascimento. Luzia
Dora Juliano, superintendente da Criança e do Adolescente da Secretaria de
Cidadania e Trabalho, acredita nessa hipótese. “Se é de graça, o que parece
faltar é esclarecimento, mas vamos descobrir isso ao analisar os dados nas dez
cidades que serão referência”, informa .
Outro fator importante, que também pode justificar a falta de registro em
aproximadamente 100 mil pessoas em Goiás, é a forte migração para o Estado,
especialmente de famílias vindas das Regiões Norte e Nordeste. A falta do
registro dos pais, vindos desses Estados, explica a conseqüente falta de
registro dos filhos deles nascidos em território goiano.
Mas isso também será levantado até 2005, quando o País espera dar um salto
significativo para erradicar a falta de registro de nascimento. Dados da
publicação Estatísticas do Registro Civil, do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística, de dezembro de 2000, revelam que entre 700 mil a 1 milhão de
crianças nascidas no País naquele ano não tinham sido registradas. A situação
era mais grave nas Regiões Norte e Nordeste, onde 48% e 35,6% dos bebês,
respectivamente, não tinham certidão.
O POPULAR - GO | CIDADES | 26/10/2003
Campanha ajuda quem perdeu documento
A superintendente da Criança e do
Adolescente da Secretaria de Cidadania e Trabalho, Luzia Dora, informou que o
Governo do Estado vai intensificar ainda mais o estímulo ao registro de
nascimento a partir de novembro. “Esse trabalho já vinha sendo feito dentro do
Governo Itinerante, mas agora vamos ampliar fazendo com que outros programas,
entre eles os de saúde e educação, também sejam canais para obter informações e
alcançar o registro de nascimento”, explicou. As ações começam a ser traçadas
nesta semana, mas elas serão planejadas para médio e longo prazos.
A certidão de nascimento é tirada de graça em cartórios de Registro Civil. Esse
benefício começou a vigorar em 1997, com a edição da Lei 9.534, que estabeleceu
a gratuidade do documento. Em Goiânia, a campanha de ontem foi aberta no
Cartório de Registro Civil Antônio do Prado, em Campinas, onde são feitas
aproximadamente 1,2 mil certidões por mês, segundo Luzia Dora. Estavam sendo
esperados 50 registros em média, para cada um dos 200 cartórios do Estado, com
expectativa maior no interior. Até as 17 horas de ontem, já haviam sido feitos
83 registros de nascimento no Antônio do Prado, número bem acima do previsto.
As equipes saíram por localidades como a invasão Emílio Póvoa, Vila São Carlos,
Bairro da Vitória, Conjunto Vera Cruz 3, Jardim das Oliveiras, Madre Germana e
Jardim Tiradentes. A intenção era procurar não-registrados e pessoas que não
têm mais a certidão de nascimento. Os localizados eram convencidos a aceitar a
carona nos microônibus colocados à disposição das equipes para chegar mais
facilmente aos cartórios. A maioria, no entanto, queria a segunda via do
documento.
Dor de cabeça
A dona de casa Sônia Ferreira dos Santos ficou alegre ao receber os estudantes
porque precisava muito da segunda via da certidão do filho mais velho, Diego
Querino dos Santos, 12. O documento molhou e perdeu a legibilidade de alguns
dados relevantes, como o nome do garoto. Isso vinha trazendo dor de cabeça para
a dona de casa, que precisa convencer as pessoas a reconhecer o registro em
momentos importantes da vida de Diego, como na hora de fazer a matrícula na
escola, ou buscar atendimento médico.
Ontem ela respondeu atenta ao questionário que os estudantes levaram e ficou
sabendo que, além de não pagar os 15 reais previstos para uma segunda via,
receberia a certidão de nascimento de Diego em casa, numa das íngremes vielas
da Emílio Póvoa.
O mesmo ocorreu com Ataídes Siqueira, que viu a equipe na rua e tratou logo de
pedir ajuda para a segunda via da certidão da filha mais velha, levada durante
um assalto. No caso dela, registrada num cartório de Ceres, a dificuldade para
tirar novo documento acabou com a campanha. Ataídes mostrou outros documentos
da filha, passou dados que seriam remetidos de um cartório de Goiânia para o de
Ceres e ficou sabendo que a família receberia o novo registro em casa.
A experiência de ajudar na obtenção de um documento tão essencial para a
cidadania não passou em branco aos estudantes que participaram da campanha.
Flávio e Daiany falaram sobre a importância do trabalho. “Além da gente
melhorar nossa comunicação, estamos ajudando essas pessoas”, observou ele.
“Estamos trazendo uma oportunidade para pessoas que às vezes não têm dinheiro
para ir ao Centro da cidade”, completou Daiany.
O ESTADO DO MARANHÃO | GERAL | 26/10/2003
Milhares obtêm o registro no Maranhão
O
Dia Nacional de Mobilização pelo Registro de Nascimento, realizado ontem, levou
milhares de pessoas aos postos de atendimento espalhados por São Luís, e por
todos os municípios do estado, para a retirada do registro civil gratuito. Na
capital, a abertura oficial aconteceu às 8h da manhã, no Parque Folclórico da
Vila Palmeira, e contou com a presença do governador José Reinaldo Tavares, da
primeira-dama do estado, Alexandra Tavares, do gerente metropolitano, Ricardo
Murad, e do prefeito de São Luís, Tadeu Palácio.
A mobilização também contou com o atendimento do Viva Cidadão, oferecendo o
serviço de retirada de carteira de identidade, e do Mutirão da Cidadania, com
ações de saúde nas áreas oftalmológica, odontológica, de vacinação, controle de
diabetes e outras.
De acordo com a coordenadora-geral do evento, Graça Jacinto, as pessoas que não
foram atendidas ontem poderão procurar os cartórios da cidade, durante toda a
semana, para retirarem o registro. “Todos os municípios maranhenses que possuem
cartórios foram mobilizados pela Corregedoria Geral de Justiça. A proposta é
que, em 2004, consigamos fazer com que todos os maranhenses tenham registro”,
declarou.
Cidadania - Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geo- grafia e Estatística
(IBGE), mais de 800 mil crianças não são registradas no primeiro ano de vida no
Brasil. No Maranhão, a grande dificuldade está na zona rural, mas, segundo
dados do Mutirão da Cidadania, 18 mil registros já foram expedidos este ano.
“Estamos trabalhando desde 1998 para darmos cidadania a essas pessoas que ainda
não a possuem. Esse mutirão nacional de registros é mais uma ação que vem se
aliar a tantas já feitas pelo governo estadual”, disse o governador José
Reinaldo Tavares.
Em São Luís, os postos de atendimento funcionaram no Parque Folclórico da Vila
Palmeira e na Central de Registros da Beira-Mar, para crianças maiores de 11
anos. Aquelas com idade inferior a 11 anos estavam tendo seus registros obtidos
nas maternidades Marly Sarney (Cohab), Maria do Amparo (Anil) e Benedito Leite
(Centro). Em Paço do Lumiar, o posto funcionou no Cartório do Fórum do Maiobão.
A Casa de Justiça atendeu os moradores de São José de Ribamar e os atendimentos
em Alcântara estavam sendo realizados no cartório da praça do Pelourinho.
Mobilização supera expectativas
Os números de atendimentos no Dia Nacional de Mobilização pelo Registro de
Nascimento só serão fechados no final da semana, mas a grande quantidade de
pessoas que compareceu aos postos mostrou que a iniciativa deverá superar as
expectativas da organização.
Ana Rita Martins, 37 anos, possui uma filha de 15 anos e um filho de 11. Ela
diz que nunca tirou o registro dos filhos por achar muito dispendioso. “Mesmo
com essa lei, que garante a gratuidade, os cartórios cobram e por isso nunca me
interessei. Agora, nem que fique o dia todo na fila vou tirar a certidão dos
meus filhos”, disse.
Josias de Morais, 34, também foi retirar o registro de seu único filho. “É uma
pena que só agora, com 12 anos, ele terá registro, mas nunca é tarde. Quando
tiver outros filhos, vou registrá-los assim que eles nascerem”, declarou.
Na avaliação do gerente metropolitano Ricardo Murad, o país ainda carece de
cuidados maiores com o cidadão. “A disponibilização de alguns direitos básicos
ainda é muito precária e o Judiciário não está correspondendo, por isso a
realização de mutirões como esse. O nosso sistema de cartórios ainda é muito
retrógrado e caro e temos o dever de oferecer esses serviços sem custos à
população”, declarou o gerente.
ESTADO DE MINAS | GERAIS | 26/10/2003
Campanha pelo
registro civil tem pequena adesão
Em Belo Horizonte, apenas
102 pessoas receberam, ontem, a certidão de nascimento, frustrando as
expectativas de resgatar principalmente a cidadania de 42,3 mil crianças que
vivem, em todo o Estado, sem identificação e sem seus direitos garantidos
Luiz Fernando Campos
O Dia Nacional de Mobilização pelo Registro Civil, lançado ontem, obteve
resultado bem abaixo do esperado pelo secretário especial de Direitos Humanos,
Nilmário Miranda. Ele disse ontem, durante visita a um cartório de Belo
Horizonte, que a meta era registrar 150 mil pessoas no Brasil, mas somente na
capital, apenas 102 pessoas receberam a certidão de nascimento. A maioria delas
são crianças recém-nascidas, o que não correspondeu à proposta de ênfase em
registros tardios. Muitos ainda tiveram dificuldades por não conseguirem obter
a certidão fora da região onde moram, o que tornou o mutirão apenas um dia a
mais de registros civis.
Desde ontem, Grace Kelly Damasceno, de 11 meses, natural de Belo Horizonte e
filha de Tatiana Aparecida Damasceno, existe oficialmente. Mas a garota de
olhos brilhantes, bochechas salientes e nome de princesa enfrentou uma
verdadeira via sacra para ser registrada ontem. Por falta de informação, a mãe
da garota não conseguiu a declaração no cartório de Venda Nova, porque o local
não registra moradores de outras regiões. Como o relógio marcava meio-dia,
Tatiana precisou esperar passar as duas horas de almoço dos funcionários para
conseguir a certidão de nascimento de Grace Kelly das mãos de outro tabelião.
Até os 15 dias de vida, as crianças precisam ser registradas no cartório que
atende a região onde fica a maternidade. Depois, somente no cartório que cobre
a área onde a criança mora. “Não sabia que existiam tantas regras. Seria mais
fácil colocar um cartório dentro da maternidade”, diz Tatiana, que tentou
conseguir os documentos em janeiro. Como exigiram a presença do pai da criança,
que ela nunca mais viu desde que Grace Kelly nasceu, desistiu. “Mas agora minha
filha é uma cidadã brasileira. Finalmente”, comemorou com o documento na mão.
Segundo Nilmário, apesar de Minas Gerais apresentar 12,5% de crianças sem a
certidão de nascimento, estados do Centro-Sul do Brasil precisam disponibilizar
a gratuidade da 2ª via do registro. “A exemplo de São Paulo e Distrito Federal,
que já oferecem a 2ª via gratuita, Minas Gerais também precisa seguir esse
caminho. É preciso verba do Fundo de Compensação, que é repassado pelos
tribunais de Justiça”, disse, acrescentando que os estados do Norte e Nordeste
ainda precisam dar ênfase ao primeiro registro.
ESTADO DE MINAS | GERAIS | 26/10/2003
Documento único no futuro
Apesar da campanha, os cartórios
registraram um movimento muito pequeno na manhã de ontem. Em Venda Nova, até o
meio-dia, 18 pessoas pegaram a primeira certidão de nascimento. Número bem
menor que os 60 atendimentos diários. Em Lourdes, somente sete pessoas foram
registrar crianças. Estima-se que 42,3 mil crianças em Minas não existem
oficialmente, cerca de 12,5% da população. A média nacional é ainda maior, 30%.
Nilmário Miranda aponta que o Brasil, segundo estimativa do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem hoje cerca de 3 milhões de
crianças sem identificação. “O registro civil é a porta de entrada para os
direitos. Sem ele não é possível ter propriedades, herdar bens, obter a
aposentadoria ou participar de programas de saúde”, ressalta. Para o
secretário, a omissão do Estado e a falta de conhecimento fazem com que as
pessoas não se registrem. “A maioria é analfabeta e não tem acesso aos meios de
comunicação. Há pessoas que inclusive acham que não têm direitos. O Brasil não
conhece seus miseráveis”, revela. Nilmário diz que, nos próximos anos, será
criado um documento único com banco de dados nacional.
O deputado estadual Rogério Correia (PT), disse, ontem, que, após um estudo a
ser realizado com Nilmário Miranda, irá apresentar uma emenda a um projeto de
lei que prevê gratuidade da segunda via da carteira de identidade, em
tramitação na Assembléia Legislativa.
ESTADO DE MINAS | POLÍTICA | 26/10/2003
Anistia vai
custar R$ 4,7 bilhões
Pagamento das indenizações
a pessoas perseguidas por razões políticas durante a ditadura militar equivale
ao orçamento de um ano do Programa Fome Zero. Governo não tem como quitar a
fatura e secretário nacional de Direitos Humanos propõe acordo
O governo federal tem nas mãos
uma bomba de efeito retardado: o pagamento das indenizações a pessoas que foram
perseguidas por razões políticas durante o regime militar. Pelas cálculos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a conta
do pagamento das indenizações aos anistiados deverá custar algo em torno de R$
4,7 bilhões, dinheiro correspondente a aproximadamente o orçamento de um ano do
Programa Fome Zero. O valor compreende o pagamento das indenizações já
aprovadas e a uma estimativa em cima dos requerimentos já protocolados, porém,
ainda não julgados pela Comissão de Anistia.
“O Brasil não tem riqueza para isso”, afirma o secretário nacional de Direitos
Humanos, Nilmário Miranda, defensor da idéia de que se deveria celebrar um
acordo em torno desta dívida, de tal forma que fosse possível sua quitação a
curto prazo sem maiores impedimentos de natureza financeira. Nilmário Miranda
reconhece o direito às indenizações por parte das pessoas que foram perseguidas
pelo regime militar, mas entende que o valor não poderia ser de tal ordem.
Segundo ele, este ano, o governo reservou, para o pagamento das indenizações,
R$ 57 milhões, valor que o secretário nacional de Direitos Humanos reconhece
como muito abaixo do necessário. Para o ano que vem, esse número deverá quase
dobrar, chegando a R$ 107 milhões. Para amenizar a situação, o governo tem pago
apenas as parcelas referentes às indenizações mensais, deixando o acumulado,
referente ao passado, para mais tarde.
A situação é mais grave no caso dos militares. Dos 2.211 pedidos aprovados,
nenhum foi pago. Os militares são julgados pela terceira câmara. No caso dos
demais pedidos, o governo Lula tem pago apenas o valor mensal. Nenhum dos
anistiados recebeu, neste ano, o acumulado correspondente à dívida passada.
O pagamento destas indenizações está suspenso. No dia 18 de agosto, o governo
federal nomeou uma comissão interministerial para rever as atuais regras de
pagamento destes valores. O prazo para a comissão apresentar sua proposta
venceu no último dia 11. Entretanto, de acordo com o Ministério da Justiça, os novos critérios
ainda não foram definidos.
De acordo com as regras para o cálculo dos valores a serem pagos, as pessoas
que não comprovaram vínculo empregatício de qualquer natureza têm direito a uma
indenização em parcela única no valor de no máximo R$ 100 mil. Já os que
conseguiram comprovar o vínculo recebem mais. Têm direito a um pagamento mensal
futuro e a um acumulado que leva em conta a progressão do anistiado na
carreira.
Os conselheiros estimam qual seria o cargo máximo ocupado se a pessoa não
tivesse sido demitida e o valor da indenização com base na data do pedido de
anistia, com retroatividade de cinco anos. Por exemplo, se o pedido só foi
enviado no ano passado, a indenização seria paga no período entre 1997 e a data
de reconhecimento do direito.
Esta regra garantiu a Ronaldo Goytacaz Cavalheiro o direito a uma indenização
de R$ 983 mil aprovada ano passado pela Comissão de Anistia. Ronaldo Cavalheiro
foi exonerado do Banco Central no regime militar.
Ronaldo Goytacaz defende o pagamento de uma só vez do valor que lhe é devido e
não concorda com as críticas de
que indenizações como a dele poderiam ser classificadas como milionárias.
“Sofri 33 anos. Vivi seis meses na Ilha Grande. Minha família ficou sem mim um
ano e meio. Fiquei em várias prisões. Fui torturado. Será que tem algum valor
que paga isso?”, indaga Ronaldo Goytacaz.
Balanço
Até agora, 5.035 processos foram julgados pela Comissão de Anistia do Governo
Federal, dos quais 3.015 foram aprovados e 2.020 rejeitados. A maior parte dos
pedidos de indenização deferidos veio da terceira câmara, que julga os
requerimentos de militares. Nesta câmara, 2.211 pedidos foram aprovados e 1.617
indeferidos. A segunda câmara, que julga os pedidos de anistiados que não
conseguiram comprovar vínculo empregatício de qualquer natureza, aprovou 392
requerimentos e indeferiu 126. A primeira câmara, que julga os pedidos de
indenização de anistiados que na época eram funcionários de empresas privadas,
aprovou 412 pedidos e indeferiu 277.
ESTADO DE MINAS | POLÍTICA | 26/10/2003
Pedidos somam 40 mil
Atualmente, cerca de 32,8 mil
pedidos de indenização foram protocolados junto à Comissão de Anistia, que já
julgou aproximadamente um quinto desse total. A expectativa do Ministério da Justiça é de que este número
chegue a 40 mil. A maior parte dos pedidos de indenização já deferidos vem da
3ª Câmara, que aprecia os requerimentos de militares. De acordo com o
presidente da Comissão de Anistia, Marcelo Lavenère, tal crescimento se deve a
duas razões.
A primeira, segundo ele, é a ação de intermediários que estariam agindo de
má-fé e convencendo ex-militares a pleitearem reparação financeira a partir de
interpretações errôneas da Lei de Anistia. Segundo Lavenère, o fato de o
militar ter servido a uma das três armas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de
outubro de 1988, por sí só, não caracteriza nem justifica seu enquadramento na
Lei de Anistia. “Mas muita gente tem levado a pensar que sim”.
Além dos militares, a Comissão de Anistia tem recebido um número excessivo de
pedidos de vereadores que exerciam o mandato no período abrangido pela Lei,
foram cassados pelos atos institucionais números 2 e 7 e ficaram sem receber
salários a partir daí.
De acordo com o presidente da Comissão de Anistia, mais de três mil pedidos
neste sentido chegaram ao órgão no final de agosto. Segundo ele, os
ex-vereadores não têm direito a receber reparação econômica. Lavanère explica
que a Lei de Anistia criou uma reparação para estes casos, que é a contagem do
tempo de serviço correspondente aos anos de mandato de vereador que ele exerceu
de graça.
ESTADO DE MINAS | POLÍTICA | 26/10/2003
Anistiados cobram a fatura
A Associação Brasileira dos
Anistiados Políticos do Sistema Petrobras e Demais Empresas Estatais (Abraspet)
rejeita a acusação de que os anistiados estariam recebendo indenizações
milionárias. De acordo com o presidente da entidade, Reinaldo Hélio da Costa, a
existência de valores elevados se deve à demora do governo em reparar
financeiramente as pessoas que foram demitidas por perseguição. “Quando alguém
não paga uma conta, tem que arcar com juros e correção. Quem não paga no dia
tem que pagar mais caro”, afirma Reinaldo da Costa.
A entidade que dirige possui cerca de 400 associados – em sua quase totalidade
ex-funcionários da Petrobras – e já protocolou aproximadamente cem pedidos de
indenização, dos quais 11 foram deferidos. Quatro foram no governo Fernando
Henrique Cardoso e sete no governo Lula.
“Tem gente interpretando erroneamente a Lei de Anistia”
Marcelo Lavenère, presidente da Comissão de Anistia
Na média, as indenizações aprovadas correspondem a uma indenização mensal de R$
4,5 mil a R$ 5 mil, inferior, segundo o presidente da Abraspet ao que é pago
como salário por estatais de petróleo de países como o México e as empresas
privadas americanas.
Além de ser contra a revisão dos critérios para o pagamento das indenizações,
ele defende que o governo seja mais ágil na análise dos pedidos. Reinaldo Costa
propõe que a Comissão de Anistia passe a se reunir pelo menos duas vezes por
mês, em vez de uma por semana, como ocorre hoje. Segundo seus cálculos, a se
manter o ritmo atual, seriam necessários cerca de 20 anos para que todos os
processos sejam apreciados.
O pedido foi feito pessoalmente ao presidente Lula, que prometeu agilizar o
ritmo de análise dos processos. “A maioria está morrendo pelo
meio do caminho sem ter o gosto de usufruir de uma vida melhor”, afirma Antônio
Fontes, membro da diretoria da Comissão Nacional dos Anistiados da Petrobras
(Conape).
A Conape protocolou 340 pedidos de indenização, dos quais 120 já foram
deferidos, todos no governo Lula, entre os quais o do próprio Antônio Fontes,
que foi demitido da Petrobras em 1964, quando tinha 24 anos de idade.
Mensalmente, ele recebe uma indenização de cerca de R$ 6 mil.
Restrição
A Comissão de Anistia analisa apenas os pedidos de pessoas que foram
perseguidas pelo regime militar mas permaneceram vivas.
Já os pedidos de indenização de familiares de mortos e desaparecidos são
apreciados por outra comissão, cujo prazo para a apresentação de requerimentos
foi reaberto, por três meses, no ano passado. Um total de 102 pedidos foi
protocolado nesta última leva. O valor máximo da indenização na Comissão dos
Mortos e Desaparecidos é de R$ 100 mil. No caso da Comissão de Anistia, os
requerimentos poderão ser apresentados a qualquer hora, já que não há data para
o encerramento do prazo.
ESTADO DE MINAS | OPINIÃO | 26/10/2003
Os jovens e a criminalidade
Robson Sávio Reis Souza -
Secretário Executivo do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública
da UFMG O Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) elaborou um estudo sobre a natureza
organizacional das gangues de traficantes que atuam em Belo Horizonte. Ao
contrário do crime organizado que opera em cidades como Rio de Janeiro e São
Paulo, o perfil dos traficantes que atuam na nossa cidade é diverso e o modus
operandi menos complexo.
Um exemplo da baixa organização do tráfico pode ser observado em estudo feito
pelo Crisp num aglomerado urbano de Belo Horizonte: num universo de cerca de 23
mil pessoas, menos de 80 infratores estavam diretamente vinculados ao tráfico e
às gangues locais. Isto representa menos de 0,5% da população do aglomerado, e
o número é inferior a 2% da população de jovens entre 15 e 24 anos (faixa
etária que tem aumentado substancialmente a participação no tráfico). Estes
dados contrariam a percepção de senso comum, que habita inclusive a visão de
muitos órgãos oficiais e policiais, que vêem todos os habitantes das favelas,
ou, pelo menos, os jovens desses locais, como direta ou indiretamente
envolvidos com o tráfico de drogas. Na verdade, muitos jovens têm nas gangues
uma referência durante parte de suas vidas, sem que isto represente uma adesão
de fato.
O dado merecedor de atenção é que, aos poucos, os traficantes estão se organizando
em pequenas redes
Outro dado inusitado é o baixo grau de organização das gangues. A estrutura
organizacional dos grupos de traficantes é simples e bastante desorganizada nos
limites de sua atuação. O lado mais organizado do crime encontra-se fora das
favelas, e atua no fornecimento de armas e drogas aos traficantes, envolvendo,
muitas vezes, a conivência e atuação de policiais corruptos.
Em geral, observamos pequenos grupos de traficantes, no interior dos quais
desponta um líder que se encarrega de proporcionar vantagens materiais e
financeiras ao grupo, auferidos do comércio de drogas. Armas, drogas e proteção
são garantidos aos membros das gangues. Paradoxal é que justamente essa busca
de proteção irá vitimar a maioria dos jovens em conflitos com membros de outras
gangues. Além dos líderes, existem outros membros regulares que são os
“soldados” do tráfico e os encarregados de tomar conta das “bocas” de venda de
drogas. Há ainda um grande número de pessoas que se envolvem eventualmente com as
gangues, prestando pequenos favores, tais como o transporte de drogas, ou em
atividades de vendedores eventuais para sustentar o vício.
O dado merecedor de atenção é que, aos poucos, os traficantes estão se
organizando em pequenas redes. Já observamos a distribuição delivery de drogas
em bairros nobres da cidade e na região do hipercentro. Há indícios cada vez
mais consistentes indicando o recrudescimento das disputas territoriais por
pontos de drogas e de uma preocupante ostentação do poderio do tráfico,
desafiando o Estado. Seria o crime organizado? Ainda é prematuro afirmar
positivamente, mas os sinais são preocupantes.
É evidente que o Estado e a sociedade civil devem (re)agir em duas frentes: a
primeira, de caráter preventivo,
oferecendo aos jovens outra opção, diferente daquele falso glamour do tráfico.
Na maioria dos aglomerados urbanos são fundamentais ações efetivas de políticas
sociais, programas de geração de emprego e renda, escolas em tempo integral,
atividades de cultura esporte e lazer e programas de proteção para os jovens
que desejam deixar o tráfico. Não é o recrudescimento na legislação penal que
solucionará questões de ordem social. Ademais, é mister ações consistentes de
atenção e promoção voltadas para os adolescentes autores de ato infracional.
Muitos destes jovens, ao arrepio da lei, estão amontoados em celas inóspitas de
delegacias e distritos policiais, ao invés de estar sendo devidamente atendidos
em centros de internação que lhes possibilitem efetiva reintegração social.
No lado da repressão, ações articuladas e inteligentes das várias agências do
sistema de Justiça criminal (e não somente operações repressivas pontuais)
visando identificar e prender os líderes do tráfico, desarmar as gangues e
controlar o comércio do tráfico nos pontos já mapeados e conhecidos pelas
polícias seriam suficientes para minimizar o problema.
Portanto, apesar dos números da criminalidade estarem aumentando
assustadoramente em Belo Horizonte, ainda não é tarde para uma resposta
eficiente do poder público. O fato é que o tempo passa, as promessas abundam e
as ações efetivas prosperam a passos lentos, enquanto o crime, gradualmente,
demonstra ações cada vez mais eficientes, ousadas e constantes.
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COLUNAS |
JORNAL DO BRASIL | INFORME ECONÔMICO | 26/10/2003
Rio é mais
O
Rio de Janeiro foi premiado com a mais gorda fatia do Orçamento e dos projetos
do PPA. Basta olhar as tabelas. No caso dos projetos em parceria com o setor
privado, é, disparado, o Estado com a maior cota, de R$ 14,3 bilhões, na frente
de São Paulo, com R$ 4,7 bilhões. É lógico que tem muito da Petrobras e uma
parte também da Eletrobras (pela usina de Angra) nessa conta. Não custa olhar
também os números da chamada LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2004. O Rio
abocanhou R$ 8,4 bilhões.
''Isso não é por acaso. O Rio tem, sem dúvida, seu peso e sua importância'',
diz o senador Saturnino Braga (PT-RJ).
O que se comenta nos bastidores da República é que Lula quer neutralizar o
avanço de Garotinho e Rosinha em futuras investidas nas urnas.
Briga boa
A inclusão, pela ANP, dos municípios do Rio e de Niterói na Zona de Produção
Principal do Estado do Rio é inconstitucional. A avaliação é do
ex-superintendente de Participações Governamentais da ANP e atual diretor do
Centro Brasileiro de Infra-estrutura (CBIE), Rafael Schechtman. De acordo com
ele, a Lei 7990/89 estabelece que somente os municípios com instalações
voltadas exclusivamente para a produção de petróleo é que recebem participação
nos royalties. Schechtman explica que os estaleiros e outras unidades
industriais do Rio e de Niterói não atendem somente à indústria petrolífera da
Bacia de Campos.
Velocidade de cruzeiro
A Embraer, comandada por Maurício Botelho, projeta para 2004 a entrega de 136
aviões, mesmo número deste ano. Dado o momento ainda incerto das companhias
aéreas, o dado não chega a preocupar George Rexing, chefe da mesa de operações
do Banif Primus em Nova York. Ele considera que uma recuperação gradual da
demanda é melhor para a fabricante brasileira do que uma súbita explosão. E
explica: uma corrida por passagens poderia desviar o foco das empresas aéreas
nos vôos regionais, que tragam clientes para trajetos mais longos. Reduzindo,
assim, as encomendas de aeronaves entre 70 e 90 lugares, o forte da Embraer.
De olho no lucro
Analistas esperam a divulgação amanhã do resultado do terceiro trimestre da
Embratel. A empresa tem feito o dever de casa investindo em redes metálicas e
de fibras óticas, reaproveitando equipamentos de rádio e óticos, fazendo
interconexão com as teles e interligando vários prédios comerciais ao seu
backbone. Só no Rio, em 2003, 50 novos prédios comerciais foram ativados.
Assim, a operadora reduziu a compra de equipamentos, deixou de pagar acessos a
terceiros e aumentou a facilidade de vendas de serviços. Essa economia estará
registrada no balanço.
Energética
Operadores do mercado não falam em outra coisa: o fôlego das ações
preferenciais da Copel. Especulam que pode vir uma recomposição tarifária.
Assessores do governador Roberto Requião, no entanto, negam. A conferir.
Que inflação?
Com a experiência de quem esteve no Banco Central lidando com a difícil arte de
calibrar as taxas de juros brasileiras, o economista Carlos Thadeu de Freitas
Gomes está preocupado. Na opinião do professor, não se justifica o argumento de
que a inflação ainda pode assustar, para justificar a redução menor da Selic.
''Que inflação? A renda está em queda, as vendas caindo. Não há, portanto,
pressão por consumo'', diz Thadeu. Ele lembra que o juro real (descontado a
inflação) caiu de 12,9% para 11,9%. ''Esse é o que importa. E ainda é um
absurdo.''
Aposta
Pode perder a aposta quem espera que o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães
esteja com seus dias contados no governo. Adversário histórico da Alca, o
embaixador tem entre seus admiradores um time seleto no Congresso e no
Itamaraty. Sem falar no apoio do próprio presidente Lula.
Com Carla Falcão
JORNAL DO BRASIL | INFORME JB | 26/10/2003
Motim Agilidade com Doca de Oliveira
O Senado está em pé de guerra com
a iniciativa do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), em convocar sessões
deliberativas às segundas e sextas. Há 67 matérias na pauta para análise até o
fim do ano: 31 propostas de emenda à Constituição, dois projetos de lei da
Câmara, quatro do Senado, 20 requerimentos sobre os mais variados temas e 10
mensagens de indicações de autoridades. Parlamentares consideram inócua parcela
razoável desse emaranhado. E afirmam que Sarney quer, na verdade, beneficiar o
governo. Com a convocação das sessões extras, contaria prazo para a tramitação
das reformas previdenciária e tributária. Se vai mal entre os pares, Sarney
aumenta a cotação no Planalto.
Contagem de tempo
Os senadores não estão de cara feia para o presidente da Casa apenas por causa
do trabalho extra. Andam tiriricas com a limitação de tempo e quantidade de
discursos dos líderes em plenário. Não podem mais se manifestar antes e depois
da ordem da dia, têm de escolher o momento e usar a retórica apenas uma vez. E
por 15 minutos.
Tem líder exercitando a capacidade de síntese.
Cicerone
O deputado Jamil Murad (PC do B-SP) protocolou pedidos de audiência no Ministério da Justiça e na Casa Civil. Quer
levar o alfaiate italiano Antonio Castiglia para conversas com os ministros Márcio Thomaz Bastos e José Dirceu. Antonio
veio da Austrália para tentar encontrar os restos mortais do irmão, Líbero
Giancarlo Castiglia, morto na Guerrilha do Araguaia, em 1973.
Os ministros, o que vão dizer ao alfaiate?
Afago rural
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) orienta militantes a
escrever mensagens de solidariedade para Diolinda Alves de Souza, José Rainha
Júnior e Felinto Procópio. Os três líderes do MST estão presos: Diolinda na
penitenciária de Piquerobi, Rainha e Procópio, na de Dracena, ambas em São
Paulo. O MST, no site, divulga, inclusive, o número do código postal dos
presídios.
A recomendação começa a surtir efeito.
Falta esclarecer
Frei Betto, funcionário público, DAS dos mais altos no Planalto, visitou o
líder sem-terra José Rainha e ainda levou um abraço do presidente Lula. Até aí
tudo bem. Fica a dúvida, a missão teve caráter oficial, ou terá o ponto
descontado por faltar ao serviço em dia útil?
Míssil diplomático
A deputada Zulaiê Cobra, presidente da Comissão de Relações Exteriores da
Câmara, jura que não se impressionou com a informação do representante
brasileiro na Corte de Apelações da Organização Mundial do Comércio, Luiz Olavo
Baptista, sobre a pressão e influência dos países ricos nos tribunais
internacionais.
Baptista citou as barreiras dos Estados Unidos à importação do aço brasileiro e
a reação de 16 países à decisão. Os americanos, em represália, obrigaram cada
um dos solidários a apresentar um relatório, ao invés de um único documento,
como costumeiro. Com 60 dias para julgar, a comissão arbitral jamais
conseguiria analisar as 33 mil páginas dos 16 relatórios para tomar a decisão.
Zulaiê deveria, sim, se impressionar. Com o poder de fogo americano.
Assustador
Que a saúde no Brasil anda mal das pernas, isso todo mundo já sabe. A novidade
é que, ao contrário do que o presidente Lula anda afirmando, não é só o SUS que
sofre com a situação. Nos últimos três anos, o número de leitos em hospitais
privados diminuiu 95% no Brasil. Do total de leitos que desapareceram na rede
privada, 18% eram de hospitais filantrópicos.
Na avenida
A senadora petista Ideli Salvatti (SC) é sambista de pé. Além de participar da
escolha do enredo da Beija-Flor, Manoa, Manaus, Terra Santa, quinta-feira,
protocolou ofício no Planalto convidando o presidente Lula a participar do
desfile do primeiro grupo, em 23 de fevereiro.
E quer homenagear o samba de raiz com festança no Senado, em 2 de dezembro, Dia
Nacional do Samba. José Sarney vai se descabelar.
A governadora do Rio, Rosinha Matheus, de boba nada tem. Antes mesmo do anúncio
formal de criação do Programa Nacional de Apoio a Pesquisa em Empresas, já
enviou projeto para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Assim, o Rio já
assegurou R$ 5 milhões do total de R$ 90 milhões do projeto que será lançado
amanhã pelo ministro Roberto Amaral. Para não perder a deixa, Estados
interessados devem enviar um plano de ação e passar pelo crivo dos técnicos do
ministério. E ser tão eficientes quanto Rosinha.
Na dúvida...
Logo, logo chega dezembro. Já tem ministro recolhendo os pertences e arrumando
gaveta?
informejb@jb.com.br
JORNAL DO BRASIL | BOECHAT | 26/10/2003
Alvo fixo
A Escola Americana, freqüentada
pelos filhos da mais alta burguesia carioca, foi alvo de tiros disparados da
favela da Rocinha, sexta-feira pela manhã. Os balaços zuniram pela sala da
quarta série, vizinha de barracos usados por olheiros de traficantes.
Para perplexidade das mães, uma das quais precisou sair agachada do local,
alguns alunos contaram que tais incidentes são comuns. Os pais vão exigir
explicações da direção do colégio.
E já articulam um movimento para suspender o pagamento das mensalidades -que
chegam a R$ 2,5 mil - até que providências concretas sejam tomadas.
Preços aquecidos
O pré-verão deste ano é o mais quente desde 2000.
Ao menos no termômetro da inflação.
Pesquisa da FGV em cima do Índice de Preços ao Consumidor, destacando 18
produtos típicos da temporada de calor - como sandálias, bronzeadores, sorvete
e cerveja -, revelou alta de 1,27%, entre 10 de setembro e 10 de outubro.
Em igual período do ano passado, a taxa bateu 0,62%.
E foi de 0,13%, em 2001, e de 0,17% negativo, em 2000.
Esse calor inflacionário vai no mínimo até dezembro.
Mau pagador
O Itamaraty deve mais de R$ 2,5 milhões em contas de luz atrasadas à Companhia
Energética de Brasília.
A casa de Rio Branco corre o risco de mergulhar no breu.
Polêmica no campus
O governo cutucou a Igreja com vara curta.
O Conselho Nacional de Assistência Social cassou o Certificado de Filantropia
da PUC Campinas.
É a primeira instituição católica do país a perder tal classificação.
Os padres vão recorrer, em defesa dos projetos sociais que desenvolvem na
universidade.
Sob suspeita
A Comissão de Fiscalização e Controle do Senado vai investigar denúncia contra
a Companhia Mineira de Metais, do grupo Votorantim.
Fazendeiros da região de Vazante, em Minas Gerais, entregaram aos senadores um
dossiê descrevendo sérias agressões ao meio ambiente da vizinha fábrica de
zinco.
Madrinha
A Petrobrás será a principal patrocinadora das Bases de Apoio à Cultura que o ministério
comandado por Gilberto Gil erguerá em comunidades pobres do país.
O convênio, firmado com a estatal na semana passada, prevê a construção de 20
desses centros culturais até julho do ano que vem.
O primeiro será na Favela da Rocinha, no Rio.
A convite
A Comissão de Ciência e Tecnologia abriu mão de convocar, novamente, Gugu
Liberato para explicar, na Câmara, a reportagem fraudulenta que exibiu em seu
programa há um mês.
Em vez disso, o apresentador participará de um seminário sobre a qualidade da
televisão brasileira, dia 12, num dos auditórios da Casa.
Será palestrante, não depoente.
Só craques
O embaixador Rubens Ricúpero vai falar no Vaticano sobre transgênicos, dia 13.
A Academia de Ciências da Santa Sé ouvirá renomados especialistas antes de
anunciar a posição da Igreja Católica diante dos alimentos geneticamente
modificados.
Boa nova
O projeto de recuperação do Museu Nacional de Belas Artes terá apoio técnico da
poderosa Tate Gallery, de Londres.
A parceria foi acertada na semana passada, quando Nicholas Serota,
diretor-geral da instituição londrina, passou alguns dias no Rio.
Parada estratégica
A Sky vai lançar um serviço inédito no Brasil em novembro, para festejar seus
sete anos de atividades.
Trata-se do personal video recorder (PVR), que permite dar pausa num programa e
voltar a assisti-lo do mesmo ponto tempo depois, como se faz com o
videocassete.
Novo sutiã
Neta de Leonel Brizola, Layla, 28 anos, três filhos, entrou no rol das mulheres
turbinadas.
A atriz colocou 240ml de silicone nos seios.
O mesmo volume de Danielle Winits.
Com esse visual, Layla subirá ao palco do Teatro João Caetano, dia 3, para a
reestréia de Os picaretas, peça dirigida por Gracindo Júnior e produzida por
sua mãe, Neuzinha Brizola, e por Oddone Monteiro.
Estão abertas as inscrições para o 5º Prêmio Somos Patrimônio do Convênio
Andrés Bello. Os autores dos melhores trabalhos de preservação ambiental
ganharão de US$ 10 a US$ 20 mil. Informações no site www.cab.int.co.
A diretoria da Vale do Rio Doce oferece coquetel dia 14, no prédio do antigo
Arquivo Nacional, no Centro, festejando a conquista do Prêmio Mauá.
Lúcia Flecha de Lima presidirá o conselho curador do Centro Cultural do
Tribunal de Contas da União, que será inaugurado em novembro.
Hoje, a companhia de Teatro de Bonecos Dr. Botica apresenta, às 11h, no Teatro
de Marionetes Carlos Werneck, a peça Música, maestro.
Paula Werneck, portadora de síndrome de Down, participa hoje da quinta etapa do
Campeonato de Salto ABHIR, no Floresta Country Clube. A adolescente, que faz
trabalhos como atriz, participará da prova de Equoterapia.
Com Ronaldo Herdy e Telma Alvarenga
colunaboechat@jb.com.br
JORNAL DO BRASIL | AUGUSTO NUNES | 26/10/2003
Ausências que preencheriam lacunas
Em
recente reunião federal, o ministro do Planejamento, Guido Mantega, estimulou
com um ponto de interrogação a suspeita de que, quando a coisa ficou feia por
aqui, montou casa em algum ponto do espaço sideral. "Por que o governo tem
mesmo de indenizar os anistiados?", perguntou com desconcertante candura.
A poucos metros da sala no Planalto, sobreviventes exibiam cabelos brancos numa
manifestação de protesto contra a demora na liberação do dinheiro. A pergunta
de Mantega talvez já tenha sido pertinente. Só que não era aquela a hora de
ressuscitar tal questão, mas de encontrar meios de cumprir o decidido
judicialmente e acertar a conta.
Na semana passada, o ministro reafirmou que não domina a arte de falar na hora
certa. Dois temas foram examinados por Mantega: a tunga ensaiada pelo governo
nas verbas reservadas à Saúde e a unificação dos projetos sociais da União.
Ambos forneceram combustível para decolagens e pousos de surpresa em pistas cheias
de jornalistas. Sobraram lances engraçados e desoladores.
O paradoxo é apenas aparente. Foi tão divertido quanto desolador ver o ministro
admitir, com fisionomia de coroinha, que não há dinheiro para os projetos cuja
unificação fora anunciada horas antes, com muita pompa e circunstância, pelo
presidente Lula.
Foram igualmente divertidos e penosos os movimentos de Mantega durante o ensaio
para o assalto, com a cumplicidade do Legislativo, a cofres privativos da área
da Saúde. Ele aderiu ao blablablá federal quando os demais curandeiros se
haviam aquietado.
"Ninguém pode dizer que saneamento básico não é função de saúde",
disse, por exemplo. "Todos sabem que isso diminui o afluxo de pessoas nos
hospitais". Com a argumentação exposta em mau português, Mantega queria
informar ao país que o governo estará investindo em Saúde tanto se montar um
programa de erradicação de endemias quanto se distribuir canos de esgoto pelo
Brasil. Ou baixar o preço da sandália tipo havaiana e evitar o contato dos pés
com solos coalhados de micróbios.
Para alívio dos brasileiros sensatos, Mantega anda menos falante nos últimos
dias. Recolheu-se ao silêncio onde segue refugiada essa singularidade que
atende pelo nome de Humberto Costa. Oficialmente ministro da Saúde, de tal área
deveria cuidar. Cuida mesmo é de manter o emprego do qual não pretende
separar-se em vida. Calado estava, calado Humberto Costa continuou mesmo quando
começaram a pipocar no país inteiro sinais de inquietação com o destino das
verbas da Saúde.
Demitir os dois ministros – o quanto antes – pode até não melhorar o governo
Lula. Mas piorá-lo decerto não vai.
Parlamentares fantasiados de médico inspiram nos cardeais a lembrança do
monstro
Depois de contemplarem atentamente cenas que mostravam um bando de deputados
brasileiros fantasiados de doutor, cardeais reunidos na Cidade do Vaticano
vislumbraram em várias figuras o fenômeno que inspirou aquele romance famoso: o
médico e o monstro. Na foto acima, aos sussurros, príncipes da Igreja Católica
Romana começaram a debater um tema esquecido: não seria a hora de perguntar ao
papa João Paulo II o que ele pensa da prática do exorcismo? Aplicada com êxito
a certos parlamentares brasileiros, poderia melhorar a qualidade do Poder
Legislativo.
João Ferrador Quer Saber
Intrigado com a queda da popularidade do governo, João Ferrador procurou a
explicação mais suave. Escolheu a do companheiro José Genoino. Passou um
domingo na colônia do sindicato na Praia Grande com uma concha no ouvido,
tentando decifrar barulhos e examinando a areia com lupa.
Recado esperto
Um informante da coluna descobriu o que Lula está murmurando enquanto finge ler
a mensagem escrita no papel improvisado em tarja: "Olha aqui, pessoal, vou
contar só até três. Depois que eu terminar, ministro que não devolveu diárias
que levou a mais pode procurar o Dirceu para devolver o emprego."
Irritadiço vocacional
O ministro Ciro Gomes, sempre zangado, agora está bravo com a imprensa.
Concentra o bombardeio na paulista, "paroquial, provinciana, desequilibrada
e mentirosa". Mas acha a maioria dos veículos "inconfiável, a serviço
dos interesses mais subalternos que exploram a sociedade". Ele passou a
campanha dizendo que o governo Lula seria um salto no escuro. Está adorando o
salto depois de ganhar um pára-quedas de ministro.
É Pitanga na cabeça
A junção das imagens sugere que, enquanto Benedita da Silva criava problemas
para o governo com o giro por Buenos Aires, o ator Antônio Pitanga, marido da
ministra, andou circulando por La Paz – e fez a cabeça dos bolivianos. Na foto
abaixo, Pitanga, sempre escoltado pela patroa, tenta convencer o deputado
federal Paulo Paim, do PT gaúcho, das vantagens do chapéu panamá. Na foto de
cima, manifestantes em La Paz comemoram a queda de outro presidente e
aproveitam para homenagear o figurino popularizado por Pitanga.
Um paulista é vitorioso
O deputado federal paulista Michel Temer fica com a taça da semana.
Ex-presidente da Câmara e um dos pajés do PMDB, o sessentão Temer acaba de
casar-se com uma miss 40 anos mais jovem. Sobretudo por isso, esbanja animação
e entra com freqüência em estado de graça. Um desses momentos deve tê-lo
induzido a escrever a pérola infiltrada num artigo na Folha de S.Paulo:
Quando se tem uma constituição principiológica, a adoção do princípio pode
variar de acordo com o tempo histórico e o momento social.
Levou o troféu.
O GLOBO | ANCELMO GOIS | 26/10/2003
Princesinha do sexo
O alerta foi feito a Rosinha, na
ida da governadora a Lisboa, por empresários de turismo, inclusive da TAP.
O turismo sexual está trocando o Nordeste pelo Rio. Por Copacabana,
especificamente.
A Guarda Municipal descobriu — lembra? — que 60% dos “clientes” das moças são
hóspedes de hotéis da Av. Atlântica.
Para a platéia
Lula não deu bola para a má-criação do americano Peter Allgeier, que disse que
o Brasil pode ficar fora da Alca.
O Itamaraty aposta que Bush, caso reeleito, fará concessões. Até lá, o caubói
tem que manter um discurso duro para o eleitorado (aliás, os democratas são
mais protecionistas do que os republicanos).
Lingüiça tributária
Mesmo convencido de que a reforma tributária não aumentará os impostos, Antonio
Palocci diz entender o choro de empresários que alegam o contrário:
— A carga tributária aumentou muito no passado. E cachorro mordido de cobra tem
medo até de lingüiça.
A estatal da fome
É aquela coisa de descobrir um santo para cobrir outro. Tem ONG séria, que
sempre fez bom trabalho social, reclamando da concorrência do Fome Zero.
É que muitos empresários deixaram de pingar dinheiro nestas ONGs para incensar
o governo.
Pelé em CD-ROM
Pelé lança em dezembro um CD-ROM com sua vida, parceria do Rei com a Dambrós
Sport.
Dolce far niente
A prefeitura de Búzios, o balneário fluminense, fez um censo e encontrou, até
agora, 31 argentinos em situação ilegal na cidade.
É gente pendurada no INPS — Instituto Nacional de Praia e Sol.
Topa tudo por...
O “New York Times” caiu de pau em Woody Allen depois que o cineasta admitiu
contar, por dinheiro, sua vida em livro. Inclusive, os podres do caso com
Soon-Yi, filha de sua ex, Mia Farrow.
Allen desistiu, mesmo depois de seu agente, que fez contato com editoras
brasileiras, ter conseguido, na Feira de Frankfurt, ofertas de US$ 4,7 milhões.
Pneus e dengue
A decisão do presidente (sic) José Dirceu de importar pneus usados termina por
ampliar os focos da dengue no verão que chega. O temor é da Secretaria
municipal de Saúde do Rio.
Quem chamou Dirceu de presidente, num ato falho, foi a ministra Marina Silva.
Faz sentido.
Atenção, Lula!
A última edição da “Harvard Business Review” traz um artigo sobre metáforas e
conclui: “Ela pode ser boa ou ruim, brilhante ou terrível, original ou infeliz.
Só não pode ser verdadeira.”
Lisbela e Caetano
O divertido “Lisbela e o prisioneiro”, o filme de três milhões de espectadores,
vai ganhar um musical na TV Globo.
A turma legal da trilha sonora — mano Caetano à frente — é a estrela do
especial dirigido por Ignácio Coqueiro para ser exibido no sábado, dia 1.
A cor do pecado
A indústria da saliência não conhece recessão.
Um prédio de quatro andares está sendo transformado numa, digamos, sauna ali
perto do Mosteiro de São Bento, no Rio.
O santo nasceu no ano 480, na Itália. Escandalizado com a vida imoral que
encontrou em Roma (imagine se vivesse hoje), fugiu para difundir a fé.
Gaticídio
Os corpos de quatro gatinhos foram deixados na porta de seus donos no Alto
Leblon, vizinhança de bacanas no Rio.
Entre os enlutados, estão o compositor Jorge Mautner e o ator Fredy Ribeiro.
Segundo Fredy, os bichanos foram mortos por vizinhos malvados que viviam
reclamando do barulho (miaaaaaaauu!) à noite.
Esther Largman acaba de lançar o livro “Judeus nos trópicos”.
O escritório Tavares, Matteoni Freitas de Souza e Figueira de Mello completa 25
anos com sede nova.
Hoje tem Limusine Negra no Mistura Fina, às 20h.
O “Programa Via Legal” recebe terça-feira o Prêmio Vladimir Herzog. No Rio,
Daniele Moura, da assessoria do TRF 2 Região, contou a história do deputado
assassinado Rubens Paiva.
O ministro Edson Vidigal participa de videoconferência, amanhã, em São Paulo.
A princesa Elletra Marconi levou em sua bagagem o poema “Desafio iluminado”, de
Carlos Dimuro.
Sobra mulher branca e falta negra
O Brasil tem mais mulher do que homem, certo? Em termos.
A pesquisadora Hildete Pereira de Melo, da UFF, esquadrinhando a última
Pnad/IBGE, concluiu que a “sobra de mulher” é só na população branca. Há
4.127.062 brancas a mais. Mas, para a alegria das mulheres, há mais 84.410
negros do que negras.
Deu bicho no futebol
Bicho, nos dois sentidos, tem afinidade com o futebol desde bem antes da
galinhada em Romário.
O Flamengo, por exemplo, apadrinhou o urubu em junho de 1969 num jogo com o
Botafogo em que perdia de 1 a 0. É que, numa alusão racista ao grande número de
flamenguistas negros, um botafoguense atirou um urubu no gramado. O Fla virou
para 2 a 1 e a torcida achou que o bicho trouxe sorte.
O saudoso Henfil criou seu “Urubu” a partir do episódio. Veja os clubes e seus
respectivos bichos.
AMÉRICA-MG — coelho
ATLÉTICO-MG — galo
BANGU — castor
CORINTHIANS — gavião
CRUZEIRO — raposa
PALMEIRAS — porco
PONTE PRETA — macaca
SANTOS — peixe
SANTA CRUZ — cobra coral
SPORT-PE — leão
FLAMENGO — urubu
Já encheu
Outras coisas de que ninguém agüenta mais ouvir falar:
Viagem de Benedita — embora o apego ao cargo faça a ministra ajudar a fritar
Lula.
Celebridade — não a novela, mas a palavra.
A doença do Papa — com todo respeito ao seu martírio.
O espetáculo do crescimento, contrapartida social nas artes e transversalidade
— expressões tão a gosto do “new PT”.
COM ANA CLÁUDIA GUIMARÃES, MÁRCIA VIEIRA E MARCEU VIEIRAE-mail para esta
coluna: ancelmo@oglobo.com.br
O GLOBO | PANORAMA ECONÔMICO | 26/10/2003
Atalho catarinense
É possível reduzir a
desigualdade. Essa é a lição de Santa Catarina e está nos números da Pnad
comparados pelo economista André Urani. O estado, em dez anos, reduziu em 13% a
desigualdade, e, no Brasil, ela aumentou. A tabela mostra que se pode crescer
aumentando ou reduzindo a desigualdade. Como hoje há consenso, sem divisão de
ideologia, que o Brasil precisa desenvolver-se com mais crescimento e menos
desigualdade, é bom ver estas contas.
A história que os números vistos por André Urani, do Iets, contam é ilustrativa
dos caminhos do crescimento. E dos descaminhos. A renda domiciliar per capita
aumentou em todo o Brasil. O número de pobres e de indigentes caiu. Mas a desigualdade
medida pelo Índice Gini — que mede a distância entre os que têm muito e os que
pouco têm em cada sociedade — aumentou no Brasil em geral e, em alguns estados,
em particular.
A boa notícia é que caiu fortemente a proporção de pobres e de indigentes no
Brasil. Luz vermelha, atenção todos: não está na tabela abaixo, mas nos estados
de Alagoas, Amazonas e Roraima houve aumento da pobreza na década passada,
quando no Brasil todo a proporção de pobres caiu quase 20% e de indigentes,
30%. Em Santa Catarina, essa melhora foi impressionante. De 92 a 2002, caiu em
45,5% a proporção de pobres catarinenses e em 64% a de indigentes.
Compare-se com Mato Grosso, que é o estado onde houve o maior aumento da renda
familiar per capita: quase 70%. Lá houve também redução da pobreza e da
indigência só que em percentual menor do que em Santa Catarina, e houve aumento
da concentração. A distância entre os mais pobres e os mais ricos aumentou
10,82%. Em Santa Catarina, o aumento da renda per capita foi de um terço do que
ocorreu em Mato Grosso; em compensação, houve lá mais redução de pobres e de
indigentes e a inesperada queda da desigualdade.
— O caso catarinense é interessante. Eles têm um modelo de desenvolvimento mais
centrado em propriedades médias, mais homogêneo. A queda da pobreza foi duas
vezes maior do que em todo o Brasil. Lá a queda da pobreza e da indigência está
ligada à redução da desigualdade mais do que ao crescimento. Essa performance
está associada ao modelo de desenvolvimento que inclui, entre outras coisas,
ênfase nas dinâmicas locais, redes de micro e pequenas empresas, democratização
do acesso aos serviços produtivos, melhora na qualidade do gasto público social
— diz André.
Compare-se Rio de Janeiro com São Paulo. No Rio, houve menos aumento da renda
per capita e mais redução da pobreza e da indigência que em São Paulo nestes
últimos dez anos. No Rio, um ligeiro aumento da desigualdade; em São Paulo, a
distância entre os mais ricos e os mais pobres cresceu 6,88%. Detalhe: os dois
têm o mesmo índice Gini. São Paulo era melhor, piorou e chegou onde o Rio
estava.
— Contraste-se Santa Catarina com a decadência do modelo paulista da grande
indústria e com o vigor do grande latifúndio de Mato Grosso, que cresce muito
mas concentra renda — comenta André.
O ideal no estudo dos modelos comparados, num momento em que a desigualdade
aflige tanto o país, é buscar os méritos de cada modelo. O grande produtor
rural competitivo de Mato Grosso garante a balança comercial que financia o
déficit externo. Nem todo crescimento pode ser só na pequena e média empresa,
ainda que se saiba em todas as estatísticas que elas são essenciais para a
criação de emprego. Olha só este dado recolhido na cabeça cheia de números (e
de alíquotas) do economista José Roberto Afonso:
— As pequenas e médias empresas são responsáveis por 40% a 50% dos empregos do
país e só elas criaram emprego nos últimos anos. As grandes empresas destruíram
postos de trabalho — diz Afonso.
O ideal é aprender as lições de cada um.
— Se a prioridade for mesmo a redução da pobreza, parece que temos aqui mesmo
no Brasil um modelo para estudar, aperfeiçoar e multiplicar, adaptando-se, é
claro, às diferentes condições de cada região, o catarinense.
Até porque, se cada um continuar no seu ritmo, as diferenças só vão crescer.
Quanto tempo levaria, por exemplo, cada qual no seu passo, para o país reduzir
a indigência ao nível em que Santa Catarina está?
André fez as contas. Mato Grosso, que cresceu mais, mas aumentou a
desigualdade, precisaria de quatro anos. O Rio, que cresceu a mesma coisa, mas
não reduziu a desigualdade, levaria dez anos, o mesmo que a média do Brasil.
São Paulo, que cresceu mais, mas com aumento da desigualdade, precisaria de um
quarto de século: 25 anos. São Paulo, aquele estado que não pode parar, tem que
se apressar porque está muito atrasado neste ponto fundamental.
O GLOBO | PANORAMA POLÍTICO | 26/10/2003
‘Recall’ à brasileira
A eleição de Arnold
Schwarzenegger para governador da Califórnia serviu também à difusão planetária
do instituto do recall , o direto de revogação de mandatos pelo eleitorado. Ao
senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), inspirou a apresentação de uma
emenda constitucional instituindo este mecanismo da democracia participativa e
também o do veto popular.
Este último permite que os cidadãos, organizados em número mínimo, tomem a
iniciativa de contestar uma lei ou decisão governamental requerendo sua
sujeição ao voto popular. Um referendo arrancado pela própria população.
O objetivo das duas inovações propostas, diz o senador Valadares, é “dotar o
sistema político brasileiro de mais dois instrumentos de exercício da
democracia semidireta ou representativa”. Aqui ele recorda que a Constituição
de 1988 inovou, em relação às anteriores, ao dizer, no parágrafo primeiro, que
“todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos,
ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Rompeu assim com a definição
das Cartas anteriores, onde se lia o conhecido "todo poder emana do povo e
em seu nome será exercido".
— Assim sendo, o Brasil já adota a democracia semidireta, em coexistência com a
democracia representativa. Tanto é que prevê a prática do plebiscito e do
referendo, e a iniciativa popular na proposição de leis. Minha proposta agrega
dois novos instrumentos e espero que todos eles venham a ser cada vez mais
utilizados.
O direito de revogação — daqui para a frente usado em lugar do estrangeirismo
recall — não é invenção americana e já freqüentou até mesmo, segundo o jurista
Nelson de Sousa Sampaio, as constituições passadas de Goiás e do Rio Grande do
Sul. Vem dos primórdios da democracia representativa, no final da Idade Média,
perdurando na França até a Revolução de 1789. Os compromissos dos eleitos eram
consignados em cadernos e seus mandatos revogados quando traíam o prometido
nestes cahiers . Ressurgiu nas experiências contemporâneas de democracia
participativa e aumento do controle sobre os governantes. Uma de suas
manifestações é o de abberufungsrecht , que permite a destituição de todo o
Parlamento, praticado em alguns cantões da Suíça e em alguns estados da
Alemanha, onde já existia, segundo o citado jurista, desde a República de
Weimar. Já o recall surgiu nos Estados Unidos, onde é adotado por 12 dos 50
estados, garantindo a destituição de mandatos individuais. É aplicado mais aos
governos locais que estaduais e inexiste em relação ao presidente da República.
Segundo o jurista Paulo Bonavides, outro conhecedor do assunto, a iniciativa
deve sempre partir de um décimo ou mais do eleitorado, que formula uma petição
pedindo a demissão do governante que perdeu a confiança popular. Decorrido
certo prazo, não havendo a demissão, convoca-se a eleição, podendo a própria
autoridade contestada disputar a eleição.
A emenda de Valadares apenas insere os dois instrumentos na Constituição,
deixando à lei complementar o detalhamento de sua aplicação: a quais cargos,
por iniciativa de quantos eleitores etc. A lei definiria também o funcionamento
do direito de veto, que assegura a uma parcela de eleitores a iniciativa de
derrubar ou confirmar uma lei pelo voto direto. No caso da iniciativa popular
para a apresentação de projetos de lei, já regulamentada, a exigência é de dez
por cento dos eleitores. O mecanismo produziu até hoje uma importante lei,
iniciativa da CNBB, que permite a impugnação prévia de candidatos que respondam
a processos judicais. O plebiscito foi usado uma só vez, em 1993, para definir
o sistema de governo, e o referendo nunca. A Câmara acaba de suprimir a
confirmação, por esta via, da lei do desarmamento.
Mesmo assim, a democracia participativa é uma tendência no mundo e sua prática
será facilitada pelas tecnologias digitais e pelo uso da internet.
Rolando Lero no Senado
Tem senador que não sabe o lugar em que foi posto pelo povo. Almeida Lima
(PDT-SE) já ganhou de seus pares o apelido de Rolando Lero por suas falações
demasiadas ou impróprias. Na quarta-feira passada, dia de agenda cheia e
estresse de reformas, ele ocupou a tribuna por duas horas com denúncias sobre
irregularidades no programa de capinação de ruas da prefeitura de Aracaju. Uma
frente de trabalho para dar emprego a nordestinos sem renda. Levou para o
plenário um retroprojetor e discorreu sobre o que se passa nos remotos bairros
administrados por seu adversário, o prefeito Marcelo Déda. Como senador, um
excelente vereador federal, lamentavam os colegas.
Em setembro, Almeida Lima tentou obstruir a longa sessão da Comissão de
Constituição e Justiça que aprovou a reforma previdenciária lendo um voto em
separado de 430 páginas. O presidente da CCJ, senador Edison Lobão, fez com que
o lesse resumidamente. Mas o prolixo senador foi bater às portas do STF,
pedindo a anulação da votação porque tivera a palavra cerceada. O STF, que tem
mais o que fazer, negou-lhe a liminar acrescentando que, como suplente da
comissão, não teria direito nem à palavra usada.
O GLOBO | MÁRCIO MOREIRA ALVES | 26/10/2003
O Estatuto do Desarmamento
MARCIO
MOREIRA ALVES
A aprovação pelo plenário da Câmara dos Deputados do Estatuto do Desarmamento
foi o maior avanço legislativo desde a Lei de Responsabilidade Fiscal. A
batalha foi dura, comandada com maestria pelo deputado Luis Eduardo Greenhalgh,
advogado criminalista. A tal bancada da bala, defensora da fabricação e venda
livre de armas de fogo, tinha menos bala na agulha do que apregoava. Foi
esmagada pela opinião pública, que influenciou a maioria dos deputados. Os
argumentos a favor do Estatuto são irrespondíveis e a emoção também contribuiu
para aprová- lo.
A deputada Sandra Rosado, da tradicional oligarquia que domina há mais de meio
século a política de Mossoró, no Rio Grande do Norte, fez um depoimento
comovente na CCJ. Disse falar em nome das mães brasileiras que tiveram as
famílias destroçadas por armas de fogo e que não tinham, como ela, a
oportunidade de se dirigir aos deputados que iriam decidir o futuro de uma
política de paz. Contou que perdera um filho de 24 anos, um líder, o vereador
mais votado de sua cidade, porque perto dele havia uma arma. Um soluço embargou
sua voz antes que conclamasse: “Vamos desarmar esse país.”
O Ministério da Justiça fez
circular o mais completo documento sobre a criminalidade no Brasil,
diagnosticando as suas raízes e sugerindo maneiras de combatê-la. No capítulo
sobre o controle das armas de fogo, publica uma estatística da ONU: em 1995,
houve 41 mil homicídios no país, sendo que 88,39% foram cometidos por armas de fogo.
O documento do Ministério da Justiça
afirma que “o problema mais dramático é o verdadeiro genocídio a que vem sendo
submetida a juventude brasileira, especialmente a juventude pobre, do sexo
masculino e, em particular, os jovens negros. Em 1999, na cidade do Rio de
Janeiro, em cada grupo de cem mil habitantes, 239 jovens do sexo masculino, com
idades de 15 a 29 anos, foram vítimas de homicídios dolosos. A magnitude do
problema é tal, que suas conseqüências já são perceptíveis na estrutura
demográfica. A estratificação etária da população apresenta um déficit de
jovens do sexo masculino apenas comparável ao que se verifica em sociedades que
se encontram em guerra. É como se o Brasil experimentasse os efeitos
devastadores de uma guerra civil sem bandeira, sem propósito, sem ideologia e
sem razão”.
A guerra civil acontece principalmente nos bairros pobres das periferias das
grandes cidades. No Rio e em São Paulo, o mercado para armas de fogo é dez
vezes maior nos bairros pobres que nos bairros de classe média. Essa a razão
dos homicídios ocorrerem basicamente entre os pobres, enquanto os crimes contra
o patrimônio, assaltos a bancos e a domicílios, roubos, seqüestros relâmpago,
ocorrem principalmente nos bairros mais ricos.
A estatística sobre a origem das armas também é reveladora. No Rio de Janeiro,
83% das armas apreendidas pela polícia são de fabricação nacional, sendo que
88% são revólveres e pistolas. Já a maior parte das armas longas, fuzis,
rifles, carabinas, metralhadoras, etc., são de fabricação estrangeira.
A origem primeira das armas leves é legal. São fabricadas em duas modernas
fábricas no Rio Grande do Sul e vendidas pelas lojas legalmente estabelecidas.
É das mãos dos compradores legais que passam ao mercado ilegal. Outras fontes
de suprimento do mercado ilegal são as polícias, as empresas de segurança, e as
próprias Forças Armadas, especialmente a mais numerosa e mais espalhada pelo
país, que é o Exército. As armas longas e, ainda, muitas armas curtas
exportadas, são contrabandeadas, especialmente dos países do Mercosul, com
ênfase no Paraguai. O armamento pesado é vendido por atacadistas, criminosos de
colarinho branco, chamados de brokers . São eles que fazem a ponte entre o
comércio de armas e o comércio de drogas, de vez que também financiam os
traficantes e, através de uma complexa rede de instituições financeiras, lavam
o dinheiro arrecadado nas ruas pelos varejistas, que são a parte mais visível e
mais violenta dessa cadeia da morte. Diz o Ministério
da Justiça que “a disponibilidade de armas é que transforma o
mercado ilegal de drogas num banho de sangue. A banalização da violência é o
preâmbulo da barbárie. A cumplicidade de setores das polícias com o crime
degrada sua imagem e agride a honra da maioria dos trabalhadores policiais que
arrisca a vida para cumprir o seu dever, em troca da ingratidão do Estado, da
desvalorização profissional e de salários aviltantes”.
Finalmente, a análise da situação leva o Ministério
da Justiça a afirmar que ninguém está livre da violência criminal.
Esse caráter difuso da insegurança é confirmado pelo fracasso das políticas de
segurança truculentas, praticadas nas últimas décadas. Políticas orientadas
para a proteção exclusiva das elites não funcionam. Cercar as regiões nobres
das cidades e lançar policiais como cães sobre as periferias não resolve. Essas
políticas produzem o terror na periferia, mas nem por isso conseguem garantir a
defesa dos bairros privilegiados. Todos acabam prejudicados, até mesmo as
elites, a quem não interessa uma polícia incompetente e cúmplice do crime. Ou
haverá segurança para todos ou ninguém estará seguro.
A aprovação do Estatuto do Desarmamento foi um importante passo para que haja
segurança para todos. Muitos outros terão de ser dados, especialmente no
referente às políticas de inclusão dos excluídos.
MARCIO MOREIRA ALVES é jornalista.
FOLHA DE S. PAULO | PAINEL | 26/10/2003
Buraco bilionário
Um
rombo de R$ 15 bi foi descoberto na proposta orçamentária de Lula para 2004
pela consultoria técnica do Congresso. Trata-se de previsões de despesas sem a
indicação das receitas correspondentes. A avaliação consta de nota enviada ao
relator do projeto, Jorge Bittar (PT).
Sutil diferença
Entre as despesas previstas sem receita constam, por exemplo, R$ 6 bi do fundo
de compensação da Lei Kandir, R$ 1,66 bi da divisão da Cide com os Estados e R$
1,75 bi do Fundo de Desenvolvimento Regional. Gastos definidos nos acordos
feitos pelo governo Lula para aprovar a reforma tributária.
Ainda em teste
Prioridade no programa de governo da campanha eleitoral de Lula, a Farmácia
Popular será finalmente lançada no mês de dezembro. Mas numa única cidade, que
servirá como uma espécie de laboratório. Se o resultado for positivo, o projeto
será ampliado no ano que vem.
Gato escaldado
Geddel Vieira Lima (PMDB), primeiro-secretário da Câmara, mandou desativar 200
linhas de telefone que não eram ligadas ao PABX da Casa. Vítima de grampos
ilegais na Bahia carlista, alegou que esses aparelhos eram mais sujeitos à
escuta.
Obras na pista
Inspirado em Gana (África), o governo federal vai incluir em contratos com
empreiteiras uma cláusula que garanta o uso de mão-de-obra local para a
manutenção de rodovias. A intenção é criar ao menos 200 empregos em cada
região.
Ambição comunista
Prioridades do PC do B nas eleições municipais do ano que vem: triplicar o
número de vereadores (foram diplomados 150 na disputa de 2000) e ganhar as
prefeituras de Fortaleza (CE) e Manaus (AM), com os deputados Inácio Arruda e
Vanessa Graziottin, respectivamente.
No ar
O Ministério dos Transportes elabora banco de dados informatizado sobre
rodovias, portos e ferrovias a fim de auxiliar na identificação das melhores
rotas para turismo e transporte de cargas. O projeto de US$ 1 mi, financiado
pelo BID, deverá ser concluído no final de 2004.
Avaliação extensiva
Cristovam Buarque (Educação) apresentará nesta semana a Lula o novo sistema de
avaliação do ensino superior, substituto do provão. O programa terá duas
provas, uma no meio e outra no final do curso, aliadas a uma avaliação
curricular durante todo o período de graduação.
Fim do ranking
O "novo provão" será feito por amostragem em todos os cursos de
graduação em todos os Estados. Não será obrigatório aos alunos e as notas não
serão divulgadas, ao contrário do que ocorre atualmente. Também não será
divulgado mais o "ranking" de instituições de ensino.
Oposição interna
Lula encaminhará o "novo provão" ao Congresso como projeto de lei. A
intenção é aprová-lo em 2004 para que tenha início em 2005. Mas antes será
preciso enfrentar a oposição de petistas ligados à Educação, que defendem o fim
da avaliação.
Reforma natureba
Fernando Gabeira (sem partido-RJ) aprovou a proposta do governo federal de fatiar
a reforma tributária. Mas não chamou a manobra de "miolo da picanha",
como fez Lula: "Como sou vegetariano, considero esse projeto o coração da
alcachofra".
Marketing de governo
Preocupado com a imagem do governo, o Planalto iniciou a divulgação de uma
"agenda positiva". Diz ter gasto, por exemplo, R$ 67 mi em
publicidade institucional e campanhas de utilidade pública de janeiro a outubro
-61% do despendido por FHC durante todo o ano de 2002.
TIROTEIO
Do governador Jorge Viana (PT-AC), sobre os rumos da economia no governo Lula:
-Concordo com a política adotada para derrotar a inflação. Mas, até o final do
ano, o governo tem que retomar o investimento público para reduzir a
desigualdade regional.
CONTRAPONTO
Coração de mãe
Os líderes das bancadas na Câmara reuniram-se na última quarta-feira no
gabinete de João Paulo Cunha (PT-SP), presidente da Casa, para discutir o
Estatuto do Desarmamento. Quando ele entrou na sala com Nelson Pellegrino
(PT-BA), os outros líderes já estavam em volta da mesa. Pellegrino sentou-se ao
lado de Roberto Freire (PPS-PE) e o cumprimentou:
-Bom dia, meu grande amigo Roberto Jefferson!
Irritado por ter sido confundido com o presidente do PTB, seu desafeto desde a
campanha presidencial, Freire disfarçou:
-Não é nenhuma ofensa ser chamado de Roberto Jefferson, mas eu sou Roberto
Freire.
Percebendo a saia justa, Pellegrino tentou desanuviar o clima:
-A base do governo é tão grande que acaba provocando esse tipo de confusão. Mas
vocês dois estão no mesmo lugar em meu coração.
FOLHA DE S. PAULO | PAINEL S/A | 26/10/2003
Efeito manada
Delfim Netto (PP-SP) diz que a
maioria dos economistas acredita num crescimento de 3,5% para 2004 por uma
razão: todos têm medo de errar. Se o resultado for diferente, pelo menos todo
mundo erra junto. O melhor é acompanhar a manada.
Estado de espírito
Delfim argumenta, no entanto, que é bem possível que o país cresça mesmo 3,5%,
já que todos estão convencidos. "Crescer é um estado de espírito."
Fé
O grande problema, segundo Delfim, é que não existem razões objetivas para o
país crescer 3,5% em 2004. "Só a crença."
Ânimo
Mesmo com a diretoria cada vez mais minguante, o embaixador Sebastião do Rego
Barros (ANP) tem se mostrado mais otimista. As conversas com o governo
melhoraram bastante.
Programa ambiental
A Petrobras irá abrir inscrições na terça-feira para um novo programa ambiental
sobre o melhor aproveitamento da água. O programa é aberto a todos que queiram
participar, e as inscrições poderão ser feitas pela internet. O investimento
chega a R$ 40 milhões.
O homem...
Desembarca no Brasil na próxima quinta Jean Stéphenne, presidente da Glaxo
Biologicals, a maior empresa de vacinas no mundo. Ele vai assinar acordo de
transferência de tecnologia com Humberto Costa (Saúde) para a Fiocruz
(BioManguinhos) produzir vacina contra sarampo, caxumba e rubéola.
...das vacinas
Com o acordo, o governo economizará R$ 50 milhões anuais. A Glaxo produz 850
milhões de doses anualmente, um investimento de US$ 300 milhões.
Para adultos
A Danone prepara o lançamento de um leite fermentado para adultos no Brasil. O
lançamento está previsto para o primeiro trimestre de 2004. A Danone atua nesse
setor no Brasil apenas com produtos infantis (Danoninho e Paulista).
e-mail -
guilherme.barros@uol.com.br
ANÁLISE
No sufoco
A economia brasileira vai enfrentar sérios problemas para manter um crescimento
sustentável nos próximos anos, afirma o economista José Roberto Mendonça de
Barros, da MB Associados. O professor argumenta que a taxa de investimento hoje
é de apenas 17%. Muito distante da faixa de 25% a 28%, necessária a um
crescimento satisfatório (em países asiáticos, o investimento supera com
frequência os 30% do PIB). Não bastasse, o pouco investimento fica concentrado
em três setores: agronegócios, mineração e metálicos e na cadeia de petróleo e
gás. ""Fora esses setores, o que temos são empresas investindo, e não
setores investindo", diz Mendonça de Barros. ""Um dos problemas
que terão que ser tratados é a questão tributária."
O ESTADO DE S. PAULO | DORA KRAMER | 26/10/2003
Dance, mas dance direito
Saudabilíssima
a decisão da Casa Civil da Presidência da República de impor maior rigor às viagens
dos ministros, embora seja de estranhar o desconhecimento que o PT tem
demonstrado num assunto, pensava-se, de sua especialidade: a observância da
conduta ética.
O País deve muito - talvez quase tudo- aos padrões de exigência introduzidos
pelas cobranças do PT em relação ao tratamento das coisas públicas e ao
comportamento dos homens e mulheres idem.
Por isso não se justifica, por alegada inexperiência, a série de vexames -
tolos, inclusive - a que estamos assistindo. No geral, até agora eles têm sido
quantitativamente pequenos, envolvem valores ínfimos e contratos de família.
Mas o fato de não estarmos lidando com os tradicionais personagens de
escândalos - milhares de dólares, transações internacionais, grandes estruturas
industriais, comerciais ou financeiras - não quer dizer que sejam aceitáveis.
Mais não fosse, por denotar uma absoluta indiferença às regras do bom senso e
por revelar distorcida convicção sobre o conceito de bem coletivo que deva ser
aplicado a todo o arcabouço de referências - materiais ou não - a respeito do
poder público.
Os dois ministros que devolveram dinheiro de passagens tinham consciência do
erro. Não fosse assim, a titular da pasta da Assistência Social não teria, no
primeiro momento, mentido sobre sua presença num evento religioso dizendo estar
ali por acaso.
E o ministro de Esportes, tão logo viu o tamanho da confusão, lembrou-se de
que, três meses antes, ficara com um dinheiro de despesas não efetuadas durante
os Jogos Pan Americanos. Apressou-se em devolver.
Não transmitiu a seus assessores, no entanto, a noção de que festas de
aniversário não podem ser organizadas pela estrutura do ministério, pois são
eventos particulares e a titularidade de uma pasta não torna repartições
públicas propriedades privadas.
O secretário Nacional de Esportes se diz alvo de armadilhas de gente realmente
corrupta - e, pelo perfil pessoal e profissional de Luiz Eduardo Soares, deve
mesmo ser verdade -, mas soube que não bastava denunciar essa situação e
continuar com os dois contratos feitos com gente da família. Ele tem a vida
inteira para trabalhar com as duas profissionais contratadas. Não precisa, não
deve nem pode fazê-lo quando no exercício de cargos públicos.
E isso não é uma questão moral, como pode parecer aos aflitos para
desqualificar quaisquer discussões mais longas ou detalhadas a respeito do
tema, a fim de abrir espaço para o próximo assunto em pauta e deixar este com
resolução pela metade.
A questão ética é primordialmente gerencial. Essa tese está exposta num pequeno
livro de 188 páginas chamado Encontros, Meios e Fins - editado pela Escola de
Administração Fazendária -, que traz artigos e entrevistas de integrantes da
Comissão de Ética Pública e mais um levantamento sobre a experiência de vários
países no tema.
Sob o título "Dance a noite inteira, mas dance direito", o presidente
da Comissão de Ética, João Geraldo Piquet Carneiro, diz o seguinte: "A
ética, do ponto de vista da governança pública ou privada contemporâneas, não
implica adesão a crenças, religiões ou à exaltação de virtudes pessoais."
Segundo ele, "é preciso tratar a ética como instrumento de gestão. Na
empresa privada, isso significa fazer com que ser ético seja um bom negócio
para a organização".
O raciocínio aplica-se ao serviço público, onde também é preciso conquistar a
confiança da clientela (população). Qualquer estrutura funciona melhor quanto
mais normalizadas forem suas normas de conduta, introjetadas no cotidiano como
um processo. No mínimo, isso evita enorme perda de tempo com temas de
existência absolutamente desnecessária, anacrônica e prejudicial ao andamento
das coisas de fato importantes.
Quando se debate os gastos de R$ 5 mil de ministros que tratam seu trabalho
como extensão da casa, da família, das relações pessoais e profissionais da
digamos, vida civil, a culpa pela perda de tempo não é de quem faz a discussão.
Mas de quem a provoca com a falta de noção de que ética não se confunde com
religião, muito menos com orientação partidária. Não pode ser transgredida
pelos partidários daqueles que a tem apenas como dogma para o exercício externo
de sua crença.
Trata-se de um assunto resolvido de forma simples e definitiva pelo compositor
Billy Blanco em Estatutos da Gafieira.
Ensina e alerta, no samba, o regente do estabelecimento: "Moço, olha o
vexame, o ambiente exige respeito. Pelos estatutos da nossa gafieira, dance a
noite inteira, mas dance direito."
Pelo artigo 120, o infrator "será distintamente censurado" e, caso
resista, "se balançar o corpo, está na mão do delegado". De clara
compreensão e fácil aplicação.
O ESTADO DE S. PAULO | JOELMIR BETING | 26/10/2003
Navegar é preciso
"Já passamos do século da
Informação para o século da Comunicação. A informação é de quem transmite. A
comunicação é de quem recebe"
Umberto Ecco, escritor italiano
JOELMIR BETING
As teles do mundo inteiro, Brasil no meio, voltaram a deitar o pé na estrada
chipada de uma transformação cada vez mais rápida e cada vez mais profunda.
Elas que se colocam como pau da barraca da cadeia de valor que carrega no colo
a modernização continuada da economia e da sociedade. Como nunca antes.
Por vocação do velho ofício, as teles fazem o fio/sem fio da meada de uma
cadeia de valor já navegando em plena Idade Digital:
telecom/datacom/pontocom/midiacom. Uma revolução tecnológica agora no limiar de
uma explosão dentro da própria revolução. Ainda juntando os cacos da implosão
do modelo de negócios neste triênio pós-bolha de 2001/2003.
Os desafios doravante são até maiores. Primeiro: continuar a absorver e operar
a revolução de base tecnológica (TI-TC). A inovação pela inovação torna-se
ainda mais paroxística. A novidade de hoje transporta o vírus da obsolescência
precoce de amanhã. Do que resulta o desafio segundo: assumir e faturar uma nova
revolução mercadológica precipitada pela nova revolução tecnológica.
Falou revolução mercadológica, falou ampliação das redes, diversificação de
produtos e serviços, parcerias e alianças estratégicas e competição cada vez
mais feroz dentro de mercados progressivamente desregulados. Do que emergem
desafios outros em cascata: nova reestruturação patrimonial, nova reorganização
corporativa, novo paradigma profissional, novo reordenamento institucional,
etc. e tal.
E o que dizer da futura rede global, de padrão compartilhado? Com ela, o
usuário brasileiro de Colatina, Cascavel, Corumbá ou Caravelas estará operando
nas ligações locais com tele instalada na Espanha ou com banco fisicamente
sediado na Índia.
Pois essa pedreira do tamanho de uma cordilheira começa a ser escalada pelas
teles a partir do fundo do poço cavado pelo estouro da bolha da
"irrational exuberance" - e não por falta de aviso prévio. O
todo-poderoso setor de telecomunicação descobriu-se endividado como nunca para
a ocupação de um mercado que lhe negou fogo.
Obrigado até por contratos leoninos a antecipar metas de uma demanda apenas
presumida, o setor passou a responder, por exemplo, por 28% do total de
créditos bancários sindicalizados da União Européia. A média histórica não
passava, até 1995, de 12%.
O pico da dívida ocorreu na crista da dúvida: haverá salvação? E tome perdas de
até 70% no respectivo valor de mercado nas 50 maiores bolsas do mundo. A
Deutsche Telecom, que teve de pagar em leilão US$ 43 bilhões por um carimbo, o
do celular 3G, só verá o retorno do primeiro euro por volta de 2023 - se não
trombar com a 4G aí pela proa de 2015.
Aqui no Brasil cor de anil, demanda ainda reprimida, o acidente de percurso já
está superado. Até porque o problema é menos da aptidão do mercado e mais da
regulação do Estado.
SECOS & MOLHADOS
Impulsão - Informa o Yankee Group que o setor deve faturar, este ano, US$ 1,1
trilhão e tende a crescer 6% ao ano, sustentadamente. Nessa toada, o
faturamento global, a preços de 2002, estará duplicado por volta de 2012.
Pesadas inversões em capital fixo devem ser retomadas a partir de 2006.
Vamos nós - No mesmo estudo, encomendado pela União Internacional de
Telecomunicações, o Brasil aparece com expansão anual de 15% ao ano, sendo
13,8% de telefonia e 41% de internet. No mercado corporativo, crescimento anual
de 14,2%.
Sem fio - A telefonia móvel deve igualar o faturamento da indústria do petróleo
por volta de 2007. Ano passado, os barris da discórdia encaixaram US$ 612 bilhões.
No mundo, o celular vai de 18,6% ao ano. Com crescente inclusão no tráfego de
dados (SMS). Incluído o serviço pré-pago, perto de 78% do mercado brasileiro.
CORREIO BRAZILIENSE | BRASÍLIA - DF | 26/10/2003
Apesar dos atrasos
Arlete
Salvador
arlete.salvador@correioweb.com.br
O governo está preparado para enfrentar a votação da reforma da Previdência no
plenário do Senado nesta semana. As contas da Casa Civil são mais do que
favoráveis, o que deixou o Planalto seguro de que tem a maioria necessária para
garantir a aprovação integral do projeto.
A maior dificuldade dos governistas será escapar das manobras da oposição para
atrasar a votação. PFL e PSDB trabalham para evitar a apreciação de outras
medidas que trancam a pauta do Senado. Quando isso ocorre, a contagem do tempo
regimental é interrompida e a reforma da Previdência fica na lista de espera.
Rei morto, rei posto
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,
está à procura de um novo secretário Nacional de Segurança Pública. Luiz
Eduardo Soares deixou o posto quando se soube que havia contratado a ex-mulher
e a atual para trabalharem para o Ministério. Thomaz
Bastos tem pressa. Ele quer ver o presidente Lula anunciando o
Sistema Único de Segurança Pública, com todos os governadores, em novembro.
A quem interessar possa
O Planalto insiste que não tem nenhum interesse nem apóia a idéia de criação do
estado do Planalto Central.
Faltam os nomes
Contrário ao plantio e comercialização de produtos transgênicos, o senador João
Alberto Capiberibe (PSB-AP) vai cobrar dos líderes partidários no Senado a
indicação dos integrantes da CPI do Contrabando da Soja. A proposta de criação
da CPI já foi aprovada, mas as indicações não foram feitas.
Sem essa de união...
O PCdoB do Distrito Federal não abre mão da oposição ao GDF. Os comunistas
ficaram de orelha em pé com a aproximação do PSB e do PPS do Buriti. Os
vermelhos defendem o diálogo se houver pauta que desperte o interesse comum,
como faz a legenda no cenário nacional, mas a conversa acaba aí. ‘‘Não podemos
fazer aliança com quem contribui para depredação do patrimônio público da
capital federal. Por isso, não vemos possibilidade de união neste momento’’,
afirma o deputado distrital Chico Leite (foto).
A briga continua
O relator do projeto que define a alíquota do imposto de renda para 2004,
Antonio Cambraia (PSDB-CE), apresenta até quarta-feira seu relatório na
Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados (CFT). Oposicionista,
Cambraia vai provocar o governo — manterá o desconto máximo em 25% para os
trabalhadores que recebem acima de R$ 2,6 mil. O Planalto terá que se virar
para manter a alíquota em 27,5% e derrubar o relatório do parlamentar na CFT e
na Comissão de Constituição e Justiça.
Empenho sincero. O ex-governador do Ceará Tasso Jereissati (PSDB) tornou-se o
principal inimigo da reforma tributária no Senado. Ele tem tentado convencer
colegas do governo e da oposição a votar contra o relatório do senador Romero
Jucá (PMDB-RR) e a aceitar o substitutivo que apresentou à CCJ. A proposta cria
o IVA (Imposto de Valor Agregado) e estabelece alíquota decrescente da CPMF.
Alguns senadores balançaram com os argumentos de Tasso.
Clima de festa. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, está na lista dos
convidados para um café da manhã com a bancada do Nordeste na Câmara em
novembro. O encontro deve acontecer na semana do Festival de Brasília do Cinema
Brasileiro. A idéia é juntar no café artistas e produtores culturais da região
que estejam com filmes na mostra brasiliense.
Cinema de pazes. Quem já foi diz que o cineminha do Alvorada, onde o presidente
Lula recebe convidados para assistir a alguns filmes, é mesmo poderoso. O
senador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), crítico do governo no Senado, foi convidado
para uma sessão de cinema do Planalto semana passada. Viu Os Narradores de
Javé, de Eliane Caffé.
Com Klecius Henrique
klecius.henrique@correioweb.com.br
JORNAL DE BRASÍLIA | CLÁUDIO HUMBERTO | 26/10/2003
Duda decidiu implodir Duda
“Nenhum governo destinou tantos
recursos para a área social”
Ex-ministro Pedro Malan, defendendo FhC e lembrando que “a campanha já passou”
Na carta de seis páginas ao ministro Luís Gushiken (Comunicação), Duda Mendonça
“renuncia” ao cargo de “ministro da propaganda”. A expressão foi usada pelo
próprio Gushiken para definir o papel de Duda no governo. O exagero prejudicou
o marqueteiro: até contrato de consultoria com o PT nos estados ganhou aspecto de
“escândalo”. Ele não acha justo passar por isso. Pode-se dizer que – antes que
outros o fizessem – Duda decidiu implodir Duda, com a carta a Gushiken e a
entrevista à revista “Veja” que sai hoje.
Solucionático
Duda gosta muito de uma frase que utiliza várias vezes na sua longa carta ao
ministro Luís Gushiken: “sou um criador de soluções, não de problemas”.
Pingos nos ii
Duda Mendonça inspira muitas fantasias, mas poucos sabem que em dez meses sua
agência faturou R$ 1,4 milhão líquidos – uma merreca: o aniversário de 50 anos
da Petrobras custou R$ 40 milhões ao contribuinte.
Generosidade
O deputado Pedro Corrêa (PPB-PE), que entrou no rol dos suspeitos de ligações
com fraudadores, da CPI dos Combustíveis, transferiu para um assessor uma
Mercedes 320 (placa KLB 3030).
Lucro de agiota
O lucro financeiro exibido pela atual Empresa de Correios e Telégrafos decorre
dos rendimentos de uma aplicação de R$ 900 milhões feita no ano passado pela
antiga administração.
Bolsa-Família
Leitora conclui que a Secretaria Nacional de Segurança, que empregava a mulher
e a ex-mulher de Luiz Eduardo Soares, não era repartição nem harém, “mas o
programa Bolsa-Família da nomenklatura petista”.
Daqui não saio
Com tantas denúncias sobre passeios de ministros às custas do contribuinte, uma
nova doença ataca o poder em Brasília: a síndrome da Benedita. Caracteriza-se
pelo pavor de viajar. Nem pensar em avião e hotel.
Vinde a mim
A Assembléia Legislativa de Pernambuco tem coração de mãe: derrotado nas
eleições, Geraldo Barbosa ganhou cargo de assessor parlamentar, com direito a
gabinete e assessor na sala 310 do anexo.
Não inventa!
FhC diz que “falta imaginação” ao governo Lula. Imagina se abundasse...
Grosseria americana
Até os embaixadores convidados para eventos na embaixada dos EUA são vítimas da
descortesia de serem revistados por seguranças. Dia desses, o embaixador de
Gana, Daniel Yaw Adjei, chegou àquela embaixada com uma garrafa de água na mão
(cena muito comum, na seca Brasília). Ao ser compelido a beber a água antes de
entrar, ele se irritou e foi embora.
Susto
Depois de passar muito mal há dias, a senadora Roseana Sarney (PFL-MA) aos
poucos volta ao batente. Até já despacha por telefone.
Tudo bem
José Sarney só viajou para Nova York, onde se encontra, após o check-up em São
Paulo. Ele quis confirmar o “tudo ok” dos médicos do Senado, que já não
agüentam procurar doenças no hipocondríaco presidente da Casa.
Melhor acabar
Roberto Wanderley Nogueira, juiz federal da 1ª Vara do Recife, acha que os
Juizados Especiais Federais são, até agora, no máximo, “um exercício estético”.
Considera, mesmo, que devam acabar para que sejam devolvidos os recursos
humanos e materiais retirados dos outros órgãos judiciários.
Deslumbramento
Chama-se “Goianas” o dossiê que circula no Paraná, com fotos, sobre uma
festinha privê no hotel Bonaparte, em Brasília. Um dos principais personagens é
o secretário estadual de Comunicação, Airton Pisseti. O governador Roberto
Requião, camisolão assumido, não foi convidado.
Lei Kotsho
Os jornais pensam em não cobrir mais as viagens internacionais de Lula. Ele só
fala a jornalistas estrangeiros e, quando atende aos brasileiros, eles só podem
fazer três perguntas. Quem não obedece, sofre retaliações.
Doença incurável
Um leitor de São Luís, interessado no vestibular de medicina da Uniceuma,
pensou que estava às portas de Harvard: a maior universidade privada do
Maranhão cobra quase R$ 4 mil de matrícula e R$ 2,840 de mensalidade.
Santa gafe
Pegou mal nos meios diplomáticos destacar o embaixador em Roma, Itamar Franco,
para representar Lula nos 25 anos de pontificado de João Paulo II. É que o
presidente já tem representante no Vaticano: o embaixador Otto Maia, um
diplomata, aliás, muito competente.
Espeto de pau
Dono dos produtos Magridiet, o empresário Anthony Muller prefere a mais
absoluta discrição. Pudera: ele pesa 210 quilos.
Nomeação por ‘mérito’
Em campanha para governador de Alagoas, Divaldo Suruagy prometeu ao seu amigo
“coronel” Elísio Maia, se eleito, nomear uma afilhada professora do Estado.
Após a posse, Elísio foi ao Palácio dos Martírios cobrar a promessa, mas tinha
um “porém”: a moça não tinha diploma. - Assim não pode, seu Elísio. Sem diploma
não pode – respondeu Suruagy. Do tipo sisudo, que se comunicava bem só por meio
do trabuco, Elísio olhou fixamente para o governador e disse, com sua fala
mansa: - Quando você precisou do voto dela, não perguntou se tinha diploma... A
moça foi nomeada.
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CONCORRÊNCIA |
JORNAL DO BRASIL | ECONOMIA | 26/10/2003
Disputa põe
Alca em xeque
Com Brasil e Estados
Unidos em rota de colisão, negociações comerciais ficam ameaçadas
As
desavenças explícitas entre Brasil e Estados Unidos, que dividem a presidência
da embrionária Área de Livre Comércio das Américas desde novembro passado, já
ameaçam a conclusão das conversações dentro do prazo previsto, em janeiro de
2005, avaliam especialistas. Os co-presidentes das negociações dos dois países,
o brasileiro Ademar Bahadian e o americano Peter Allgeier, passaram a semana
trocando farpas e as discussões para a formação do bloco de 34 países do
hemisfério acabaram sem avançar um milímetro.
Desde quarta-feira, Allgeier vem insistindo que o país que não estiver
satisfeito com o desenho da Alca tem a opção de não aderir ao acordo, numa
série de insinuações de que o Brasil pode ficar de fora do bloco. Isso, no
entanto, não é admitido nem pelo país nem visto como uma possibilidade real
pelos especialistas. A explicação é simples: o Brasil representa quase a metade
da economia da América do Sul e excluí-lo da Alca significaria abrir mão
justamente do mercado mais atrativo do bloco, fazendo com que toda a luta para
montá-lo perdesse grande parte do interesse. Como bem definiu o ministro da
Agricultura brasileiro, Roberto Rodrigues, ''não seria Alca, mas uma Alca do
B''.
- Não há Alca sem o Brasil. Pode ser que formalmente se tenha uma Alca com 33
países em vez de 34, mas sem o Brasil realmente não é Alca. O Brasil é um dos
países mais importantes do hemisfério. Ter um acordo de livre comércio para as
Américas sem o país que ocupa um terço ou um quarto da superfície do hemisfério
não é um acordo. Um acordo sem o Brasil não vale nem a metade do que valeria um
acordo que incluísse o Brasil. É um animal de outra cor - resumiu Peter Hakim,
presidente do Inter American Dialogue, influente centro de pesquisas baseado em
Washington, em entrevista à BBC Brasil.
No cerne do choque entre EUA e Brasil na Alca, que está paralisando as
negociações, está o fato de os americanos resistirem tratar temas como
subsídios agrícolas e legislação antidumping no bloco, preferindo fazê-lo no
âmbito da Organização Mundial do Comércio. Em resposta, o Brasil também
empurrou para a OMC assuntos como investimentos e compras governamentais.
Para tentar levar as conversas à frente e romper o impasse, Bahadian
apresentou, na quinta-feira, uma nova proposta incluindo o tema serviços nas
negociações, que a princípio o Brasil também não queria colocar na mesa. A
reação de Allgeier logo se seguiu e, na sexta, o diplomata admitiu que seu país
poderia levar oferta no setor agrícola para reunião em Miami no mês que vem.
JORNAL DO BRASIL | OPINIÃO | 26/10/2003
Brasil-Estados Unidos
Gilberto
Paim
Jornalista
Antes da destruição das torres, a conduta dos Estados Unidos em suas relações
com o Brasil já estava definida pelo Council on Foreign Relations, o mais
influente órgão da constelação dos centros de poder daquele país. A nova
diretriz básica, adotada pelos Estados Unidos, tem como pano de fundo o
reconhecimento do desequilíbrio provocado pela desigualdade de renda entre três
quartas partes da população mundial e o arquipélago das poucas nações ricas.
Esse é o fulcro de uma nova concepção de relações internacionais que empolga os
dirigentes do mundo de opulência, convencidos de que se manterá sombrio o seu
futuro, se a urbanização das nações do Terceiro Mundo continuar dominada pelas
massas de pobres e miseráveis.
O Council on Foreign Relations representa a força geradora do novo enfoque,
cujas implicações envolvem medidas práticas que objetivem, inicialmente, a
melhoria das condições de existência das nações com capacidade de liderança
entre os países pobres. Terão preferência no encaminhamento de ajuda em volume
significativo as nações que se destaquem pelo combate à pobreza e à corrupção.
Nenhum governo do Primeiro Mundo se empenhará vitalmente na transferência de
recursos financeiros, originários de seus Tesouros nacionais, para nações onde
o roubo de bens públicos seja um traço de conduta da classe política e se
constitua numa das primeiras causas do empobrecimento dos respectivos povos. A
radiografia das transferências financeiras originárias desses países, para
contas particulares em bancos do Hemisfério Norte, torna obrigatória a
descoberta de meios que impeçam desvios dessa natureza. Pois se reconhece que a
corrupção agrava os níveis de pobreza das nações periféricas tornando os
governos incapazes de executar políticas que promovam a integração social dos
pobres, com destaque para as políticas de educação e saúde, inclusive o
planejamento familiar.
Quando emerge numa região pobre do mundo um presidente da República que se
declara comprometido com a ajuda aos pobres e a luta contra os corruptos, a
reação imediata do mesmo Council se define como favorável ao apoio externo a
seu governo. Não se pode subestimar o poder desse centro gerador de orientação
política. Recorda-se que dele saíram para ocupar importantes posições no
governo Bush, entre outras personalidades, o secretário de Estado Colin Powell,
a assessora de segurança nacional Condoleeza Rice, o secretário da Defesa
Donald H. Romsfeld, o secretário do Tesouro John Snow e o embaixador Richard
Haas, que até há pouco respondia por assuntos estratégicos no Departamento de
Estado e agora se encontra na direção do próprio Council.
Considera-se da maior importância que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
tenha visão clara do que há de novo na política externa que os centros de poder
mundial concebem e procuram aplicar nas suas relações com as nações em
desenvolvimento.
Mas tenta-se impingir ao presidente da República a balela de que a Alca é uma
anexação, uma prisão, um curral, quando o México do Nafta exibe seus 31 acordos
de livre comércio, concluídos com nações de várias partes do mundo, desde 1994.
Enquanto o entendimento Brasília-Buenos Aires é apresentado como consenso anti-
Washington, outras agressões aos Estados Unidos, por parte dos que conduzem as
negociações externas, incluem a reunião do Mercosul com a União Européia, antes
da conferência de Miami sobre a Alca. Se a cúpula do Itamaraty insiste em
proclamar que a Alca é o caminho do patíbulo, a política exterior do presidente
Lula estará condenando o seu governo a bater com a testa na parede.
Em sua última viagem aos Estados Unidos, o presidente brasileiro foi convidado
a falar a uma seleta platéia do Council on Foreign Relations. É claro que o
convite não foi feito por mera cortesia. Houve interesse em demonstrar que os
Estados Unidos estão dispostos a negociar com o Brasil de igual para igual,
conforme a tônica da nova política externa americana.
Declara-se lá que não teria valor duradouro a cooptação do Brasil como
instrumento da política dos Estados Unidos. O que importa, agora, é a
associação de interesses, a parceria em favor da realização de objetivos
comuns, entre os quais a emergência do Brasil como país capaz de reduzir seus
baixos índices de desenvolvimento humano pela via do enriquecimento
progressivo.
Prevalece a certeza de que o governo brasileiro há de inclinar a sua política
externa para o lado que produzir a melhor colheita de resultados, abandonando a
fantasia de receber novas tecnologias e capitais de países atrasados, que não
possuem nem uma coisa nem outra.
O GLOBO | BOA CHANCE | 26/10/2003
Governo federal vai autorizar a contratação temporária no Cade
O governo também vai autorizar o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a fazer contratações por tempo
determinado, pelo prazo de 12 meses, do pessoal técnico imprescindível ao
exercício de suas competências institucionais. O processo seletivo será
simplificado, compreendendo, obrigatoriamente, prova escrita e,
facultativamente, análise de currículo.
Ainda no caso das agências reguladoras, no momento Aneel e Anatel estão
realizando processo seletivo para contratação temporária. A Anatel busca
profissionais de níveis médio, em geral, e superior nas áreas de administração,
contabilidade, economia, engenharia de telecomunicações, informática,
psicologia e secretariado executivo.
Na Aneel, as vagas são para formação superior nas áreas de administração,
análise de sistemas, comunicação social, contabilidade, direito, economia,
engenharia, estatística, geografia, geologia, matemática, pedagogia, psicologia
e relações externas. Nos dois casos, as inscrições podem ser feitas no
www.cespe.unb.br.
Atenta à oportunidade, Rosângela Gomes vai se inscrever para a Aneel. Se
passar, a advogada fecharia seu escritório de advocacia para assumir um posto
por tempo determinado na agência reguladora:
— Ter um emprego, mesmo que temporário, me daria certa estabilidade. E, o mais
importante, mais conhecimento da área para quando um concurso público realmente
for aberto.
Governo deve prorrogar contratos temporários
A ANTT, por sua vez, fechou o processo seletivo em abril deste ano e está
analisando se vai reabri-lo. E a Anvisa e a ANS também poderão reabrir a
contratação temporária. Segundo Januário Montone, presidente da ANS, a agência
está com problema de falta de pessoal.
Enquanto isso, o governo deverá prorrogar o prazo dos contratos temporários. É
que, lembra o subchefe de Ação Governamental da Casa Civil da Presidência da
República, Luiz Alberto dos Santos, a legislação prevê que até julho de 2004
todas as agências estejam com seu quadro de pessoal completo, mas o governo não
conseguirá cumprir esse prazo a tempo.
O subchefe da Casa Civil disse que é necessário criar quadros efetivos para as
agências reguladoras com um nível de qualificação que reflita o que elas
realmente precisam. Luiz Alberto afirmou ainda que a proposta do quadro de
pessoal já foi discutida com quatro agências.
Será analisado pelo governo se os procuradores das agências ficarão vinculados
à Advocacia Geral da União (AGU), como acontece hoje. O deputado Walter
Pinheiro (PT-BA) disse que, se a estrutura for mantida, serão formados
generalistas e não especialistas como as agências precisam. Segundo Luiz
Alberto, a questão será debatida com a AGU.
O GLOBO | BOA CHANCE | 26/10/2003
Agências do governo vão abrir suas 7.577 vagas aos poucos
Mônica Tavares
BRASÍLIA
Os 7.577 cargos a serem criados para formar os quadros das nove agências
reguladoras do governo federal não serão preenchidos de uma só vez. As vagas,
anunciadas na semana passada, serão ocupadas à medida que os contratos
temporários dos atuais empregados das agências forem terminando. No ano que
vem, o governo deverá realizar concursos para preencher 2.800 cargos, como está
previsto na proposta orçamentária, sendo que a expectativa é que o quadro das
agências esteja completo só em fins de 2005.
As informações são do subchefe de Ação Governamental da Casa Civil da
Presidência da República, Luiz Alberto dos Santos. O preenchimento terá que ser
feito mediante concurso público, lembra ele, conforme determinação do Supremo
Tribunal Federal (STF), pois se trata de uma carreira de estado. O governo
anterior chegou a propor, em 2002, a criação de quadro com contratação via CLT,
mas o STF considerou a medida inconstitucional.
De acordo com a minuta do projeto que cria o quadro, divulgada a semana
passada, a Anatel, que regula e fiscaliza o setor de telecomunicações, terá
1.775 funcionários; a Aneel (energia), 650; a ANP (petróleo), 757; Ancine
(cinema), 270; ANS (saúde suplementar), 580; Antaq (transportes aquaviários),
485; ANTT (transportes terrestres), 1.759; Anvisa (vigilância sanitária),
1.274; e ANA (águas), 45. Os salários para os cargos que exigem do candidato
formação em nível superior vão de R$ 2.573,86 a R$ 5.151. Já os do nível médio
variam de R$ 1.399,10 a R$ 2.555,30.
A minuta do projeto prevê, aliás, a criação de pelo menos cinco cargos. Três
deles, de nível superior: a) especialista em regulação, segundo as respectivas
carreiras setoriais; b) analista administrativo, com atividades administrativas
e logísticas relativas ao exercício das competências constitucionais e legais;
e c) procurador federal. Dois cargos exigem nível médio: a) suporte à
regulação, com atribuições voltadas às atividades de regulação, inspeção,
fiscalização e controle da prestação de serviços públicos; e b) técnico
administrativo, com ações administrativas e logísticas relativas a competências
constitucionais e legais.
Segundo Luiz Alberto, os salários das agências serão competitivos com os de
outras carreiras do setor público. Na verdade, no mesmo patamar das carreiras
mais bem remuneradas pelo governo, com salários iniciais em torno de R$ 5 mil.
E até disse que, quando possível, também serão competitivos com as remunerações
oferecidas pela iniciativa privada. Mas admitiu que não vai dar para competir
se a empresa privada quiser pagar ao profissional cifras em torno de R$ 5 mil.
O subchefe informou ainda que o governo também vai fortalecer os ministérios
com a contratação, mediante concurso público, de especialistas em políticas
públicas. Serão criados 600 cargos de especialista em políticas públicas e
gestão governamental para os ministérios responsáveis pela supervisão das
agências.
O GLOBO | SERRA | 26/10/2003
Ação pede fim de DDD dentro de Petrópolis
O procurador da República Fabiano
de Moraes ajuizou ação civil pública na Vara Federal de Petrópolis contra a Anatel
e as operadoras de telefonia fixa, pedindo que seja extinta a cobrança das
chamadas de longa distância em ligações entre distritos, bairros e localidades
do município.
A ação movida pelo Ministério Público Federal teve origem depois de a
Procuradoria Geral do município ter encaminhado o resultado de um processo
administrativo aberto pelo Procon/Petrópolis contra a Telemar pelo mesmo
motivo.
— Aguardamos por um ano alguma manifestação da concessionária, mas sem sucesso
— disse o procurador geral, Sebastião Médici.
A Anatel anunciou que estuda regular novas áreas locais, extinguindo as
chamadas áreas conurbadas (dentro do mesmo município mas em áreas distintas). A
mudança deve começar a ser implantada até maio de 2004.
O GLOBO | CARTAS DOS LEITORES | 26/10/2003
Erros e acertos
Como os EUA são nosso maior
parceiro comercial, não podemos estar ausentes de uma associação comercial que
pretende abarcar toda a América Latina. A evidente ideologização desta negociação
serve apenas para desviar a atenção dos brasileiros dos pontos críticos a serem
superados. O interesse maior do país é participar da Alca. A obrigação dos
negociadores é obter as melhores condições para o comércio externo do Brasil. É
evidente que neste jogo não há empate, pois no impasse o mais forte vencerá.
ALBERTO DEL CASTILLO
(via Globo On Line, 22/10), Rio
A Alca é um acordo multilateral com regras unilaterais estabelecidas pelos EUA,
e o Brasil tem, com louvor, defendido seus interesses, pois, afinal, um acordo
de livre comércio pressupõe queda de barreiras alfandegárias e incentivos à
produção de forma igual. Mas o proposto pelos EUA é livre comércio para os
produtos deles. Se a criação da Alca significar mais desigualdades e a possibilidade
de um golpe fatal na indústria brasileira é melhor ficar como estamos.
LEANDRO S. KATZER REZENDE MACIEL
(por e-mail, 23/10), Rio
Antes de aceitarmos as propostas feitas pelos EUA para participar da Alca,
deveríamos primeiramente tentar solucionar nossa situação interna e também
ajudar a Argentina, nossa companheira de Mercosul, que sempre foi um país de
economia estabilizada. Agora há uma crise na Argentina afetando diretamente o
Brasil, principalmente nos setores de importação e exportação.
MARCO ANTÔNIO CECÍLIO FILHO
(por e-mail, 23/10), Rio
O GLOBO | ECONOMIA | 26/10/2003
Gigantes e aliados pela própria natureza
Flávia Barbosa eGilberto Scofield
Jr.
Quando 22 países em desenvolvimento, sob a coordenação do Brasil, decidiram
criar em setembro, em Cancún, no México, o G-22, com o objetivo de se opor à
proposta comercial que os países ricos tentam impor, muitos diplomatas
jocosamente chamaram o grupo de uma “festa de pobres”. O tom de galhofa só baixou
quando a diplomacia mundial percebeu que aquele grupo liderado por três países
que reúnem quase a metade da população do planeta — Brasil, China e Índia — não
estava disposto a negociar, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC),
apenas o que os países ricos consideravam prioridade.
De lá para cá, ficou a pergunta: mas afinal, quem são exatamente esses países
que, com exceção de suas dimensões continentais, têm tão pouca coisa em comum?
Ledo engano, dizem os especialistas.
— China, Índia e Brasil têm mais pontos de proximidade do que imaginamos. São
três países em desenvolvimento de grande extensão territorial e com estruturas
produtivas muito diversificadas — diz Carlos Aguiar de Medeiros, professor do
Instituto de Economia da UFRJ. — E, ainda que a China seja uma potência
exportadora, todo o centro de gravidade das decisões governamentais é o
gigantesco mercado interno dos três.
Preocupação é com aumento de renda das populações
De fato, dos cerca de 2,5 bilhões de habitantes dos três países, a maioria se
encontra nas camadas menos favorecidas e, portanto, num mercado consumidor em
potencial caso as políticas adotadas pelos governos criem empregos e renda para
essas populações.
— A preocupação em aumentar a renda da população nesses países é quase uma
obsessão — observa o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de
Moraes.
Não é à toa, desta forma, que os três países sejam o destino de boa parte dos
investimentos globais nos últimos 20 anos. Somente entre 1998 e 2002, a China
recebeu US$ 214 bilhões em investimentos diretos e o Brasil, US$ 132 bilhões.
No caso da Índia, a mais fechada das três economias, o fluxo ainda é pequeno,
mas já deve ultrapassar os US$ 5 bilhões este ano, na esteira da expansão
recorde (em termos mundiais) de setores como telecomunicações e motocicletas.
Medeiros afirma que, ao contrário do que pregam alguns analistas financeiros,
Brasil, China e Índia não dependem da expansão da economia mundial para
conseguir expressivo crescimento interno.
— Países como Irlanda e Taiwan, que possuem um altíssimo peso das suas
exportações nos seus Produtos Internos Brutos (PIBs), dependem que o mundo
cresça para que suas economias cresçam. Mas a característica comum dos países
grandes, como China, Índia e Brasil, é a dependência do crescimento de seu
mercado interno. A China e a Índia mantêm altas taxas de crescimento hoje, num
momento que tanto EUA quanto Europa patinam. E mesmo o pulo das exportações
brasileiras, se diminui os problemas do país, não garante o salto no
crescimento que o país teria se garantisse renda para a sua população — diz.
O peso das exportações no PIB brasileiro é de 13,4%. O da Índia, 6,6%. E o da
China, 22,33%. Enquanto a economia chinesa deve crescer 9% este ano, a indiana
projeta uma alta de 7% e a brasileira, apenas 0,6% — mas o ritmo deve acelerar
a partir de 2004.
Outro ponto em comum é a existência de uma indústria de base forte,
diferentemente de outras nações em desenvolvimento, o que garante matéria-prima
e equipamentos para um crescimento mais acelerado quando estimulado o consumo,
diz o professor.
Juntos, países têm poder de fogo na economia mundial
Também é importante o fato de China, Brasil e Índia contarem com grande
capacidade de financiamento por parte do setor público, o que pode garantir
crédito para o desenvolvimento mesmo em épocas de má vontade dos investidores
estrangeiros. Segundo Luiz Carlos Prado, professor da UFRJ, isso é verdade
mesmo para um Estado endividado como o brasileiro. Basta ver a expansão do setor
nacional de máquinas e equipamentos agrícolas nos últimos anos, que está por
trás do desempenho exemplar do agribusiness verde-e-amarelo.
— Se tivermos políticas industriais seletivas, como algumas tocadas pelo BNDES,
a questão é o melhor uso dos recursos e o estímulo ao investimento privado —
diz.
Armando Castellar, do Ipea, lembra que, unidas, essas vantagens internas são um
trunfo. Mas o poder de fogo será maior se os emergentes entenderem que
negociando entre si aumentarão suas exportações, sua independência e forçarão a
abertura dos mais ricos.
Ação comum na OMC
A união de forças de Brasil, China e Índia — e dos outros membros do G-22 — tem
um foco principal nas conversações da Organização Mundial de Comércio (OMC):
fazer com que a atual rodada de negociação se concentre nos temas comerciais.
Ampliar a discussão para assuntos como propriedade intelectual ou defesa do
meio ambiente, explica Carlos Aguiar de Medeiros, da UFRJ, é tudo que os três
países não querem. Até porque, no atual estágio de desenvolvimento desses
países, a prioridade é conseguir maior abertura comercial e menos subsídios dos
ricos e, em conseqüência, vender mais.
Além disso, pesam especificamente outras estratégias subliminares, até
geopolíticas. A China, por exemplo, busca ganhar mais legitimidade e peso na
OMC para reduzir a oposição a seus planos de anexação de Taiwan, o mesmo
valendo para a Índia em relação à Caxemira. O Brasil, por sua vez, quer mostrar
força e ganhar aliados no seu eterno pleito de entrar como membro permanente do
Conselho de Segurança da ONU. Seria bastante conveniente nos planos de reforma
da ONU ter como aliados dois gigantes do mundo em desenvolvimento — um deles, a
China, membro permanente do Conselho de Segurança.
— Os três países estão unidos por um projeto amplo de longo prazo, que é
econômico e geopolítico. E, a curto prazo, o esforço é evitar uma nova Rodada
do Uruguai (da OMC, em 1994), que não levou a nenhum avanço ou comprometimento
dos países ricos. Prevalece agora a mesma lógica do Brasil com o Mercosul nas
negociações da Alca: em bloco você é mais forte — diz Armando Castellar, do
Ipea.
Também une os três países a cautela em relação às decisões sobre abertura do
mercado de serviços (que engloba compras governamentais, atividades financeiras,
transporte, entre outros) e à proibição da adoção de políticas industriais
seletivas. A diferença de custos ainda é tão grande entre países desenvolvidos
e em desenvolvimento que uma abertura comercial pouco calibrada pode destruir
as empresas nacionais ou expor o setor financeiro a desequilíbrios. (FB e GSJ)
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
OMC registra menos ações de antidumping
A OMC (Organização Mundial do
Comércio) informou, na sexta-feira, que caiu o número de ações antidumping
(medidas que são tomadas para impedir a competição considerada injusta).
Nos primeiros seis meses do ano, um total de 18 países iniciaram 79
investigações antidumping contra exportadores de 30 países. Desse total, 28 são
queixas de países desenvolvidos. O número está abaixo das 149 investigações do
segundo semestre do ano passado e 104 no primeiro semestre.
Os EUA, um dos países que mais usam esse tipo de ação, iniciou 16 casos entre
janeiro e junho neste ano, disse a OMC. O país ficou na primeira posição. Em
segundo lugar, veio a Índia, com 12 investigações. Em terceiro, a China, que
lidera a lista dos alvos das investigações com 12 reclamações, com 11
solicitações.
(DA FOLHA ONLINE)
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
Ex-integrante
denuncia suposto cartel no RS
Com instrumento que
beneficia quem fornecer informações, ex-membro diz que empresas combinavam
licitações
ANDRé
SOLIANI
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASíLIA
Pela primeira vez no país, um integrante de um suposto cartel denunciou a
autoridades públicas detalhes de um esquema montado por um grupo de empresas,
do qual já fez parte, para fraudar licitações, combinar preços e subornar
funcionários públicos.
O suposto cartel foi arquitetado por 18 empresas de segurança privada do Rio
Grande do Sul, segundo informações fornecidas pelos delatores do conluio ao
secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg. Há evidências de que a
atuação do grupo tenha ramificações em outros Estados.
A Folha teve acesso a um resumo das principais acusações contra os empresários,
baseadas em fitas de vídeo e de áudio, documentos e declarações repassadas pelo
empresário do setor Rubem Baz Oreli e por seu funcionário Alexandre Luzardo da
Silva.
Oreli está protegido de qualquer sanção legal, pois assinou um acordo de
leniência com Goldberg e os Ministérios Públicos Estadual e Federal. Esse
instrumento legal, criado em 2000 no país por meio de lei federal, beneficia
com redução ou até isenção de punições quem identificar e fornecer informações
e documentos que comprovem a infração.
Também é requisito que a pessoa envolvida na violação tenha sido a primeira a
se qualificar para o acordo e que colabore até o fim das investigações.
O mecanismo até hoje não havia sido usado no país. Luzardo não teria
participado do cartel.
"Foi graças ao acordo de leniência que obtivemos as informações
necessárias para abrir esse processo", disse Goldberg. Ele afirmou apostar
que o primeiro caso de um suposto cartel denunciado por um integrante do
próprio esquema será um divisor de águas no combate aos crimes contra a ordem
econômica.
Nos Estados Unidos, que começaram a usar com frequência acordos do gênero a
partir de 1997, há 40 casos de cartel que aguardam julgamento. Desses, 20
começaram graças a informações de integrantes do conluio.
Apreensão
O cartel, de acordo com a denúncia, se reunia toda segunda-feira para decidir
as empresas do grupo que ganhariam as licitações e quais seriam os preços apresentados
nas concorrências.
Consta no processo que os empresários discutiam até "subornos a servidores
públicos encarregados da elaboração do edital" nos encontros de
segunda-feira, que aconteciam na sede da Assevirgs (Associação dos Vigilantes
do Rio Grande do Sul).
"O governo federal, aparentemente, foi uma de suas vítimas", disse
Goldberg sobre as principais acusações contra o grupo.
O governo acredita ter reunido indícios de que Edgar Rolim, dono da Rota Sul,
maior empresa do setor na região, chefia o cartel.
A SDE (Secretaria de Direito Econômico),
as polícias Federal, Civil e Militar e membros do Ministério Público do Estado
realizaram, em conjunto, operação de busca e apreensão de documentos e
computadores numa casa usada pela empresa para guardar documentos, em Porto
Alegre, na quinta-feira. A força-tarefa vasculhou ainda locais que pertencem
aos donos de 4 das 18 empresas e 2 sindicatos.
A megaoperação, sigilosa, envolveu cerca de 70 pessoas. Os estabelecimentos
foram invadidos no mesmo horário para evitar que uma empresa pudesse avisar a
outra. O objetivo era evitar a destruição de documentos.
A Seae (Secretaria de Acompanhamento Econômico) já analisou 14 licitações que a
Rota Sul ganhou para prestar serviços a órgãos do Ministério da Fazenda no Rio
Grande do Sul. Há suspeitas de fraudes em quase todas.
As supostas irregularidades coincidem com as descrições de Orelli e Luzardo
sobre a forma de atuação do grupo. Em 13 das 14 concorrências, empresas foram
desclassificadas por apresentar preços acima do permitido pelo edital -sinal de
que teriam entregue propostas sem a intenção de ganhar o contrato.
Em nenhuma das propostas de habilitação havia representante credenciado de
outra empresa além da Rota Sul.
"Embora tenham ocorrido 15 inabilitações nas licitações, não houve sequer
um recurso apresentado por empresa declarada inabilitada", diz o relatório
da Seae. Quando existe concorrência, as empresas inabilitadas para o processo
de escolha normalmente recorrem da decisão.
Como existem cerca de 60 empresas de vigilância no Rio Grande do Sul e só 18
fazem parte do suposto cartel, havia um esquema para impedir a concorrência dos
que não estavam no conluio, de acordo com as acusações.
Advogados, por exemplo, seriam contratados para negociar com os elaboradores
dos editais a inclusão de requisitos adicionais para impedir a entrada de
empresas de fora do grupo.
O processo administrativo contra os integrantes do suposto cartel deverá ser
publicado amanhã no "Diário Oficial" da União.
O Cade (Conselho Administrativo de Defesa
Econômica) julgará o caso com base nas informações e pareceres da
SDE e da Seae assim que os receber. Se consideradas culpadas, as empresas podem
pagar multa de 1% a 30% do faturamento bruto do ano passado, além de sofrer
outras penas.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
Empresas estudam ação na Justiça por danos morais
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
As empresas nas quais houve busca e apreensão na última sexta-feira negam as
acusações e estudam entrar com um processo por danos morais contra as
autoridades públicas, segundo o advogado Antônio Dionísio Lopes, da Assevirgs
(Associação dos Vigilantes do Rio Grande do Sul).
"Nós vamos tomar todas as medidas necessárias, inclusive para apurar dano
moral", disse Lopes, que afirmou falar em nome das empresas.
O advogado disse que não poderia comentar as acusações contra as empresas
porque o acesso aos autos da investigação e do processo teria sido negado. No
entanto, negou qualquer acusação sobre possíveis reuniões na associação para
formar um cartel.
A Folha procurou dirigentes de todas as quatro empresas nas quais houve
operações de busca e apreensão. Conseguiu entrar em contato apenas com o dono
da Protege, Airton Rolim. Para os demais, deixou recados, que não foram
respondidos.
Airton Rolim frisou que a sua empresa não é a mesma que atua em São Paulo.
A Folha telefonou quatro vezes para Edgar Rolim, dono da Rota Sul, que, segundo
as acusações, chefiaria o cartel, mas ele não ligou de volta. (AS)
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
SDE fecha o 1º acordo da história
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
O secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg, 27, conseguiu fechar o
primeiro acordo de leniência da história do país. Nesse acordo, um integrante
de um cartel entrega todo o esquema de crimes em troca de reduções ou anulação
das penas.
Em entrevista à Folha, Goldberg faz um alerta aos empresários que organizam
cartéis: "Quem está negociando cartéis deve saber que há uma corrida para
ver quem toca primeiro o sino da SDE [Secretaria
de Direito Econômico]". Ele negocia no momento mais dois
acordos. (AS)
Folha - Qual a importância do primeiro acordo de leniência?
Daniel Goldberg - Para poder desbaratar cartéis, a SDE não precisa investigar
confidencialmente todos os setores. Muitas vezes ela contará com a ajuda de
aliados dentro do próprio cartel. Isso cria um elemento de instabilidade dentro
do esquema. No primeiro semestre, a SDE se dedicou a explicar e mostrar para o
mercado que os cartéis correm o sério risco de estarem sendo investigados em
caráter confidencial.
Agora, no segundo semestre, a secretaria se dedica a mostrar para os cartéis
que mesmo os organizadores, que estão nas salas de reunião estabelecendo os
mecanismos pelos quais o cartel opera, não têm certeza se o próprio negociador
é colaborador da SDE.
Folha - Desde 2000 existe a figura jurídica da leniência. Por que só agora saiu
o primeiro acordo?
Goldberg - O primeiro segredo para implementação do acordo é o sigilo absoluto
e a desburocratização da negociação. O segundo elemento crucial foi a
colaboração dos ministérios públicos Estadual e Federal, que também assinaram o
acordo. O promotor estadual, Frederico Scheneider, nos trouxe o informante.
Folha - Quais são os próximos passos para a SDE se tornar mais ativa no combate
aos cartéis?
Goldberg - O que a SDE tentou fazer nos últimos dez meses foi criar dois
núcleos indispensáveis para um órgão que se pretende uma autoridade de concorrência.
Primeiro foi um centro de inteligência comercial, que conta com técnicos da SDE
e delegados da Polícia Federal. O
segundo é um centro de métodos quantitativos, que usa modelos econométricos
sofisticados. E, para isso, contamos com a ajuda do Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada). As duas estruturas não existiam até o ano passado.
Folha - Quantos cartéis já foram condenados no país até hoje?
Goldberg - Na história existem cinco condenações.
Folha - Qualquer participante de um cartel pode denunciá-lo?
Goldberg - O primeiro requisito é ser o primeiro a chegar. Quem está negociando
cartéis deve saber que há um corrida para ver quem toca primeiro o sino da SDE.
O segundo requisito é o denunciante não ser o organizador do cartel.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
Delator diz ter sofrido atentado
DA SUCURSAL DE BRASíLIA
O ex-integrante do suposto cartel de empresas de segurança privada, Rubem Baz
Oreli, e seu funcionário Alexandre Luzardo da Silva afirmam que sofreram
atentados depois de denunciar o esquema para fraudar as licitações do seu
Estado.
Oreli enviou à Folha um fax com um boletim de ocorrência, datado de 30 de julho
de 2002, um dia depois de fazer a primeira denúncia sobre o cartel à imprensa
local. No boletim está registrado que Oreli, hoje dono da empresa de vigilância
Antares, recebia telefonemas anônimos com ameaças de morte.
Segundo o empresário, seu carro já foi alvejado. "No ano passado, sofri
três visitas na tentativa de intimidação à força, para matar", diz Oreli.
Luzardo afirma ter enfrentado o mesmo tipo de problema. Mesmo com as ameaças,
os dois preferiram recusar a segurança oferecida pela SDE (Secretaria de Direito Econômico).
"Eu uso o meu esquema de segurança, nada do governo", disse Luzardo.
Segundo ele, seria preciso mudar todo o seu estilo de vida caso aceitasse a
proteção do Estado. A última vez que Oreli teria participado como membro do
cartel foi em junho de 1994, quando era encarregado de uma empresa em Porto
Alegre. Ele comprou a Antares em 2000.
Entre as ameaças, Oreli e Luzardo receberam convites para voltar a integrar o
cartel. "Fui chamado para a mesa. Ninguém fala em cartel, é proibido a
palavra cartel. Eles falam em ir à mesa."
Segundo Luzardo, os participantes do cartel tentavam convencê-los a se retirar
de licitações e prometiam benefícios caso voltassem para "a mesa".
Oreli afirma que resolveu delatar o esquema de fraudes porque não conseguia
mais trabalhar. Antes de comprar a Antares, o ex-integrante teve uma outra
empresa, que faliu. "Eu tinha montado uma antes, e o cartel conseguiu me
fechar", diz ele.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
Justiça suspende decisões do Cade
DA
REDAçãO
As maiores condenações por crime contra a ordem econômica no Brasil estão
suspensas por decisões judiciais.
Em 1999 o Cade anunciou aquela que é considerada a primeira condenação contra
um suposto cartel no país.
As siderúrgicas Usiminas, CSN e Cosipa teriam combinado um reajuste simultâneo
nos preços de aço plano comum.
Uma reunião na sede da Seae (Secretaria de Acompanhamento Econômico), na qual
representantes das empresas comunicaram ao governo, em conjunto, os índices dos
reajustes, foi uma das evidências arroladas no processo para provar a
cartelização -o acerto de preços comuns por concorrentes é proibido.
As empresas receberam a multa administrativa mínima prevista, de 1% do
faturamento bruto no ano anterior ao início do processo. O total chegou a cerca
de R$ 51 milhões. A Usiminas e a Cosipa ainda sofreram multa adicional de R$
3,5 milhões cada uma por terem prestado informações consideradas enganosas no
processo.
As empresas negaram o acordo e recorreram à Justiça. O processo judicial está
em andamento.
Também em 1999, o Cade editou resolução que detalha as infrações contra a ordem
econômica e contém uma espécie de manual para as investigações.
Em 2000, uma lei ampliou os poderes de investigação e instituiu o acordo de
leniência. Um setor que tem concentrado ações é o de postos de gasolina.
Mais de cem processos estão em andamento na SDE. Em março, oito postos e o
sindicato de Florianópolis foram condenados por cartelização. Segundo o Cade,
eles uniformizavam os preços sempre que havia reajuste. O sindicato teria que
pagar R$ 400 mil, e cada um dos postos, 10% do faturamento bruto. A decisão
também foi suspensa pela Justiça.
Três meses depois, o Cade puniu o sindicato dos postos de combustíveis de
Goiás. O presidente do Sindiposto-GO, José Batista Neto, teria recomendado a
adoção de uma mesma margem na taxa de lucro (de 15%) nos postos de Goiânia
-cidade na qual 90% dos postos são filiados ao sindicato. A entidade foi
multada em R$ 190 mil e impedida de parcelar tributos federais e de receber
incentivos fiscais. Segundo o Cade, não há decisão judicial contra essa
decisão.
As empresas Eisa e Marítima foram multadas em junho de 2001 por terem
supostamente assinado um acordo no qual fixavam indenização para o perdedor da
concorrência. Segundo o conselho, elas falsearam a livre concorrência e
ajustaram vantagens na concorrência. Recorreram à Justiça.
Na área da saúde, diversas associações têm impedido a concorrência ao exigir
exclusividade na prestação de serviços médicos. Duas cooperativas, a Unimed
Araçatuba e a Unimed Presidente Prudente, foram condenadas e recorreram à
Justiça.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
FRASES
No ano passado sofri três visitas
na tentativa de intimidação à força, para matar
Fui chamado para a mesa. Ninguém fala em cartel, é proibido a palavra cartel.
Eles falam em ir à mesa
RUBEM BAZ ORELI
ex-membro do suposto cartel do ramo de segurança
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
Planos de Lula para integrar continente preocupam ONGs
RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL
Sigla relativamente desconhecida no Brasil, a Iirsa, um ambicioso projeto de
integração latino-americana que prevê 22 grandes obras de infra-estrutura
envolvendo 12 países, é um novo foco de críticas de ONGs contrárias à política
ambiental do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Enquanto o PPA (Plano Plurianual) é uma ficção orçamentária, cuja execução o
próprio governo já admite rever, obras ecologicamente polêmicas assumidas como
prioridades na Iirsa, como a hidrovia Paraguai-Paraná e o complexo de
hidrelétricas e eclusas do rio Madeira em Rondônia, são abertamente defendidas
por integrantes do primeiro escalão do governo, como o presidente do BNDES
(Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Carlos Lessa, e o
assessor especial de Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia.
"Coerentemente, aqueles que querem preservar o meio ambiente como absoluto
deviam ser consequentes e propor o genocídio. Por quê? Porque a única forma de
ter um meio ambiente amável, bem tratado, bem cuidado, preservado e sustentável
é dando uma condição de vida digna para todas as pessoas, para o bicho homem,
que faz parte da natureza. Eu não resisto muito a sublinhar isso, porque é
evidente que uma estrada que está encascalhada deve ser asfaltada, ou então
dinamitada, e devem ser colocadas trincheiras, com minas, para destruir
qualquer bicho homem que ouse penetrar naquele espaço", declarou Lessa no
encerramento do seminário que marcou o comprometimento do governo Lula com a
Iirsa, de 5 a 8 de agosto último, na sede do banco, no Rio de Janeiro.
"Pelo que eu estive conversando, praticamente todos os 22 projetos já têm
as autorizações de meio ambiente, as avaliações de impacto ambiental. Vamos
estar prontos para seguir em frente", adiantou Lessa, que comparou algumas
obras à "conquista do Velho Oeste americano".
Amanhã, em Brasília, 40 ONGs (Organizações Não Governamentais) estarão reunidas
para debater a Iirsa (Integração da Infra-estrutura Regional da América do Sul)
e estudar providências contra as obras mais polêmicas.
"O próprio discurso de Lula sobre a Amazônia traz, na essência, o que diz
o presidente do BNDES. A idéia de que a Amazônia deve ser "ocupada",
ter seus "vazios preenchidos", nos remete ao regime militar. Nós
precisamos de outras lógicas", disse o biólogo Alcides Faria, 50,
secretário-geral da Rios Vivos, uma coalizão de 400 ONGs da América do Sul,
Europa e Estados Unidos, incluindo a Fundação SOS Mata Atlântica e a Amigos da
Terra, que organiza o debate de amanhã em Brasília.
Em sua participação no seminário do Rio, Marco Aurélio Garcia confirmou o
empenho de Lula para que as obras do Iirsa saiam do papel. "O presidente
Lula deposita grande esperança e expectativa em relação a esse evento",
disse Garcia, situando o encontro como chave para a estratégia política de Lula
para o continente. Ele relacionou a integração física latino-americana ao
próprio sucesso da região das negociações na Alca (área de Livre Comércio das
Américas) e na União Européia: "Todos esses cenários [negociações] terão
desfechos de um ou de outro tipo, dependendo da nossa capacidade de
unidade".
O ministro interino do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Fortes de
Almeida, foi mais direto: "Quero alertar: nas negociações da Alca um dos
itens que mais é discutido pelos norte-americanos é o acesso a serviços de
engenharia, algo que estamos discutindo nessa mesa aqui. Ou nos unimos todos e
vamos desenvolver nossas empresas, nossas grandes construtoras, ou pela
negociação da Alca daqui a pouco veremos que outros estarão fazendo essas
coisas".
Os projetos da Iirsa estão sendo analisados por BNDES, BID (Banco
Interamericano de Desenvolvimento), CAF (Corporação Andina de Fomento) -uma
espécie de banco de desenvolvimento do bloco andino cujo caixa é formado por 16
países, incluindo o Brasil- e Fonplata (Fundo Financeiro para Desenvolvimento
da Bacia do Prata). Não há número fechado sobre o custo total dessas obras. O
complexo do rio Madeira custaria US$ 5,5 bilhões somente no trecho brasileiro.
O projeto da hidrovia Paraguai-Paraná prevê US$ 80 milhões iniciais. Também não
foi divulgado o valor que o BNDES pretende investir em cada obra.
A criação formal da Iirsa data de setembro de 2000, num encontro de presidentes
de 12 países latino-americanos ocorrido em Brasília e presidido por Fernando
Henrique Cardoso. O projeto todo prevê 12 eixos de integração. Com o governo
Lula, "CAF/BNDES nunca antes haviam trabalhado tão intensamente",
segundo o vice-presidente corporativo da CAF, Antonio Juan Sosa.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 26/10/2003
Europa acena com a redução de subsídios
DA
REDAçãO
A ministra alemã da Agricultura, Renate Künast, 47, afirma que a União Européia
está pronta para fazer concessões na questão dos subsídios agrícolas. Para
Künast, houve uma grande oportunidade perdida em Cancún, na reunião ministerial
da OMC (Organização Mundial do Comércio).
"Naquela ocasião, em vez de só fazer exigências, alguns parceiros ainda
não estavam dispostos a negociar verdadeiramente", diz, sem citar nenhum
um país.
Segundo a ministra, não é possível saber se a liberalização da soja transgênica
no Brasil afetaria as exportações do país para a Europa. Mas diz que os
europeus são céticos em relação aos produtos modificados geneticamente.
Folha - Apesar das dificuldades, as negociações para a formação de uma área de
livre comércio nas Américas estão num estágio mais avançado que as conversas
entre Mercosul e UE. Por quê?
Renate Künast - O fracasso de Cancún traz graves consequências para os dois
processos de negociação, pois em ambos os casos a questão de subsídios
agrícolas desempenha um papel decisivo. Além disso, no âmbito da Alca deverá
ser negociada também a questão das regras do antidumping americano, o que será
certamente muito difícil.
As negociações entre a UE e o Mercosul ultrapassam questões comerciais.
Trata-se da configuração do diálogo político e da cooperação para o
desenvolvimento. O capítulo do acordo de associação está praticamente
encerrado. Para o comércio, a UE já apresentou abrangentes ofertas para todos
os setores. Já o Mercosul está em dívida com alguns setores.
Folha - No Brasil, existe a impressão de que a Alemanha e outros países parecem
concentrar grandes esforços na integração do continente europeu e na
aproximação com o mercado asiático, mas tem pouco interesse na América Latina.
Essa sensação está errada?
Künast - O intenso intercâmbio comercial entre a Alemanha, Europa e América do
Sul comprova justamente o contrário. Claro que as relações econômicas dentro da
UE e com nossos vizinhos da Europa Central e do Leste são mais estreitas. Isso
não significa falta de interesse pela América Latina, mas se deve às condições
geográficas, históricas e econômicas. Até a América do Sul está buscando
alianças regionais. Isso é normal.
Folha - O governo brasileiro liberou o plantio da soja transgênica na safra
2003/ 2004. Um projeto de lei que está sendo elaborado pode tornar a liberação
definitiva. A Alemanha continuaria importando soja do país? Caso ocorra a
liberação, quais seriam as consequências para o país no mercado europeu?
Künast - Se houver uma liberação, a Alemanha poderá importar grãos de soja
transgênica do Brasil. A UE tem por norma que rações e alimentos transgênicos
precisam ser identificados e etiquetados como modificados geneticamente. Os
consumidores podem decidir se querem consumir produtos transgênicos ou não. Não
posso prever as repercussões que poderia haver sobre as exportações
brasileiras. Mas o ceticismo com relação a alimentos transgênicos é muito
divulgado em toda a Europa.
Folha - Subsídios agrícolas distorcem os mercados, causam superprodução, afetam
a formação de preços e destroem a competitividade de países em desenvolvimento,
que perdem, assim, um importante fator de geração de renda. Quando os ricos
deixarão de lado as questões políticas e abrirão seus mercados para os produtos
agrícolas de países como o Brasil?
Künast - A redução de subsídios agrícolas é uma questão central da rodada
mundial de comércio. Infelizmente não há respostas muito fáceis, tal como
sugeridas na pergunta. O assunto é bastante complexo. A UE acabou de reformular
sua política agrícola e está em condições de oferecer amplas concessões nas
negociações da OMC. Sou da opinião que se perdeu uma oportunidade em Cancún.
Naquela ocasião, em vez de só fazer exigências, alguns parceiros ainda não
estavam dispostos a negociar verdadeiramente.
FOLHA DE S. PAULO | BRASIL | 26/10/2003
Lula não
administrará sonhos, diz Aznar
Espanhol, que virá ao
Brasil na terça, diz que seu país "fez o que tinha que fazer" na
guerra do Iraque
CLóVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A MADRI
O presidente do governo espanhol, José María Aznar, chega na terça-feira ao
Brasil com uma visão profundamente pragmática do que será o governo Luiz Inácio
Lula da Silva:
"Quando alguém chega à Presidência, seja na Espanha, seja no Brasil, seja
em qualquer país, tem que administrar a realidade. Não administrará sonhos.
Pode criá-los. Não administrará utopias. Pode pensá-las".
Aznar acha que essa é a orientação de Lula, com o qual o governante espanhol se
reunirá na quarta-feira, para levar adiante a idéia de "relações
estratégicas" entre Brasil e Espanha, definidas na visita que o mandatário
brasileiro fez a Madri em julho.
Não tão estratégicas, no entanto, para que Aznar anuncie, desde já, apoio à
pretensão brasileira de ocupar um posto permanente no Conselho de Segurança das
Nações Unidas.
Nem para defender a eliminação ou ao menos a redução do protecionismo agrícola
europeu, reivindicação permanente do Brasil e do Mercosul.
Cauteloso, Aznar naturalmente resvala para a evasiva quando se trata de
analisar situações como a da Argentina, país em que o governo está em rota de
colisão com as empresas espanholas, ou a da Bolívia, que acaba de mudar de
presidente pelo grito das ruas.
Mesmo assim, o presidente do governo espanhol (mais habitualmente tratado, no
Brasil, como primeiro-ministro) deixa claro que seu entusiasmo por Lula é bem
diferente do que o que sente pela Argentina e do que o seu temor de que haja
retrocesso democrático na Bolívia.
Aznar é dono de um ato raro, quase inédito no mundo político: aposentou-se da
política apesar de muito jovem (50 anos), de estar apenas no seu segundo
mandato (o parlamentarismo permite infinitas reeleições) e de as pesquisas
indicarem que ganharia facilmente um terceiro mandato nas eleições gerais já
marcadas para março.
"Lideranças excessivamente prolongadas podem resultar, ao final,
perturbadoras. às vezes, é mais fácil chegar que sair, mas como há que sair, é
preciso procurar sair bem", disse à Folha, em entrevista no Palácio de la
Moncloa, a sede do governo, depois da reunião habitual do gabinete das sextas-feiras
e antes de almoçar com Colin Powell, o secretário norte-americano de Estado.
Veja trechos da entrevista:
Folha - O senhor estará quarta-feira em Brasília certamente para dar andamento
às "relações estratégicas" com o Brasil. O que isso significa
concretamente, se o próprio presidente Lula já definiu como
"extraordinárias" as relações Brasil-Espanha?
José María Aznar - As relações Espanha-Brasil neste momento são de fato de
forte confiança política. A Espanha é o segundo maior investidor do mundo no
Brasil e, portanto, as relações se desenvolvem em um âmbito de profunda
inter-relacionamento econômico. Nosso comércio é crescente, e desejamos
fortalecê-lo em todos os aspectos.
Dar conteúdo estratégico ao relacionamento significa o compromisso de trabalhar
conjuntamente não só do ponto de vista bilateral, mas também do ponto de vista
geral. Trabalhar conjuntamente nas Nações Unidas, nas relações da União
Européia com o Brasil e especialmente com o Mercosul. Trabalhar conjuntamente
no âmbito da comunidade sul-americana e estreitar ainda mais nossos contatos
políticos e nossa relação econômica e comercial.
Folha - Trabalhar conjuntamente significa que a Espanha apoiaria a candidatura
do Brasil a um posto permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas?
Aznar - Significa que temos que falar disso, evidentemente, e que nós
consideramos que a aspiração do Brasil é absolutamente lógica. Estamos
iniciando um processo de reforma da ONU. Falei anteontem [quarta-feira] com o
secretário-geral Kofi Annan sobre esse processo, que vai começar em novembro e
durar um tempo.
é preciso ser consciente da necessidade de reformar a organização. Não somente
o Conselho de Segurança, não somente a Assembléia Geral, mas também as agências
que a ONU tem.
Em consequência, é preciso ver como fica desenhada a organização com vistas ao
futuro. Não vai ser uma tarefa fácil e, portanto, não é uma questão apenas de
apoios. é preciso ver se se aumentam os membros permanentes do Conselho de
Segurança, o que acontece com o direito de veto, como se refletem os pesos
geográficos. São questões enormemente delicadas. O que é preciso é abordá-las
conjuntamente.
Folha - Trabalhar conjuntamente significa que a Espanha defenderia uma redução
do protecionismo agrícola europeu, como pedem o Brasil e o Mercosul?
Aznar - Sou partidário declarado do livre comércio. Creio que favorece
especialmente os países menos desenvolvidos. Então, não creio que tenha sido
bom o que aconteceu em Cancún, na reunião da OMC [Organização Mundial do
Comércio]. Não foi bom especialmente para os países em vias de desenvolvimento.
Por quê? Porque as possibilidades que havia para aumentar o livre comércio não
foram aproveitadas. Não foi um bom resultado, mas pode-se recuperar isso. As
últimas reuniões entre União Européia e Mercosul estão avançando em terreno
positivo.
Em consequência, há obrigações para as duas partes. é preciso estabelecer
marcos muito claros para investimentos, comércio, para a segurança jurídica,
para a segurança institucional nos países. Há que cumprir regras de bom governo
e de transparência, de confiança. E, ao mesmo tempo, evidentemente, há que
favorecer tudo o que diz respeito ao livre comércio, não só em mercadorias, mas
também em serviços.
Folha - Os pontos que o sr. menciona foram, na essência, os que causaram o
confronto em Cancún e levaram a reunião ao fracasso...
Aznar - Por isso é que é preciso preparar bem e com antecipação essas coisas.
Por isso, a relação estratégica significa falar de confiança em todas essas
questões porque provavelmente, antes de Cancún, não se falou o suficiente de
muitas delas.
Folha - Mas sobre o protecionismo agrícola europeu já se falou bastante e, no
entanto...
Aznar - Mas veja que a reforma da Política Agrícola Comum [da União Européia]
abriu importantes possibilidades. Temos que aproveitar essas possibilidades.
Haverá quem pense que não é suficiente. Mas sobre o que é possível -e nisso
consiste a política-, há que aproveitar.
Folha - As relações entre empresas e o governo espanhol e o Brasil parecem
viver momento bem diferente das relações entre a Argentina e a Espanha,
empresas e governo, bem mais conflituosas. é isso mesmo?
Aznar - As relações Brasil-Argentina são muito importantes, e a Espanha é o
principal investidor tanto no Brasil c omo na Argentina. é evidente que a
Argentina teve uma crise brutal da qual felizmente vai saindo.
A Espanha contribuiu de uma maneira muito intensa para os acordos entre a
Argentina e o Fundo Monetário Internacional. A Espanha fez concessões muito
importantes para que a Argentina pudesse sair da crise.
O que nós desejamos é um marco político e econômico de estabilidade na
Argentina, para que as empresas espanholas e outras empresas possam tomar as
decisões de investimento que lhes pareçam oportunas.
O mesmo, evidentemente, se aplica ao Brasil. Sempre há dificuldades, mas há
grande confiança espanhola no futuro do Brasil. Marcos estáveis são importantes
para garantir segurança porque todos os países necessitam gerar confiança e
necessitam investimentos externos. Os países que conseguem mais desenvolvimento
são os países que são capazes de gerar essa maior confiança.
Folha - Lula o surpreendeu ao gerar marcos estáveis?
Aznar - Quando alguém chega à Presidência, seja na Espanha, seja no Brasil,
seja em qualquer país, tem que administrar a realidade. Não administrará
sonhos. Pode criá-los. Não administrará utopias. Pode pensá-las.
Mas, sobretudo, tem que melhorar a realidade. Essa é a nossa obrigação. Ao
final do mandato, a prova por que tem que passar um homem de governo é a
seguinte: encontrei um país em tais e tais condições. Deixo um país nestas e
nestas condições. Se são melhores, a obrigação foi cumprida.
Vejo que a orientação do presidente Lula é essa, do ponto de vista da geração
de confiança no Brasil e das reformas que o país possa necessitar.
Folha - O sr. manteve boas relações com o presidente Fernando Henrique
Cardoso...
Aznar - Ainda mantenho.
Folha - O presidente Fernando Henrique era mais muito próximo do Partido
Socialista Operário Espanhol, seu adversário. Agora, o sr. mantém também boas
relações com o presidente Lula que, no entanto, era um crítico duro do
presidente Fernando Henrique. Sei que o sr. dirá que relações de Estado são
diferentes de relações pessoais, mas não há nesses fatos uma aproximação ao
centro dos diferentes governantes?
Aznar - Todos os componentes dos preconceitos ideológicos, desde que caiu o
Muro de Berlim, se diluíram. Não significa, como alguns pensam, o pensamento
único. Quer dizer que os matizes, as diferentes orientações que possa haver,
podem encontrar pontos de confluência. Há pontos de confluência muito
importantes neste momento que são dificilmente contestáveis: eficácia da
economia de mercado, da estabilidade econômica como motor do crescimento,
estabilidade econômica como fator de confiança internacional, manter contas
públicas saneadas.
Folha - Uma evidente divergência entre o sr. e o presidente Lula é a respeito
do multilateralismo e do suposto ou real unilateralismo norte-americano. A
Espanha foi um dos poucos países que apoiou firmemente a intervenção no Iraque.
Depois de tanto se falar de armas de destruição em massa, que não foram
encontradas, o sr. não se arrepende um pouco?
Aznar - A Espanha fez o que tinha que fazer. E o fez por convicção, porque
somos partidários da legalidade internacional e de que ela seja respeitada.
Quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas diz a um país que tem a última
oportunidade de demonstrar que não possui armas de destruição em massa e esse
país não o faz, devem ser tomadas as decisões que correspondam.
Isso não significa que as decisões sejam cômodas. Sempre digo que, primeiro,
mantenho uma posição de respeito à legalidade internacional. Segundo, que todos
estamos de acordo sobre quais são as três ameaças diretas à segurança do mundo:
o terrorismo -a principal-, a proliferação de armas e Estados que não cumprem a
lei.
Terceiro, do ponto de vista da segurança e da estabilidade no mundo, os Estados
Unidos, com todos os seus problemas, são a única alternativa neste momento.
Essa é a realidade.
Sou firme partidário da relação atlântica [entre Europa e Estados Unidos]. Mas
sou também firme partidário de estender essa relação atlântica a toda a
América, porque o mundo seria, com isso, mais estável e mais seguro.
Folha - Que tipo de apoio vai dar a Espanha ao programa Fome Zero do presidente
Lula?
Aznar - São coisas que podemos concretizar durante minha viagem ao Brasil. é um
programa muito ambicioso, muito interessante, e espero e desejo que possamos
concretizar o que estiver ao nosso alcance.
Levo propostas que, neste momento, estamos discutindo com o governo do Brasil.
Como não depende só de mim, mas também do governo brasileiro, vamos ver como se
materializa.
Folha - Com a desaceleração econômica em todo o mundo, as empresas espanholas
estão mais temerosas de investir na América Latina, ainda uma zona de risco?
Aznar - Não. Continuamos investindo. Dou-lhe um dado: de 1990 a 1995, a Espanha
investiu na América Latina creio que US$ 5 bilhões. De 1996 a 2001, a Espanha
investiu US$ 105 bilhões. O investimento acumulado da Espanha no Brasil supera
neste momento os US$ 25 bilhões. é o segundo investidor, após os Estados
Unidos.
O que acontece é que o investimento espanhol também se espalha por outros
países. Já somos o quinto ou sexto maior investidor do mundo. Essa é a
realidade, e nós continuamos confiando. O que me preocupa é que não ocorra na
América Latina nenhum retrocesso democrático.
Folha - O sr. acha que o que ocorreu na Bolívia caracteriza algum tipo de
retrocesso democrático?
Aznar - Acredito sinceramente que, em todas as mudanças que se façam, devem ser
respeitados os procedimentos e as regras. O que me preocupa agora é que a
democracia boliviana não seja de modo algum danificada.
Folha - Por que retirar-se da política tão jovem, com popularidade alta e com
grandes possibilidades de obter uma terceira vitória consecutiva?
Aznar - é uma questão de convicção pessoal. Creio que os mandatos devem ter
limites razoáveis e, se não existem legalmente, eu me decido por ele
pessoalmente.
Creio que a força dos países é dada pela força das instituições e das
organizações representativas. Lideranças excessivamente prolongadas podem
resultar, ao final, perturbadoras. Creio que é o melhor que posso fazer por meu
país e por meu partido. E o faço. às vezes, é mais fácil chegar que sair, mas
como há que sair, é preciso procurar sair bem.
O ESTADO DE S. PAULO | NOTAS E INFORMAÇÕES | 26/10/2003
Mais uma arma contra o livre comércio
Exportadores de alimentos de todo
o mundo enfrentarão mais uma formidável barreira para entrar no mercado
americano. Mais uma vez a eficiência e a competitividade serão neutralizadas
por uma imposição unilateral. Quem não se adaptar às condições da Lei do
Bioterrorismo, sancionada em 12 de junho do ano passado pelo presidente George
W. Bush, terá seus produtos impedidos de entrar nos Estados Unidos a partir de
12 de dezembro. A regulamentação da lei foi divulgada no dia 12 de outubro e os
exportadores têm agora menos de dois meses para se preparar. Os mais
prejudicados serão, se nenhuma novidade aparecer, os produtores e exportadores
das economias em desenvolvimento, como a brasileira. São os que dispõem de
menos recursos para enfrentar os custos criados pela nova lei.
Quem quiser exportar para os Estados Unidos terá de se cadastrar na Food and
Drug Administration (FDA), o organismo que trata da segurança alimentar e da
regulamentação de produtos farmacêuticos. Será obrigado a manter um agente ou
representante residente nos Estados Unidos, que será responsável pelos
produtos. Deverá, além disso, fornecer informações detalhadas sobre a cadeia de
produção de cada mercadoria e preparar, para cada embarque, uma notificação que
terá de chegar à FDA entre cinco dias antes e o meio-dia do dia anterior ao da
chegada do carregamento.
O governo americano cobrará informações não apenas sobre o produto exportado,
mas também sobre os fornecedores de insumos.
Com o pretexto de proteger os consumidores contra ações terroristas, o governo
americano cobrará dos produtores e exportadores um número absurdo de
informações e imporá a cada um enormes dificuldades burocráticas e logísticas.
A lei estabelece até a possibilidade de apreensão da mercadoria, sem
indenização, se os fiscais concluírem que se trata de produto perigoso para a
saúde humana, animal ou vegetal.
Seja qual for a motivação real por trás dessa lei, os produtores americanos
sujeitos à concorrência estrangeira devem estar comemorando. Com essa
iniciativa, escudada na política de segurança nacional, os agricultores dos
Estados Unidos ganham mais uma barreira protetora, que se adiciona a vários
outros fatores de distorção: cotas, sobretaxas e regras fitossanitárias, além
de fartos subsídios que deprimem os preços internacionais.
"A lei é uma resposta exacerbada aos ataques de 11 de setembro",
disse numa entrevista à Agência Estado o economista Benedito Rosa do Espírito
Santo, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e atual
representante do Instituto Interamericano de Cooperação para Agricultura da
OEA. Apesar de ser um exagero, essa lei, em sua avaliação, não conflita com as
normas internacionais de comércio. É a opinião, também, de advogados ouvidos
pela reportagem.
Pelas informações de que se dispõe até agora, os produtores e exportadores
brasileiros não têm escolha. Devem ajustar-se às condições impostas pela nova
lei, se quiserem continuar vendendo aos Estados Unidos. E é bom que procurem,
para isso, organizar-se e obter aconselhamento legal que os ajude a proceder
com a máxima segurança.
Isso não exclui a obrigação do governo brasileiro, se possível em articulação
com parceiros do Mercosul e de outras áreas, de buscar fórmulas que possam
atenuar as dificuldades.
No mínimo, será preciso manter uma firme vigilância para impedir, na medida do
possível, que a Lei do Bioterrorismo seja utilizada de forma discriminatória,
como instrumento de pressão comercial ou diplomática.
A nova lei é uma arma poderosa na cintura dos americanos, comentou numa
entrevista o economista Décio Zylberstajn, professor da USP e um dos
responsáveis pelo Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial
(Pensa). Não há nenhuma garantia, em princípio, de que essa arma não seja usada
de forma truculenta, até porque a própria lei já é uma arrogante exibição de
poder imperial.
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 26/10/2003
Agências vão
elevar nota do País, diz Canuto
Secretário conclui estudo
no qual indica o que o Brasil precisa fazer para melhorar sua avaliação
LU AIKO OTTA e ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA - O Brasil está na trilha de subir na classificação das agências de
risco. "Estamos na direção da melhora", disse ao Estado o secretário
de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Otaviano Canuto. Os bons
resultados já colhidos no campo macroeconômico, junto com os primeiros sinais
de retomada do crescimento a partir de 2004, apontam para essa direção.
No entanto, a melhora na classificação depende de avanços em outros campos,
como a melhora no perfil da dívida pública e o aumento do fluxo de comércio
exterior. Nesse sentido, a chave está na conclusão das negociações comerciais.
"O aumento da corrente de comércio não é algo que perseguimos para agradar
aos mercados", afirmou o secretário. "É algo que traz benefícios ao
País por si só." Canuto concluiu, na semana passada, o estudo "Risco
Soberano e Prêmios de Risco em Economias Emergentes", o primeiro da série
"Temas da Economia Internacional". O texto procura explicar o que
influencia o julgamento das agências e, dessa forma, identificar onde o País
ainda precisa melhorar para obter uma melhor avaliação. O próximo estudo da
série vai explorar os possíveis impactos da formação da Área de Livre Comércio
das Américas (Alca) na economia brasileira.
De acordo com o estudo, as agências avaliadoras de risco levam em conta
principalmente quatro fatores: o tamanho da dívida pública em comparação com o
Produto Interno Bruto (PIB), o tamanho da dívida externa em comparação com o
ingresso de recursos do exterior, corrente de comércio em comparação com o PIB
e taxa de crescimento do PIB. São todos dados que, no entendimento das
agências, ajudam a medir o risco soberano, ou seja, o perigo de um determinado
país aplicar o calote em seus credores.
Também pesam na avaliação fatores objetivos como o tamanho da renda per capita
e o volume de crédito ao setor privado, até fatores como o risco de
instabilidade política. "Na avaliação de risco, há um grau de
subjetividade, mas há um conjunto básico de indicadores que em grande parte
explica por que o Brasil está em determinada faixa", disse Canuto.
O texto informa, ainda, que a melhora desses indicadores reflete uma economia
mais saudável no que diz respeito aos fundamentos macroeconômicos.
No entanto, é necessário avançar no conjunto dos indicadores, pouco adiantando
progredir em itens isolados.
Apesar da convicção de que o Brasil está no caminho certo, Canuto reconhece que
a melhora na classificação de risco pode ainda levar algum tempo. Sair do clube
dos países de risco especulativo para a elite dos países investment grade
(nível de investimento) dará ainda mais trabalho. "Temos de persistir em
todas as frentes, inclusive no aumento da corrente de comércio", afirmou o
secretário. "Se todos os acordos comerciais prosperarem, serão uma fonte
de contribuição importante." A melhora na classificação do Brasil, porém,
vem sendo aguardada pelos analistas de mercado desde o início deste mês porque
a Rússia, saída de uma moratória decretada em 1998, virou investment grade.
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 26/10/2003
Agências: da água para o vinho, mas...
No final de setembro, o governo
submeteu à consulta pública um projeto de lei que subordinaria as agências
reguladoras ao Poder Executivo, nos termos de um contrato de gestão. Em
seguida, provavelmente por causa das severas críticas à proposta, foi divulgado
relatório de grupo de trabalho que examinou o assunto, em que se reconhece a
importância da autonomia das agências e se realiza impecável análise do seu
papel, recorrendo à mais atualizada literatura sobre regulação de mercados.
A diferença entre os dois textos é enorme, mas alguns defeitos do primeiro
ficaram, principalmente o contrato de gestão, que não se concilia com o
princípio da autonomia, eis que as agências são órgãos do Estado (e não do
governo). O contrato serviria para (1) compatibilizar as atividades
regulatórias com as políticas públicas e os programas governamentais; (2)
aperfeiçoar o acompanhamento e o controle da gestão, provendo maior
transparência e controle social, e (3) aperfeiçoar a relação de cooperação,
supervisão e fiscalização do Poder Público. Por aí, o governo poderia mandar
nas agências, criando risco regulatório inibidor dos investimentos privados em
serviços de infra-estrutura.
O contrato de gestão contraria o segundo documento, pelo qual "a presença
das agências reguladoras é indispensável para o sucesso dos investimentos
privados, que são centrais para suprir o déficit de investimento em
infra-estrutura existente no Brasil. Isto se dá porque importante parte deste
investimento terá de ser arcada pelo setor privado, e investimentos em
infra-estrutura envolvem significativos custos irrecuperáveis (sunk costs),
amortizados por um longo período de tempo". O contrato possibilitaria a
captura das agências pelo Poder Executivo, o que geraria grandes incertezas.
Lembre-se que o ministro das Comunicações intentou se sobrepor à Anatel e aos
contratos de concessão no caso do reajuste das tarifas telefônicas.
Como justificativa, invocou-se o contrato de gestão da Aneel e o fato de esse
instrumento estar previsto nas leis de criação das agências executivas e no
decreto n.º 2.487, de 2/2/1998. Acontece que a Aneel tem sido qualquer coisa,
menos uma agência autônoma, o que em parte explica o insucesso da regulação da
energia elétrica. Além disso, o decreto regula o contrato de gestão com as
agências executivas, que são primas muito distantes das agências reguladoras. A
estas cabe regular e fiscalizar certos mercados, enquanto àquelas cumpre
executar diretrizes de governo.
Ouvi falar pela primeira vez em contrato de gestão no final do governo Sarney.
A idéia era transplantar para a Petrobrás e para a Eletrobrás a experiência das
estatais francesas, com o objetivo de dispensá-las do controle do Ministério da
Fazenda. Tal qual na França, aquelas empresas ficariam livres para fixar preços
e tarifas. Em contrapartida, deveriam cumprir metas de desempenho. A idéia não
vingou por razões que não vêm ao caso comentar. A proposta atual seria o
oposto, pois sub-repticiamente daria ao governo o poder de controlar as
agências e capturá-las em benefício de seus desígnios políticos. É óbvio que o
risco regulatório seria percebido pelos investidores.
Na verdade, o contrato de gestão está implícito nas leis que criaram as
agências reguladoras, pois ali se estabelecem suas atribuições e os deveres de
seus dirigentes. Ao serem designados pelo governo, sob prévia aprovação do
Senado, os dirigentes se comprometem a zelar pelo cumprimento das respectivas
atribuições. Sua posse do cargo é precedida de um contrato de trabalho
específico. Se, mesmo assim, o contrato de gestão fosse necessário, ele deveria
ser celebrado com o Congresso Nacional, ao qual as agências devem prestar
contas, e não com o Executivo.
É de se esperar que a racionalidade e a competência do relatório do grupo de
trabalho prevaleçam na redação final do projeto de lei, particularmente na
questão do contrato de gestão, induzindo o governo a desistir da proposta.
Há outros aspectos polêmicos do projeto, como a transferência ao Executivo do
poder de decidir sobre a concessão e a licitação dos serviços e a criação de
ouvidorias, mas é pequeno o seu potencial de criar riscos regulatórios, diferentemente
do que ocorreria no caso do contrato de gestão.
P.S.: O número do texto para discussão citado no artigo anterior é 966 e não
996, como ali constou.
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 26/10/2003
TAM toca o
Plano B enquanto fusão não sai
Novo presidente da empresa
insiste que a operação só vai em frente 'se fizer sentido'
NILSON
BRANDÃO JUNIOR
RIO - "Não sei se este processo de fusão sai." Aparentando franqueza
e tranqüilidade, pela primeira vez o principal executivo da TAM, Antonio Luiz
Teixeira de Barros Júnior, expõe a dúvida da empresa sobre o futuro do negócio
anunciado em fevereiro com a Varig. Para a TAM, uma fusão faz sentido apenas se
trouxer benefício para o grupo - o que ainda não está claro, afirma. Enquanto
isso, a companhia toca seu Plano B, sem o qual estaria em dificuldade, e
acalenta o projeto de, talvez já no ano que vem, fazer uma venda pulverizada de
ações da empresa, nas bolsas de valores do País e do exterior.
O executivo explicou ao Estado que o Banco Fator, responsável pela assessoria
financeira da fusão, vai apresentar até o fim de novembro um novo estudo de
viabilidade, que deverá indicar, por exemplo, qual será a participação efetiva
da TAM na nova empresa, o nível de capitalização necessário e como será a
negociação com os credores da Varig. "Se tudo isso fizer sentido, se for
uma operação que traga alguma vantagem, vamos fazer.
Se não trouxer, não vamos fazer", afirmou Barros Júnior,
presidente-executivo interino e vice-presidente do Conselho de Administração da
TAM.
O executivo esteve quinta-feira no congresso da Associação Brasileira das
Agências de Viagens (Abav), no Rio. Naquela tarde, recebeu a visita de cortesia
do principal executivo da Varig, Luiz Martins, no estande da TAM.
Martins explicou que estava deixando o evento porque teria de viajar em seguida
para a Polônia, onde participaria de encontro da Star Alliance, aliança aérea
global, e Barros Júnior poderia não encontrá-lo mais no estande da Varig quando
fosse lá. Meia hora depois, foi a vez de o diretor-geral do Departamento de
Aviação Civil (DAC), Washington Machado, passar pelo estande da TAM, no roteiro
de encontros no evento.
Quando o panorama traçado pelo Fator for entregue, no fim do próximo mês, a
companhia começará uma avaliação. "Aí é que vamos entrar com a análise
nossa, interna. Para ver se vale a pena ou não, o que é possível. Em bom
português, nós temos 40 dias de folga", diz Barros Júnior.
Amigo de Rolim Amaro, o executivo foi levado para o Conselho de Administração
da empresa em novembro de 1998, depois de mais de três décadas de trabalho em
cargos de direção em bancos. É considerado um homem de confiança da família, em
especial. Ele é vice da presidente do Conselho, Noemy Amaro.
Financiamento - O executivo informa que ainda não há um valor definido para o
financiamento que a fusão exigirá, mas deixa claro que ultrapassará os US$ 600
milhões que vêm sendo aventados desde o anúncio da associação. "É mais do
que isso. Quanto, exatamente, eu não sei", comenta. "Outra coisa que
é preciso saber é o seguinte: este processo e o trabalho da Bain (consultoria
estratégica) começaram em março, e de lá para cá o mundo mudou. A situação da
TAM é outra, a situação da Varig é outra.
Muito melhor. Portanto, isso tem de ser visto de uma outra forma."
Barros Júnior evita dizer que a fusão está sendo reavaliada. Diz que se trata
de "validar e complementar" o processo. Na prática, o acordo de
compartilhamento de vôos, os ajustes feitos pelas empresas e um início de
reação da demanda melhoraram o quadro geral. "É possível que a modelagem
inicial bolada pelo Banco Fator não seja mais válida hoje, que você tenha de
fazer a coisa de uma outra forma", pondera, sem comentar, entretanto, as
alternativas possíveis, para evitar especulações.
Mesmo assim, demonstra que não gosta muito da idéia de criação de uma holding
conjunta que abrigaria as duas empresas aéreas, com estruturas independentes,
possibilidade levantada por executivos da Varig. "Não vejo isso muito claro.
Conheço um grupo que fez isso. O da Colômbia. Qual foi o resultado?
Falência", contrapõe. O fato é que os entendimentos para a fusão,
prejudicados em parte pelas ações judiciais contrárias, têm se alongado demais,
na avaliação de consultores e do governo. Recentemente, o ministro da Defesa,
José Viegas, disse que o processo está levando mais tempo do que o esperado.
Para a TAM, não há pressão governamental. "O governo adotou uma idéia
levada por Varig, TAM e Banco Fator como boa, e apoiou. Diria que ele está numa
posição de expectativa, porque não só a Varig como a TAM estão mostrando que as
coisas mudaram demais", reforça, citando que é possível que o acordo tome
outra forma.
No mercado, comenta-se que um caminho seria a manutenção do acordo operacional.
Em paralelo, a TAM executa seu Plano B. "Se tivéssemos ficado na esperança
de dizer 'não vamos fazer nada porque a fusão sai', nós estaríamos quebrados.
Implementamos praticamente tudo."
Abertura de capital - Outro projeto é a entrada de novos investidores e o
fortalecimento da estrutura de capital. "É o caminho natural",
revela. O plano foi concebido com o apoio do CS First Boston, faz algum tempo.
"Estamos preparados para fazer isso há quatro anos, com o Usgaap (sistema
de contabilidade americano) pronto, contatos nas Bolsas de Nova York feitos,
advogados já contratados. Em duas épocas pensamos que tinha chegado a
hora", conta o executivo.
Uma delas estava prevista para novembro de 2001, mas foi abortada pelos efeitos
dos atentados terroristas ocorridos em 11 de setembro nos Estados Unidos.
A TAM quer fazer uma venda pulverizada nas bolsas de valores. A iniciativa
envolverá as bolsas de São Paulo, Estados Unidos e Europa. "A razão para
preferir uma estratégia dessas é que o dinheiro que você capta no mercado
normalmente tem um preço justo, e a diluição que o acionista tem é uma diluição
que lhe dá conforto", comenta. Ainda não há, contudo, prazo definido.
"Quando se faz um lançamento destes você precisa ter os astros numa
posição. O setor no mundo com uma cara boa, o País como baixo risco e a
companhia andando bem. Tem de ter os três mais ou menos na mesma direção",
ilustra Barros Júnior.
Ele mesmo reconhece, no entanto, a possibilidade de o projeto decolar ano que
vem: "Se eu não tivesse esperança de que seria no ano que vem, eu teria
ficado quieto. Eu tenho esperança". Alguns motivos apontam que os astros
poderão estar alinhados. No setor, cresce a avaliação de que haverá recuperação
no mundo e no País. O fabricante de aviões Airbus, principal fornecedor da TAM,
enxerga a chance de crescimento de tráfego de 10% no ano que vem, caso o
Produto Interno Bruto (PIB) avance 3,5%.
As projeções da TAM são maiores. A empresa partirá para o orçamento de 2004
somente em novembro, mas informa que já trabalha com a expectativa de
crescimento da economia de 4%. Neste cenário, o transporte aéreo cresceria
entre 10% e 12%. "Vamos recuperar os níveis de 2002", prevê.
Caso a expectativa se concretize, os investimentos paralisados este ano serão
retomados, principalmente em tecnologia e no centro de manutenção de São
Carlos. "Este ano foi de crise, não investimos nada", sintetiza.
Ainda assim, a frota não será ampliada: "Achamos que ela vai nos atender
no decorrer de 2004 e será melhor usada. É a nossa previsão."
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 26/10/2003
Especialista
vê Brasil em armadilha na Alca
Segundo Hufbauer, ficou
fácil a protecionistas dos EUA culpar Brasil pelo impasse na negociação
PAULO SOTERO
Correspondente
WASHINGTON - "O Brasil está fazendo o jogo dos protecionistas nos Estados
Unidos" nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas, a Alca,
adverte Gary Hufbauer, estudioso do comércio global do Instituto of
International Economics e um dos mais requisitados analistas do tema nos EUA. O
pessoal do açúcar e dos cítricos, na Flórida, e das indústrias que se preocupam
com a concorrência brasileira em setores como aço e outros, deve estar
encantado com a estratégia brasileira no acordo hemisférico, disse o
especialista, em entrevista ao Estado. "Nas circunstâncias atuais, é
extremamente fácil para os Estados Unidos colocar a culpa no Brasil pelo
fracasso das negociações - e é exatamente isso que está acontecendo."
As opiniões de Hufbauer sobre a Alca não devem ser descartadas como uma simples
extensão do pensamento oficial em Washington, como é o caso de muitos
especialistas dos 'think tanks' da capital americana. Em sua última entrevista
ao Estado, publicada na edição de 25 de abril, o economista deixou clara sua
posição de analista independente ao afirmar que os EUA, e não o Brasil,
ameaçavam o acordo regional.
"Se os EUA mantiverem sua linha atual de negociar subsídios agrícolas e
outros temas que interessam ao Brasil somente na Rodada Doha da Organização
Mundial de Comércio, podemos dizer adeus à Alca", alertou Hufbauer.
"O Brasil tem bons argumentos em todas as questões relativas ao comércio
de produtos agrícolas e são os EUA que estão sendo obstrucionistas no que se
refere a produtos agrícolas sensíveis, pois as posições americanas são
derivadas de pressões dos grupos de interesse, são políticas e não podem ser
justificadas com base em princípios."
De lá para cá, a atitude americana apenas endureceu. Para o economista, o
colapso da reunião ministerial da OMC, no mês passado, em Cancún, o aumento do
desemprego na indústria, que é atribuído de maneira exagerada às exportações
chinesas para os EUA, o medo da exportação de empregos no setor de serviços
para a Índia e o calendário eleitoral americano reduziram ainda mais o apetite
para concessões comerciais. "Depois de Cancún, não há praticamente nenhum
entusiasmo neste país em relação à Alca; na verdade, há muita oposição a
qualquer liberalização adicional, e a Casa Branca e Zoellick (ministro do
comércio exterior americano, Robert Zoellick) sabem disso."
Ano morto - O especialista acredita que o embaixador do Brasil em Washington,
Rubens Barbosa, que acompanha de perto o que ocorre na Casa Branca, tenha
reportado tudo isso a Brasíli a e que o governo brasileiro tenha chegado à
conclusão de que 2004 será um ano morto para negociações comerciais. Hufbauer
não discorda da conclusão, mas se mostra surpreso com o caminho que ela levou o
País a tomar.
"O Brasil teria colocado os EUA na berlinda se o governo Lula tivesse
adotado uma posição ousada, que deixasse a Washington o ônus de dizer não à
liberalização", afirmou ele. "A meu ver, teria sido uma tática muito
mais inteligente do ponto de vista da posição do Brasil no palco mundial."
Em lugar disso, a constatação - correta - de que os EUA não fariam concessões
em 2004 levou o governo brasileiro a "ocupar a plataforma diplomática para
fazer grandes discursos, e é nisso que estamos."
Por posição ousada, Hufbauer entende uma proposta na linha da agenda positiva
que o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando
Furlan, defendeu em discurso a empresários na última sexta-feira, em São Paulo,
e que Rubens Barbosa recomendou ao Itamaraty.
Em lugar da agenda minimalista que propôs, "o Brasil colocaria uma boa
oferta sobre a mesa na Alca, com redução de tarifas industriais, uma maior
abertura dos serviços e mesmo em agricultura, mas, obviamente, deixaria claro
que, em troca, esperaria concessões substantivas em termos de acesso ao mercado
americano", disse o economista.
O princípio do 'single undertaking', ou 'empreendimento único', consagrado na
Alca, segundo o qual nenhum ponto do acordo está acertado enquanto não houver
acordo completo sobre seu conjunto, protegeria o País do risco de ter de fazer
um abertura unilateral.
"Uma oferta nesses termos representaria uma reversão da posição
brasileira, mas ela faria as pessoas aqui e em outras partes do mundo levantar
da cadeira e prestar atenção", disse Hufbauer. "Os EUA teriam
dificuldade em responder a uma oferta nesses termos."
Para o economista da IIE, Washington não terá maiores problemas para lidar com
a posição atual do Brasil, supostamente dura, na Alca. "Ninguém aqui, na
Europa, na China ou na Índia presta qualquer atenção a discursos do
Itamaraty", disse ele. "São discursos que parecem ter sido gravados
há mais de uma década, porque soam como discursos antigos."
Pressão - Zoellick fará tudo para destruir o G-20. Para Hufbauer, a postura
brasileira também facilitará o trabalho de Zoellick para desarticular o Grupo
dos 20 países que o Brasil e a Índia articularam em Cancún para discutir a
questão agrícola na OMC. Sob pressão dos EUA, vários deles já abandonaram o
grupo.
Para o especialista, a campanha de Zoellick contra o G-20 tem a ver menos com a
política do comércio internacional do que com a política interna americana e
com a ambição pessoal do ministro do comércio exterior dos EUA.
"Os deputados e senadores americanos que estiveram em Cancún transformaram
o G-20 num palavrão no Congresso", disse ele. "Se conseguir destruir
o G-20, Zoellick poderá reivindicar o crédito político e lustrar suas
credenciais junto ao Congresso."
Para quê? Hufbauer acha que o posto de secretário de Estado, que vagará com a
já anunciada saída de Colin Powell, mesmo que George Bush seja reeleito, seria
muito para Zoellick. "Mas comparo sua ofensiva contra o G-20 à campanha
que Madeleine Allbright fez para derrubar o secretário geral da ONU, Boutros
Boutros Ghali, e que foi um importante passo para sua ascensão ao cargo de
secretário de Estado de Clinton, em 1997."
'
O ESTADO DE S. PAULO | ALBERTO TAMER | 26/10/2003
Enquanto discute soberania, País perde espaço no comércio mundial
PARIS
- Nesta guerra pela conquista de mercados, que não é nova, mas apenas se
acirrou ao extremo com a desacelaração da economia mundial, os países,
desenvolvidos ou não, só têm um caminho: o comércio entre si, em grupos ou
blocos. Alguns saíram na frente antecipando a crise, outros ficaram para trás.
Infelizmente, o Brasil está entre estes, numa perda de espaço que será
irreversível a se manter a situação atual, em que outros, mesmo emergentes ou
em desenvolvimento, agem e nós ficamos falando em "soberania" em vez
de agir e exportar.
Não é um comentário subjetivo, mas a análise de dados concretos, fatos, números
oficiais incontestáveis, levantados para a coluna pelo economista-chefe da
Sociedade Brasileira de Estudos das Empresas Transacionais e de Globalização
Economia, Fernando Ribeiro, professor de Economia da Unip.
Ele mostra que, muito antes da crise econômica atual, já estávamos e
continuamos muito atrasados, mesmo ante outros emergentes. É uma análise que
merece profunda meditação neste momento de total confusão, em Brasília, sobre
os caminhos a seguir. Tão bem documentada, elucidativa - praticamente
incontestável, que esta coluna prefere mantê-la quase na íntegra.
"Entre 1973 e 2001, os países em desenvolvimento mudaram sua pauta de
exportações, elevando a participação de bens manufaturados de 21% para 70%
sobre o total. No mesmo período, a participação desses países nas exportações
mundiais subiu de 15% para 25%. Enquanto as exportações mundiais aumentavam
8,5% ao ano, a destes países cresciam 11%! Ganharam proporcionalmente mercado.
Os que saíram na frente
Numa cesta dos 15 produtos mais dinâmicos do comércio internacional entre 1980
e 2000, diz Ribeiro, alguns países em desenvolvimento despontam entre os 3
maiores exportadores desses 15 produtos. As vendas mundiais de transistores e
semicondutores cresceram 16% ao ano no período assinalado.
Cingapura aproveitou a expansão da demanda e hoje detém 10% das exportações
mundiais desses produtos. Esse mesmo país é o segundo maior exportador de computadores,
produto que mostrou taxa de crescimento de exportações de 15% ao ano. Os
exemplos são muitos, todavia, centrados no Sudeste Asiático:
Cingapura, Coréia do Sul, China, Taiwan. Dentre os países da América Latina que
apresentam algum peso nas exportações de um desses 15 produtos mais dinâmicos
nos últimos 20 anos, desponta só o México, com 16% das vendas de equipamentos
de distribuição elétrica, cujas exportações mundiais cresceram 12% ao ano no
período.
"Os países em desenvolvimento centraram suas exportações em manufaturas
intensivas em alta tecnologia e alta qualificação da mão-de-obra. Elas
cresceram 16% ao ano de 1980 a 2000, ao passo que as exportações mundiais
desses produtos subiram 9,5% ao ano. As vendas dos países em desenvolvimento,
de produtos que não demandam tecnologia, como commodities primárias, cresceram
3,9% ao ano, a menor taxa de todos os produtos.
Constata-se que a abertura comercial e a presença de empresas transnacionais
nas economias em desenvolvimento podem, desde que em articulação com o setor
público (caso da expansão da presença de empresas transnacionais de
biotecnologia em Cingapura), elevar a renda per capita e assim prover o
desenvolvimento econômico.
E o Brasil perdeu espaço
O Brasil, apesar do esforço com algum êxito em mudar sua pauta de exportações,
especialmente após os investimentos do II Plano Nacional de Desenvolvimento,
que elevou a participação de bens manufaturados nas exportações totais, de 8%
em 1964 para 56% em 2002, perdeu as oportunidades da expansão do comércio
internacional. Em especial, perdeu a expansão da demanda mundial por bens de
maior valor agregado e maior conteúdo tecnológico, que demandam mão-de-obra
qualificada.
Onde ficamos
Entre 1980 e 2000, os produtos com maior dinamismo das vendas externas
brasileiras referem-se ao setor de metalurgia de não-ferrosos, com taxa de
crescimento de 15% ao ano no período. Dentre os 15 produtos mais dinâmicos nos
últimos 20 anos, o Brasil logrou taxas de crescimento expressivas das
exportações de 2 produtos (máquinas e materiais elétricos e têxteis).
Quanto aos produtos classificados pela intensidade do uso de fatores de
produção, o Brasil também se atrasou em relação aos países em desenvolvimento.
Nossas vendas de produtos com alta tecnologia cresceram cerca de 9,5% ao ano de
1980 a 2000, e as dos outros países em desenvolvimento 16%! Não se admira que
nossa participação esteja estagnada em 0,9% desde 1989, quando, em 1950,
representava 2,4% do comércio internacional!"
Soberania com realismo
Ribeiro conclui: "Essa fragilidade diante de outros países em
desenvolvimento é pouco disfarçada por elementos conjunturais, como o
crescimento de 20% do valor das exportações neste ano. Isso obscurece a
urgência de medidas para dar maior peso ao Brasil no comércio internacional e,
em conseqüência, às negociações internacionais.
Um país que detém menos de 1% no comércio mundial não precisa de 'soberania'.
Precisa de mudanças em sua matriz produtiva que atentem para as oportunidades
do comércio exterior."
CORREIO BRAZILIENSE | ECONOMIA | 26/10/2003
O Brasil que não tem medo da Alca
Setores
produtivos e competitivos, como o de suco de laranja, calçados, papel e aço,
assistem de camarote aos conflitos entre brasileiros e americanos na discussão
sobre a Área de Livre Comércio das Américas
Arnaldo Galvão
Da equipe do Correio
Há muita gente torcendo para que a temperatura entre brasileiros e americanos
abaixe nas negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas
(Alca). Apesar de haver grandes dificuldades nesse processo, que tem como
objetivo facilitar as trocas entre 34 países do hemisfério a partir de 2005, os
números de alguns setores produtivos permitem otimismo no previsível confronto
com empresas americanas.
As generalizações são perigosas e as indústrias brasileiras são muito
heterogêneas. Mas mesmo com essas ressalvas, é possível afirmar que as cadeias
produtivas de café, suco de laranja, carnes, soja, couro/calçados,
papel/celulose, aço e aeronáutica são competitivas. Podem encarar os americanos
na disputa de mercado. Esse time não tem medo da Alca.
São muitas as manifestações de empresários. O presidente da Associação
Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus), Ademerval Garcia, espera
que o governo negocie o máximo que puder, em qualquer foro — Alca, Organização
Mundial do Comércio (OMC), com a União Européia (UE) e também no formato
bilateral. Explica que o México produz pouco suco, mas como já tem acesso aos
mercados americano — via Nafta — e europeu, vai desenvolver sua citricultura.
‘‘Também precisamos fazer isso. A Alca significa um acesso que ainda não existe
ao mercado americano’’, defende.
O presidente da Abecitrus afirma que a condução das negociações da Alca parece
um pouco confusa. ‘‘O presidente Lula está claramente envolvido no esforço
negociador. Os ministros Celso Amorim, Luiz Fernando Furlan e Roberto Rodrigues
são excelentes, mas é preciso acabar com esse clima de Copa do Mundo. Estou há
quase um mês na Europa e nos Estados Unidos. A impressão que eles têm do Brasil
é de um país confuso e que quer levar vantagem em tudo. Com cliente não se
briga. Principalmente clientes desse tamanho’’, relata Garcia.
No setor de celulose e papel, a Alca também não assusta. O presidente do
Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa),
Boris Tabacof, afirma que o Brasil é o maior produtor mundial de celulose de
eucalipto e é muito competitivo. Mas no segmento de papel a concorrência é
muito maior. Ele recomenda um período mais longo de transição com lenta redução
de tarifas de importação. Explica que a escala das indústrias de papel
americanas é dez vezes maior. A maior delas (International Paper) produz o
dobro do volume de todo o setor no Brasil.
O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Frango (Abef), Júlio
Cardoso, diz que apesar de o país ser o segundo maior produtor de frango, não
vende no mercado americano. Alegam que há risco sanitário pela doença de New
Castle e ainda pressionam o Canadá para seguir o mesmo caminho. ‘‘As barreiras
sanitárias são o novo protecionismo’’, critica Cardoso.
Barganha
Segundo a Abef, o Brasil produz frango com mais qualidade e a custo menor que
os americanos. E ainda está há sete anos sem ocorrência da doença de New
Castle. Mesmo não contando com o mercado americano, o país é o segundo maior
exportador do mundo. Nossas desvantagens estão nas deficiências de logística
(faltam rodovias e ferrovias), no custo do capital e na carga tributária alta.
‘‘O governo americano paga para o produtor. Aqui, pagamos para poder
exportar’’, lamenta. Para Cardoso, Alca é oportunidade e sem ela, também
perdemos poder de barganha na negociação comercial com os europeus.
Na cadeia produtiva de calçados e couro, a Alca é bem vinda. O vice-presidente
da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ricardo
Wirth, explica que a Alca interessa porque os concorrentes diretos são
chineses, vietnamitas e indianos. Até os italianos reduziram seus custos
produzindo na Romênia. ‘‘Nossos custos de produção aumentaram e a rentabilidade
das exportações para os Estados Unidos diminuiu. Vendemos US$ 1 bilhão por ano.
Somos o 3º maior produtor do mundo e a cadeia é forte e bem competitiva.’’
Produtor quer chance de competir
O vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA),
Gilman Viana Rodrigues, garante que o agronegócio brasileiro é muito
competitivo e apela para que o governo se esforce para negociar a criação da
Alca e obter acesso ao mercado americano. ‘‘Temos de insistir e remover o que
está atrapalhando. Não convém antecipar o desfecho. As cadeias de suco de
laranja, carnes, açúcar, fumo, produtos elaborados e álcool têm muito a ganhar.
Atualmente, há mais volume que rentabilidade nas exportações. Os segmentos
menos competitivos são os de insumos, desde adubos até máquinas. Esses precisam
de um prazo mais longo para adaptação. Quero ver o Brasil apresentar propostas
alternativas’’, diz.
Rodrigues sustenta que o governo brasileiro cometeu um erro ao assumir, via
Mercosul, a proposta argentina de ofertas na negociação da Alca. O açúcar, que
até hoje não faz parte do livre comércio dentro do Mercosul, foi apresentado
aos americanos como produto sensível. Isso significa rejeitar as reduções tarifárias.
Mas os produtores brasileiros querem competição, não proteção. Diz que tarifas
altas de importação interessam aos usineiros argentinos, menos eficientes.
Concentração
O vice-presidente executivo do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Marco
Polo de Mello Lopes, informa que as empresas brasileiras investiram US$ 12
bilhões nos últimos nove anos e se modernizaram. A indústria americana é
totalmente protegida, mas, mesmo assim, 54% das exportações têm as Américas
como destino. O mercado americano absorve 32%.
Para Lopes, a Alca é uma oportunidade. Canadá e EUA vão zerar suas tarifas de
importação em 2004, mas explica que o problema é o abuso das normas antidumping
para restringir a entrada de aço importado. Ele acredita que a Alca pode ser
boa não apenas pela redução tarifária, mas principalmente pela integração das
cadeias produtivas da siderurgia.
‘‘Nossa relação com o governo tem sido a melhor possível, com muito
profissionalismo e parceria. Como somos competitivos, há o temor de sermos
usados como moeda de troca nas negociações. Mas só os negociadores sabem o tom
que tem de ser dado’’, afirma o dirigente do IBS. (AG)
Investir na modernização
As cadeias produtivas mais eficientes também têm de manter alto nível de
investimento e modernização de seus processos. Precisam de uma política
industrial de manutenção. Essa é uma das conclusões de um dos mais profundos
estudos já realizados no Brasil. A equipe de coordenação foi liderada pelo
professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luciano Coutinho, e
contou com a colaboração dos economistas Rodrigo Sabbatini (Unicamp), Elizabeth
Farina (USP), Mariano Laplane (Unicamp) e David Kupfer (UFRJ).
Sabbatini revela que foram coletadas informações diretamente com os
empresários, mas elas tiveram de ser confrontadas com as lideranças setoriais.
Era importante desprezar o que eram lobbies e choradeira de preocupações
objetivas do setor privado. Mas o economista explica que o modelo de política
industrial defendido tem de exigir o cumprimento de metas e definir punições.
‘‘É dar a cenoura, mas não esquecer o chicote’’, compara.
O professor da Unicamp afirma que, no caso da Alca e de outras negociações para
integração regional, não dá para esperar a abertura do mercado para somente
depois adaptar a indústria. Cita como exemplo a cadeia de papel e celulose.
Esse já é um setor competitivo, mas apenas os investimentos de manutenção são
estimados em US$ 1 bilhão anuais.
‘‘A indústria brasileira é muito heterogênea e um caso clássico é o do setor
têxtil. Há ilhas de eficiência, como as grandes companhias integradas.
Coteminas e Vicunha são dois bons exemplos. Mas os pequenos produtores podem
ser ameaçados com a concorrência mais feroz’’, alerta.
Ameaças
A pesquisa reconhece que, nas cadeias menos competitivas, a criação da Alca
pode trazer uma combinação de ameaças. O fim de obstáculos a produtos
fabricados nos EUA e Canadá significará mais pressão na concorrência. E existe
a possibilidade real de perder participação nos mercados latino-americanos.
Esses riscos também estão presentes nas cadeias controladas por multinacionais.
A liberalização dos mercados das Américas vai provocar uma mudança nas
estratégias dessas empresas que sempre estão buscando a redução dos custos de
produção. As filiais brasileiras podem perder status.
Mas, sem a Alca, até mesmo as cadeias produtivas mais competitivas podem perder
espaço no mercado da América do Norte. Isso aconteceria se concorrentes diretos
de outras regiões tivessem acesso aos consumidores americanos, canadenses e
mexicanos. (AG)
CORREIO BRAZILIENSE | OPINIÃO | 26/10/2003
O Brasil no
mundo
‘‘O formato que assumirá o
Estado nacional em países de grandes dimensões territoriais e demográficas como
o rasil ainda está por definir-se.’’
Celso Furtado, O longo amanhecer,
1999, pág. 10
José Luís Fiori
Economista e doutor em Ciências Políticas, é professor titular da UFRJ
Ao lado dos Estados Unidos, o Brasil e demais países latino-americanos foram os
primeiros Estados a nascer fora da Europa. Mas na hora da sua independência,
nenhum deles dispunha de verdadeiras estruturas políticas e econômicas
nacionais. Nem tinham ou estabeleceram relações entre si, que permitissem falar
na existência de um sistema estatal ou de um sistema econômico americano. Pelo
contrário, os Estados latinos só lentamente foram monopolizando e centralizando
o uso da força, e suas economias só adquiriram dinamismo, no século XIX, depois
de se integrar como produtores especializados do sistema internacional de
divisão do trabalho, articulado pelas necessidades da industrialização inglesa
e pelos famosos Tratados Comerciais, preconizados pela economia política
clássica e impostos ao mundo pela Inglaterra e demais países europeus.
O Brasil foi um dos pioneiros na experimentação dessa estratégia proposta por
Adam Smith e seus discípulos. Primeiro foram os Tratados de Comércio, assinados
pela Coroa Portuguesa com a Inglaterra, em 1806 e 1810, e com a França, em
1816; e logo depois da independência, os tratados assinados pelo Império
brasileiro com a Inglaterra, em 1827, com a Áustria e a Prússia, no mesmo ano
de 1827, e com a Dinamarca, os Estados Unidos e os Países Baixos, em 1829. Como
conseqüência, o Brasil foi transformado numa das áreas de experimentação do
‘‘imperialismo de livre-comércio’’, praticado pela Inglaterra, sobretudo na
primeira metade do século XIX. O Brasil e os novos Estados latino-americanos
não eram domínios anglo-saxões, como o Canadá, a Austrália ou a Nova Zelândia,
mas, apesar de sua independência política, nasceram e se mantiveram como
periferia econômico-financeira e apêndice político da Inglaterra, pelo menos
até a crise de 1930.
No Brasil, mesmo depois da proclamação da República, o Estado seguiu sendo uma
organização nacional frágil, com baixa capacidade de incorporação social e
mobilização política interna, e sem vontade, nem pretensões expansivas. A
própria sobrevivência da nova república, na hora da sublevação da Armada, em 1893,
dependeu da organização e proteção da Esquadra Legal, que chegou à Baía da
Guanabara, sob a liderança dos Estados Unidos e com a participação de quatro
outras grandes potências. Pouco depois o Brasil decretava moratória de sua
dívida externa e era obrigado à negociação de um funding loan com a Casa
Rotschild e a Inglaterra, em 1898, e um outro em 1914 que caracterizaram e
consolidaram a posição subalterna e submissa das elites cafeicultoras frente
aos interesses econômicos internacionais.
No período entre a crise econômica mundial de 1930 e o início da 2ªGuerra, o
Brasil conquistou algum espaço de manobra para sua política externa devido à
disputa entre as grandes potências e adotou internamente políticas que
fortaleceram o Estado central e a sua economia nacional. Essa autonomia,
entretanto, durou pouco, até a assinatura do acordo negociado por Oswaldo
Aranha em Washington, em 1939, onde ficou caracterizada a nova dependência
financeira do Brasil com relação ao Banco Morgan junto com o seu alinhamento
incondicional ao lado da nova liderança mundial norte-americana.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil não ocupou nenhum lugar de destaque
na geopolítica da Guerra Fria, mas foi colocado na condição de principal sócio
econômico e aliado político dos Estados Unidos na América do Sul. Não houve
Plano Marshall para a América Latina, mas o Brasil se transformou numa
experiência original de desenvolvimento acelerado e ‘‘excludente’’, sob a
liderança dos investimentos estatais e do capital privado estrangeiro,
proveniente de quase todos os países do núcleo central do sistema capitalista.
Assim mesmo, e apesar do alinhamento forçado pela Guerra Fria, o Brasil começou
a exercitar uma política externa mais autônoma, combativa e global, no final da
década de 1950.
Foram momentos importantes dessa nova trajetória as propostas da Operação
Pan-americana, em 1958, e da Operação Brasil-Ásia, nos anos 1959-60, ao mesmo
tempo de uma maior aproximação da Europa e da África Negra. No mesmo momento em
que o governo brasileiro também revia suas relações econômicas internacionais,
rompendo seu acordo com o FMI. Mas não há dúvida de que a grande mudança
ocorreu no início da década de 60, com a Política Externa Independente
inaugurada pelo governo Jânio Quadros, responsável pelas novas relações do
Brasil com América Latina, Ásia e África, mas também com o mundo socialista e
com o Movimento dos Países Não-Alinhados. Uma estratégia mais autônoma com
relação aos Estados Unidos e mais aberta às demais regiões e países, e mais combativa
no plano das negociações comerciais e financeiras do país, como ficou claro no
apoio à criação da Alalc e na participação brasileira na Unctat e no Grupo dos
77, nas décadas de 60 e 70. Essa posição foi mantida, em grandes linhas, pela
política externa de quase todos os governos militares a despeito do seu
alinhamento ferrenho em torno da causa anticomunista, e também depois da
redemocratização, com a política externa do governo Sarney.
No início dos anos 90, a vitória americana na Guerra Fria, a nova utopia da
globalização e mais uma onda de liquidez internacional criaram as bases
materiais e ideológicas da nova virada liberal das elites e do Estado
brasileiro. Do ponto de vista geopolítico — em particular no período FHC — o
governo brasileiro apostou num sólido alinhamento com os Estados Unidos e seu
projeto de globalização liberal, aceitando a internacionalização dos centros de
decisão brasileiros e a fragilização do Estado em troca de um projeto de
governança global rigorosamente utópico. Do ponto de vista econômico, a
disponibilidade de capitais internacionais financiou o abandono da estratégia
desenvolvimentista, a volta às políticas econômicas ortodoxas e ao
livre-cambismo do século XIX.
Em 2003, são poucos os que ainda acreditam no mito da globalização. A economia
mundial segue enfrentando um futuro incerto, e a guerra voltou a ocupar um
lugar de destaque nas relações internacionais, onde os Estados Unidos acumulam
um poder militar inquestionável, mas onde as grandes potências divergem cada vez
mais sobre a estrutura e funcionamento da nova ordem política mundial, em
construção depois do fim da Guerra Fria. Nesse contexto internacional, a maior
parte dos países latino-americanos já deixou para trás sua opção dos anos 90,
pelas políticas neoliberais, e hoje busca — com dificuldade — encontrar novos
caminhos econômicos.
Mas ainda não existe uma consciência clara nem muito menos um consenso de que a
mudança de rumo envolve necessariamente uma redefinição da política externa do
continente. E uma recusa terminante do projeto de ‘‘imperialismo voluntário da
economia global’’ proposto por Richard Cooper, assessor internacional de Tony
Blair, e aceito e praticado pelos governos liberais dos anos 90. Essa parece
ser a idéia central da nova política externa do Brasil e da Argentina, mas não
se trata evidentemente de uma idéia trivial ou de um projeto fácil. Pelo
contrário, deverá enfrentar enormes resistências externas, mas também se
chocará com a oposição de forças internas situadas dentro e fora do governo
Lula.
Até aqui, o governo se dedicou a expor seu ponto de vista e começou a mover
suas pedras no tabuleiro a partir da opção pela prioridade sul-americana e do
Mercosul. Estabeleceu em seguida uma série de pontes e alianças possíveis com a
África e a Ásia, como aconteceu com o G21, na reunião de Cancún da OMC, e como
está acontecendo nas negociações do G3, com a África do Sul e com a Índia. Ou,
ainda, como vem ocorrendo nas novas parcerias tecnológicas com a Ucrânia, a
Rússia, a China, ou com os projetos infra-estruturais com Venezuela, Bolívia,
Peru e Argentina. Em todos os casos, o que se vê é a afirmação de uma nova
política externa, ativa, presente, baseada no interesse nacional brasileiro e
na afinidade histórica e territorial do Brasil com o resto da América do Sul, e
na sua afinidade de interesses com os demais ‘‘grandes países em
desenvolvimento’’.
Mas não há dúvida de que as principais disputas que se anunciam e acumulam no
horizonte girarão em torno das divergências econômicas entre os Estados Unidos
e o Brasil, em particular nas negociações da OMC, FMI e Alca. São três espaços
onde o Brasil estará definindo, nos próximos meses, ou no máximo até o fim do
próximo ano, as coordenadas econômicas do seu futuro como nação.
E aqui não há como se enganar sobre as forças que travarão essa batalha, dentro
e fora do governo Lula: de um lado estarão, como sempre estiveram, os grupos de
interesse que defendem uma relação subserviente com os Estados Unidos em troca
de um acesso mais favorecido ao mercado interno americano. A velha posição dos
cafeicultores paulistas, sustentada até hoje pelos principais jornais e pelas
elites liberais do centro-sul do Brasil. E, do outro lado, estarão os grupos
econômicos e as forças sociais, intelectuais e políticas que sempre lutaram por
um projeto de desenvolvimento para o Brasil, orientado pelos interesses
nacionais do povo e não apenas pelos interesses imediatos e particulares do seu
agrobusiness e dos seus grupos financeiros defendidos e acobertados pela
retórica diletante e pela política escandalosamente subserviente dos
‘‘diplomatas descalços’’, do governo Cardoso.
GAZETA DO POVO – PR | PARANÁ | 26/10/2003
Resolução da Anvisa pode reduzir custos
A
Resolução número 036 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que
entra em vigor no início de 2004, é vista pelos hospitais como uma alternativa
para diminuir o impacto dos custos do tratamento do lixo hospitalar. A norma
modifica os critérios de classificação do que é resíduo infectante.
Segundo a advogada da Fehospar, Ana Paula Conti, cerca de 90% do que hoje é
considerado resíduo médico vai ser classificado como lixo comum. Uma fralda
descartável usada por uma criança que está no hospital, por exemplo, atualmente
é considerada material infectante. Passaria a não ser, explicou uma técnica
ouvida pela Gazeta do Povo. O temor dos hospitais é de que a resolução seja
contestada na Justiça, afirma a advogada Ana Paula.
Cada tonelada do lixo custa R$ 250,00 para ser coletada e aterrada.
O DIA - RJ | EMPREGOS | 26/10/2003