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WEBCLIPPING – 17/11/2003 - PRIMEIRA EDIÇÃO |
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MJ-CIDADANIA |
· Retrato falado do Brasil - VEJA
· JUSTIÇA (I) - ÉPOCA
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MJ-COLUNAS |
· BOECHAT - JORNAL DO BRASIL
· INFORME JB - JORNAL DO BRASIL
· INFORME ECONÔMICO - JORNAL DO BRASIL
· INFORME ECONÔMICO - JORNAL DO BRASIL
· PANORAMA ECONÔMICO - O GLOBO
· PANORAMA POLÍTICO - O GLOBO
· ANCELMO GOIS - O GLOBO
· PAINEL - FOLHA DE S. PAULO
· PAINEL S/A - FOLHA DE S. PAULO
· CRISTIANE
LUCCHESI - VALOR ECONÔMICO
· CLÁUDIO HUMBERTO - JORNAL DE
BRASÍLIA
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MJ-CONCORRÊNCIA |
· Miami disputa sede do bloco - JORNAL DO BRASIL
· Americanos trabalham contra a Alca - JORNAL DO BRASIL
· Um continente dividido - O GLOBO
· Alca: exportador admite que preço agrícola subiria no mercado interno - O GLOBO
· Empresários querem acordo ambicioso - O GLOBO
· Amercosul - FOLHA DE S. PAULO
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· SANGUE NOVO NA LONGA DISTÂNCIA
- CARTA CAPITAL
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MJ-CONSUMIDOR |
· EUA têm operação de guerra para proteger soja - O ESTADO DE S. PAULO
· Chile e Canadá querem mudanças na Alca - O ESTADO DE S. PAULO
· As indenizações por violação à propriedade intelectual - VALOR ECONÔMICO
· 50 mil assinam TAC - VALOR ECONÔMICO
· A soja ideológica - VEJA
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MJ-ELABORAÇÃO LEGISLATIVA |
· O menor e o crime - O ESTADO DE S. PAULO
· Sem cabimento - O ESTADO DE S. PAULO
· Crise no Congresso ‘engole’ reforma - O ESTADO DE S. PAULO
· Reformas têm semana decisiva no Senado - VALOR ECONÔMICO
· Em favor do desarmamento - JORNAL DE BRASÍLIA
· Uma velha polêmica - ISTOÉ
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MJ-EXECUÇÃO PENAL |
· Após rebelião, crianças são proibidas em presídio - FOLHA DE S. PAULO
· A lei penal e os adolescentes - CORREIO BRAZILIENSE
· Uma questão de Justiça - CORREIO BRAZILIENSE
· O "barril de pólvora" de Goiás - JORNAL DE BRASÍLIA
· Cadeias cheias de horror - JORNAL DE BRASÍLIA
· O placar do seqüestro - VEJA
· A festa não era do PCC - ÉPOCA
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MJ-INSTITUCIONAL |
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· ''Atormenta-me a perspectiva de não poder rezar ajoelhada sobre a terra que me viu nascer'' - JORNAL DO BRASIL
· COMBATE AO CRIME - FOLHA DE S. PAULO
· FRASES - FOLHA DE S. PAULO
· Após atrito, projeto reaproxima Lula e juízes - FOLHA DE S. PAULO
· Tavares: mais estratégia e menos entusiasmo - GAZETA MERCANTIL
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· Nomeado - ÉPOCA
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MJ-POVOS INDÍGENAS |
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MJ-REFORMA DO JUDICIÁRIO |
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· Pisando no gelo - ISTOÉ
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MJ-SEGURANÇA PÚBLICA |
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· Crime - FOLHA DE S. PAULO
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· Nomeado - VEJA
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· Pente-fino 1 - ÉPOCA
· De corruptos e cobras - ÉPOCA
· DESCONFIANÇA NA JUSTIÇA - CARTA
CAPITAL
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MJ-CIDADANIA |
VEJA | EM FOCO | 17/11/2003
Retrato falado do Brasil
Sérgio Abranches
A primeira vez que falei em público da questão racial no Brasil foi em 1973, no
departamento de ciências sociais da Universidade de Brasília, no curso de
introdução à sociologia. Eram várias turmas e usávamos um livro-texto traduzido
do inglês e dirigido à universidade dos Estados Unidos. Cada capítulo tratava
de um tema da sociologia, introduzindo conceitos, metodologias e resultados de
pesquisas empíricas naquele país. Havia um capítulo sobre relações raciais,
entre o que tratava de estratificação e diferenças de classes e o que discutia
desigualdades sociais. Ao dizer que discutiríamos esse capítulo na aula
seguinte, os alunos, surpresos, indagaram se não íamos "pular essa
questão". Era comum descartarem essa parte da matéria. Argumentei que seria
anti-sociológico e antipedagógico. Era tema necessário à compreensão
sociológica do Brasil. Repeti uma frase de Roque Laraia, professor de
antropologia do departamento: "O Brasil tem discriminação racial, não tem
é conflito racial, como nos Estados Unidos".
Comecei a aula com uma pergunta: "O que diferencia a questão racial no
Brasil e nos EUA?". Silêncio geral. Imaginei que os alunos não tivessem
lido o capítulo. Afirmaram que sim. Foi só então que eu, imaturo, sem o olhar
treinado para capturar atitudes e comportamentos em pequenos gestos, percebi o
constrangimento da turma. O sinal, característico, que retive como lição das
formas sutis do preconceito era o olhar coletivo de soslaio para o único negro
na sala. Dirigi-me a ele e denunciei: "Seus colegas estão constrangidos em
falar de racismo na sua frente", e lancei a pergunta silenciada:
"Como é que você está aqui?".
Convenhamos: naquele longínquo 1973, um jovem negro na faculdade era uma
raridade que pedia explicação. A resposta é que seu pai era sargento da
Aeronáutica. Meus alunos acabavam de ter uma bela aula de sociologia. Não
porque o professor fosse bom, mas porque a realidade social acabava de lhes dar
uma lição completa, ao vivo. Estava tudo ali: o racismo, a desigualdade – um
negro em trinta –, um canal de ascensão social – o serviço militar –, a
mobilidade – um jovem ultrapassando as barreiras da discriminação. Um dos
primeiros canais de mobilidade racial no Brasil foi o serviço militar. Não
oferecia ascensão completa, mas abria o caminho até a baixa oficialidade. O
suficiente para poder dar estudo aos filhos. Retrato falado do Brasil.
Essa cena se repete toda vez que falo em público sobre a desigualdade racial no
Brasil e há aquela pessoa negra, solitária, na platéia. Recentemente, numa
palestra para gerentes de um banco, havia uma jovem gerente negra. Uma das
raras mulheres e a única pessoa negra. Enfrentou duas correntes
discriminatórias para estar ali: ser negra e ser mulher. Os colegas se sentiam
desconfortáveis porque eu falava do "problema dela". "Ela"
não tinha problema, claro. Era uma pessoa natural, do gênero feminino e negra.
Nascemos assim. O problema é os outros não quererem ver a discriminação. Essa
inversão típica é que caracteriza a questão racial no Brasil. É como se os
negros tivessem um problema na cor, e não a sociedade o problema do
preconceito.
Por que essa atitude? Por que negar a óbvia existência da discriminação racial
em nosso país? Vergonha? Dificilmente. Haveria mecanismos mais imediatos e
eficazes para nos eximir de culpa por nossa história escravocrata. Racismo? Em
boa parte, sim. Preconceito, com certeza sim. Existe uma diferença. O
preconceito é uma deficiência cultural. Nasce da má informação e da má
formação. É um ato de ignorância ou ausência de certos valores. O racismo é uma
falha moral. É uma atitude consciente de menosprezo racial e intelectual. O
ponto moral é simples: negros africanos foram trazidos para o Brasil e aqui
mantidos à força, por mais de três séculos. Não há como dizer: "Podem
voltar para casa". A casa deles é aqui, compatriotas e iguais.
Esta é a semana do orgulho negro. Que não seja a semana da vergonha branca.
Está sendo lançada a camélia branca, da paz racial, para reconhecer os que
trabalham pela diversidade no Brasil. Poderia ser a semana da consciência
branca sobre a discriminação dos negros. Sem a consciência do problema, não
poderemos enfrentá-lo de forma solidária, sem precisar de leis de cotas ou de
repressão ao racismo. Será possível se cada vez mais de nós, integrados em
todas as nossas atividades públicas e privadas, trabalharmos para que nossos
compatrícios negros entrem nas salas da frente dessa nossa grande casa Brasil
como convivas, não como subalternos.
ÉPOCA | PORTAL | 17/11/2003
JUSTIÇA (I)
Marival Chaves, ex-sargento do
Exército que há 11 anos revelou o destino de alguns desaparecidos nos porões do
DOl-Codi, pediu proteção à Secretaria Nacional de
Direitos Humanos.
JUSTIÇA (II)
Desde as revelações, viu-se envolvido numa batalha judicial em Vila Velha,
Espírito Santo, onde reside. Seria apenas uma disputa Imobiliária, não fosse um
detalhe: a cópia de uma entrevista dada por ele sobre os desaparecidos foi
aceita como peça essencial no processo.
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MJ-COLUNAS |
JORNAL DO BRASIL | BOECHAT | 17/11/2003
País sucata
Com defeito mecânico, um carro da
representação do Brasil na FAO está há 45 dias abandonado numa rua do Centro de
Roma.
Não há dinheiro para consertá-lo.
O embaixador Flávio Perri tem mandado lavá-lo de vez em quando, para evitar
vexame maior.
O relato, a ser enviado ao Itamaraty, é do ministro Marcos Villaça, do Tribunal
de Contas da União.
Fica
Diretor da área de Exploração e Produção da Agência Nacional do Petróleo,
Nilton Monteiro, técnico oriundo da Petrobrás, não deixará o órgão em janeiro,
como previsto.
O Planalto o convidará para cumprir mais um mandato de três anos no cargo.
Zerou
O Supremo Tribunal Federal concluiu, sexta-feira, a distribuição de todos os
processos que estavam no protocolo daquela corte.
Foram encaminhadas para julgamento 1.400 ações.
Os ministros, que já decidiram 92 mil casos até outubro, são sérios candidatos
a uma estafa em 2003.
Pouco a pouco
Ainda não será este ano que o Brasil festejará vitória definitiva sobre a
malária. Até dezembro, 350 novos casos da doença terão surgido no país,
principalmente por causa da incidência em Rondônia.
Mas o volume de agora será 10% inferior ao total de 2002.
Sobrevivência
Maior centro de cultivo de flores no Brasil, Holambra vai virar um exemplo de
preservação ambiental.
Cem produtores bancarão a preservação de florestas e beiras de rios da cidade.
Sabem que sem água não têm como manter vivas plantas cultivadas em 106 hectares
de estufas e em 125 hectares de rosas a céu aberto.
Duas cabeças
A coordenação do sangue e dos hemoderivados no país correrá em veias paralelas.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que cuidava de tudo, mandará só no
controle do produto e na direção da Hemobrás.
A Secretaria de Assistência à Saúde entra em cena para ditar as diretrizes da
política do sangue.
Medida nesse sentido será baixada este mês.
Adesão de peso
Maurício de Souza vai assinar a cartilha contra a dengue que o governo
distribuirá a partir deste mês na batalha para derrotar a doença.
Todos os personagens criados pelo desenhista serão utilizados nas histórias
destinadas a sensibilizar as crianças.
Na luta
Defensores públicos da União redigiram sexta-feira, em Brasília, um documento
condenando a proposta de redução da maioridade penal.
O texto será entregue esta semana ao Palácio do Planalto e ao Ministério da Justiça.
Próximo passo
Depois de acompanhar o ex-presidente Itamar Franco em Roma, o jornalista Ângelo
Oswaldo voltou sábado para Minas Gerais.
Vai dedicar-se agora a pavimentar sua candidatura a prefeito de Ouro Preto pelo
PMDB, cargo, aliás, que já ocupou.
De lupa
A Organização Internacional de Aviação Civil (Ical), com sede em Montreal,
iniciará ano que vem uma série de auditorias técnicas nos aeroportos
internacionais.
Guarulhos e Galeão serão os primeiros a serem auditados no Brasil,
provavelmente até maio.
Boa nova
A partir de 2004, a Funarte promoverá uma Bienal de Artes Visuais.
O órgão quer dar fim à lacuna criada com a morte do Salão Nacional de Artes
Plásticas.
O projeto começará pelo Rio, que vai virar uma espécie de galeria gigante
durante o evento.
Mar de espigões
Entre janeiro e julho, a prefeitura autorizou a demolição de 1.457 casas e
pequenos prédios no Rio.
A maioria na Zona Sul.
Mistério
Uma placa de bronze foi fixada na área da futura biblioteca da ABL.
Lembra que a ''pedra fundamental'' da obra foi lançada quando Arnaldo Niskier
presidia a instituição.
A atual diretoria da academia não foi consultada sobre a homenagem.
E mandou procurar onde está, afinal, a tal pedra.
Ainda não a encontrou.
Contramão
Este ano, três projetos sociais da Arquidiocese do Rio foram paralisados.
Dois voltados para menores aidéticos e, outro, de educação agrícola, em Bangu:
- Depois, vem a Igreja Católica pedir a redução da maioridade penal - diz o
juiz Siro Darlan.
Ao vivo
O sorriso de Hermínio Bello de Carvalho está mais luminoso neste fim de ano.
Uma das razões é a Escola Portátil de Música, projeto que será lançado amanhã,
no Sesc Ramos.
Durante oito meses, 100 moradores da região vão conhecer a essência da MPB.
- A música que será debatida em nossos encontros não se ouve nas rádios e TVs,
responsáveis em parte pela alienação dos jovens - diz feliz da vida Hermínio.
Lance Livre
Aos sábados e domingos, grátis, no Espaço Cultural da Marinha, acontece a
exibição de Histórias e lendas do mar. A peça infantil é fruto de parceria
entre a Liga dos Amigos do Museu Naval e a Companhia de Navegação Norsul.
Segunda-feira, no Clube de Engenharia, começa o Seminário Nacional sobre
Transgênicos, no qual especialistas de várias instituições elaborarão sugestões
sobre o assunto destinadas ao governo e ao Congresso.
De 27 a 30, em Pernambuco, haverá a 11ª edição do Recifolia, um dos maiores
carnavais fora de época do país.
Dentro do projeto Ary Barroso - 100 anos, Eduardo Dusek comanda talkshow hoje,
às 19h, no Sesc Flamengo. Nele, Dóris Monteiro vai falar dos programas de
calouros animados por Ary.
No Top Fashion Modas do Cittá America pode-se fazer uma compra social. Basta
adquirir camisetas produzidas por ex-freqüentadores da Escola de Pais da 1ª
Vara da Infância e da Juventude. Com a renda, famílias poderão manter suas
crianças longe das ruas.
Com Ronaldo Herdy e Telma Alvarenga
JORNAL DO BRASIL | INFORME JB | 17/11/2003
O pescador
Doca de Oliveira (interina)
Acostumado a falar de futebol para ilustrar seus raciocínios, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva decidiu recorrer à pesca, outra de suas paixões, para
articular a primeira reforma ministerial de sua gestão. Valendo-se da máxima de
que paciência à beira do rio é certeza de cesto cheio, o político petista
decidiu calibrar o timing das mudanças de modo a tirar todo proveito possível
do embarque do PMDB. Convencido de que o esgotamento da pauta do Congresso
devolverá o partido à sua importância natural, hoje valorizada pela urgência
das reformas constitucionais, o presidente espera a hora certa de fazer as
escolhas que mais lhe agradam.
- Se a reforma ficar mais para a frente, ele espera poder escolher melhor e
trazer pessoas menos comprometidas com seus adversários. Se o fizer agora, terá
de engolir alguns sapos - diz fonte próxima ao político petista.
Em conversas reservadas, Lula demonstra preocupação com a desunião permanente
entre os peemedebistas e não esconde o desconforto pela sensação de ter-se
tornado refém de José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), cardeais que comandam
o partido de fato.
Esticando o anzol
A reforma ministerial será anunciada nos primeiros dias de janeiro. Até lá,
Lula conta com a ajuda dos ventos para pescar o melhor peixe do PMDB. O
presidente continua sonhando com o senador Pedro Simon (RS) - para qualquer
posto - e ainda resiste à tropa de choque de governos recentes, como o senador
Romero Jucá (RR).
Azia política
Em tempos de gafes e trapalhadas políticas e administrativas, o bom humor do
presidente Lula anda em baixa. E não tem poupado ninguém.
Sal de frutas
O ânimo do petista pode melhorar hoje. Presidente do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, Enrique Iglesias vai formalizar o apoio ao Programa
Bolsa-Família e colocar R$ 2 bilhões à disposição do governo brasileiro. É
quase três vezes o que o Palácio do Planalto esperava.
O dinheiro será repassado em duas parcelas de R$ 1 bilhão. A primeira sai ano
que vem.
Hora decisiva
O presidente Lula pode assinar, ainda esta semana, uma medida provisória
repassando R$ 400 milhões para os cofres do Rio de Janeiro. Exposição de
motivos justificando a liberação dos recursos está em fase final de redação,
segundo relato de técnicos do Ministério da Fazenda à equipe da governadora
Rosinha Matheus (PMDB).
Presente de Natal
Se não houver mais atraso, a governadora deseja zerar o passivo com o
funcionalismo e tirar uns dias de folga entre as comemorações do Natal e do Ano
Novo. Quer festejar em família.
Segunda etapa
Presidente da Infraero, Carlos Wilson (PT) aguarda a chegada de missão técnica
do governo de Angola para detalhar protocolo de cooperação assinado durante a
passagem do presidente Lula pela África. Interessado em ampliar a presença da
empresa naquele continente, Wilson diz que a estatal brasileira pode ser boa
parceira na área de logística e, por que não, para a renovação da frota
angolana.
Pistas no ar
Ainda em aberto, a comitiva que acompanhará o presidente Lula no giro que ele
fará pelo Oriente Médio nos primeiros dias de dezembro deve oferecer algumas
dicas sobre os futuros ocupantes da Esplanada dos Ministérios. O político
petista deve levar consigo alguns dos novos titulares, além de outros que
ficarão na categoria dos remanescentes.
Palavra final
Chefe da Casa Civil, José Dirceu comanda reunião interministerial,
quarta-feira, para finalizar o Plano da Amazônia Sustentável, proposta
construída pelo governo para levar desenvolvimento econômico àquela região. À
mesa, ministros de diversos calibres: Marina Silva, Ciro Gomes, Antonio Palocci
Filho, Guido Mantega e Dilma Rousseff.
Doce ironia
Crítico da adesão do PMDB ao governo Lula, o deputado Wellington Moreira Franco
(RJ) diz que vai partir um bolo para comemorar o primeiro aniversário das
negociações, abertas em novembro do ano passado. E diz que, quanto mais o
embarque demorar, melhor.
- O governo vai conhecer a verdadeira natureza da namorada.
JOGO RÁPIDO
A Comissão de Educação do Senado pode aprovar, amanhã, projeto que leva o
ensino médio para dentro das penitenciárias. A proposta já foi ratificada pela
Câmara dos Deputados.
A Comissão Mista do Orçamento se reúne na quarta para discutir os créditos
suplementares. Em tempos de verba apertada, vai ser uma briga daquelas.
Estrela de verdade do governo petista, o ministro Gilberto Gil será o principal
protagonista das comemorações da Semana da Consciência Negra preparadas pelo
Congresso.
O ex-senador José Serra será eleito presidente nacional do PSDB sexta-feira. A
convenção do partido trará à capital federal as estrelas do tucanato. Inclusive
FH.
JORNAL DO BRASIL | INFORME ECONÔMICO | 17/11/2003
Retirada estratégica
O governo não irá ceder à pressão
dos empresários e da oposição pelo corte na alíquota da Cofins, recentemente
aumentada de 3% para 7,6%. O chefe da Casa Civil, José Dirceu, nesse caso
perfeitamente entrosado com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, admite
contudo concessões setoriais, com isenções e mudanças na base de cálculo caso a
caso.
Pouco para o senador Tasso Jereissati, tucano e empresário com influência junto
a aliados governistas de peso, como José Sarney. O impasse ajuda a explicar o
atraso na votação do relatório da reforma da Previdência pela Comissão de
Constituição e Justiça da casa.
Por essas e outras que a tramitação das reformas está mais lenta e difícil do
que supunha a vã filosofia do rolo compressor.
Turbulência no ar
A forte redução no ritmo de entregas de aviões (102 ante 160 previstos) este
ano não afetou as projeções da Embraer para o ano que vem. A empresa segue
prevendo 160 encomendas atendidas.
A meta exige US$ 2,5 bilhões em crédito. Mais que o dobro do montante liberado,
a muito custo, pelo BNDES. Que assim compromete 80% das linhas de pré-embarque.
Choro e lamento
A definição do IPCA como parâmetro de reajuste para as operadoras locais
atrasou o planejamento estratégico das companhias para o ano que vem. Quem já
havia definido estratégias e metas foi obrigado a rever tudo, considerando o
IPCA e não o IGP-DI. De acordo com o diretor de uma das operadoras, as
''novidades'' criadas pelo governo estão dificultando a administração das
companhias.
Substitundo importações
A governadora do Estado do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus, negocia com a
Prosint a ampliação em quase 100% de sua produção de metanol.
O investimento, orçado entre US$ 15 milhões e US$ 20 milhões, tem como objetivo
reduzir a dependência do produto importado. Hoje, o Brasil importa mais de 40%
do que consome.
Freio na conta
O ICMS terá de ser cobrado exclusivamente sobre os pulsos, e não mais sobre
serviços como habilitação e assinatura. A decisão da 1ª turma do Superior
Tribunal de Justiça favorece a Brasil Telecom. A sentença abre um precedente
para a redução do valor da conta para o consumidor. A ação partiu de Xavier,
Bernardes e Bragança Advogados.
Repetição sintomática
Um pai mais entrosado com a internet do que a média dos cinquentões procurou na
web uma oferta do Palm Zire 71. Doze dos 17 sites pesquisados cobravam R$ 1299.
Entre eles, líderes como Americanas.com, Submarino e Shoptime. Os cinco
dissidentes apresentavam itens distintos, como câmaras digitais acopladas. Um
caso para www.cade.gov.br?
Pingos nos is
O Ministério de Minas e Energia procurou a coluna para esclarecer que a
ministra Dilma Rousseff esteve no Rio de Janeiro na última sexta-feira, mas não
em visita à sede de Furnas. A discussão sobre a cisão da companhia tampouco
consta da pauta oficial de Dilma Rousseff.
A favor da independência
Os bancos do Rio de Janeiro entraram na defesa pela independência das agências
reguladoras. A Comissão de Economia e Mercados da ABERJ enviou ao chefe da Casa
Civil, ministro José Dirceu, sugestões para melhorar o projeto das agências.
Segundo a comissão, o respeito aos contratos e a independência das agências são
pontos fundamentais para garantir segurança à retomada sustentada do
investimento.
Pauta variada
As altas de Embratel, Net, Telemar e Petrobras deixaram os ''vendidos''
preocupados com a possibilidade de entregar ações mais baratas do que o mercado
à vista, no vencimento de hoje. Daí a farta safra de boatos de semana passada,
como ataques do PCC a shopping centers e envolvimento de corretoras com
remessas ilegais no Banestado.
JORNAL DO BRASIL | INFORME ECONÔMICO | 17/11/2003
Ficou para 2004
Para desespero dos que estão em
todas as listas de demitidos, a reforma ministerial só deve ocorrer entre
janeiro e fevereiro do ano que vem. Desde que voltou da viagem à África o
presidente Lula deu a entender, a seus principais assessores, que por sua vontade
não mudará a equipe antes do fim do ano. Mas o PMDB, que aguarda a sua vez,
ainda acredita num anúncio até o dia 15 de dezembro.
Isso significa que os demitidos desde sempre — Anderson Adauto, Benedita da
Silva e Roberto Amaral — vão continuar sendo a bola da vez por mais dois ou
três meses. E que petistas e aliados das mais variadas patentes vão continuar a
remanejar, promover e demitir ministros a rodo. “A vida é dura”, como diria o
chefe da Casa Civil, José Dirceu. Enquanto isso, o presidente Lula analisa
vários cenários e aguarda o melhor momento de promover as mudanças. Lula vai
fazer valer suas declarações de que não muda sob pressão e de que é ele quem
está no comando.
Os articuladores políticos do governo não estão unidos sobre qual o momento
adequado para fazer a reforma. Uma ala tem pressa em satisfazer o apetite do
PMDB e quer entregar ao aliado o pedido da hora: os ministérios das Cidades e
das Comunicações. Mas a maioria considera premeditado fazer qualquer mudança
antes de o Congresso concluir a votação das reformas da Previdência e
tributária. As reformas dependem, para serem aprovadas, dos 23 senadores do
PMDB, 20 deles candidatos a ministro. Contrariá-los, sem as reformas aprovadas,
seria correr um risco desnecessário.
Sendo assim, a reforma ministerial deve ganhar corpo após a votação das emendas
constitucionais e da reunião de avaliação do Ministério, prevista para o
retorno do presidente Lula da viagem, de 6 a 15 de dezembro, ao Oriente Médio.
Depois disso, e antes de qualquer anúncio, o presidente Lula pretende conversar
pessoalmente com cada um de seus ministros, sobretudo com aqueles que deixarão
o governo ou perderão o status de ministro. Este é o caso da maioria das
secretarias, que foram criadas para dar maior agilidade administrativa. Depois
de 11 meses de governo a conclusão, no núcleo do poder, é de que essas
secretarias incharam a Presidência da República e geraram sobreposição de
atividades. Por fim, apesar de toda a alaúza, autoridades próximas ao
presidente não apostam um centavo na divisão ou na perda de atribuições da Casa
Civil.
Atropelando o debate
Com o apoio dos integrantes da Comissão de Constituição e Justiça, seu
presidente, o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), decidiu se rebelar
contra a manobra da Comissão Especial da reforma política que pretende levar
sua proposta direto para votação em plenário. Invocando o regimento interno da
Câmara, no qual está expresso, entre as atribuições da comissão, apreciar
projetos sobre direitos constitucional e eleitoral, Greenhalgh quer que o
relatório do deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO) seja submetido a voto na
comissão.
— As emendas constitucionais das reformas tributária e da Previdência passaram
pela Comissão de Constituição e Justiça. Por que não o projeto de lei que trata
da reforma política?
Sua manifestação recebeu o apoio dos deputados Roberto Magalhães (PTB-PE),
Wagner Rubinelli (PT-SP), Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) e Paulo
Magalhães (PFL-BA). Alegando que esta é uma crise anunciada, Greenhalgh vai
agora conversar com o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP).
Queda-de-braço
O Ceará levou a melhor contra o Rio na disputa pela secretaria-geral do PSDB. O
sucessor do ex-deputado Márcio Fortes será um cearense: o ex-governador Gonzaga
Mota ou o deputado Bismarck Maia. A mudança foi acertada entre José Serra e o
senador Tasso Jereissati (CE). Depois de uma trégua de 11 meses, José Serra
volta à cena com sua eleição para a presidência do PSDB na convenção desta
sexta-feira.
Padrinho
A direção do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura vive
situação embaraçosa. Ela pretendia colocar um argentino na chefia da
representação no Brasil. Mas bateu de frente com o presidente do Senado, José
Sarney. Este enviou carta ao ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues,
indicando para o cargo o consultor jurídico da Agência Brasileira de Cooperação
(ABC), Luiz Afonso Costa de Medeiros.
A FUNDAÇÃO Mário Soares vai lançar em Portugal o livro “História
Constitucional do Brasil”. A obra, escrita pelo embaixador do Brasil em Lisboa,
Paes de Andrade, e pelo jurista Paulo Bonavides, será apresentada pelo
professor Gomes Canotilho, da Universidade de Coimbra.
O MINISTRO do Turismo, Walfrido Mares Guia, fechou acordo com os
senadores da Comissão de Assuntos Econômicos. Eles vão apresentar duas emendas
da comissão, no valor de R$ 200 milhões cada, para promoção do turismo no
exterior e investimento em infra-estrutura.
A RAINHA Silvia, da Suécia, fará visita não oficial ao Brasil no dia 25
de novembro. Vai ao sul da Bahia para ver o canteiro de obras da Veracel,
fábrica de celulose onde estão sendo investidos US$ 1,250 bilhão por empresas
brasileiras e suecas.
E-mail para esta coluna: ilimar@bsb.oglobo.com.br
O GLOBO | PANORAMA ECONÔMICO | 17/11/2003
Estudos e debates
O IBGE mostrou que aumentou o
número de favelas no Brasil. O Ministério da Fazenda mostrou que o percentual
dos gastos públicos dedicados à habitação é mínimo. O Ibase contou que até os formadores
de opinião acham o Orçamento pouco transparente. A Fazenda exibiu os
descaminhos pelos quais o dinheiro público acaba indo para os mais ricos e não
para os pobres.
As evidências estão em todos os lugares. O Brasil tem feito escolhas insensatas
com o dinheiro público. Há três anos, o então secretário de Política Econômica
do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo, fez um primeiro levantamento sobre o
destino dos recursos do orçamento social. O texto deste ano aprofundou o
diagnóstico. As comparações internacionais mostram como o Brasil é um país
estranho.
Gastar proporcionalmente mais do que todos os países ricos com um aluno do
curso superior é um desatino. Ainda mais por ser um país com 15 milhões de
analfabetos e com uma escolaridade média da população abaixo de sete anos. Nos
países ricos, a classe média poupa a vida inteira para que seus filhos consigam
estudar em boas escolas universitárias. Aqui, a classe A tem 46% das vagas em
escolas públicas. Os 20% mais ricos têm 61% das vagas. Esse é um assunto que
provoca reações iradas. Se o país quiser, pode continuar escolhendo os ricos.
Mas precisa admitir que está escolhendo gastar mais com o ensino universitário
da elite do que com a educação do pobre.
Alguns políticos do próprio governo querem fugir do debate falando que a
Universidade pública é fundamental no financiamento da pesquisa. Ela é
realmente importante e sempre será. Mas o ponto é outro: por que subsidiar o
ensino superior dos ricos e da classe média?
Na Previdência, um juiz envolvido em esquema de venda de sentença foi — no
feliz título publicado pelo GLOBO — “condenado” a receber R$ 15 mil por mês até
o fim da vida. Enquanto isso, 16 milhões de pessoas recebem salário-mínimo. E
60% dos empregados do setor privado estão fora do sistema de previdência e
expostos, como disse o documento do Gasto Social do Ministério da Fazenda, a
“alto risco social”. E há quem ainda diga que a Justiça “está cortando na
própria pele” quando aposenta o juiz.
Há outras distorções na Previdência. Uma delas é que “no Brasil, o gasto com
aposentadoria relativo ao PIB é superior ou igual aos países onde a parcela dos
idosos na população é muito maior, como Japão e Suíça.” Mesmo assim,
parlamentares da própria base governista resistem a alguns pontos da reforma da
Previdência como a de mudar — um pouco, apenas— o sistema que hoje dá aos
servidores aposentados os mesmos aumentos dos ativos, a paridade.
Estes senadores, defensores das altas aposentadorias, deveriam pensar em como
conciliar essa defesa com os declarados propósitos de reduzir a desigualdade de
renda. Se pensam que no mundo inteiro os mais ricos têm pensões maiores, devem
olhar só esta comparação com a Espanha que está no primeiro gráfico abaixo. No
Brasil, o percentual da transferência aumenta quando chega nos 10% mais ricos.
Na Espanha, a diferença é muito pequena.
O acesso a bens públicos e a bens de consumo duráveis aumentou muito nos
últimos anos, como já mostraram amplas pesquisas do IBGE. As famílias têm cada
vez mais equipamentos domésticos. O que elas não têm é moradia decente. O país
tem 16 mil favelas. O problema da moradia torna-se cada vez mais grave porque,
além de representarem queda da qualidade de vida, são áreas que viraram reféns
do tráfico de drogas. Ninguém duvida que o problema é grave. Mas o orçamento
social do governo dedica apenas 0,6% de todo o gasto. (Veja gráfico).
No detalhamento dos gastos da Saúde, vê-se que o Estado gasta muito em curar e
pouco em prevenir. Outra insensatez já conhecida do país.
O diagnóstico da Fazenda permite um debate mais informado no Brasil sobre
questões cruciais para o futuro. Já se sentia na sexta-feira que a reação, como
sempre, virá na forma de clichês ideológicos e de defesa corporativa.
O Brasil é tão desigual há tanto tempo exatamente porque a direita e a esquerda
sempre encontram sofismas para camuflar a decisão de remeter mais recursos
públicos exatamente para os mais ricos.
Desigualdade não é destino; é escolha feita com o dinheiro público.
O GLOBO | PANORAMA POLÍTICO | 17/11/2003
Ficou para 2004
Para desespero dos que estão em
todas as listas de demitidos, a reforma ministerial só deve ocorrer entre
janeiro e fevereiro do ano que vem. Desde que voltou da viagem à África o
presidente Lula deu a entender, a seus principais assessores, que por sua
vontade não mudará a equipe antes do fim do ano. Mas o PMDB, que aguarda a sua
vez, ainda acredita num anúncio até o dia 15 de dezembro.
Isso significa que os demitidos desde sempre — Anderson Adauto, Benedita da
Silva e Roberto Amaral — vão continuar sendo a bola da vez por mais dois ou
três meses. E que petistas e aliados das mais variadas patentes vão continuar a
remanejar, promover e demitir ministros a rodo. “A vida é dura”, como diria o
chefe da Casa Civil, José Dirceu. Enquanto isso, o presidente Lula analisa
vários cenários e aguarda o melhor momento de promover as mudanças. Lula vai
fazer valer suas declarações de que não muda sob pressão e de que é ele quem
está no comando.
Os articuladores políticos do governo não estão unidos sobre qual o momento
adequado para fazer a reforma. Uma ala tem pressa em satisfazer o apetite do
PMDB e quer entregar ao aliado o pedido da hora: os ministérios das Cidades e
das Comunicações. Mas a maioria considera premeditado fazer qualquer mudança
antes de o Congresso concluir a votação das reformas da Previdência e
tributária. As reformas dependem, para serem aprovadas, dos 23 senadores do
PMDB, 20 deles candidatos a ministro. Contrariá-los, sem as reformas aprovadas,
seria correr um risco desnecessário.
Sendo assim, a reforma ministerial deve ganhar corpo após a votação das emendas
constitucionais e da reunião de avaliação do Ministério, prevista para o
retorno do presidente Lula da viagem, de 6 a 15 de dezembro, ao Oriente Médio.
Depois disso, e antes de qualquer anúncio, o presidente Lula pretende conversar
pessoalmente com cada um de seus ministros, sobretudo com aqueles que deixarão
o governo ou perderão o status de ministro. Este é o caso da maioria das
secretarias, que foram criadas para dar maior agilidade administrativa. Depois
de 11 meses de governo a conclusão, no núcleo do poder, é de que essas
secretarias incharam a Presidência da República e geraram sobreposição de
atividades. Por fim, apesar de toda a alaúza, autoridades próximas ao
presidente não apostam um centavo na divisão ou na perda de atribuições da Casa
Civil.
Atropelando o debate
Com o apoio dos integrantes da Comissão de Constituição e Justiça, seu
presidente, o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), decidiu se rebelar
contra a manobra da Comissão Especial da reforma política que pretende levar
sua proposta direto para votação em plenário. Invocando o regimento interno da
Câmara, no qual está expresso, entre as atribuições da comissão, apreciar
projetos sobre direitos constitucional e eleitoral, Greenhalgh quer que o
relatório do deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO) seja submetido a voto na
comissão.
— As emendas constitucionais das reformas tributária e da Previdência passaram pela
Comissão de Constituição e Justiça. Por que não o projeto de lei que trata da
reforma política?
Sua manifestação recebeu o apoio dos deputados Roberto Magalhães (PTB-PE),
Wagner Rubinelli (PT-SP), Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) e Paulo Magalhães
(PFL-BA). Alegando que esta é uma crise anunciada, Greenhalgh vai agora
conversar com o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP).
Queda-de-braço
O Ceará levou a melhor contra o Rio na disputa pela secretaria-geral do PSDB. O
sucessor do ex-deputado Márcio Fortes será um cearense: o ex-governador Gonzaga
Mota ou o deputado Bismarck Maia. A mudança foi acertada entre José Serra e o
senador Tasso Jereissati (CE). Depois de uma trégua de 11 meses, José Serra
volta à cena com sua eleição para a presidência do PSDB na convenção desta
sexta-feira.
Padrinho
A direção do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura vive
situação embaraçosa. Ela pretendia colocar um argentino na chefia da
representação no Brasil. Mas bateu de frente com o presidente do Senado, José
Sarney. Este enviou carta ao ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues,
indicando para o cargo o consultor jurídico da Agência Brasileira de Cooperação
(ABC), Luiz Afonso Costa de Medeiros.
A FUNDAÇÃO Mário Soares vai lançar em Portugal o livro “História
Constitucional do Brasil”. A obra, escrita pelo embaixador do Brasil em Lisboa,
Paes de Andrade, e pelo jurista Paulo Bonavides, será apresentada pelo
professor Gomes Canotilho, da Universidade de Coimbra.
O MINISTRO do Turismo, Walfrido Mares Guia, fechou acordo com os
senadores da Comissão de Assuntos Econômicos. Eles vão apresentar duas emendas
da comissão, no valor de R$ 200 milhões cada, para promoção do turismo no
exterior e investimento em infra-estrutura.
A RAINHA Silvia, da Suécia, fará visita não oficial ao Brasil no dia 25
de novembro. Vai ao sul da Bahia para ver o canteiro de obras da Veracel,
fábrica de celulose onde estão sendo investidos US$ 1,250 bilhão por empresas
brasileiras e suecas.
E-mail para esta coluna: ilimar@bsb.oglobo.com.br
O GLOBO | ANCELMO GOIS | 17/11/2003
Furacão pirata
Veja como a onda do disco pirata
é arrasadora.
Cesar Maia viu na fronteira da Bolívia com o Peru um supermercado de CDs e DVDs
piratas. Cada CD da moda é vendido, acredite, a R$ 1,40 e o DVD a R$ 2,60.
Aliás...
O prefeito jura que não comprou nada.
Mas teve gente que o viu saindo com um CD de Roberto Carlos em espanhol e com
um DVD de “Pancho Villa”, com Antonio Banderas.
Guaribas do Rio
Esta Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE revela que Mesquita é o
Piauí da região metropolitana do Rio.
Lá não tem tribunal de pequenas causas, delegacia da mulher, biblioteca, museu,
teatro, cinema ou sequer uma loja de discos.
Dinheiro da cultura
Juca Ferreira, secretário executivo do Ministério da Cultura, reclamou, durante
o Encontro de Cultura, que o governo desviou R$ 60 milhões da pasta de Gil.
O dinheiro, proveniente do fundo de loteria, foi repassado para outras pastas e
deixou a cultura a ver navios.
Ela merece
Fernanda Montenegro recebeu na sexta-feira um convite do Festival de Cinema de
Berlim.
Fernandona, além de integrar o júri, será homenageada pelo festival, em
fevereiro. Em 1998, ela ganhou o prêmio de melhor atriz por “Central do
Brasil”.
Tal mãe, tal filha
Gabriela Duarte, filha de Regina, ganhou o prêmio de melhor atriz no 29
Festival de Cinema Ibero-americano de Huelva, na Espanha, com o filme “O vestido”,
de Paulo Thiago, baseado em poema de Drummond.
Prêmio Unesco
William Bonner dividirá o palco do Teatro Nacional de Brasília, quarta, com
Lula, na entrega do Prêmio Unesco 2003.
Bonner receberá o prêmio na categoria imprensa e o presidente o prêmio
principal.
Viva Dr. Vicentinho!
Hoje o deputado Vicentinho assiste à última aula do curso de direito da Uniban
(SP). A aula será filmada pelo Canal Futura.
Socorro, Papai Noel
Vai ser magrinho o Natal no Itamaraty para quem serve lá fora.
É que não vai sair a graninha para esta turma passar as festas com os parentes.
Milagre eleitoral
Veja como, daqui a pouco, periga Búzios, a praia fluminense dos bacanas, ter
mais eleitores do que habitantes.
Em 1997, eram 6.200 eleitores. Em 2003, são quase 15 mil. A população, em 1997,
era de 13 mil. Hoje é de 18 mil. Ou seja, os eleitores quase triplicaram e a
população subiu só 20%.
É que...
Tem candidato a vereador em Búzios com contratos de locação fajutos para
transferir os títulos de seus cabos eleitorais.
Pior é que tem candidato que também nem mora lá. O TRE determinou o
recadastramento geral dos eleitores. Ruim para os nativos, idosos em sua
maioria.
Belas Artes
Paulo Herkenhoff, diretor do MNBA, que passa por uma fase de penúria, conseguiu
liberar, pela primeira vez no governo Lula, uma graninha para levantar o belo
museu.
Já mandou reformar os banheiros e recuperar a arquitetura original da Galeria
do Século XX.
Melhor assim
O advogado João Tancredo nega que tenha ido às vias de fato com seu colega
Nélio Andrade sexta na porta do Fórum.
Os dois apóiam chapas diferentes nesta tumultuada eleição da OAB/RJ.
Bobomóvel
O motorista da Cherokee placa KQL 5064, do Rio, tem em vez de buzina uma sirene
igual à da polícia que ele aciona para deixar os trouxas para trás.
Como faria Chacrinha, uma buzinada nele.
Sônia Biondo e Bruno Donati lançam hoje o livro “Cabelo”, pela Senac Nacional.
Começa hoje a 4 Jornada Jurídica da Câmara de Comércio França-Brasil.
Flávio Marinho lança hoje, pela Imago, “Abalou Bangu”, na Letras &
Expressões, no Leblon.
Amanhã, é dia de lançamento do livro “Nação coragem” de Sérgio Guerra, na
Travessa.
Hoje, Mauro Ferreira e Cleodon Coelho lançam “Nossa senhora das oito”, na
Travessa em Ipanema.
Celina Mello assina o coquetel de inauguração da Prince's hoje.
COM ANA CLÁUDIA GUIMARÃES, MÁRCIA VIEIRA E MARCEU VIEIRAE-mail para esta
coluna: ancelmo@oglobo.com.br
FOLHA DE S. PAULO | PAINEL | 17/11/2003
Mapa da guerra
A
cúpula do PT inicia nesta semana uma série de reuniões individuais com os
presidentes dos partidos aliados, incluindo o PMDB e o PP. A idéia é discutir o
lançamento de candidatos a prefeito em todas as cidades com mais de 100 mil
eleitores. Hoje, o encontro será com o PL.
Cubo mágico
Na avaliação do PT, as disputas nos municípios maiores podem gerar fraturas na
base de sustentação ao governo federal. A intenção é reproduzir a aliança que
apóia Lula no maior número possível de cidades. Onde isso não for viável, os
petistas buscarão pacto de não-agressão.
Segundo escalão
A formação dos palanques nos municípios menores preocupa menos os dirigentes
petistas. No entender da cúpula, eventuais desentendimentos entre aliados de
Lula nessas localidades terão pouca repercussão no xadrez partidário de
Brasília.
Porteira aberta
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que hoje se reúne com a cúpula petista
para tratar das eleições de 2004, enviou circular a todos os diretórios
municipais de seu partido dando às lideranças locais total liberdade para
negociar alianças.
Filme conhecido
Já circulam no Congresso dossiês com denúncias contra Garibaldi Alves,
ministeriável do PMDB. Os portadores da papelada são desafetos regionais do
senador e políticos de seu próprio partido que ainda sonham com uma vaga na
Esplanada.
Passado em revista
As denúncias contra Garibaldi Alves, relativas ao período em que ele governou o
Rio Grande do Norte (1995-2002), dizem respeito à privatização da companhia de
saneamento e a um cunhado preso por extorsão. Uma CPI na Assembléia e a Justiça
não acusaram participação do senador em irregularidades.
Aspirina e cama
Já que sonhar não paga imposto, o PTB cobiça mais um ministério. A sigla que
mais cresceu na Câmara desde o início do governo Lula considera pouco ter
apenas a pasta do Turismo. Com necessidades mais urgentes a atender, o Planalto
pretende acalmar o partido com cargos de segundo e terceiro escalões.
Tutu à mineira
Enquanto o vice José Alencar tenta segurar Anderson Adauto nos Transportes, o
PL de Minas busca indicar seu sucessor, alternando apostas no vice-governador
Clésio Andrade e no deputado José Santana. O Planalto, no entanto, prefere
Alfredo Nascimento, prefeito de Manaus.
Cintura de ministro
Mais um político adere ao regime da proteína, desaconselhado por médicos mas
apreciado pelo poder em Brasília. Eunício Oliveira, líder do PMDB na Câmara e
ministeriável, segue a dieta que já conquistou Lula.
Tudo para mim
Dos R$ 2 milhões em emendas ao Orçamento que a Comissão de Assuntos Econômicos
tem direito a apresentar, Romero Jucá (PMDB-RR) quer ficar com R$ 800 mil.
"O passe dele vale mais que o do Ronaldinho", ironizou Mão Santa
(PMDB-PI).
Em causa própria
Inocêncio Oliveira (PE) busca apoios no PFL para o projeto que permite a
reeleição de João Paulo (PT-SP) à presidência da Câmara. Vice-presidente,
Inocêncio seria beneficiado diretamente com a aprovação da medida. E tenta
agradar o colega, que censurou reportagem no "Jornal da Câmara" contra
ele.
Contrato de risco
O governo do DF fechará contrato de R$ 250 mil mensais para o aluguel de um
prédio do ex-senador Luiz Estevão. No ano passado, a Funasa chegou a alugar o
mesmo edifício, mas o contrato foi desfeito por ordem do então ministro José
Serra (Saúde).
TIROTEIO
Do deputado Doutor Rosinha (PT-PR), sobre senadores bloquearem a tramitação do
Orçamento como forma de pressão para terem mais emendas:
- Eles passaram a se comportar como vereadores, preocupados apenas com emendas
paroquiais. Não agem como senadores da República.
CONTRAPONTO
Vigilantes do peso
Aliados durante o governo FHC, os peemedebistas Renan Calheiros (AL) e Geddel
Vieira Lima (BA) estão rompidos desde o início do mandato de Lula.
O senador Renan é um dos líderes da ala majoritária do partido, defensora da
adesão ao governo. O deputado Geddel quer o PMDB na oposição.
Na semana passada, ao encontrar Geddel na gravação do programa de TV da sigla,
Renan procurou desanuviar o clima:
- A vida na oposição está boa. Você está mais gordo.
- Não fale assim, parece até que não quer voltar a ser meu amigo. A única coisa
capaz de melhorar a minha auto-estima é saber que eu emagreci 15 kg.
Igualmente em dieta, Renan respondeu entusiasmado:
- Eu também perdi 15 kg!
Abraçado ao colega de regime, Geddel concluiu:
- Pelo menos alguma coisa a gente tem em comum!
FOLHA DE S. PAULO | PAINEL S/A | 17/11/2003
BNDES apóia...
O
BNDES irá financiar um projeto público-privado na área de energia. O empréstimo
será de R$ 670 milhões e viabilizará a construção da usina hidrelétrica Peixe
Angical, no rio Tocantins, com 452 MW de capacidade. O empreendimento será
realizado pelo grupo Enerpeixe, controlado pela EDP e por Furnas.
...PPP em energia
O projeto também prevê a construção de uma linha de transmissão com 110 km de
extensão para ligar a usina à subestação de Gurupi -integrante do sistema de
transmissão Norte-Nordeste. A construção irá gerar 5.780 empregos diretos.
Mercado segurador
Segundo dados da Susep, antes do Plano Real o mercado segurador representava
1,8% do PIB. Atualmente, esse número chega a 3,8%. O objetivo é atingir 7% do
PIB em quatro anos.
Automóveis
Pesquisa realizada pela Susep indica que a receita de prêmios acumulada na
carteira de automóveis, de janeiro a setembro, foi 7,6% inferior em termos
reais em relação ao ano passado.
Ecologia
O BB, o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama assinaram com o banco alemão
Kreditanstalt für Wiederaufbau dois contratos de doação de 15 milhões para a continuação
do programa de proteção da Amazônia e da mata atlântica.
Globalização
O economista Antônio Corrêa de Lacerda lança hoje, em São Paulo, o livro
"Globalização e Investimentos Estrangeiros no Brasil". Na obra, ele
diz que o desafio do Brasil agora é não só atrair investimentos de melhor
qualidade mas também motivar mais as empresas que já estão instaladas no país.
Lançamento
A grife italiana Cerruti acaba de lançar no Brasil sua mais nova fragrância
masculina, 1881 Amber, em edição limitada. A expectativa é aumentar as vendas
da marca em torno de 20% no país. A grife é a sexta no mercado europeu.
Calendário
A gráfica Pancrom apresenta no dia 20, com festa no Moinho Eventos (SP), seu
calendário para 2004. Como na primeira edição, lançada no ano passado, o
calendário foi elaborado por 12 diretores de arte de grandes agências
brasileiras, como Almap/BBDO, DPZ, Giovanni,FCB e F/Nazca.
VALOR ECONÔMICO | CRISTIANE LUCCHESI | 17/11/2003
Apostas de
corte de um ponto nos juros
Bovespa bate dois recordes
em uma semana
O
mercado financeiro começa a semana na expectativa sobre o que fará o Banco
Central com os juros básicos (Selic) na reunião do Comitê de Política Monetária
(Copom), amanhã e depois. Com os números de inflação mostrando desaceleração,
apesar da retomada econômica mais forte do que a esperada no país, a maior
parte dos economistas acredita em uma redução de 1 ponto percentual, para 18%
ao ano.
"Há ainda um ambiente de muita capacidade ociosa e de mercado de trabalho
fraco. Além disso, a recuperação econômica têm se mostrado mais forte na
indústria do que no comércio. Por isso, é possível gerar crescimento sem
inflação", avalia Rodrigo Azevedo, economista-chefe do CSFB. Os analistas
do Merrill Lynch também acreditam no corte de um ponto, segundo relatório
divulgado na sexta-feira.
Na semana passada, os mercados futuros também passaram a indicar queda mais
forte nos juros. Os contratos para vencimento em dezembro na Bolsa de
Mercadorias & Futuros passaram a projetar taxas de 18,2% ao ano na
sexta-feira passada, com relação aos 18,45% do final do mês passado.
Animados com as perspectivas de queda mais robusta nos juros e inflação em
baixa, os investidores levaram a Bolsa de Valores de São Paulo ao recorde
histórico de fechamento na sexta-feira. O Índice Bovespa, das ações mais
negociadas, terminou o dia a 18.985 pontos, o mais alto nível no encerramento
do pregão desde seu nascimento, em 1968. Na quinta-feira, o Ibovespa chegou ao
recorde dentro de um dia, de 19.115 pontos. Em dólar, no entanto, o recorde do
Ibovespa foi no dia 27 de março de 2000, de 10.915 pontos.
No mercado internacional, o C-Bond era negociado a 94,56% do valor de face às
20h de sexta-feira, perto de seu preço recorde, de 94,58% do valor de face do
dia 14 de outubro. Na semana, o C-Bond subiu 0,74% e o risco-Brasil 1,75%, para
582 pontos básicos.
O dólar manteve leve pressão na sexta-feira, fechando a semana a R$ 2,95, a
maior cotação desde 3 de setembro de 2003, em alta de 2,82% na semana e de
2,93% no mês. No ano, no entanto, o dólar está em queda de 16,78%. Para
Azevedo, o dólar está dentro da volatilidade esperada. "Não vejo
necessidade de realinhamento na taxa de câmbio de curto prazo, pois as
condições internacionais de financiamento do balanço de pagamentos continuam
favoráveis", diz ele, que previa a moeda cotada a R$ 2,95 no final do ano
e a R$ 3,20 no final de 2004. Ele considera, também, que o ritmo de
recomposição de reservas e de redução da dívida cambial está sendo muito mais
rápido do que poderia se esperar em junho ou julho. Segundo seus cálculos,
foram resgatados em juros e principal US$ 14,5 bilhões de dívida cambial e o
Banco do Brasil comprou, em nome do Tesouro, US$ 5,5 bilhões no mercado de
câmbio à vista neste ano.
O risco maior para o Brasil, na avaliação de Azevedo, é o Fed, banco central
dos EUA, subir os juros antes do final de 2004 ou início de 2005. "Vivemos
uma situação de excepcionalidade nas taxas americanas, que pode acabar a
qualquer momento", lembra. Isso poderia acontecer se houvesse um
crescimento maior do que o esperado na economia, na inflação ou nos índices de
emprego americanos, indicadores nos quais o mercado vai ficar de olho.
JORNAL DE BRASÍLIA | CLÁUDIO HUMBERTO | 17/11/2003
"É como dizem, o que mais mata aqui é a língua"
Guilherme
Soares, promotor de Limoeiro do Norte (CE), sobre a ameaça de morte à juíza
Maria Valdenisa Bernardo
Lula copia FhC na propaganda
Depois de imitar a política econômica e adotar o desprezo de FhC pelos
aposentados, o governo Lula agora usa na propaganda oficial os talentos da era
tucana. Ferreira Martins, espécie de locutor oficial da publicidade de FhC,
empresta sua bela voz aos comerciais da Petrobras, assim como o criativo PC
Bernardes, autor de todos os jingles tucanos, agora compõe músicas para o
governo Lula. Só falta fazer de José Serra o porta-voz.
Pose é tudo
Benedita da Silva está com o pé na cova, mas não perde a pose: lideranças
governistas no Congresso reclamaram ao presidente Lula que ela só recebe
parlamentares que pedem audiência com 20 dias de antecedência.
Encenação
O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), garantiu a José
Dirceu que Paulo Paim (RS) e Serys Slhessarenko (MT) fazem média com o
eleitorado, mas, na hora agá, apoiarão a reforma da Previdência.
Poesia sempre
Médico, Salvador Prantera Jr. descobriu a literatura e a biblioteca virtual aos
72 anos. O volume 2 de "Versos do doutor" está no portal
reservaer.com.br, mostrando as grandes descobertas do cotidiano que só um poeta
vê.
A boa intriga
Já imaginando as frases que Lula pode dizer em seus improvisos, nos países
árabes, amigos do presidente espalham, para chegar aos ouvidos dele, que falar
pelos cotovelos pode desencadear crises. De bursite.
David e Golias
Na briga judicial contra a multinacional Swedish Match, o publicitário carioca
Márcio Mascarenhas ganhou ajuda inesperada: o Inmetro reconheceu que o isqueiro
Cricket, que o cegou, só recebeu certificado ISO após o acidente, há 2 anos.
Foi Márcio quem descobriu a bomba ambulante para o Inmetro.
Ajuda da sorte
O portal ajudabrasil.org leiloa a partir das 16h de amanhã bens doados ao Fome
Zero: caneta e carteira Montblanc, relógio Rolex, guitarra autografada da banda
Capital Inicial, até um jipe Troller, com lance mínimo de R$ 23 mil.
Alternativas
Até há dias, Lula se vangloriava de que a oposição só tinha um motivo para
críticas: as viagens, suas e de ministros. Deve ser por isso que o governo
abriu atacou velhinhos e deficientes. Para dar à oposição outros motivos.
Pessoas? São monstros
A escritora Letícia Dornelles se revoltou com o ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça), para quem
diminuir a idade penal não é solução porque "são pessoas em
formação". Pergunta: "Formação em que, sr. ministro? PhD em
violência? Em desumanidade?" Ela lembra que não se trata de pessoas, mas
de monstros, como os que mataram o jovem casal paulista.
Eca!
...o Estatuto da Criança e do Adolescente tinha que se chamar ECA?
Gerente de vendas
Roberto Requião pediu ao ministro interino da Agricultura, Amauri Dimarzio, os
nomes dos 225 agricultores paranaenses que assumiram plantar soja transgênica.
Pedido negado, o governador escreveu a Lula afirmando que Dimarzio se comporta
como "um gerente de vendas da Monsanto".
O sem-tapete
Sempre que vai ao Congresso, o presidente do PT, ex-deputado José Genoino,
mostra sua dor de cotovelo por não ter mandato nem cargo no governo. Vai sempre
no comitê de imprensa e apela aos jornalistas: "Não se esqueçam de mim só
porque agora estou no movimento dos sem-tapete..."
Caça aos bodes
José Dirceu agora vai tomar conta da papelada que o presidente assina. Cobrado,
resolveu caçar bodes expiatórios. É o que tem feito, nos últimos dias. Mas, com
a reforma ministerial na porta, os bodes estão atentos.
Cartilha do PTB
O presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), decidiu preparar uma
cartilha sobre noções de procedimentos legais dos candidatos e dos direitos e
deveres de um parlamentar. Encomendou o trabalho a sua assessoria e a Segadas
Vianna, consultor político agora ligado ao partido.
Homenagem justa
O Centro de Estudos Brasileiros de Moçambique passou a ter o nome do embaixador
José Aparecido de Oliveira. A homenagem faz justiça ao criador da Comunidade
dos Países de Língua Portuguesa, escanteado por FhC.
Vagarex ou Evaporex?
O leitor José Ricardo Rodrigues escreve de Londres, onde vive há 13 anos, para
implorar aos Correios que entregue a fita de vídeo enviada para o Rio dia
24/06/03. Seu pai procurou até na Receita. Tem o recibo do Correio britânico,
que garantiu ter despachado a encomenda. Alguém duvida?
Neo provérbios
O INSS quer um controle tão seguro sobre os aposentados idosos, que já se pode
dizer que, no Brasil, seguro não morre de velho, mas o contrário.
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MJ-CONCORRÊNCIA |
JORNAL DO BRASIL | ECONOMIA | 17/11/2003
Miami disputa sede do bloco
Miguel Enesco
AFP
MIAMI - Aspirante a sede da Secretaria da Alca, órgão executivo do futuro
bloco, Miami está apostando todas as suas fichas no evento desta semana, que
discutirá os termos da formação da Área de Livre Comércio das Américas. Para a
cidade, a organização do evento é uma oportunidade para consolidar sua campanha
como futura capital comercial das Américas, ainda que seja também uma
responsabilidade, segundo Jorge Arrizurieta, diretor-executivo da FTAA-
Flórida, entidade que promove a candidatura da cidade.
O encontro reunirá representantes de 34 países do hemisfério. Todos, à exceção
de Cuba, hospedados no mesmo hotel no centro da cidade. Ao mesmo tempo,
espera-se a chegada a Miami de milhares de manifestantes contrários ao projeto
de abertura comercial no hemisfério.
- Levamos um ano e meio preparando este encontro ministerial. A coordenação
policial é impecável - afirmou Arrizurieta, que avisa: - Miami não é Seattle.
O executivo refere-se à cidade americana em que aconteceram violentos
confrontos entre manifestantes e policiais durante uma reunião da Organização
Mundial do Comércio, em 1999.
Além de distúrbios causados por manifestações, outro risco para a candidatura
de Miami, é um fracasso no processo de negociação do bloco econômico graças às
divergências entre os Estados Unidos e o Brasil, que sediará o nono e último
encontro ministerial do bloco econômico.
O fato de ser uma cidade americana submetida a severas medidas de segurança
desde os atentados de 11 de setembro também pode prejudicar a candidatura de
Miami. Afinal, muitos passageiros latino-americanos, incluindo a primeira-dama
do Paraguai, queixaram-se de maus-tratos no aeroporto da cidade, um dos maiores
dos Estados Unidos.
Conquistar a sede da secretaria da Alca significa, para Miami, a criação de 89
mil empregos diretos e indiretos, além de investimentos de US$ 13,5 milhões,
calcula a Enterprise Florida, agência de desenvolvimento econômico local.
Mas Miami não está sozinha. A cidade disputa a secretaria com Atlanta (Geórgia,
EUA), Puebla (México), Panamá e Porto Espanha (Trinidade e Tobago). A sede da
Alca será escolhida no fim do ano que vem, pouco antes da implementação da
maior zona de livre comércio do mundo, prevista para 2005.
JORNAL DO BRASIL | ECONOMIA | 17/11/2003
Americanos
trabalham contra a Alca
EUA vão anunciar série de
acordos bilaterais com países da região para desviar foco de negociações de
seus próprios subsídios
WASHINGTON, MIAMI e BRASÍLIA - O
governo americano planeja sabotar a reunião ministerial para discutir a criação
da Área de Livre Comércio das Américas, esta semana, em Miami, Flórida. A Casa
Branca anunciará, durante o evento, o início de negociações de tratados de
livre comércio com países da região, como Panamá, Peru e Equador, além de
República Dominicana e outras nações da América Central.
A discussão destes acordos bilaterais tem como objetivo desviar o foco dos
bilionários subsídios concedidos pelo governo americano a seus agricultores e
esvaziar a posição de países do Mercosul, Brasil à frente, em sua tentativa de
remover barreiras comerciais do caminho do bloco.
- É óbvio que estes convênios cumprem com o propósito geral de alcançar mais
abertura comercial com a região, embora apenas alguns países concordem em
assinar esses pactos - disse Carl Cira, diretor do Centro da Cúpula das
Américas.
Em sua manobra para minar a posição do Mercosul, os Estados Unidos também
ratificaram um pacto comercial com o Chile e vêm cortejando a Colômbia. O pano
de fundo da atitude de Washington é a eleição estadual do próximo ano, que
expõe a constelação de interesses locais. É esta rede de clientelismo, parceria
entre empresários, sindicalistas e políticos como o governador da Flórida, Jeb
Bush, irmão do presidente George Bush, que sustenta as barreiras e sobretaxas a
produtos como suco de laranja e aço.
Do outro lado deste cabo-de-guerra, estão empresários americanos de setores
competitivos, de olho na ampliação de seus mercados. Caso saia do papel, a
Alca, lançada na Cúpula das Américas de 1994, em Miami, será o maior bloco
comercial do mundo, com 800 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto
conjunto de US$ 14 trilhões.
- Um fracasso dramático em Miami abalaria os alicerces que sustentam a política
comercial da administração (americana) - disse Mac Destler, professor da
Universidade de Maryland.
Enquanto Washington traçava a estratégia de isolamento do Mercosul,
representantes dos 34 países que integrarão o bloco iniciavam em Miami as
discussões, a portas fechadas, de um rascunho de proposta conjunta que
viabilize a continuidade das negociações. O Brasil, co-presidente do processo
negociador, ao lado dos Estados Unidos, defende a flexibilidade na construção
do acordo e quer a abertura comercial em etapas, de modo a proteger os setores
mais sensíveis de uma enxurrada de produtos e serviços do principal futuro
sócio da Alca, os Estados Unidos.
Nove grupos de negociação debatem questões como acesso a mercados, agricultura,
compras governamentais, investimento, competitividade, direitos de propriedade
intelectual, serviços, soluções de disputas, subsídios e concorrência desleal
(dumping).
- O principal resultado da reunião de Miami será um acordo que possibilitará a
intensificação das negociações, com respeito às flexibilizações que acordamos (EUA
e Brasil) adotar - disse ontem, em Brasília, o chanceler brasileiro, Celso
Amorim, após participar de evento promovido pela Organização das Nações Unidas
(ONU). - A Alca poderá ser ampla, desde que seja equilibrada não apenas para um
lado.
O Mercosul chega ao evento com discurso afinado. Fontes diplomáticas de Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai disseram que o bloco levará uma posição comum,
especialmente sobre a necessidade de se obter avanços no que diz respeito a
temas agrícolas. E ainda conseguiu apoio do México, que anunciou neste fim de
semana a intenção de negociar um tratado comercial bilateral.
- A negociação concerne à mudanças no tema agrícola, especialmente depois do
fracasso da última cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) na cidade
mexicana de Cancún - disse um alto funcionário da chancelaria argentina. - A
Argentina e os países do Mercosul estão dispostos a negociar todos os temas
desde que os Estados Unidos e o Canadá mostrem intenções de modificar suas
posições com relação aos subsídios.
O mesmo princípio foi defendido pelo diretor-geral de Política Econômica do
Ministério paraguaio de Relações Exteriores, Enrique Franco.
- O Paraguai participa com o Mercosul e já delineamos nossa posição, que é
basicamente ter um maior acesso aos mercados, em particular no setor agrícola.
O Chile, por sua vez, mantém todas as portas abertas, pois já assinou acordos
com Estados Unidos e União Européia.
O GLOBO | ECONOMIA | 17/11/2003
Um continente dividido
Eliane Oliveira e José Meirelles
Passos
Enviados especiais MIAMI
México, Chile, Peru e Colômbia se mostraram ontem contrários à flexibilização
nas negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A
proposta de adotar uma Alca mais flexível consta do documento de cinco páginas
preparado por Brasil e Estados Unidos, que co-presidem a etapa final de
negociações. O texto servirá de guia para a reunião preparatória da Alca entre
os 34 ministros de Relações Exteriores, que ocorre na quinta-feira e na
sexta-feira em Miami, EUA.
Anteontem, em reunião na Bolívia, os presidentes de Chile, Ricardo Lagos, e
México, Vicente Fox, teriam manifestado apoio à proposta do Brasil e do
Mercosul, apresentada pelo presidente Lula. Mas, ontem, em Miami, a posição era
outra. Segundo negociadores brasileiros, esses países, que já têm acordos
bilaterais assinados ou prestes a serem negociados com os EUA, não vêem
vantagem numa Alca mais flexível.
Essa posição poderia dificultar um consenso em torno do documento final do
encontro. Para um dos negociadores do Brasil, o embaixador Regis Arslanian, uma
vez eliminadas as diferenças entre brasileiros e americanos, que colocavam em
risco o nascimento da Alca, essa tentativa de obstrução só serviria para
atrasar o processo:
— Chegou-se a um acordo de entendimento entre Brasil e Estados Unidos. E acho
que todo mundo já entendeu isso. Querer alterar o fio da balança, mexer nisso,
poderia jogar tudo para trás — advertiu.
Mercosul propõe compensação para nações mais pobres
Aqueles países, mais o Canadá — que também sugeriu alterações no texto — já têm
acordos com os EUA ou estão prestes a iniciar uma negociação bilateral. O
México e o Canadá estão no Nafta (Área de Livre Comércio da América do Norte).
O Chile tem um acordo bilateral. Colômbia e Peru já discutem as bases para algo
semelhante.
Segundo negociadores brasileiros, esses países mudaram de atitude ao perceberem
que a aproximação entre EUA e Mercosul — que parecem concordar com uma Alca que
levaria em conta interesses e necessidades de cada nação — os deixa em
desvantagem. Afinal, esses países já negociaram com os americanos a abertura
para investimentos e temas como propriedade intelectual, serviços e compras
governamentais.
— Muitos pensavam que a Alca não sairia e correram para negociar com os
americanos. Daí a reação — disse uma fonte do governo brasileiro.
O secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Mário Mugnani,
endossou:
— Esses países afirmam que pagaram um preço mais alto do que nós pagaríamos
para entrar no mercado americano — disse ele.
A chamada “nova visão da Alca” está registrada logo nos primeiros parágrafos do
projeto de declaração da reunião ministerial. O documento diz que os ministros
querem uma Alca integral e equilibrada,“que aborde a questão das diferenças nos
níveis de desenvolvimento e tamanho das economias do hemisfério”.
À margem da resistência de Chile, México, Peru e Colômbia, o Mercosul
reapresentou ontem sua proposta para a Alca com dois reforços: a criação de um
fundo de compensação para ajudar as nações mais pobres a se desenvolverem; e a
insistência por mais clareza nas investigações americanas de dumping que causam
quase US$ 300 milhões de prejuízo ao ano aos exportadores brasileiros de aço.
No caso do fundo, o co-presidente da Alca pelo lado brasileiro, Adhemar
Bahadian, esclareceu que o Brasil teria participação mais relevante como doador
do que como beneficiário.
Em Brasília, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, cobrou ontem
mais participação das nações ricas para ajudar os países em desenvolvimento a
alcançarem as Metas do Milênio das Nações Unidas.
O GLOBO | ECONOMIA | 17/11/2003
Alca: exportador admite que preço agrícola subiria no mercado interno
Eliane Oliveira
Enviada especial
MIAMI. As grandes empresas exportadoras brasileiras esperam a Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) com ansiedade, por acreditarem que o acordo
beneficiará as vendas no hemisfério. A maior parte aposta nessa melhora, mesmo
se os EUA não eliminarem os subsídios agrícolas. Mas uma parcela considerável
admite que, com o aumento da demanda externa, poderá haver problemas de oferta
no mercado doméstico e, como conseqüência, a elevação dos preços agrícolas aos
consumidores no Brasil.
As conclusões são de uma pesquisa da Associação Brasileira de Comércio Exterior
(Abracex) com 340 exportadores. Pelos resultados, a Abracex prevê que, com a
Alca, dentro de dois a três anos as exportações do país vão pular dos atuais
US$ 60 bilhões para US$ 200 bilhões, como ocorreu com o México no Nafta (acordo
de livre comércio da América do Norte). Dos empresários entrevistados, 67%
consideram a Alca benéfica para o Brasil, assim como o Nafta para os mexicanos.
— Isso só será possível se as negociações forem feitas com cuidado, até porque
o mercado interno deve ter prioridade de abastecimento. Aí, sim, nossas
exportações poderão crescer quatro vezes mais, como as do México — disse o
presidente da Abracex, Primo Roberto Segatto.
Pela pesquisa, 94% acreditam que a Alca permitirá o aumento das exportações se
os EUA eliminarem subsídios agrícolas e 58% dizem que, mesmo com as subvenções
aos produtos agrícolas, o Brasil sairá ganhando. Além disso, 63% afirmam que
teriam condições de atender a todos os pedidos, mas 64% dizem que poderiam
encontrar dificuldades para suprir o país.
58% querem Mercosul como condutor das negociações
No levantamento, 59% das empresas gostariam que se desse prioridade aos
produtos industriais, e não aos agrícolas, e 64% afirmam que os ganhos serão
maiores se houver resultados na liberalização do comércio de produtos com maior
valor agregado. Para 87% dos empresários, o setor de industrializados
empregaria mais que o agrícola. A pesquisa também valoriza o Mercosul. Pelos
dados, 58% dos exportadores concordam que o bloco conduza o processo em nome da
região, e 39% preferem que o Brasil negocie sozinho.
O GLOBO | ECONOMIA | 17/11/2003
Empresários querem acordo ambicioso
José Meirelles Passos
Enviado especial
MIAMI. A Área de Livre Comércio das Américas (Alca) que empresários e grandes
corporações da América Latina querem é diferente da que os governos de Brasil e
Estados Unidos — co-presidentes da fase final das negociações — acham possível
obter, neste momento. A versão empresarial é mais ambiciosa. Ela pressupõe
acordos em temas considerados tabus tanto na Casa Branca como no Palácio do
Planalto.
A visão empresarial, sintetizada num documento de 25 páginas, será apresentada
aos governos do hemisfério nesta quarta-feira sob a rubrica de “recomendações”,
no fim do Fórum Empresarial das Américas que começa esta manhã, em Miami. O
texto diz que o setor considera o acesso ao mercado como “um dos mais
importantes componentes de qualquer futuro acordo de livre comércio”. A idéia é
compartilhada pelos governos, mas com diferenças em pontos importantes.
Os empresários querem regras nas áreas de serviços, propriedade intelectual,
compras governamentais e investimentos. Esses temas o Brasil só aceita negociar
em profundidade na Organização Mundial de Comércio (OMC). Os empresários pedem
ainda um acordo em anti-dumping e a eliminação de tarifas e barreiras
não-tarifárias aos agrícolas, assim como o fim dos subsídios à exportação e à
produção doméstica. Nestes pontos, são os EUA que insistem em negociar na OMC.
Ao longo dos próximos três dias, a classe empresarial deverá apresentar sua
posição sobre uma iniciativa sugerida nos últimos dias por EUA e Brasil: a da
flexibilização da Alca, que inclua a discussão de todos os temas, mas dando à
cada país a opção de dosar a profundidade de cada um deles.
Para empresários, não basta “Alca à la carte”
Alguns definem a proposta como “Alca Light”. Brasil e EUA a rotulam de “Alca
Possível”. Os empresários tem outro nome:
— Queremos algo mais ambicioso e não essa “Alca à la carte” — disse ao GLOBO o
vice-presidente da Câmara de Comércio dos EUA para o Hemisfério Ocidental, John
Murphy.
Quanto ao acesso ao mercado, os empresários pedem a eliminação progressiva de
barreiras tarifárias e não-tarifárias, e que cada país elimine “uma alta
proporção de suas tarifas num prazo de cinco anos”. Eles sugerem que os países
dêem um “tratamento nacional” a mercadorias de outras nações.
Há um ponto de total convergência entre empresários e governos: eles se opõem à
discussão sobre as questões trabalhista e de meio-ambiente. “Muito
freqüentemente os pedidos para ligar mecanismos comerciais à imposição de
padrões trabalhistas são simplesmente uma manifestação de protecionismo, feita
sob outro disfarce”, diz o documento, preparado por Câmara de Comércio dos EUA,
Conselho Empresarial Brasil-EUA e Associação de Câmaras Americanas de Comércio
da América Latina.
FOLHA DE S. PAULO | OPINIÃO | 17/11/2003
Amercosul
JOÃO HERRMANN NETO
As nações signatárias do Tratado de Assunção, de 26 de março de 1991, República
Argentina, República Federativa do Brasil, República do Paraguai e República Oriental
do Uruguai, deram um passo concreto para a integração das Américas, com a
criação do Mercado Comum do Sul. O Tratado de Ouro Preto, em 31 de dezembro de
1994, aprofundou as relações dos quatro países-membros.
A assinatura do Consenso de Buenos Aires, em 17 de outubro deste ano, no
contexto de um novo quadro político-econômico no continente, pode levar à
integração de toda a comunidade sul-americana de nações. Os presidentes
Kirchner e Lula são cabeças diferentes de seus antecessores, vindas das geleiras
e do agreste, respectivamente, e são acompanhados por uma renovação quase que
consentânea entre todos os 12 Estados-membros, se não no exercício do mando do
Estado, seguramente nos movimentos políticos do nosso subcontinente.
Para tornar possível a criação desse novo bloco regional, faz-se mister o uso e
a implementação de uma série de medidas como as aqui propostas, como se fora um
decálogo da integração:
A integração dos 12 países os levaria, entre si, a acessar três saídas
marítimas com seus portos de escoamento no Atlântico Sul, Caribe e Pacífico,
tornando-os trioceânicos.
Com a fusão entre o Pacto Amazônico, Pacto Andino e Mercosul, criaria-se a
região com a maior riqueza biosférica do planeta, com a presença de recursos
hídricos, animais e uma biodiversidade incomensuráveis.
Os países a leste e a oeste não se comunicam fisicamente entre si. Há uma
artificialidade na nossa relação regional. Temos que perfurar as fronteiras
hidroviária, rodoviária, ferroviária e aeroviariamente para que se integrem
definitivamente os países, permitindo dessa forma uma comunhão territorial.
O bloco sul-americano seria constituído por uma comunidade de 360 milhões de
pessoas falando português e espanhol, a maior do mundo em extensão territorial
continuada, com um só linguajar oficial.
A troca comercial, hoje estimada em US$ 30 bilhões -de bens e serviços-, seria
servida por um único lastro monetário na livre circulação financeira e de
pessoas, com uma moeda do bloco.
Seria criada uma força sul-americana de defesa, com comando único, que
garantiria a integridade territorial e as fronteiras marítimas, aéreas e
terrestres ao norte e ao sul.
A criação de um bloco sul-americano de livre comércio não impediria a criação
do grande mercado americano (Alca), mas exigiria o fatiamento de suas
negociações entre "Amercosul", a comunidade do Caribe e
centro-americana e o Nafta.
Seria eleito um Parlamento Sul-Americano, pelo voto universal de todos os
nacionais, nos moldes do já proposto pela Comissão Parlamentar Conjunta do Mercosul,
respeitadas as representações mínimas dos Estados-membros, cabendo a essa
Câmara a representação plural e cidadã dos homens e mulheres sul-americanos,
com sede física em um dos países.
A cláusula-mãe da integração seria a democracia, indispensável e necessária
para a permanência dos Estados-membros, que só poderiam gozar do acordo se a
prática democrática e de respeito aos direitos humanos existissem internamente
em cada um deles.
Os 12 países da América do Sul -Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia,
Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela- constituiriam a
Cosan (Comunidade Sul-Americana de Nações), bloco territorial pleno e comercial
único, indo ao encontro dos sonhos libertários de San Martin, Bolívar e Rio
Branco na formação da unidade do continente sul-americano, território partido
ao meio aos seus nativos pela colonização e juntando-se agora pelos seus
descendentes e imigrantes numa única nação irmã.
Essa agenda tem ambiência política para prosperar. Dificilmente as condições
objetivas e subjetivas da humanidade, que hoje existem, vão se repetir. Há uma
remodelação do mundo em que vivemos. A unidade da América do Sul pode
interferir no formato da nova ordem mundial. Três bilhões de homens e mulheres
contemplam a nova história. Mais de 10% vivem por aqui.
As grandes navegações se repetem cinco séculos depois, com outro engenho e
arte. Chamam-nas de globalização. São distintas as armas e os barões.
Chamam-nos de alta tecnologia e capital financeiro. Porém são os mesmos sóis e
mares. A mesma terra assinalada. Nela se ouve a prosa de Jorge Luis Borges
pranteando justiça e igualdade, num mundo em paz, sem fome e sem medo. Nosso
mundo, nossa América do Sul.
A construção do "Amercosul" é possível.
À frente, à luta, governantes da América do Sul; navegantes deste milênio.
Nossa gente espera que cumpram com seu dever.
João Herrmann Neto, 57, engenheiro agrônomo, é deputado federal pelo PPS-SP.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 17/11/2003
Brasil e EUA
tentam defender Alca "light"
Defensores de uma
negociação mais ambiciosa, Canadá, Chile e México atacam versão limitada do
acordo
CLÓVIS
ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A MIAMI
O acordo entre Brasil e Estados Unidos em torno de uma Alca limitada acabou
produzindo uma situação impensável até poucos dias atrás: os dois países, agora
aliados, tiveram que defender a nova "visão" da Área de Livre
Comércio das Américas de ataques que partiram, entre outros, de Canadá, Chile e
México, países que querem a Alca no formato anterior, mais ambicioso.
Na madrugada de quinta para sexta-feira, os dois co-presidentes da negociação,
o brasileiro Adhemar Bahadian e o norte-americano Peter Allgeier, emergiram das
"18 horas mais difíceis da minha vida", segundo Bahadian, com um
documento que incorporava o acordo feito entre seus superiores hierárquicos,
Celso Amorim (chanceler brasileiro) e Robert Zoellick, chefe do comércio
externo norte-americano.
O texto trazia uma nova "visão da Alca", com o seguinte desenho
básico: seria flexível, "para levar em conta as necessidades e
sensibilidades de todos os sócios da Alca", e permitiria que cada país
assumisse compromissos de acordo com seus desejos, respeitado "um conjunto
comum e equilibrado de direitos e obrigações que sejam aplicáveis a todos os
países".
É uma definição muito mais próxima da "Alca light", a expressão
cunhada pelo ministro Amorim, do que da Alca abrangente, defendida pelos
Estados Unidos. Tanto que o jornal "The Miami Herald", na coluna de
ontem de Andrés Oppenheimer, seu especialista em América Latina, batizava a
idéia de "Alca à la carte".
O texto preparado pelos dois co-presidentes começou ontem a ser examinado pelos
demais 32 sócios. Tem 33 parágrafos distribuídos por cinco páginas, contra mais
de 200 parágrafos em 27 páginas do primeiro esboço.
O substancial enxugamento provocou reações, mas a mais forte foi de mexicanos,
canadenses e chilenos, não por acaso três países que já têm acordo de livre
comércio com os Estados Unidos e, portanto, pouco ou nada ganhariam com uma
Alca pouco ambiciosa.
Os três países propuseram, de saída, que fosse limitado o tempo para a
possibilidade de nem todos os países assumirem todos os compromissos previstos
no cardápio original da Alca. Propuseram também que só as nações mais pobres se
beneficiassem do direito de escolher acordos conforme suas necessidades, o que
excluiria o Brasil, o terceiro ou quarto mais rico das Américas, atrás de EUA,
Canadá e, conforme o tipo de câmbio, do México.
Além disso, outro grupo de países pediu que as "instruções gerais",
que dariam certa concretude à visão apenas genérica da Alca, contida no esboço
dos co-presidentes, fossem elaboradas já em Miami. O rascunho Bahadian/
Allgeier jogava as instruções para uma nova reunião técnica (a do Comitê de
Negociações Comerciais), prevista para fevereiro.
Eles argumentam que mais três meses em uma negociação já travada inviabilizaria
o objetivo de encerrar os entendimentos até 1º de janeiro de 2005.
As "instruções gerais", para todos os efeitos práticos, seriam a
definição do "conjunto comum e equilibrado de direitos e obrigações"
que todos terão que cumprir. Ou, em linguagem menos diplomática, que concessões
cada país está disposto a fazer.
O Mercosul reagiu imediatamente com a apresentação de sua própria proposta de
"conjunto básico", sem novidades em relação ao que vem defendendo
desde o princípio. Reapresenta, por exemplo, a necessidade de abrir todo o
universo agrícola e de tornar mais transparente o mecanismo antidumping da legislação
norte-americana, temas que o Brasil admitia deixar para discutir apenas na OMC
(Organização Mundial do Comércio), respeitando a sensibilidade dos EUA.
Ficou evidente que havia a enorme possibilidade de que todos os demais países
começassem a introduzir demandas que devolveriam a negociação ao impasse em que
se encontrava antes do acordo Brasil/Estados Unidos.
Allgeier, o co-presidente pelo lado norte-americano, imediatamente suspendeu a
sessão matinal e convocou uma reunião mais limitada (de dez países, representando,
geograficamente, o conjunto de 34). Em princípio, ficou resolvido que, no
período da tarde, a discussão recomeçaria pelos temas que não são polêmicos,
sempre levando em conta que EUA e Brasil querem evitar que Miami se transforme
em uma nova Cancún, ou seja, num fracasso similar ao da conferência ministerial
da OMC realizada em setembro nesse balneário mexicano.
Será possível? A delegação brasileira aposta que sim: "Todo mundo já
entendeu a necessidade de preservar o delicado equilíbrio [encontrado entre
Brasil e Estados Unidos]", diz Régis Arslanian, um dos principais
negociadores brasileiros.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 17/11/2003
Governo vai
monitorar venda da Embratel
Acompanhamento será para preservar
sistema de comunicação militar e posição orbital de satélites
ELVIRA
LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO
O ministro das Comunicações, Miro Teixeira, disse que o governo brasileiro
acompanha em tempo real o processo de venda do controle acionário da Embratel.
Segundo ele, três fatores levam o governo a monitorar as negociações: as
posições ocupadas pelos satélites da empresa na órbita terrestre, as
comunicações militares e um eventual interesse do Citibank em participar da
compra.
O patrimônio da Embratel, privatizada em julho de 1998, inclui a rede de
satélites Brasilsat -B1, B2, B3 e B4, que estava em construção e foi lançado em
2000.
No entanto as posições orbitais desses satélites, definidas pela UIT (União
Internacional de Telecomunicações), ainda pertencem ao Estado brasileiro.
O governo entende que essas posições são do interesse estratégico do país e
quer assegurar que um futuro controlador da Embratel terá interesse em
mantê-las.
A segunda preocupação, também associada aos satélites, refere-se ao possível
impacto da mudança de controle acionário da Embratel na transmissão das
comunicações militares.
As Forças Armadas têm uma faixa exclusiva de transmissão por satélite,
identificada no jargão técnico como "banda X", em uma das unidades
Brasilsat. Embora a Embratel tenha a obrigação contratual de manter o serviço,
esse tem sido um ponto de preocupação das Forças Armadas desde a privatização.
A rede Brasilsat é gerenciada hoje pela Star One, uma subsidiária criada pela
Embratel depois da privatização para prestar serviços de comunicação via
satélite em cinco países da América do Sul.
Segundo Miro Teixeira, a primeira providência do ministério após o comunicado
da MCI na quarta-feira, anunciando a intenção de venda do controle acionário da
Embratel, foi saber se a Star One seria vendida junto.
"A empresa nos assegurou que a venda será em bloco", disse o ministro
à Folha na sexta-feira à noite. Ou seja: a empresa que vier a assumir a
Embratel prometerá também a continuidade das comunicações militares.
A terceira preocupação oficial em relação à troca de comando na Embratel
refere-se a um eventual interesse do grupo Citibank em deter ativos da
companhia.
A MCI (WorldCom) entrou em concordata nos EUA, em julho de 2002, após a
descoberta de fraudes contábeis de US$ 11 bilhões. Analistas do mercado
financeiro acham que a concordata pode ser suspensa no início de 2004, após a
conclusão do processo de reestruturação no qual se encontra a companhia. A
venda da Embratel faria parte do processo de capitalização do acionista
controlador.
O Citibank, segundo o ministro Miro Teixeira, é um dos principais credores da
empresa nos Estados Unidos. Como o banco já tem participação indireta no
controle acionário da Brasil Telecom (concessionária do serviço de telefonia
fixa nas regiões Sul e Centro-Oeste), por meio do fundo de investimento CVC
Opportunity, o governo quer saber se haverá conversão de dívidas da MCI em
ações da Embratel. O governo quer assegurar transparência no investimento
estrangeiro em empresas de telecomunicações.
Na quinta-feira, Miro Teixeira reuniu-se com o presidente da Embratel, Jorge
Rodriguez, para obter mais detalhes sobre o processo de venda. O ministro foi
informado de que o negócio pode levar cerca de seis meses para ser concluído.
Compradores
O grupo mexicano Telmex, do megaempresário Carlos Slim, é visto pelo próprio
governo -e por analistas de mercado- como o candidato mais provável à compra da
Embratel. A Telmex já controla a empresa de telefonia Claro, no Brasil, e, recentemente,
adquiriu a AT&T Latin America.
Slim esteve no Brasil em outubro e, segundo Miro Teixeira, declarou interesse
em aumentar os investimentos em telecomunicações no país, sobretudo no Estado
de São Paulo.
O ministro soube, pela direção da Embratel, que o grupo Telecom Italia também
estaria interessado na compra. Mas, como o grupo italiano não transmitiu sinais
ao governo, Miro Teixeira acha que a informação pode ser "conversa de
vendedor".
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 17/11/2003
Brasil e EUA
tentam defender Alca "light"
Defensores de uma
negociação mais ambiciosa, Canadá, Chile e México atacam versão limitada do
acordo
CLóVIS
ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A MIAMI
O acordo entre Brasil e Estados Unidos em torno de uma Alca limitada acabou
produzindo uma situação impensável até poucos dias atrás: os dois países, agora
aliados, tiveram que defender a nova "visão" da área de Livre
Comércio das Américas de ataques que partiram, entre outros, de Canadá, Chile e
México, países que querem a Alca no formato anterior, mais ambicioso.
Na madrugada de quinta para sexta-feira, os dois co-presidentes da negociação,
o brasileiro Adhemar Bahadian e o norte-americano Peter Allgeier, emergiram das
"18 horas mais difíceis da minha vida", segundo Bahadian, com um
documento que incorporava o acordo feito entre seus superiores hierárquicos,
Celso Amorim (chanceler brasileiro) e Robert Zoellick, chefe do comércio
externo norte-americano.
O texto trazia uma nova "visão da Alca", com o seguinte desenho
básico: seria flexível, "para levar em conta as necessidades e
sensibilidades de todos os sócios da Alca", e permitiria que cada país
assumisse compromissos de acordo com seus desejos, respeitado "um conjunto
comum e equilibrado de direitos e obrigações que sejam aplicáveis a todos os
países".
é uma definição muito mais próxima da "Alca light", a expressão
cunhada pelo ministro Amorim, do que da Alca abrangente, defendida pelos
Estados Unidos. Tanto que o jornal "The Miami Herald", na coluna de
ontem de Andrés Oppenheimer, seu especialista em América Latina, batizava a
idéia de "Alca à la carte".
O texto preparado pelos dois co-presidentes começou ontem a ser examinado pelos
demais 32 sócios. Tem 33 parágrafos distribuídos por cinco páginas, contra mais
de 200 parágrafos em 27 páginas do primeiro esboço.
O substancial enxugamento provocou reações, mas a mais forte foi de mexicanos,
canadenses e chilenos, não por acaso três países que já têm acordo de livre
comércio com os Estados Unidos e, portanto, pouco ou nada ganhariam com uma
Alca pouco ambiciosa.
Os três países propuseram, de saída, que fosse limitado o tempo para a
possibilidade de nem todos os países assumirem todos os compromissos previstos
no cardápio original da Alca. Propuseram também que só as nações mais pobres se
beneficiassem do direito de escolher acordos conforme suas necessidades, o que
excluiria o Brasil, o terceiro ou quarto mais rico das Américas, atrás de EUA,
Canadá e, conforme o tipo de câmbio, do México.
Além disso, outro grupo de países pediu que as "instruções gerais",
que dariam certa concretude à visão apenas genérica da Alca, contida no esboço
dos co-presidentes, fossem elaboradas já em Miami. O rascunho Bahadian/
Allgeier jogava as instruções para uma nova reunião técnica (a do Comitê de
Negociações Comerciais), prevista para fevereiro.
Eles argumentam que mais três meses em uma negociação já travada inviabilizaria
o objetivo de encerrar os entendimentos até 1º de janeiro de 2005.
As "instruções gerais", para todos os efeitos práticos, seriam a
definição do "conjunto comum e equilibrado de direitos e obrigações"
que todos terão que cumprir. Ou, em linguagem menos diplomática, que concessões
cada país está disposto a fazer.
O Mercosul reagiu imediatamente com a apresentação de sua própria proposta de
"conjunto básico", sem novidades em relação ao que vem defendendo
desde o princípio. Reapresenta, por exemplo, a necessidade de abrir todo o
universo agrícola e de tornar mais transparente o mecanismo antidumping da
legislação norte-americana, temas que o Brasil admitia deixar para discutir
apenas na OMC (Organização Mundial do Comércio), respeitando a sensibilidade
dos EUA.
Ficou evidente que havia a enorme possibilidade de que todos os demais países
começassem a introduzir demandas que devolveriam a negociação ao impasse em que
se encontrava antes do acordo Brasil/Estados Unidos.
Allgeier, o co-presidente pelo lado norte-americano, imediatamente suspendeu a
sessão matinal e convocou uma reunião mais limitada (de dez países,
representando, geograficamente, o conjunto de 34). Em princípio, ficou
resolvido que, no período da tarde, a discussão recomeçaria pelos temas que não
são polêmicos, sempre levando em conta que EUA e Brasil querem evitar que Miami
se transforme em uma nova Cancún, ou seja, num fracasso similar ao da
conferência ministerial da OMC realizada em setembro nesse balneário mexicano.
Será possível? A delegação brasileira aposta que sim: "Todo mundo já
entendeu a necessidade de preservar o delicado equilíbrio [encontrado entre
Brasil e Estados Unidos]", diz Régis Arslanian, um dos principais
negociadores brasileiros.
FOLHA DE S. PAULO | DINHEIRO | 17/11/2003
Para
especialista, Alca tende a destruir indústria brasileira
Coreano Ha-Joon Chang, da
Universidade de Cambridge, diz que, a longo prazo, país perde com o bloco
CLáUDIA
TREVISAN
DA REPORTAGEM LOCAL
Professor da faculdade de economia e política da Universidade de Cambridge, o
coreano Ha-Joon Chang, 40, não é apenas um crítico das negociações comerciais
que ocorrem no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio) e da Alca (área
de Livre Comércio das Américas).
Para ele, os países desenvolvidos atuam nessas duas arenas com boa dose de
cinismo, ao pretender tirar das mãos dos países em desenvolvimento as mesmas
armas que usaram em sua própria trajetória de crescimento econômico: subsídios,
proteção à indústria local e desrespeito à propriedade intelectual.
Essa é a principal tese de seu livro "Kicking Away the Ladder"
(Chutando a Escada), que deverá ser lançado neste ano no Brasil pela editora
Unesp. Especialista em desenvolvimento e autor de obras sobre temas como
política industrial, papel do Estado na economia e globalização, Ha-Joon esteve
no Brasil na semana passada para participar de seminários no Rio e em São
Paulo.
O professor acha que o Brasil deveria rejeitar a Alca, pois o país é o único
que tende a perder com a implantação de uma zona de livre comércio na região.
"Sua indústria seria destruída", afirmou. "Se você é El Salvador
ou Equador, não tem muito a perder. São países que não têm uma indústria, de
qualquer maneira. Mas o Brasil tem muitas potencialidades que podem ser
destruídas. Vocês podem ganhar no curto prazo com mais acesso ao mercado
agrícola, mas, e a longo prazo?"
O professor também tem análises preocupantes sobre a economia brasileira,
apesar da euforia dos mercados com relação à política econômica do governo
Lula. "Se olharmos para outros países, a média de lucro na indústria
manufatureira é de 4% a 5%. Com taxa de juros reais entre 10% e 12%, ninguém
vai querer ter negócios. é mais fácil comprar um monte de títulos do
governo."
A seguir, trechos da entrevista que concedeu à Folha:
Folha - As negociações na OMC (Organização Mundial do Comércio) podem avançar
depois do que ocorreu em Cancún?
Ha-Joon - A menos que os países desenvolvidos mudem sua postura, as negociações
vão morrer. Eles estão tentando forçar os países em desenvolvimento a aceitar
coisas que são fundamentalmente contrárias a seus interesses e, por isso, há
fracassos sucessivos.
Seattle fracassou em 1999. O encontro ministerial seguinte, em Doha, em 2001,
só não fracassou também por causa de Osama Bin Laden. Depois do 11 de Setembro
havia uma grande simpatia em relação aos americanos. E os americanos diziam
"se você é contra o livre mercado, você está com os terroristas".
Havia uma mistura de simpatia e medo, que levou os países em desenvolvimento a
engolirem uma série de coisas, mas, em Cancún [que sediou a reunião da OMC em
setembro], foi diferente. Não havia a mesma conjunção política, e os países em
desenvolvimento disseram: "Por que vamos fazer isso? Esses caras estão
prometendo muito pouco".
E não era nem mesmo promessa. Os países desenvolvidos continuam dizendo
"nós vamos fazer o máximo para permitir acesso a mercado", mas sem
fixar datas nem estabelecer metas. Ao mesmo tempo, dizem para os países em
desenvolvimento que, em 2015, eles devem derrubar suas tarifas para o mesmo
nível adotado nos países desenvolvidos, além de acabar com as regras que
limitam investimentos estrangeiros.
Folha - O G22, grupo que reuniu países em desenvolvimento criado em Cancún,
pode ter sucesso?
Ha-Joon - Acho que o G22 é um fato muito importante na política internacional.
Antes de Cancún, só a índia resistia às pressões dos países desenvolvidos. Os
americanos e os europeus podiam facilmente ignorar sua posição, dizendo que se
tratava apenas de um só país apegado ao passado.
Mas dessa vez você tem a China, que acabou de entrar na OMC, e o Brasil com um
novo governo, que tem uma atitude mais independente nas relações
internacionais. Esses três países conseguiram formar uma nova aliança de países
em desenvolvimento não vista desde a década de 70. Não creio que o novo grupo
vá se desfazer.
Folha - Por quê?
Ha-Joon - Porque agora você tem três grandes, importantes e independentes
países trabalhando juntos, e isso é novo. A índia sentia-se muito isolada no
passado. Uma vez ou outra, a índia e, às vezes, a Malásia faziam algum barulho,
mas era difícil para esses países se organizarem.
Folha - Mas alguns países que integravam o G22, como Peru e Colômbia, deixaram
o grupo em razão de pressões dos Estados Unidos. O poder de atração do mercado
norte-americano não é grande o suficiente para desarticular esse tipo de
organização dos países em desenvolvimento?
Ha-Joon - Certamente é um fator importante. O grau de pressão que os países
desenvolvidos podem exercer sobre os países em desenvolvimento é potencialmente
muito grande. Não é só o acesso ao mercado norte-americano. Eles podem dizer a
vários países que não vão dar mais dinheiro, por exemplo, de suas agências de
ajuda. é muito difícil para os países em desenvolvimento suportarem essa
pressão.
Mas o ponto é que eles estão sendo forçados a aceitar algo que é tão contrário
aos seus interesses que até os países em desenvolvimento mais pobres são
capazes de dizer não. Eles sabem que, se disserem sim para isso, é o fim.
Folha - Em sua opinião, qual deveria ser a postura do Brasil na negociação da
Alca (área de Livre Comércio das Américas), na qual não há China nem índia para
formação de um bloco que se contraponha aos Estados Unidos?
Ha-Joon - A Alca sem o Brasil não teria sentido. O México já está no Nafta
[área de livre comércio dos EUA, México e Canadá], então não muda muito para o
país. No resto da América Latina, fora o México, o Brasil é a única economia
relevante. Sem o Brasil, a Alca não tem significado. Por isso, o Brasil está em
uma posição forte para dizer não. Se o Brasil diz "não", pode ser
fácil reunir países mais fracos na Alca, mas não significaria muito.
Folha - Mas o Brasil não tem muito a perder em termos de acesso ao mercado
norte-americano, que é o principal destino individual das exportações
brasileiras?
Ha-Joon - No curto prazo vocês podem ter benefícios, mas, a longo prazo, o
melhor para o Brasil é não assinar a Alca.
Folha - Por quê?
Ha-Joon - Porque a sua indústria seria destruída. O Brasil será o grande
perdedor da Alca. Se você é El Salvador ou Equador, você não tem muito a
perder. São países que não têm uma indústria, de qualquer maneira. Mas o Brasil
tem muitas potencialidades que podem ser destruídas. Vocês podem ganhar no
curto prazo com mais acesso ao mercado agrícola, mas, e a longo prazo?
As pessoas ficam falando de ineficiência e protecionismo à indústria. Mas é
muito melhor ter uma indústria protegida do que nada.
Folha - O sr. é um estudioso e um entusiasta da adoção de políticas
industriais. O governo brasileiro está tendo atuação satisfatória nessa área?
Ha-Joon - é natural que o governo esteja mais interessado em temas
macroeconômicos, porque são temas mais urgentes. Política industrial tem a ver
mais com o longo prazo. Se você não investe em educação, não investe em
pesquisa e desenvolvimento, você só vai sentir os efeitos depois de dez anos. O
governo tende a se focar mais em problemas financeiros e macroeconômicos. Mas
não é a coisa certa a fazer se considerarmos o longo prazo.
Pode funcionar por dois ou três anos, mas, em dez anos, vocês vão estar
competindo com países que adotaram políticas industriais. Talvez em dez anos
vocês estejam competindo com o Vietnã. Vietnã é hoje o segundo maior produtor
de café do mundo e eles não produziam café.
Folha - Como o sr. vê a economia brasileira?
Ha-Joon - Bem, a taxa de juros real de vocês é de 10%, 12%. Talvez haja regras
econômicas diferentes no Brasil, mas, se você olhar para outros países, a média
de lucro na indústria manufatureira é de 4% a 5%. Se você mantém a taxa de
juros reais entre 10% e 12% significa que ninguém vai querer ter negócios. é
mais fácil comprar um monte de títulos do governo.
Matematicamente é impossível continuar nessa situação. Ou vocês reduzem a taxa
de juros e aumentam a taxa de crescimento econômico -assim há mais lucros e
pagamentos da Previdência e maior superávit fiscal- ou vocês terão de
renegociar a dívida.
Folha - Qual é a opção que o sr. considera mais provável?
Ha-Joon - No momento, acho que o governo brasileiro está com muito medo de
fazer qualquer coisa que possa ofender os investidores. Eles vão tentar
continuar os pagamentos da dívida e reduzir a taxa de juros. Mas, com a
existência das restrições que o país enfrenta, eu não creio que possam fazer
muito. Talvez possam trazer a taxa de juros real para 8%, mas não para menos.
Folha - O governo deveria tentar renegociar a dívida?
Ha-Joon - Acho que deveria tentar tudo o que pode. A longo prazo é muito
importante aumentar a capacidade de exportação, para reduzir essa restrição
crônica do balanço de pagamentos. Mas isso exige investimentos, e aí você tem
um problema do tipo "o ovo ou a galinha". Se você tem uma situação na
qual não pode investir, como você investe para mudar essa situação no futuro? é
uma coisa muito difícil.
Talvez tenha de haver uma combinação de alguma reestruturação de dívida, que
possa ser feita de maneira mais organizada que a da Argentina, por exemplo,
mais o esforço para aumentar as exportações, no curto a médio prazo, dando
incentivos fiscais.
Eu fiquei chocado ao descobrir que o Brasil não tem uma agência estatal de
exportações, como Japão e Coréia do Sul, por exemplo, têm. Essas agências dão
suporte mercadológico a pequenos e médios exportadores. Se eles tivessem ajuda
para alcançar clientes fora do Brasil haveria muito mais espaço para o aumento
das exportações.
Sempre cito o contraste entre o café brasileiro e o colombiano. O Brasil é
"o" país do café, mas os colombianos têm sido muito inteligentes em
fazer um marketing intensivo de seu café. Se você vai para a Coréia e pergunta
às pessoas, eles dirão que o café colombiano é o melhor.
Folha - Qual pode ser o impacto para o sistema multilateral de comércio se os
EUA ignorarem a decisão da OMC que considerou irregulares as barreiras
americanas à importação de aço?
Ha-Joon - Os americanos sempre tiveram essa tendência ao unilateralismo. Quando
as negociações da OMC em Cancún fracassaram eles disseram "bem, agora
vamos nos focar em acordos bilaterais ou regionais".
Os americanos são bem capazes de ignorar decisões com as quais não concordam.
Se isso acontecesse, em larga escala seria um grande problema, porque
voltaríamos ao sistema da Liga das Nações posterior à 1ª Grande Guerra, que era
uma organização da qual não participava o país mais forte. Por isso, se tornou
sem sentido. Era um sistema internacional sem o país mais forte.
Se isso ocorre com a OMC haverá muita tensão, porque os outros países não têm o
poder que os norte-americanos têm. Eles precisam da OMC para impor sua vontade,
os americanos, não. Essa é a parte difícil, como mantê-los [os EUA] dentro da
organização.
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 17/11/2003
Cabeça de
sardinha ou rabo de baleia
GOVERNO LULA REVIVE ESTA
SEMANA DÚVIDA ESTRATÉGICA DE PORTUGAL ANTES DE SE INTEGRAR À UE
CELSO MING
Esta será uma semana decisiva para a Alca, a Área de Livre Comércio das
Américas. A reunião de ministros de Comércio, a ser realizada nos dias 20 a 22,
em Miami, deverá decidir o formato definitivo do bloco. Além de esclarecer de
uma vez o que o Brasil quer da Alca, esta é, também, uma oportunidade para que
o Brasil decida o que quer do seu futuro no mundo.
Desde 1994, quando foi instituída, a Alca foi vista com suspeita por aqui.
Sempre houve aqueles para os quais o novo bloco foi visto como um risco à
soberania e a tinham como um novo pretexto para anexação do Brasil e do resto
das Américas pelos Estados Unidos. Outros viam nela uma ameaça aos negócios, um
mecanismo pelo qual as empresas americanas acabariam tomando o mercado
brasileiro sem oferecer contrapartidas. São poucos os que vêem na Alca uma
oportunidade para aumentar as exportações. A maioria dos que se manifestam a
favor entende que ficar de fora seria pior e, nessas condições, também a vê com
desconfiança.
A questão é mais profunda. Trata-se de reconhecer a relativa dependência da
economia brasileira dos países ricos e de decidir que estratégia seguir para
alcançar o desenvolvimento sustentado: é caminhar sozinho contando apenas com
eventuais alianças com países em desenvolvimento, ou incorporar-se a um bloco
de países ricos onde buscar alguma sombra e, quem sabe, certa proteção para
chegar lá?
Para não ir muito longe, a tentativa de definir uma política externa
independente vem de meados do século passado. A vacilação pendular
imediatamente anterior à 1.ª Grande Guerra desembocou afinal na adesão à causa
aliada. O curto período Jânio Quadros tentou fincar as raízes de uma política
externa provocativa em relação aos Estados Unidos que o governo Jango pretendeu
ainda mais engajada com o bloco soviético. Os três primeiros governos militares
alinharam o Brasil ao jogo americano. No entanto, o governo Geisel, mais
preocupado com garantir o suprimento de petróleo, forçou uma aproximação com os
países árabes, que depois tentou transformar numa política de orientação
“terceiro-mundista”.
Costura – A crise da dívida a partir de meados dos anos 80 tirou iniciativa à
política externa do Brasil. Agora, o governo Lula dá mostras de que pretende
deixar a posição preponderantemente passiva até aqui e a buscar a uma nova
afirmação. Não esconde sua tentativa de liderar a América do Sul e agora parece
encorajado a ampliar sua influência sobre os países pobres da África –
surpreendentemente tão limpinhos, como observou na semana retrasada.
Mesmo antes de assumir o governo, Lula falava em costurar alianças com
potências emergentes, como China e Índia. Mas parece claro que uma política
voltada para o “Terceiro Mundo” não promete efeitos práticos significativos. Os
países mais pobres não têm nem sequer mercado a oferecer. As potências médias
parecem mais interessadas em abrir seus próprios espaços diante dos grandes do
que em assumir compromissos de independência que possam lhes causar problemas.
Podem aliar-se ocasionalmente para garantir o cumprimento de objetivos táticos,
como ocorreu na Conferência da OMC realizada em Cancún, mas não prometem nada
mais estável porque eles próprios lutam por aumentar sua participação no bolo
econômico do mundo e isso implica compromissos com os países ricos reunidos no
Grupo dos Sete.
Há alguns anos, Portugal também viveu a dúvida estratégica que o governo Lula
vai enfrentando hoje. Mas, entre ser cabeça de sardinha e rabo de baleia, optou
definitivamente por entrar na União Européia. Hoje, Portugal parece satisfeito
por integrar o bloco rico europeu e já não se identifica com os interesses de
suas ex-colônias e de outros integrantes da periferia do mundo.
A atual via “terceiro-mundista” do Itamaraty tende a não passar de brinquedo
ext e m p o r â n e o das esquerdas brasileiras a ser abandonado logo adiante,
por falta de efeitos práticos. Isso significa que, mais cedo ou mais tarde, o
Brasil terá de escolher a que locomotiva vai atrelar seu vagão, se ao da Europa
ou se ao dos Estados Unidos. Por DNA e por ligações culturais, o Brasil cresceu
muito mais voltado para a Europa do que para os Estados Unidos. O sucesso da
integração econômica que agora culmina com a união monetária (o euro), marcada
por importantes transferências compensatórias de recursos aos países mais
fracos – de maneira a garantir o jogo eqüitativo mínimo –, é um forte atrativo
para países emergentes como o Brasil.
De costas – No entanto, a Europa já não mostra o mesmo apetite de antes de
liderar países periféricos. Vai vivendo uma notória crise no seu regime
econômico (Welfare State), perdeu dinamismo, não consegue ter uma política
comum de Defesa – a ponto de mostrar-se incapaz de resolver as crises do seu
próprio quintal, como a de Kosovo(?) – e demonstra mais interesse em assumir
compromissos com países da Europa de Leste do que com potências do outro lado
do Atlântico. Isso sugere que uma aliança com a Europa dificilmente ganharia
alento, por falta de vontade política dos europeus em avançar nessa direção.
Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm-se de costas para a América Latina. Até
mesmo o vizinho México vai sendo posto de lado. No dia 6 de setembro de 2001,
quando da visita do presidente Vicente Fox aos Estados Unidos, o presidente
George Bush declarou que “os Estados Unidos não têm no mundo relacionamento
mais importante do que o que têm com o México”. Cinco dias depois, dois Boeings
foram atirados contra os edifícios gêmeos do World Trade Center, em Nova York
e, a partir daí, o México foi ignorado.
A Doutrina Bush, eivada de isolacionismo, arrogância e paranóia estratégica,
está longe de encorajar uma aliança com o Brasil para garantir o
desenvolvimento. Se isso fosse tudo, não haveria razões especiais que
recomendassem uma aproximação mais ambiciosa por parte do Brasil – a questão de
fundo no projeto da Alca. No entanto, já há sinais de sobra de que o povo
americano começa a se cansar da aventura iraquiana e isso sugere que essa
política está com os dias contados. Também para eles pode ser hora de rever o
que realmente pretendem dos vizinhos do Continente. ■ Celso Ming é
comentarista econômico do ‘Jornal da Tarde’. E-mail: ming@jt.com.br Política
voltada para o Terceiro Mundo não promete efeitos práticos significativos
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 17/11/2003
Mercosul faz
proposta para Alca mais modesta
Documento segue linha do
que foi acertado entre o Brasil e os Estados Unidos
ROLF KUNTZ Enviado especial MIAMI
– O Mercosul propôs uma agenda para a fase final das negociações da Área de
Livre Comércio das Américas (Alca), defendendo a eliminação de todas as tarifas
de importação em quatro etapas, maior transparência nas ações de proteção
comercial em ecanismos para neutralizar as distorções causadas por subsídios
internos à agricultura. O documento foi apresentado ontem como complemento de
uma declaração ministerial prevista para sexta-feira. A declaração, segundo o
projeto montado pelos co-presidentes da negociação, o americano Peter Allgeier
e o brasileiro Adhemar Bahadian, deve ser genérica e centrada numa nova concepção
de Alca, mais modesta e mais flexível que a original.
A proposta do Mercosul é uma tentativa de ganhar tempo, com definição de linhas
básicas antes da próxima reunião do Comitê de Negociações Comerciais da Alca,
em fevereiro. Foi apresentada como anexo, para não se mexer no texto da
declaração.
Um documento apresentado ontem pelo Chile e pelo Canadá contradiz pontos
essenciais da declaração esboçada pelos co-presidentes (ver página B1). Países
com acesso preferencial ao mercado americano têm menos interesse num acordo
hemisférico. As implicações do documento, segundo especialistas do setor
privado, são muito mais graves do que fontes brasileiras admitiram publicamente
ontem.Em sua proposta, o Mercosul admite, implicitamente, que os subsídios internos
à agricultura e as leis americanas de proteção comercial só serão discutidas na
Organização Mundial do Comércio (OMC), como pretendem os americanos. Assim, o
Mercosul defende, na parte relativa à agricultura, a criação de mecanismos
“para neutralizar os efeitos distorcivos gerados por programas de apoio
interno”.O texto não especifica esses mecanismos, que poderão, segundo um
especialista brasileiro, incluir salvaguardas. Os subsídios internos, segundo
seus críticos, estimulam a superprodução e afetam o comércio internacional,
deprimindo os preços.OMercosul propõe também, na parte agrícola, regras para
créditos à exportação, ajuda alimentar, atuação de empresas governamentais e
outras medidas que distorçam as condições de comércio. Defende a eliminação de
subsídios à exportação, tema que os EUA aceitam mais facilmente, e a aplicação
do Acordo Sanitário e Fitossanitário da OMC ao intercâmbio hemisférico.
Na parte de investimentos, o Mercosul propõe a adoção de normas adotadas na OMC
e abertura de mercados com base em listas positivas. Os americanos vinham
defendendo listas negativas: cada país indicaria investimentos inaceitáveis e
os demais ficariam abertos. Listas positivas, segundo negociadores brasileiros,
são mais seguras, porque evitam surpresas. Para serviços, o Mercosul continua a
defender a aplicação das normas da OMC,incluída a exigência de que o investidor
tenha presença comercial no país receptor do investimento. Sobre compras
governamentais só se propõem regras de transparência, mas nenhum compromisso
quanto à abertura para fornecedores estrangeiros. Compras, investimentos e
propriedade intelectual são temas que o Mercosul pretende deixar para a OMC –
atitude semelhante à dos EUA em relação a subsídios à agricultura e medidas
antidumping.
Sem propor mudança nas leis americanas de proteção comercial, o Mercosul
defende maior transparência, revisão dos procedimentos e mecanismos de consulta
no início de investigações para aplicação de antidumping e medidas
compensatórias. Quanto à propriedade intelectual, o documento propõe somente
cooperação e consulta em matéria de observância e “disposições” sobre
transferência de tecnologia, sem especificar seu conteúdo.
O Mercosul defende, para acesso a mercados, eliminação geral de tarifas, em
quatro etapas – imediatamente, em 5 anos, em 10 e em mais de 10.
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 17/11/2003
Para Amorim,
intenção não é área ‘magra’
Ministro ressalta que Alca
precisa ser ‘ampla’, mas não só para um lado
ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA – O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse ontem não
acreditar que as negociações da reunião ministerial de Miami levem a uma Área
de Livre Comércio das Américas (Alca) “magra”. “Não há nada de magro.O que estamos
procurando fazer é uma Alca que não seja de feitio único, porque as economias
dos países têm necessidades diferentes”, afirmou. O ministro condicionou a
robustez do acordo a avanços na agricultura. “Quanto mais de agricultura e
antidumping tivermos, mais chances teremos de ter uma Alca mais forte.”
Segundo Amorim, será importante que na reunião ministerial desta semana se
viabilizem as condições para o prosseguimento das negociações para a criação da
Alca. “Temos que fazer o ajuste necessário na arquitetura da Alca que
possibilite aprofundar as negociações. Isso é importante para avançarmos”,
disse o ministro, voltando a defender uma Alca ampla, mas equilibrada. “Não
pode ser ampla só para um lado.”
O ministro disse que encontrar nas negociações um “mínimo denominador comum”já
será muito importante. “Esse mínimo já é alguma coisa, porque inclui todo o
comércio de bens e talvez uma parte importante de comércio de serviços,
dependendo de como se encaminharem as negociações.” Ele enfatizou a necessidade
de se reconhecer que a região não é uniforme e que é preciso “encontrar um
mínimo que atenda a todos” e facilite o comércio e acesso de bens.
“Temos que reconhecer que os países têm sensibilidades diferentes. Os Estados
Unidos têm sensibilidade na área de agricultura e antidumping. O Brasil e
outros países têm sensibilidade em outras áreas”, disse. Ele ressaltou que nas
negociações internacionais, pela primeira vez, idéias de justiça social e de
liberalização comercial estão sendo colocadas juntas.
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 17/11/2003
Polícia
proíbe até bola de golfe na ‘zona vermelha’
Manifestações são
lideradas por coalização de ONGs dos EUA
MIAMI – Numa ação inédita na
cidade, uma extensa “zona vermelha” foi erguida a partir de ontem em volta dos
hotéis no centro de Miami onde serão realizadas as reuniões para a criação da
Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Todas as pessoas que se aproximavam
do local tinham de mostrar as credenciais. Nesse setor, as bancas de revista e
as caixas de correio foram retiradas.
Num raio de 10 quadras ao redor do Hotel Intercontinental, a polícia pôs em
cada rua de dois a quatro viaturas. Mais de 2.500 policiais e agentes
particulares vão patrulhar a região.
Duas estações de metrô próximas ao local do encontro ficarão fechadas durante
toda a semana. Não há nada que se possa ser usado como barricada. Até as tampas
dos bueiros foram fechadas.
As escolas também suspenderam as aulas e os Tribunais não vão funcionar por
toda a semana.
As autoridades de Miami já pediram desculpas antecipadamente a centenas de
comerciantes da “zona vermelha” pelos prejuízos econômicos, pois muitas lojas
fecharam as portas, já que não haverá clientes.
Os militantes antiglobalização já começaram a chegar a Miami. Estão sendo
esperados cerca de 50 mil manifestantes. A polícia anunciou que vai permitir
apenas três grandes protestos, além de debates e vigílias. Mas advertiu que os
que cometerem violência serão presos e julgados. Os protestantes não podem
carregar pedras, garrafas de vidro, balões com água e até bolas de golfe. Os
mastros das bandeiras e cartazes também não podem ser muito grossos.
Cerca de 600 jornalistas estão cobrindo a Cúpula de Miami, mas eles só podem se
movimentar pela “zona vermelha”em veículos especiais. (DPA e EFE)
GAZETA MERCANTIL | ENERGIA | 17/11/2003
Revisão tarifária em São Paulo
17 de Novembro de 2003 - A
Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) colocou em consulta pública as
propostas de revisão tarifária de mais três distribuidoras do interior de São
Paulo: Companhia Nacional de Energia Elétrica (Nacional), Companhia Paulista de
Energia Elétrica (CPEE) e Companhia Luz e Força de Mococa (Mococa). A CPEE, com
43 mil clientes, poderá ter revisão de 18,04% e a Mococa, com 34 mil
consumidores, de 18,35%. Ambas repassarão o índice proposto para as tarifas em
duas etapas. Assim, as revisões em 2004 deverão ser de 11,77% para a CPEE e de 12,55%
para Mococa, com o restante dividido nos próximos anos. A Nacional, que possui
82 mil clientes, poderá sofrer redução nas tarifas de 9,13%, maior índice
negativo proposto até o momento. Os índices definitivos serão divulgados pela
Aneel em 3 de fevereiro de 2004.
Dilma defende nova refinariaA ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff,
disse que é preciso construir uma nova refinaria de petróleo no País a curto
prazo. Quanto ao local, Dilma afirmou que vai depender de um estudo
aprofundado. "Terá que ser feito um estudo bastante fundamentado sobre
onde se justifica a localização de uma refinaria, mesmo porque existem tanto
razões ligadas à produção quanto ao mercado de consumo", disse. A ministra
informou ainda que o desempenho do consumo de gás e de outros combustíveis vai
determinar o prazo em que será construída uma segunda refinaria. "O
mercado de gás, o mercado de álcool, o mercado de biodiesel, tudo isso tem
repercussão a médio prazo. Não é tecnicamente sério nem politicamente
conseqüente se eu disser que vou entrar com gás substituindo a gasolina e o
diesel e isso não tem efeito nenhum. Claro que tem." Dilma reafirmou que
não haverá alteração na política de preços de combustíveis da Petrobras. Disse
também que a adulteração da gasolina e a indústria das liminares estão sendo os
principais desafios que o Ministério das Minas e Energia está enfrentando no
mercado de combustíveis. A ministra acrescentou, no entanto, que o
monitoramento feito pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) está muito mais efetivo.
"Ele está mais forte nos últimos tempos". A ministra destacou que o
trabalho da ANP tem sido importante, não só porque mantém os preços estáveis,
mas porque também controla a qualidade. "Quando se faz monitoramento de
preço, se faz o de qualidade também", disse. Desde o início do ano, a ANP
fiscalizou 18.802 postos de combustíveis em todo o País, sendo que 1.042 foram
fechados. As informações são da Agência Brasil.
Comerc faz leilão dia 24A Comerc Comercializadora de Energia Elétrica vai
realizar leilão eletrônico de compra de energia elétrica no próximo dia 24 de
novembro, para as empresas WEG, Embraco, Schulz, Döhler e Comfio. Juntas, as
empresas, que possuem unidades fabris em Santa Catarina, querem comprar 34 MW
médios, para fornecimento a partir do ano que vem. De acordo com a Comerc, será
o primeiro leilão público realizado em duas etapas. Na primeira etapa, no dia
24 de novembro, as geradoras públicas e privadas interessadas no fornecimento
de energia vão se inscrever e dar seus lances iniciais. Em seguida, haverá uma
pré-seleção de acordo com os critérios como preço e risco de crédito. A segunda
etapa do leilão ocorrerá no dia 28 de novembro, entre os geradores
pré-selecionados. O resultado sai no dia 1 de dezembro de 2003.
(Gazeta Mercantil/Caderno A6)
GAZETA MERCANTIL | INDÚSTRIA E SERVIÇOS | 17/11/2003
Queda na produção de alumínio
17
de Novembro de 2003 - A produção brasileira de alumínio primário caiu 1,4% em
outubro, se comparada a igual mês de 2002. Foram 111,6 mil toneladas ante 113,2
mil toneladas em 2002, segundo dados da Associação Brasileira de Alumínio
(Abal). Ela considerou a redução de 37% na produção da Alumar, decorrente de
falhas elétricas na unidade de São Luiz.
Anvisa interdita medicamentosA Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) interditou três medicamentos: o anti-hipertensivo Captopril,
comprimido 25mg, lote 02090576, fabricado pela Prodotti; a solução injetável de
Cloreto de Sódio 0,9% 250 ml, lote 03400564-A, da Texon; e a vitamina Hematofer
(Sulfato ferroso 141,50mg), comprimido revestido, lote 107E, do Fármaco.
Empresários protestam na FiespA CNI, a Fiesp e a Abimaq fazem mobilização hoje
"para sensibilizar deputados federais e senadores sobre a importância de
estabelecer a desoneração dos investimentos produtivos durante a tramitação da
Reforma Tributária no Congresso Nacional". Os líderes dessas entidades vão
se reunir às 15 horas na sede da Fiesp, em São Paulo.
(Gazeta Mercantil/Caderno A13)
GAZETA MERCANTIL | INTERNACIONAL | 17/11/2003
ONGs propõem reação às pressões dos EUA na Alca
Cidade do México, Miami e, 17 de
Novembro de 2003 - Reunião ministerial da Alca, nesta semana, pode ter 50 mil
opositores. Organizações não-governamentais (ONGs) instaram a América Latina a
fazer frente às "pressões" dos Estados Unidos pela formação de uma
Área de Livre Comércio das Américas (Alca) de acordo com seus interesses, e o
México a não ser "porta-voz" de seu sócio norte-americano. A Oxfam
Internacional e a Red Mexicana de Acción Frente al Libre Comercio (RMALC)
apostam num rumo diferente do atual para a integração na próxima reunião sobre
a Alca, a realizar-se em Miami, nesta semana. As duas organizações apresentaram
na última quinta-feira seus respectivos informes críticos sobre a maneira pela
qual os 34 países americanos estão desenvolvendo as negociações, ao assinalar
que o principal problema, a pobreza, foi deixado de lado.
"O México é parte de um grupo de treze países porta-vozes dos Estados
Unidos", denunciou o coordenador da RMALC, Alberto Arroyo. Ele apresentará
em Miami uma investigação sobre os três países-membros do Tratado de Livre
Comércio da América do Norte (Nafta) - Estados Unidos, Canadá e México -, que analisa
criticamente os efeitos do acordo sobre a economia e a sociedade mexicanas. Os
outros membros do grupo de treze países são Colômbia, Costa Rica, Equador, Peru
e República Dominicana, segundo os militantes das ONGs.
"Propomos que o México saia do grupo e trabalhe para unificar as
diferentes resistências" à Alca, que surgem dos países da Comunidade
Caribenha (Caricom), da Argentina e do Brasil, disse Arroyo.
Segundo explicou, a reunião ministerial de Miami servirá para comprovar "a
capacidade de imposição dos EUA" nas negociações destinadas a criar a zona
de livre comércio em 2005, data que, segundo as ONGs, é pouco realista. O
Brasil tenta oferecer uma saída ao que a RMALC e a Oxfam qualificaram de um
processo de livre comércio "travado", mediante a negociação de temas
em diferentes instâncias, além da Alca.
Morales critica
O dirigente boliviano indígena de oposição, Evo Morales, afirmou na sexta-feira
que, se aprovada, a Alca será um "genocídio econômico" para os países
mais pobres do continente.
Morales, deputado pelo Movimiento al Socialismo (MAS) e um dos líderes dos
protestos populares que acabaram, há um mês, com a presidência de Gonzalo
Sánchez de Lozada, disse que está pleiteando junto à Embaixada dos EUA a
concessão de um visto para assistir à reunião de ministros da Alca, em Miami,
na próxima semana.
"A Alca, do ponto de vista ideológico e cultural, não é mais que um acordo
para legalizar a colonização das Américas para nós, os indígenas e, do ponto de
vista econômico, deveria se chamar, na verdade, Alga, Acuerdo de Libre Ganancia
de las Américas (Acordo de Livre Ganho das Américas) para as
transnacionais", disse Morales.
Explicou que essa percepção leva à "resistência" dos povos contra a
aplicação desse modelo de livre mercado previsto para 2005, e, por isso, disse,
os movimentos populares esperam que, se a reunião de Miami fracassar, como
aconteceu em Cancún (México) na conferência de ministros da Organização Mundial
de Comércio (OMC) de setembro passado, "será preciso persuadir os governos
a não cometerem erros" criando essa zona de livre comércio.
Tribunais em Miami
As garantias de julgamentos rápidos e as audiências nos tribunais do condado de
Miami-Dade, onde nesta semana acontecerá o encontro ministerial da Alca,
ficarão suspensas temporariamente, informaram autoridades judiciais.
De acordo com porta-vozes do Supremo Tribunal da Flórida, a medida se aplicará
até o próximo dia 26.
Craig Waters, porta-voz do tribunal, informou que o órgão aprovou a petição do
juiz-chefe da circunscrição de Miami-Dade, Joseph Farina, que solicitara a
suspensão como medida preventiva contra prováveis alterações da ordem por parte
de manifestantes contrários às negociações da Alca. A polícia espera que cerca
de 50 mil manifestem sua desaprovação à Alca durante a reunião, que será
realizada entre amanhã e o próximo dia 21.
(Gazeta Mercantil/Caderno A12)(EFE)
GAZETA MERCANTIL | INTERNACIONAL | 17/11/2003
Ganhos limitados para países andinos
São
Paulo, 17 de Novembro de 2003 - Estudos encomendados pela CAN indicam varios
impactos da integração hemisférica. Um estudo encomendado pela Comunidade
Andina de Nações (CAN) sobre o relacionamento entre a Área de Livre Comércio
das Américas (Alca) e o bloco reafirma o que muitos já diziam: considerando-se
apenas bens, a Alca trará um importante desvio de comércio. Em boa parte, isso
se deve à concessão, para outros países latino-americanos, da eliminação de
tarifas já aplicada para produtos da CAN que entram nos Estados Unidos, de
longe o maior mercado da Alca. Haverá ainda uma redução anual de US$ 400
milhões (para Peru e Equador) a US$ 1,3 bilhão (para Venezuela) na arrecadação
anual de impostos referentes a tarifas de importação.
Outro estudo aponta que a reduzida liberalização em serviços da CAN afetou sua
proposta na Alca, e ajuda a diminuir sua chance de ganhos com exportações do
setor. De acordo com fontes da CAN, pela primeira vez o bloco encomendou
estudos sobre a Alca, que têm o objetivo de ajudar no debate sobre a
integração. O debate está numa fase crucial (ver texto na página 12). Os
trabalhos abrangem impactos econômicos, acesso a mercados de bens, serviços,
propriedade intelectual e investimentos.
Poucos ganhos
O estudo que avalia impactos econômicos conclui que o consumo da CAN cairia
0,36%, ou US$ 670 milhões, se tarifas de importação e impostos (ou subsídios) à
exportação de bens forem eliminados. O percentual considera fatores como
produção e consumo e resultaria, em especial, da entrada de competidores da CAN
nos EUA e até no próprio bloco, os dois principais parceiros dos membros da
Comunidade, que é uma união aduaneira imperfeita. Há produtos da Colômbia,
Equador, Bolívia e Peru com livre acesso aos EUA por meio do Pacto Andino de
Preferência Tarifária - a Venezuela é o único membro da CAN que não tem o
acordo. Nesse cenário de competição, a exportação e produção de vários setores
seriam afetadas na Comunidade, preços de vários produtos cairiam, haveria
impacto em empregos, salários e desvio de comércio em benefício de países como
Brasil e Chile. A queda do consumo seria pequena, em parte, porque haverá
perdedores, mas vários produtores e consumidores se beneficiarão de preços
locais menores, devido à queda de tarifas de importação e do aumento da
concorrência. Esse quadro, assim como pode ocorrer em outros acordos
comerciais, teria reflexos na arrecadação de tributos referentes a tarifas de
importação. Uma possível queda precisaria ser recompensada por outros impostos,
por exemplo, o que pode ser uma tarefa difícil. Esses tributos são de 6% a 11%
dos impostos recolhidos pela CAN.
Numa Alca sem tarifas para bens, o volume total de exportações da CAN subiria
6% e o das importações aumentaria 10%. A maior alta nas exportações seria em
energia, de 8%, ou US$ 1,8 bilhão. As do setor têxtil, com preferência
tarifária nos EUA, aumentariam apenas US$ 518 milhões. O comércio externo
in-fluenciaria a produção de manufaturas, que cairia 6,9%. Esse quadro seria
visto após cerca de dois anos de o acordo estar plenamente em funcionamento. Se
o bloco ficasse fora da Alca, o consumo cairia 0,27%, a exportação mudaria
pouco, mas a importação se reduziria, elevando preços locais.
É preciso notar que apesar de o trabalho não indicar grandes ganhos em bens,
não inclui fatores como novos investimentos estrangeiros e a área de serviços,
que têm potencial de negócios. O autor do estudo, Miles Light, disse a este
jornal que a Alca poderá aumentar a eficiência na produção e em serviços na
CAN. "A maioria das pessoas olha para agricultura, mas já houve ganhos
nela. Deveriam olhar para a abertura em serviços. A América Latina está
perdendo o barco".
Segundo o trabalho que aborda acesso a mercados de bens agrícolas e não
agrícolas, não há indícios de que a Alca levará a uma diversificação e expansão
das exportações da CAN. O estudo considera as primeiras ofertas de
liberalização feita pelos países que discutem a Alca, que estão sendo
reavaliadas. O trabalho mostra que o pacto entre países da CAN e EUA também não
mudou a estrutura de exportação dos andinos. Em 2000, do que venderam aos EUA,
só 11,2% era de manufaturas. O autor do estudo, Juan Carlos Elorza, diz que a
Alca, por si só, não gera desenvolvimento para a CAN. "Os países têm de
aplicar uma política econômica e comercial para potencializar o comércio por
meio do acordo e estar preparados para as transformações produtivas e co-
merciais que ele envolve".
Serviços
A falta de integração profunda em serviços na CAN afeta sua capacidade de ter
ganhos na Alca, aponta o trabalho sobre o tema. Não há uma estratégia
negociadora unificada para o acordo hemisférico e na Organização Mundial do
Comércio, o que diminui o poder de negociação do bloco. Os andinos parecem ter
renunciado a obter concessões importantes para sua oferta de serviços
exportáveis, e a estarem resignados a conseguir apenas segurança jurídica, diz
o estudo.
Na Comunidade, importadora líquida de serviços, os países só consolidaram
liberalizações feitas na década passada, que se restringiram, em especial, a
privatizações e manutenção de monopólios. Faltou promoção de competição e há
vários preços de serviços maiores que no resto da América Latina. O trabalho
afirma que embora a especialização dos andinos esteja na contramão das
tendências do mercado mundial, parecem ter oportunidade de desenvolver uma
oferta em serviços sociais e empresariais. Estes últimos incluem, por exemplo,
apoio administrativo e de informática. "Os mercados de serviços
empresariais parecem estar segmentados por características de idiomas, o que
permite aos andinos desenvolver uma oferta para os crescentes mercados de
língua hispânica". Outro problema na Alca é que o bloco recebeu ofertas
iniciais de abertura, de países desenvolvidos, inadequadas às suas
necessidades. Há nelas escasso avanço no movimento de pessoas, peça fundamental
para a oferta de serviços profissionais pelos andinos. Segundo o estudo, a CAN
precisa avançar na abertura interna de serviços e em outros foros. E são
necessários marcos regulatórios que promovam concorrência para se ter serviços
confiáveis e de qualidade.
kicker: Volume de exportações de manufaturados subiria 6% e o de importações
cresceria 10%
(Gazeta Mercantil/Caderno A11)(Claudia Mancini)
GAZETA MERCANTIL | INTERNACIONAL | 17/11/2003
Brasil espera poucos avanços
Brasília
e Buenos Aires, 17 de Novembro de 2003 - A delegação brasileira que participará
da reunião ministerial da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), esta
semana, em Miami, está convencida de que esse encontro dificilmente alcançará
avanços significativos nas negociações, mas vai disposta ao diálogo. As
negociações recentes do chanceler Celso Amorim com o ministro do Comércio
Exterior americano (USTR), Robert Zoellick, serviram apenas para amenizar o tom
de enfrentamento Brasil-Estados Unidos em torno de temas como subsídios
agrícolas, compras governamentais, propriedade intelectual, entre outros, porém
sem reduzir o nível de divergências, conforme leitura de um diplomata
brasileiro.
De qualquer modo, o Brasil vislumbra chances de conseguir melhores condições de
acesso ao mercado americano para produtos de sua pauta de exportação, como
carnes, açúcar, etanol e sucos, mesmo que isso não implique negociar na Alca
mudanças acentuadas na protecionista política agrícola do governo
norte-americano. Tentar sempre melhor acesso ao mercado dos EUA é uma posição
defendida pelo ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto
Rodrigues, que participará da reunião de Miami, ao lado de Celso Amorim. Também
a Coalizão Empresarial Brasileira (CEB), um braço da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), defende a negociação e apresentará propostas no 8º Foro
Empresarial das Américas, que começa hoje, em Miami.
Em documento encaminhado ao governo brasileiro, semana passada, a CEB assinala
que "em nada contribui para a superação das dificuldades atuais a adoção,
por países que negociam a Alca, de medidas protecionistas ou unilaterais que
prejudicam ou podem vir a prejudicar produtores e exportadores de outros países
do Hemisfério". O documento salienta que a Coalizão acompanha com
"interesse e preocupação" a discussão atual sobre a reestruturação do
formato das negociações da Alca. "O pragmatismo deve guiar a busca de
consensos em áreas dominadas pela divergência entre as partes, mas não pode
servir de álibi para a formulação de propostas que afastem o projeto
hemisférico de um modelo de integração que atenda aos interesses dos
empresários brasileiros", diz o documento. Na visão da CEB, esse modelo
deve contemplar: a adoção de esquemas de liberalização que levem em
consideração as assimetrias estruturais e de nível de desenvolvimento
existentes entre os países do hemisfério; a obtenção de melhora substantiva nas
condições de acesso a mercados no hemisfério para setores atualmente
prejudicados por picos tarifários e barreiras não tarifárias; a garantia de que
a Alca nivelará, no final do processo, as preferências recebidas pelo Brasil em
relação àquelas que já beneficiam nossos principais concorrentes nos países que
negociam a Alca, funcionando ademais como uma salvaguarda contra imposições de
novas barreiras não tarifárias aos produtos brasileiros; eliminação das
distorções de concorrência provocadas por diversos tipos de apoio governamental
à produção de bens agropecuários.
A Coalizão Empresarial Brasileira, presidida por Osvaldo Douat, que participará
como ouvinte da reunião ministerial da Alca, entende que há diferentes
alternativas de reestruturação do formato das negociações, mas acha que elas
devem combinar a manutenção, no âmbito hemisférico de negociação, de uma agenda
temática abrangente com a redução seletiva do grau de ambição do acordo em
áreas mais afetas ao âmbito multilateral e sensíveis aos 34 países que negociam
a Alca.
"Precisamos enxugar a agenda e privilegiar os temas mais propensos a
consenso, deixando as questões mais polêmicas para serem tratadas na
Organização Mundial do Comércio", disse um membro da CEB.
Argentina e subsídios
A Argentina insistirá em sua luta contra os subsídios agrícolas na próxima
reunião ministerial da Alca. "Os países do Mercosul exporão seus pontos de
vista a respeito dos temas centrais, que são os subsídios agrícolas, a redução
das tarifas alfandegárias de produtos que a Argentina exporta e o desmantelamento
de medidas de proteção ao comércio", afirma o chanceler argentino, Rafael
Bielsa.
(Gazeta Mercantil/Caderno A12)(Riomar Trindade e EFE)
GAZETA MERCANTIL | OPINIÃO | 17/11/2003
O acesso a medicamentos
17 de Novembro de 2003 - Entre os desencontros da reunião da OMC em Cancún insere-se o acesso ao medicamento e a legislação sobre produção, vendas e patentes. Emissão de licença compulsória pelo país importador e exportador, a participação da OMC na concessão de licenças e a imposição de que as exportações não tenham fins lucrativos são dificuldades que praticamente inviabilizarão o acesso a medicamentos nos países necessitados. O Brasil tenta quebrar a patente de três medicamentos usados no tratamento de doentes de Aids. A solução ocorrerá quando a indústria farmoquímica nacional produzir o princípio ativo para produção dos medicamentos fabricados no País e, assim, reverter a situação de dependência internacional de insumos. É importante esclarecer a diferença entre produzir o princípio ativo (o insumo) e o produto final (o remédio). Por princípio ativo entende-se a substância que exerce a ação terapêutica. O produto final é o princípio ativo agregado de substâncias farmacêuticas que o fazem passível de ser utilizado no organismo humano. No cenário nacional há uma baixa capacidade de produção do principio ativo (90% dos fármacos são importados), onde existem poucas indústrias farmoquímicas (de seis a oito) e é pequena a capacidade de produção de medicamentos obtidos por biotecnologia. A solução definitiva fica mais evidente a partir da análise de duas variáveis: 1) Os três medicamentos que estão envolvidos com o governo em uma negociação de redução de preços, licença compulsória e/ou licença voluntária têm um período de vida média de mercado, quando se torna ultrapassado. Não tenho dúvidas de que a Merck Sharp & Dohme, a Roche e a Abbott - indústrias éticas, é bom ressaltar - estão se preparando para lançar medicamentos mais modernos para substituir os atuais, e aí estaremos frente ao problema de novas negociações, nova ameaça de quebra de patente, novo desperdício de energia, tempo e recursos. 2) A estratégia de licença compulsória (quebra de patente) ou de utilizar as brechas na legislação que permitam adquirir o princípio ativo no mercado internacional esbarra no fato de que o produtor da patente não vende tal substância para um possível futuro concorrente. Pior que isso: em 2005, a China e a Índia, maiores produtores mundiais de matéria-prima, serão também signatários da legislação sobre direitos de propriedade intelectual relacionados ao comércio (Trips), ou seja, estarão sujeitos a leis de patentes. E o Brasil perderá seus fornecedores. A indústria nacional farmoquímica deverá se capacitar para produzir o princípio ativo, assim como uma política tecnológica que sustente os investimentos. O Brasil é considerado o décimo maior mercado em faturamento no setor de medicamentos e o primeiro maior mercado da América Latina, Caribe e África. Esses números deveriam corresponder a uma razoável atividade de P&D, mas o que se observa é uma elevadíssima dependência tecnológica externa. Desde a década de 60, o mercado brasileiro de medicamentos baseia-se somente na produção de formas farmacêuticas finais, isto é, com importação do princípio ativo, formulando comprimidos, cápsulas, injetáveis e pomadas. De 1997 a 2002 o Brasil deu um salto na condução do tratamento de doenças como a Aids, na qual o custo do tratamento/ano teve queda de US$ 4.860 mil para US$ 2.510 mil (48%). Isso ocorreu porque houve redução nos preços dos medicamentos, que se deveu a fatores como melhor planejamento por parte do gestor público e ação forte nas negociações de preços. Mas o principal foi que as indústrias nacionais, públicas e privadas, desenvolveram-se tecnologicamente e passaram a produzir os medicamentos usados no coquetel diário. Em 1997 o País só produzia dois medicamentos dos 14 constituintes do coquetel. Em 2002 foram produzidos oito, avanço obtido com produção do medicamento e não do princípio ativo. Em saúde não se pode aceitar a teoria de liberdade plena de mercado porque o produto final é a vida. A solução passa pela parceria completa e definitiva entre governo e indústria privada, e não somente pela definição de linhas de financiamento nem pela produção exclusiva dos medicamentos que dão muito lucro. A dificuldade não está em aceitar novas idéias, mas em escapar das antigas. Serão necessárias ações vigorosas, criativas e concretas para que o País mude a lógica da dependência externa nesse setor. Ainda é preciso considerar o tempo que o Brasil dispõe para implementar esse programa. Temos mais de três anos para que os primeiros resultados apareçam. Caso contrário, não haverá tempo para acompanhar o processo de desenvolvimento tecnológico mundial, o que fará o País mais dependente. Frágil, estará à mercê dos altos custos internacionais do medicamento, inviabilizando o acesso da população. kicker: O que ocorre é uma elevadíssima dependência tecnológica externa (Gazeta Mercantil/Caderno A3)(Platão Fischer-Puhler - Doutor em medicina, autor do livro "O Acesso ao Medicamento", membro da delegação oficial brasileira na reunião da OMC, em Doha, Qatar, diretor da GT&P Consultoria. )
VALOR ECONÔMICO | 1º CADERNO | 17/11/2003
Países da futura Alca criticam acordo Brasil-Estados Unidos
Sergio
Leo, De Miami
Brasil e Estados Unidos, os países com maiores divergências nas negociações
para formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) chegaram a um acordo
para evitar um impasse nas discussões, mas os representantes de outros 13
países do continente querem mudar os termos desse acerto.
O debate ganhou força ontem em Miami, nas reuniões preparatórias para o
encontro dos ministros da futura Alca, marcado para ocorrer nas próximas quinta
e sexta-feiras.
Reunidos no Hotel Inter-Continental de Miami, enfeitado com bandeiras dos
Estados Unidos e do Brasil (que dividem a presidência das negociações da Alca),
representantes de países como México e Chile, que já têm acordos de livre
comércio com os Estados Unidos, usaram as mesma palavras
("frustração" e "desapontamento") para falar do tema: a
proposta Brasil-EUA, feita para evitar um fracasso em Miami, traz o risco de
comprometer a própria criação da Alca, afirmaram os diplomatas desses dois
países.
Foram apoiados por representantes de outros governos que já ensaiam um acordo
bilateral de comércio com os Estados Unidos, como a Colômbia.
O acordo entre o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, e o
representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, espécie de
ministro do Comércio exterior do país, prevê que a Alca deverá ser
"abrangente e equilibrada", mas que terá de ter
"flexibilidade".
O texto do acordo explica o que é isso: os países serão obrigados a respeitar
um conjunto de direitos e obrigações comuns, em todos os temas, inclusive
assuntos que o Itamaraty não admitia nem discutir na Alca, como regras de
investimentos e proteção à propriedade intelectual, e o fim da discriminação
contra estrangeiros na prestação de serviços e nas compras do setor público.
Mas o Brasil incluiu no texto uma ressalva que permite ao país aceitar somente
regras genéricas. Quem quiser direitos e obrigações adicionais, não aceitos por
todos os países da Alca, poderá negociá-los individualmente ou em grupo (as
chamadas "negociações plurilaterais").
O Itamaraty se recusa a avançar nessas discussões na Alca por temer a criação
de regras continentais que limitem a autonomia do governo de estabelecer políticas
industriais ou de desenvolvimento em favor de empresas instaladas e gerando
empregos no país.
Ontem, o Mercosul apresentou uma proposta do que considera esse "conjunto
comum de regras e obrigações". Em temas como serviços e investimentos, o
Brasil é modesto, e pede que as tais "regras comuns" sejam apenas as
já existentes na Organização Mundial do Comércio.
Na defesa da propriedade intelectual, a Alca traria apenas compromissos de
transferência de tecnologia e cooperação para combate à pirataria.
Compromissos maiores nesses temas e nesse sentido não seriam obrigatórios para
todos; seriam feitos só bilateralmente ou de forma plurilateral.
Em outros pontos, porém, o Brasil é ambicioso: propõe eliminação dos subsídios
às exportações agrícolas em todos os países da Alca e disciplinas para medidas
que podem distorcer o comercio externo, como créditos e seguros a exportações.
Estes temas são considerados "sensíveis" pelo governo
norte-americano, que só admite discutí-los na OMC.
A proposta do Mercosul está bem distante dos princípios defendidos pelos
Estados Unidos nos grupos de negociação da Alca. Em matéria de propriedade
intelectual, por exemplo, os norte-americanos querem prazos maiores para o
monopólio garantido pelas patentes, mecanismos para punir com mais eficiência a
pirataria de softwares, marcas, patentes e direitos de autor, além de
dispositivos para dificultar a fabricação de medicamentos genéricos.
Querem também regras mais rígidas para evitar que os governos criem regras que
prejudiquem as decisões de investimento nos países da Alca.
No acordo com o Chile, visto como modelo para a Alca, os EUA conseguiram
limitar a possibilidade de o país criar restrições ao movimento de dinheiro
para o exterior, mesmo em caso de crise nas contas externas.
EUA e Brasil tentaram evitar que essas diferenças comprometessem a reunião
realizada em Miami, e sua proposta de declaração ministerial previa que o
detalhamento desse conjunto comum de direitos e obrigações seria feito em
fevereiro pelos chamados vice-ministros, reunidos no Comitê de Negociações
Ministeriais.
Mas a reação de outros países latino-americanos levou os diplomatas a iniciarem
ontem mesmo em Miami o debate sobre que tipo de regra comum será obrigatória a
todos na Alca.
Um grupo de treze países, entre eles Canadá, México, Chile, Colombia e Costa
Rica, apresentou uma proposta alternativa de declaração ministerial, que também
contraria as intenções do Brasil.
Segundo a proposta desses países, a possibilidade de ter compromissos diferentes
na Alca seria apenas temporária ("temporarily", diz o texto em
inglês); ou seja, ao fim de um prazo a ser negociado, todos teriam de aderir às
regras estabelecidas na área de livre comércio, inclusive nos temas sensíveis.
Diplomatas dos treze países defendem também que os governos decididos a fazer
poucas concessões em matéria de regras (como o Brasil, em investimentos e
propriedade intelectual, por exemplo) também ganhariam, em compensação, menos
nas negociações de "acesso a mercados", redução de barreiras a
importações de mercadorias. O Brasil discorda desse argumento, mas os países
querem vê-lo na declaração ministerial que sairá de Miami.
O chefe da equipe negociadora brasileira, embaixador Luis Filipe Macedo Soares,
preveniu a delegação brasileira, na noite de sábado, que nem mesmo o ministro
Celso Amorim tem poder de aceitar mudanças muito fortes no texto negociado
entre Brasil e Estados Unidos, porque reflete o máximo de concessões aceitas
pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem o documento foi submetido.
"Esses países que estão tentando mudar o texto correm o risco de serem
responsabilizados pelo fracasso em Miami", comentou o co-presidente
brasileiro das negociações da Alca, Adhemar Bahadian.
Ontem, pelo menos três diplomatas de países latino-americanos comentaram para o
Valor que temem o esvaziamento da Alca, como ocorreu com a pouco visível
Associação Latino-Americana de Desenvolvimento e Integração (Aladi), que previa
uma integração crescente do comércio no continente mas não dispôs de
instrumentos reais para isso.
Integrantes da delegação brasileira a Miami vêem outra razão para a
resistência: após cederem a reivindicações dos Estados Unidos para firmar
acordos de livre comércio, alguns países não querem ver o Brasil ganhar acesso
ao mercado norte-americano sem fazer concessões semelhantes. As negociações em
Miami, nesta semana, serão "duras", previu outro diplomata.
VALOR ECONÔMICO | 1º CADERNO | 17/11/2003
Semimanufaturados não devem aceitar novas encomendas
De
São Paulo, de Porto Alegre, do Rio e de Belo Horizonte
Os bens semimanufaturados não impulsionarão em 2004 as exportações como neste
ano. Os dois principais setores deste segmento, aço e celulose, estão com o uso
de sua capacidade instalada no limite, e os novos investimentos só surtirão
efeitos em 2005. Por isso, com a esperada retomada do mercado interno é pouco
provável que a produção consiga atender a mais pedidos externos.
Em 2003, estimulados pelos altos preços no mercado internacional e pela baixa
demanda interna, os produtores de bens semimanufaturados aumentaram em 28% as
exportações. Do ganho total de US$ 9,3 bilhões nas vendas externas do país, US$
1,7 bilhão foram obtidos por estes bens. O apelo das cotações é claro. Produtos
siderúrgicos tiveram aumento de 24,3% neste ano, segundo cálculos da Funcex. Já
a celulose acumula ganhos de 5,9%.
A Gerdau, que geralmente obtém melhores margens nas vendas domésticas, investe
com maior ímpeto no aumento dos embarques ao exterior apenas quando a demanda
interna dá sinais de retração. O grupo siderúrgico prefere operar no exterior
por intermédio das unidades instaladas nos Estados Unidos, Canadá, Chile,
Uruguai e Argentina do que exportar a partir do Brasil.
Os altos custos do frete mais o fato de que os clientes externos, sobretudo da
Ásia, compram produtos semi-acabados para laminação no destino e portanto com
menor valor agregado, geram margens mais apertadas, explica o vice-presidente
executivo de finanças do grupo, Osvaldo Schirmer.
De janeiro a setembro, porém, as exportações da Gerdau a partir do Brasil
cresceram 80% tanto em volumes, para 2,3 milhões de toneladas, quanto em
valores, para o recorde de US$ 571 milhões, como forma de compensar a retração
de quase 13% no mercado doméstico, que absorveu 2,5 milhões de toneladas. Se em
2004 a demanda interna se recuperar, o grupo deverá reduzir os embarques,
adianta Schirmer.
Já a Açominas costuma vender para o mercado interno 40% da produção anual de 3
milhões de toneladas , destinando o restante ao mercado externo. Neste ano,
segundo informações da empresa, as exportações deverão representar 70% das
vendas anuais, um pouco acima da média em conseqüência da retração na economia
interna. Mas a principal explicação para o grande crescimento das exportações -
118% segundo a Secex - é a recuperação do nível normal de produção da usina de
Ouro Branco, que havia sido afetada pela paralisação de um forno.
No setor de papel e celulose, as projeções indicam que as exportações não
crescerão em 2004. Elas devem atingir o mesmo patamar, U$$ 3 bilhões,
conseguidos neste ano. O aumento de 200 mil toneladas esperado na produção será
totalmente absorvido pelo mercado interno, calcula o presidente da Associação
Brasileira da Indústria de Celulose e Papel (Brascelpa), Osmar Zogbi. Os
próximos ganhos expressivos nas exportações devem ocorrer a partir de 2005
quando serão concluídos projetos de produção de celulose para o mercado
internacional.
A Aracruz Celulose, maior produtora mundial de celulose de eucalipto, vê 2004
com moderado otimismo. A empresa, que exporta cerca de 98% de tudo que produz,
avalia que a recuperação da economia mundial no ano que vem poderá levar seus
clientes a aumentar os estoques e assim enxugar a sobreoferta de celulose hoje
verificada no mercado .
"Se houver percepção de melhora da economia mundial, este movimento terá
impacto (positivo) sobre a demanda", disse João Felipe Carsalade, diretor
comercial da Aracruz. A empresa não trabalha no mercado "spot", mas
fecha contratos de longo prazo (quatro, seis e oito anos).
De janeiro a setembro deste ano, a Aracruz vendeu 610 mil toneladas de
celulose, com aumento de 38% sobre o mesmo período de 2002. O aumento nas
vendas, segundo Carsalade, foi motivado por vários fatores. Um deles foi o
aumento da capacidade de produção da Aracruz, atualmente em 2,4 milhões de
toneladas/ano, num movimento feito via investimentos (construção da fábrica C,
no Espírtio Santo, que agregou 700 mil toneladas anuais), e aquisições (compra
da Riocell, agora Unidade Guaíba da Aracruz, que adicionou 400 mil
toneladas/ano).
A analista Mônica Araújo, do BES Securities, projeta vendas de 2,15 milhões de
toneladas para a Aracruz em 2003, sendo 100% praticamente para a exportação.
Para 2004, a analista projeta que a empresa venderá 2,4 milhões de toneladas.
"A confirmar-se a retomada da economia mundial haverá condições de
colocação da capacidade adicional hoje existente no mercado, além da capacidade
nova que vai entrar nos próximos dois anos", afirma Mônica.
Carsalade acrescenta que a capacidade de celulose de mercado tem aumentando,
com novas fábricas entrando em operação, mas a demanda não tem crescido no
mesmo ritmo. A analista do BES Securities avalia que para uma empresa tipicamente
exportadora como a Aracruz é importante considerar o câmbio e o preço da
celulose no mercado internacional. "Os preços já estão em nível bom, em
função de competitividade e dos custos, mas não vejo espaço para grandes
aumentos", ponderou.
(GF, SB, FG e IM)
VALOR ECONÔMICO | 1º CADERNO | 17/11/2003
Exportador busca saída para compensar câmbio
De São Paulo, Rio, Porto Alegre e
Belo Horizonte
As empresas exportadoras buscam alternativas para driblar a valorização do
real. Correção de preços em dólar, redução de custos, aumento de importações,
financiamento em moeda estrangeira, procura de novos mercados e agregação de
valor estão entre as principais estratégias adotadas.
A Doux Frangosul aumentou parte de seus preços em até 20% e a Volkswagen estuda
essa alternativa caso o câmbio se mantenha perto de R$ 2,90. TRW, Sabó, Cia
Hering, entre outras, preferiram a redução de custos, enquanto a Randon foi
beneficiada pelo alívio nos financiamentos externos. Outra alternativa foi
aumentar vendas para a Europa, destino que ficou mais rentável com a
valorização do euro frente ao dólar. Já a Cacique fez há poucas semanas seu
primeiro embarque de café especial.
O câmbio, dizem os empresários, atrapalha o curto prazo, mas não interrompe a
prospecção de novos clientes e mercados. Pelo contrário, aumentar a produção
ajuda a diluir custos fixos. A Volkswagen exportou carros prontos pela primeira
vez para Alemanha e China e, ainda em 2003, vai desembarcar a Parati na Líbia.
A Mash entregou cuecas brasileiras na Hungria e a TRW mandou seus sistemas para
a Austrália. Apesar da diversificação, cinco países absorveram 62% do aumento
das vendas externas do país neste ano.
O crescimento de 2003, informam as empresas, não será abortado em 2004. Os
fabricantes de manufaturados e de produtos básicos planejam novos crescimentos
não só no próximo ano mas também em 2005 e 2006. Bens intermediários são a
exceção. A recuperação da demanda interna fará os exportadores de aço reduzirem
as vendas externas em 2004, enquanto os fabricantes de celulose vão apenas
repetir o desemprenho deste ano.
Em 2002, rentabilidade e volume exportado andaram em sintonia. Desde março, as
vendas externas despregaram do câmbio e cresceram 30%, enquanto a rentabilidade
caiu 10%.
VALOR ECONÔMICO | CARTAS | 17/11/2003
Venda da Embratel
"Muito agradeceríamos a
publicação da seguinte declaração sobre reportagem publicada pelo Valor, em 14
de novembro, com o título 'Telmex é a mais cotada para levar a Embratel'.
A reportagem informa que a Telmex está estudando a aquisição da Embratel, mas
que ainda não fez oferta formal. Consideramos que a informação gera confusão,
uma vez que não fizemos essa declaração.
A Telmex apenas informou que a companhia está avaliando a Embratel, assim como
outras empresas. Mas o leitor pode ter ficado com a impressão de que a primeira
afirmação da reportagem também partiu da Telmex, o que não aconteceu".
Concepción Rivera R.
Subdiretora de Comunicações da Telmex
VALOR ECONÔMICO | 1º CADERNO | 17/11/2003
Decisão sobre o aço acirra nos EUA sentimento contrário à OMC
Paul
Magnusson, BusinessWeek
Entusiastas do livre comércio estão aplaudindo a decisão da Organização Mundial
do Comércio (OMC) da semana passada, que considerou ilegais as tarifas ao aço
importado, impostas pelo presidente americano George W. Bush. Mas também há
motivos para se sentirem contrariados: a decisão está inflamando o bipartidário
sentimento contrário à OMC no Congresso dos EUA, que em última instância poderá
levar o país a se retirar do organismo, que reúne 148 países.
O senador Max S. Baucus (democrata, de Montana) renovou seu apelo para que uma
comissão de juízes dos EUA avalie os motivos por trás da série de decisões
antiamericanas. Baucus argumenta que os casos estão "minando a
confiança" na organização sediada em Genebra. Muitos republicanos têm
alertado por longo tempo que a OMC ameaça a soberania dos EUA. O deputado moderado
Phil English (da Pensilvânia) caracteriza as suas decisões recentes como
"extraordinariamente arbitrárias".
Um relatório do General Accounting Office - o departamento do Congresso que
monitora as despesas do Executivo - conclui que os EUA são os maiores
perdedores nas decisões da OMC e enfrentam as maiores penalidades. Decisões
recentes da OMC autorizam a Europa a impor sanções tarifárias sobre um valor de
até US$ 6 bilhões em exportações dos EUA.
A OMC ainda tem defensores, como o presidente da Comissão de Finanças, senador
Charles E. Grassley. Porém, até ele está irritado por a organização permitir
que juízes recebam documentos, ouçam argumentos e deliberem em sigilo. O
Congresso deverá votar em 2005 se o país permanecerá na OMC.
VALOR ECONÔMICO | EMPRESAS | 17/11/2003
Acordo Varig-TAM vai passar por revisão, diz Seae
Juliano
Basile, De Brasília
O acordo de compartilhamento de vôos entre a Varig e a TAM está com seus dias
contados. A Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) do Ministério da
Fazenda está fazendo um estudo sobre a redução na oferta de vôos e o aumento no
preços das passagens aéreas, desde a implementação do acordo, em março deste
ano.
O estudo será encaminhado ao Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (Cade),
que, dependendo das conclusões da secretaria, poderá suspender o acordo
Varig-TAM ou alterá-lo para permitir maior competição entre as companhias.
Em entrevista ao Valor, o secretário José Tavares de Araújo disse que o acordo
Varig-TAM certamente terá de ser revisto. O maior problema, segundo ele, é a
redução de oferta.
O acordo, chamado de "code share", permitiu a operação conjunta das
companhias em 22 rotas aéreas. Como uma empresa atende os passageiros da outra,
houve uma elevação na taxa de ocupação dos vôos, o que foi bom para ambas. Por
outro lado, os preços das passagens subiram e o número de vôos foi reduzido,
prejudicando o consumidor.
"O 'code share', do jeito que foi feito, não é bem visto porque o que
estão fazendo é simplesmente redução da oferta", definiu Tavares.
O secretário explicou que o compartilhamento de vôos é muito comum para rotas
complementares. Por exemplo, se um passageiro quer ir de São Paulo a Atlanta e
a companhia não possui vôo direto, ela o transporta num vôo São Paulo-Miami e
outra leva o passageiro de Miami a Atlanta. A Varig tem um "code
share" com a United Airlines para atender casos deste tipo.
No mundo inteiro, as empresas complementam suas rotas. Mas, no caso Varig-TAM,
elas estão centrando as atividades na mesma rota. Agora, elas têm a garantia de
que as aeronaves sairão cheias, pois uma companhia atenderá os passageiros da
outra na mesma rota. Ao mesmo tempo, os preços cobrados pelas empresas sofreram
elevações e têm cotações próximas. As promoções estão mais cada vez mais raras.
"Este sistema de 'code share', certamente ajudará as empresas, mas ainda
não identificamos se funcionou como uma conduta anticompetitiva", disse
Tavares. "Podemos chegar a uma conclusão: de que o acordo vale até agora e
daqui para frente, não. Mas, não posso dizer que isso é um conluio." A
expectativa, quando da implementação do acordo, era de que a Varig economizasse
R$ 75 milhões por trimestre e a TAM, R$ 47 milhões.
O Cade permitiu o acordo de compartilhamento de rotas, mas vetou a troca de
informações sobre preços. As estruturas administrativas e comerciais das
companhias também tiveram de ser mantidas em separado, até que o Cade aprove ou
não a união Varig-TAM, sob pena de multa de 0,2% do faturamento das empresas no
ano passado e interrupção imediata do acordo.
Tavares explicou que há ocasiões em que os órgãos reguladores intervêm para
preservar os investimentos das empresas, como no caso Varig-TAM. Elas viviam
uma situação de crise e o compartilhamento foi apontado como salvação. O
objetivo dessa política, segundo o secretário, é garantir um quadro geral à
indústria no qual as empresas sejam saudáveis economicamente e as tarifas
tenham um mínimo de modicidade. "O desafio é juntar essas condições de
forma harmônica."
Os acordos de "code share não são bem vistos pelos órgãos de defesa da
concorrência. No ano passado, a Seae, sob direção do então secretário Claudio
Considera, sugeriu a condenação da TAM e da Transbrasil por dividir rotas em
acordos deste tipo. A Seae pediu o fim do acordo em quatro rotas. Em outras dez
e na ponte-aérea Rio-São Paulo, a Seae chegou à conclusão de que haviam
"potenciais aspectos danosos representados por uma possível divisão de
mercados".
VALOR ECONÔMICO | EMPRESAS | 17/11/2003
Cargill e Hatco unem-se e criam a Innovatti no país
Ivo
Ribeiro, De São Paulo
As americanas Cargill e Hatco Corporation anunciam hoje uma joint venture para
fabricação de produtos à base de gorduras vegetais para diversos segmentos
industriais. O mercado alvo é a América Latina, com exceção do México, e
destina-se a aplicações nas áreas automotiva, industrial, siderúrgica e na
extração de petróleo. Para formalizar a associação, será criada a Innovatti,
que terá unidade industrial em Mairinque (SP) e se dedicará à produção de
ésteres sintéticos e lubrificantes formulados.
Étore Silva, diretor da Innovatti, que há dois anos e meio é responsável pela
divisão de óleos industriais e lubrificantes da Cargill no Brasil, informa que
a empresa começará suas operações industriais em meados de 2004. O investimento
completo deverá atingir US$ 10 milhões. A Cargill terá 51% do capital da
empresa e a Hatco ficará com os 49% restantes.
A Innovatti será a porta de Hatco no mercado brasileiro como fabricante de
ésteres e lubrificantes formulados. Atualmente, a companhia americana, uma das
líderes nesse segmento, atende clientes no país com material importado. A
empresa terá capacidade para produzir até 10 mil toneladas anuais dos dois
produtos.
Segundo Silva, a demanda brasileira de ésteres está entre 9 mil e 10 mil
toneladas ao ano, mas uma expressiva quantidade é trazida do exterior,
inclusive alguns tipos que o executivo denomina como de alta performance. Esses
produtos, além dos comuns, também passarão a ser feitos na Innovatti.
A unidade industrial ficará ao lado da fábrica de processamento e refino de
óleos e gorduras vegetais (soja, girassol, canola, milho). A matéria-prima da
Innovatti será fornecida por essa processadora.
A localização em Mairinque é vista como estratégica por ficar próxima dos
principais mercados do país - São Paulo, Rio, Minas e região Sul. Um exemplo de
cliente potencial é a Petrobras, que usa lubrificantes em suas brocas de
extração de óleo em águas profundas, por exemplo.
A Embraco, fabricante de compressores, e sua concorrente no país, a Tecumeseh,
também são duas grandes consumidoras. Companhias de óleos lubrificantes
sintéticos para automóveis terão, a partir de 2004, material para formularem,
se quiserem, a produção no país. Hoje, elas importam o produto.
"No caso dos óleos, que são de base vegetal, vamos atuar em nichos de
mercado", explica Silva. Em relação aos óleos de base mineral (90% do
volume usado), o produto é bem mais caro, mas tem a vantagem de ser solúvel em
água.
Siderúrgicas e unidades de usinagem de peças, informou o executivo, são
usuárias desse material em muitas de suas operações. "Tanto para ésteres
como lubrificantes, nosso foco será o mercado industrial."
Com emprego de 15 pessoas no primeiro ano, a Innovatti prevê faturar US$ 4
milhões no primeiro ano de atuação e projeta chegar a cerca de US$ 15 milhões
em quatro anos. A empresa planeja exportar uma parte da produção para
Argentina, Chile e Venezuela.
A Cargill Industrial Oils & Lubrificants, unidade de negócios da Cargill, é
uma das líderes mundiais no fornecimento de óleos, gorduras e outros produtos
para o mercado industrial. A Cargill fatura mundialmente US$ 60 bilhões. No
Brasil, a receita em 2002 foi de R$ 7,8 bilhões.
A Hatco, de New Jersey, é uma das líderes mundiais na produção de ésteres e
base para lubrificantes sintéticos aplicados nos mercados de aviação,
automotivo, medicina, industriais, cosméticos e cuidados especiais.
VALOR ECONÔMICO | EMPRESAS | 17/11/2003
Multa contra fabricantes de cimento pode ser o maior da história do Cade
Juliano
Basile, De Brasília
A investigação iniciada no setor de cimento pela Secretaria de Acompanhamento
Econômico (Seae) do Ministério da Fazenda pode resultar na maior punição por
formação de cartel na história do país. As dez cimenteiras suspeitas de dirigir
a produção no setor poderão ser condenadas a pagar multa entre R$ 80 milhões e
R$ 2,4 bilhões. As empresas são: Votorantim, Camargo Corrêa, Lafarge, Holcim,
Soeicom, Itambé, CP Cimento, grupo Nassau, Cimpor e Ciplan.
As penas variam de acordo com a Lei de Defesa da Concorrência (nº 8.884). O
artigo 23 da Lei estipula que as empresas que cometerem infrações à
concorrência pagarão de 1% a 30% do que faturaram no ano anterior ao da
denúncia. A gradação da pena dependerá do julgamento do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, responsável por
decidir questões antitruste no Brasil. A maior pena aplicada pelo Cade foi de
R$ 58,4 milhões, imposta ao "cartel do aço", acusação contra CSN,
Usiminas e Cosipa, em 1999.
Juntas, as dez cimenteiras faturaram quase R$ 8 bilhões no Brasil, em 2002.
Apenas a Votorantim Cimentos apresentou R$ 4,13 bilhões de faturamento. A
Holcim, a Camargo Corrêa, a Cimpor e a Lafarge vêm em seguida, com R$ 905
milhões, R$ 795 milhões, R$ 647,8 milhões e R$ 565,5 milhões, respectivamente.
As cimenteiras estão sendo investigadas há nove meses pela Seae. O processo
correu em sigilo e nenhuma empresa foi contactada para apresentar defesa.
A Seae começou a investigar as cimenteiras a partiu de uma notícia de jornal.
Elas não estavam vendendo as matérias-primas que mais interessavam às
fabricantes de concreto, chamadas de CP2 e CP5. São dois tipos de cimentos mais
puros que geram economia às concreteiras. Em vez desses tipos de cimento,
apenas outro, chamado de CP3, estava sendo vendido. É um tipo mais complexo e
que onera a produção.
"Fizemos um histórico da venda das empresas e constatamos que os tipos de
cimentos adquiridos pelas concreteiras mudaram", afirmou Carlos Ragazzo,
coordenador-geral de Defesa da Concorrência da Seae.
A suspeita é grande, pois algumas cimenteiras pertencem a grupos empresariais
que também atuam no ramo de concreto. Dessa forma, esses grupos poderiam estar
recusando a venda de tipos de cimento para prejudicar concorrentes diretos no
setor de concreto.
Outro dado preocupante: as dez cimenteiras representam aproximadamente 97% da
produção de cimento. A produção está concentrado no Estado de São Paulo.
"Temos fortes indícios de cartel", resumiu o secretário de
Acompanhamento Econômico, José Tavares de Araújo.
As cimenteiras terão a oportunidade de apresentar defesa junto à Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça. A SDE ouvirá as
empresas e, depois, pedirá nova opinião da Seae. As duas secretarias irão
sugerir a condenação ou não das cimenteiras ao Cade.
Apesar de o caso estar em fase inicial, há fortes probabilidades de condenação.
Neste ano, a SDE iniciou uma frente de investigação em todos os ramos ligados a
construção civil. Há várias suspeitas de infrações à concorrência nesses ramos
e as cimenteiras negociam diretamente com eles.
VALOR ECONÔMICO | AGRONEGÓCIOS | 17/11/2003
Pedras no caminho do pequeno exportador
Vinicius
Doria, De Brasília
Com a entrada em vigor, no dia 12 de dezembro, da lei do bioterrorismo nos
Estados Unidos, o processo de exportação de alimentos para o país ficará mais
burocrático. As novas regras da Food and Drug Administration (FDA), agência de
alimentos e remédios dos EUA, vão obrigar o registro de todos os produtores,
embaladores e armazenadores de alimentos vendidos para aquele país. O registro
na FDA é relativamente simples, pode ser feito pela internet. O que vai dar
trabalho é a exigência para que todas as empresas registradas contratem um
representante legal nos EUA, que pode ser uma pessoa física ou jurídica.
Também será necessário um aviso prévio da exportação, que deve ser emitido
entre quatro horas e cinco dias da chegada da carga ao destino, conforme o
transporte utilizado.
Para o assessor especial da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Aloísio
Tupinambá, as novas regras vão afetar principalmente as pequenas empresas que
ainda desconhecem os procedimentos e não contrataram representante legal nos
EUA.
Esse representante será responsável apenas pela veracidade dos dados contidos
no registro e não pela carga. Isso permitirá que o governo americano possa
rastrear a origem dos alimentos que entram no país.
A lista de produtos sujeitos às medidas antibioterrorismo tem 60 itens, muitos
deles da pauta brasileira de exportações como frutas, café, açúcar, mel, frutos
do mar, derivados de cacau e até cachaça.
"Nos preocupamos, por exemplo, com a cachaça feita em pequenos alambiques
e depois misturada pelo exportador. Todos os alambiques terão que se registrar
na FDA", avisou Tupinambá. Só as propriedades rurais, que produzem o
alimento "in natura" sem nenhum processamento, não precisarão do
registro nem do representante legal.
De janeiro a setembro, o Brasil exportou US$ 1,174 bilhão em alimentos para os
EUA. Boa parte saiu dos estados do Nordeste, grandes produtores de frutas e
camarão. Só o Ceará respondeu por 11% das vendas para os EUA.
CORREIO BRAZILIENSE | ECONOMIA | 17/11/2003
Mercosul unido em Miami
Brasil, Argentina, Uruguai e
Paraguai defenderão mercado comum com liberdade para acordos bilaterais nos
temas sem consenso
O Mercosul levará uma proposta comum de negociação esta semana à reunião
ministerial da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) em Miami, embora as
diferenças internas persistam entre os quatro membros do bloco sul-americano.
Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai defenderão um mercado comum com várias
velocidades e a possibilidade de liberdade de ação para a assinatura de acordos
bilaterais ou multilaterais paralelos nos temas para os quais não haja um
consenso até 1º de janeiro de 2005 — data prevista para o fim das negociações.
‘‘Ante a possibilidade de um fracasso, como o da rodada da OMC (Organização
Mundial de Comércio) em Cancún, há entendimento para que a Alca possa ser posta
em marcha mediante concessões bilaterais’’, segundo uma fonte argentina. Os
quatro países também estão de acordo em dar prioridade à eliminação das travas
ao comércio agrícola.
Mas o Brasil não descarta negociar alguns produtos — como o açúcar —
independentemente da proposta do Mercosul. Mas para isso será preciso analisar
os custos políticos da opção. O Brasil — que junto com os Estados Unidos
preside as negociações — tem três objetivos, segundo analistas brasileiros:
obter maiores prazos para abrir seu mercado em setores considerados frágeis,
melhorar o acesso ao mercado americano para seus produtos mais competitivos e
manter seu perfil de líder regional.
A Argentina também quer entrar nos Estados Unidos com seus produtos do setor
siderúrgico, competitivos mas limitados pela pressão da influente indústria
americana do aço. Segundo Martín Redrado, secretário de negociações econômicas
internacionais, ‘‘a Argentina, junto com o Brasil, deseja incorporar às
negociações regras antidumping (concorrência desleal) e uma agenda de temas
agrícolas’’.
O Uruguai, que quer um acordo bilateral com os Estados Unidos mesmo que sem
seus parceiros do Mercosul, insistiu na proposta de ‘‘uma Alca que não impeça
nem imponha’’; isto é, que envolva uma integração de maneira gradual e que
contemple os interesses dos 34 países que participam da iniciativa.
O Paraguai reclama acesso a mercados e o fortalecimento das indústrias
nacionais. Segundo os economistas que analisam a proposta, a ‘‘Argentina tem um
mercado interno considerável que alcançou um elevado poder de compra no
passado. Ao contrário do Paraguai e do Uruguai, a Argentina é uma economia mais
fechada, apesar da abertura nos anos 90. Já o Brasil é um país muito grande
pelo que concede ao mercado interno um papel muito mais importante em seu
processo de desenvolvimento’’.
VEJA | RADAR | 17/11/2003
Mudança na Perdigão
A Telos, o fundo de pensão da Embratel, vendeu por 3,5 milhões de reais sua pequena participação na Perdigão. Quem comprou foi a Fapes, fundo de pensão dos funcionários do BNDES. O sonho encantado dos fundos de pensão (Previ à frente) que controlam a empresa ainda é a fusão com a Sadia.
VEJA | HOLOFOTE | 17/11/2003
CAIXA ELETRÔNICO ÚNICO
Há no Brasil três serviços de caixa eletrônico concorrentes, o do Bradesco, o do Itaú e o Banco 24 Horas. Os clientes de um não podem usar os outros. O presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, lidera uma negociação entre as instituições financeiras para unificar o serviço. Para os bancos, o custo de administração do serviço cairia. Para os correntistas, a vida também ficaria mais simples. Na Europa e nos Estados Unidos já é assim.
VEJA | ECONOMIA | 17/11/2003
Entre o
comércio e as urnas
De olho na reeleição, Bush
leva sua crença no livre mercado para o balcão político
Na semana passada, a Casa Branca
sofreu uma derrota comercial. A Organização Mundial do Comércio (OMC) ratificou
uma decisão, de quatro meses atrás, que condena a sobretaxa imposta pelos
Estados Unidos ao aço importado. Estima-se que, no caso do Brasil, oitavo maior
produtor de aço do mundo, a sobretaxa tenha provocado prejuízos de 300 milhões
de dólares. A União Européia, onde estão alguns dos grandes produtores
mundiais, calcula que poderá retaliar os americanos em 2,2 bilhões de dólares.
Pelas boas normas do comércio internacional, cabe agora ao presidente George W.
Bush eliminar a sobretaxa, que varia de 8% a 30%. Em Washington, porém, a
discussão deixou de ser pautada pelo interesse comercial ou econômico – tudo
ali, faltando um ano para o pleito presidencial, no qual Bush disputará a
reeleição, é analisado de olho no mapa eleitoral. É assim que funciona nos
Estados Unidos ou em qualquer outro país democrático, mas é interessante
observar como, em tempos de eleição, até o que parecia ser um princípio sagrado
– no caso, a crença republicana no livre-comércio – pode virar mercadoria no
balcão eleitoral.
O drama de Bush é o seguinte: se eliminar a sobretaxa, ganhará aplausos do
eleitorado de Michigan, onde fica o coração da indústria automobilística,
grande consumidora de aço. Se, ao contrário, Bush mantiver a sobretaxa,
receberá a simpatia do eleitorado da Pensilvânia ou de Virgínia Ocidental,
epicentros da indústria siderúrgica americana. O que será mais lucrativo do
ponto de vista eleitoral? A União Européia, com sua experiência de séculos nas
trocas comerciais, avisou que espera a rápida eliminação da barreira e, se isso
não acontecer, já informou que aplicará retaliações à importação de
equipamentos agrícolas, motocicletas Harley-Davidson e suco de laranja. Por que
a Europa escolheu tais produtos? Para entrar no jogo eleitoral de Bush: são
produtos de Estados politicamente relevantes para a reeleição de Bush. A
Flórida, por exemplo, exporta suco para a Europa, além de ser governada pelo
irmão do presidente, Jeb Bush. Com isso, a Europa encontrou uma forma de
ampliar a punição política a Bush caso ele mantenha a sobretaxa.
O Brasil ainda não decidiu o que fará. "Precisamos aguardar a decisão dos
Estados Unidos", diz o coordenador-geral de Contenciosos do Itamaraty,
conselheiro Roberto Azevêdo. A cena eleitoral americana também explica a
conversa do chanceler Celso Amorim com o representante comercial americano
Robert Zoellick, em Washington, no fim de semana passado. Quando o Brasil
assumiu uma postura de confronto e conseguiu bloquear os interesses americanos
e europeus nas discussões da OMC em Cancún, em setembro, Zoellick ficou
furioso. Escreveu artigos à imprensa e criticou duramente a posição brasileira.
Fez uma ameaça ao dizer que a Casa Branca faria acordos bilaterais com os
países da América do Sul, relegando o Brasil e seu aliado, a Argentina, ao
isolamento no âmbito da Alca. No encontro do fim de semana, Zoellick adotou
outro tom. Na conversa com Amorim, que chegou a Washington carregando a
orientação do Palácio do Planalto para ser menos inflexível, Zoellick aceitou
no mínimo ouvir os argumentos do Brasil. Estabeleceu-se, então, uma trégua
entre os dois países. Com isso, é possível que a reunião dos 34 membros da
Alca, que ocorre nesta semana em Miami, venha a render algum resultado
concreto.
A mudança de abordagem de Robert Zoellick, um ferrenho militante do
livre-comércio, tem sido atribuída, pela imprensa americana, ao fato de que sua
postura intransigente em relação ao Brasil e à Argentina – tanto na OMC quanto
na Alca –- vinha ganhando o aplauso dos setores mais protecionistas dos Estados
Unidos. Era natural que fosse assim. Afinal, Zoellick exibia disposição nula
para negociar a entrada no mercado americano dos produtos agrícolas do Brasil e
da Argentina, muito mais baratos que os americanos. Ao fazer as pazes com
Amorim e mostrar-se aberto ao diálogo, o que nem de longe sugere o fim das
barreiras agrícolas americanas, Zoellick retira uma bandeira das mãos dos
protecionistas – inimigos políticos dos republicanos. Aliás, um dado para a
reflexão dos protecionistas: os produtos agrícolas do Brasil e da Argentina são
mais baratos porque os fazendeiros americanos recebem gigantescos subsídios
governamentais – o que supervalorizou a terra, encarecendo tudo o que nela se
produz.
ISTOÉ | ENTREVISTA | 17/11/2003
É hora de
chutar a escada
O conselho é do professor
coreano Ja-Hoon Chang, especialista em comércio exterior, para quem Lula já tem
cacife internacional
Liana Melo
Um representante de um país rico não deve perguntar ao economista coreano
Ha-Joon Chang, professor de estudos do desenvolvimento na Universidade de
Cambridge, na Inglaterra, o que ele acha de livre comércio e globalização. Sua
análise é bombástica: “Quando um país chega ao topo, chuta a escada para
impedir o acesso dos outros.” Especialista em comércio internacional e autor do
livro Chutando a escada, editado no Brasil pela Unesp, Chang passou a última
semana viajando pelo eixo Rio-São Paulo-Brasília. Ele veio ao Brasil participar
do Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Tecnológico e Industrial,
promovido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Falou sobre comércio
exterior e sobre o novo acordo do Brasil com o FMI. Entre prós e contras, o
coreano acha que o governo brasileiro foi precipitado ao aceitar as regras do
Fundo. Nas críticas à globalização, Chang não doura a pílula ao afirmar que os
países ricos não têm nenhum interesse em diminuir a distância dos pobres. Para
ele, se as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) não mudarem, “os
países em desenvolvimento serão expulsos nos próximos anos.”
Abrir os olhos e enxergar novos mercados é, segundo Chang, a alternativa dos
países em desenvolvimento para escapar da fúria capitalista dos ricos. Estados
Unidos e Europa seriam, portanto, os verdadeiros inimigos da globalização. Só a
história poderá comprovar o diagnóstico de Chang, que dá dicas de
sobrevivência. Levantar uma barreira contra as imposições dos ricos seria a
saída de países como o Brasil para furar o bloqueio no comércio internacional.
Animado com os novos ventos que sopram da América Latina e da Ásia, Chang
acredita que o Brasil poderá assumir um papel de liderança nesta nova ordem
econômica internacional, junto com a Índia e a China. Em entrevista a ISTOÉ,
ele disse também que o Brasil deveria estar investindo mais em marketing para
reforçar seus cofres. “É o maior exportador de café do mundo e, na Coréia do
Sul, o café de boa qualidade é associado ao produto colombiano.”
ISTOÉ – No livro Chutando a escada, o sr. defende que a maioria dos países
desenvolvidos só chegou lá adotando medidas protecionistas. Significa que a
saída para os países em desenvolvimento é voltar-se para dentro, e não brigar
por condições de igualdade nos organismos multilaterais?
Ha-Joon Chang – Não acho que os países em desenvolvimento devam olhar para
dentro como solução. Esses países necessitam crescer e, para isso, devem
aumentar suas exportações para importar tecnologias e insumos básicos. Os
países em desenvolvimento precisam participar dos mercados mundiais. É como um
filho: quando a criança nasce, ela não vai direto para a universidade. É
preciso prepará-la para chegar lá e ganhar dinheiro na vida adulta. O mesmo
acontece com os países em desenvolvimento. Eles precisam desenvolver suas
indústrias para enfrentar os países ricos.
ISTOÉ – Qual é a receita para os países em desenvolvimento não serem tragados
pelos países desenvolvidos?
Chang – As regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) precisam ser modificadas
o mais rápido possível. Só assim os países em desenvolvimento terão condições
de proteger suas indústrias e disputar um espaço na economia mundial de forma
menos desigual. Tentar evitar o desenvolvimento industrial nesses países é o
mesmo que impedir que eles se insiram na economia mundial. Precisamos de regras
diferentes na OMC e em outros acordos multilaterais. Não se pode esperar que
países como a Etiópia, que tem uma renda per capita de US$ 1,50 por dia, sejam
submetidos às mesmas regras aplicadas aos desenvolvidos. Portanto, existem
países em níveis diferentes de desenvolvimento e, por isso, precisam de
políticas diferentes e regras distintas.
ISTOÉ – Como fazer frente aos países desenvolvidos no mercado mundial se eles
têm dinheiro e poder para pressionar os pobres? Não é uma luta muito desigual?
Chang – Os países em desenvolvimento já começam a se perguntar por que
continuam participando de organismos internacionais multilaterais se as regras
não atendem seus interesses. No FMI, por exemplo, o princípio é simples: cada
US$ 1, um voto. Portanto, os Estados Unidos, que são o maior acionista do FMI,
acabam dominando a votação, o que acaba dando a eles poder de veto nas
decisões. É por isso que essas negociações internacionais vêm fracassando. Os
países em desenvolvimento não estão mais dispostos a acatar as imposições dos
países desenvolvidos. Não é à toa que fracassaram as rodadas da OMC em Seattle,
nos Estados Unidos, e em Cancún, no México.
ISTOÉ – Como se dá a forma de pressão dos países desenvolvidos sobre os países
em desenvolvimento nessas reuniões multilaterais?
Chang – Os países ricos tentam forçar um consenso, entre aspas. Esses países
usam de várias técnicas para chegar lá e convencerem os países em
desenvolvimento a votarem em bloco com eles. Vale todo tipo de pressão: de
ameaças de cortar ajuda financeira a represálias, passando por qualquer outro
tipo de suborno. Eles são bem claros ao afirmar que aqueles países em
desenvolvimento que venham a apoiar suas propostas ganharão mais ajuda
financeira. As negociações até agora eram assim, só que isso está começando a
mudar. Os países em desenvolvimento começaram a enxergar essa agenda dos países
ricos como algo negativo para eles. Há quatro anos, os países em
desenvolvimento começaram a se rebelar. Foi na reunião da OMC, em Seattle. Foi
quando eles perceberam que iriam pagar muito mais caro pelas patentes
farmacêuticas, o que provocaria a morte de muitos doentes vítimas da Aids.
ISTOÉ – Já é possível enxergar mudanças significativas no comércio
internacional depois que os países em desenvolvimento começaram a se rebelar?
Chang – Ainda não, mas já começamos a perceber uma mudança na dinâmica da
política internacional. Desde que foi criada a OMC, em 1995, ocorreram quatro
reuniões em nível ministerial. Foram nesses encontros que se tomaram as grandes
decisões. As reuniões para negociações mais minuciosas e detalhadas são
realizadas permanentemente por um escalão de embaixadores em Genebra, na Suíça.
As reuniões da OMC só não fracassaram de vez porque, no encontro de Doha, no
Catar, se acabou criando um clima amistoso de apoio aos Estados Unidos. Foi
logo depois da queda das torres gêmeas, em setembro de 2001. Os Estados Unidos
souberam tirar proveito da solidariedade internacional. O representante de
comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick, chegou a afirmar que os países
que não aceitassem o livre comércio apoiavam os terroristas.
ISTOÉ – Se as regras na OMC não mudarem, a situação ficará mais difícil para os
países em desenvolvimento?
Chang – Os americanos querem, por exemplo, acabar com o tratamento especial e
diferenciado que é dado a alguns países com renda per capita inferior a US$ 1
mil. Esses países têm direito de lançar mão de subsídios nas exportações. Só
que os Estados Unidos não querem mais manter a tolerância com esses países e
estão pressionando para que essas tarifas diferenciadas acabem em 2015. Se as
regras não mudarem, os países em desenvolvimento serão expulsos da OMC porque
terão de reduzir suas tarifas a níveis bastante semelhantes às dos países
desenvolvidos. Os países ricos usam essas medidas para nutrir suas próprias
indústrias e agora estão dizendo que os países em desenvolvimento não devem
fazer o mesmo. Os países desenvolvidos não querem que os pobres façam a mesma
coisa que eles fazem.
ISTOÉ – Nas negociações no âmbito da Alca, o governo brasileiro está
enfrentando os Estados Unidos. Os americanos estão dando de ombros e já
disseram que a Alca sai com ou sem o Brasil. Isso não seria um blefe dos EUA?
Chang – Não sou especialista nas relações entre América Latina e Estados
Unidos, mas arrisco dizer que o Brasil é o alvo principal dos Estados Unidos na
Alca. O governo brasileiro sabe disso e tem sido muito inteligente nas
negociações. Os Estados Unidos querem otimizar seu poder de alavancagem e de
persuasão preferencialmente através de acordos bilaterais e regionais. Essa é
uma prática recorrente dos Estados Unidos. Quanto mais regional for o acordo da
Alca, melhor para eles porque aumentam suas chances de exercer o poder sobre o
Brasil.
ISTOÉ – Qual receita o sr. indicaria para o Brasil, já que negociar com os
americanos é uma briga praticamente de cartas marcadas?
Chang – Os Estados Unidos não são o único mercado importador dos produtos
brasileiros. Existem outros mercados no mundo. A China, por exemplo, é uma
economia que, dentro de pouco tempo, será uma potência maior do que a
americana. A economia chinesa é pouco explorada pelo Brasil. Com tantas
economias em fase de crescimento rápido, o Brasil não deve ficar dependente
única e exclusivamente dos Estados Unidos para exportar seus produtos. A Índia
é outro país que também está crescendo muito rapidamente, não tanto como a
China. O Brasil deveria estar investindo em marketing de forma mais agressiva.
O País é o maior exportador mundial de café e, no entanto, na Coréia do Sul
todo mundo associa o café de boa qualidade ao colombiano e não ao brasileiro.
Esse é só um exemplo para comprovar que, se o Brasil investisse mais em
marketing, poderia vender mais. Os países em desenvolvimento, inclusive o
Brasil, não estão investindo suficientemente nas possibilidades de entrar em
outros mercados mais desenvolvidos. Os Estados Unidos não são a única
alternativa. O que está faltando é uma maior interação. Existe uma certa tendência
dos países em desenvolvimento em olhar só para os desenvolvidos e não para
outros mercados.
ISTOÉ – Na sua opinião, quais seriam os países que estão levando a globalização
ao colapso?
Chang – Além dos Estados Unidos, outros que estão contribuindo para o fracasso
da globalização são os países europeus. Até certo ponto, os países escandinavos
e a Holanda não defendem essa globalização unilateral. Há dez ou 15 anos,
países como Japão e Coréia do Sul usavam amplamente medidas protecionistas. Foi
por isso que conseguiram crescer. Só que agora esses países estão puxando a
escada e dizendo aos países em desenvolvimento que não devem usar subsídios
para proteger suas indústrias.
ISTOÉ – O Brasil acaba de renovar um novo acordo com o FMI. Isso prejudicaria o
País em relação a outros nas negociações multilaterais, sobretudo no âmbito da
Alca?
Chang – As pessoas que fazem as negociações financeiras não são as mesmas das
negociações de comércio exterior. São dois grupos diferentes. Isso significa
que uma fraqueza numa determinada negociação não vai influenciar negativamente
outra negociação. Só acho que o Brasil poderia ter agido diferente com o FMI.
Nas negociações internacionais, o Brasil tem se mostrado muito inteligente. O
chanceler Celso Amorim vem sendo extremamente hábil nas negociações da OMC.
É um homem inteligente, vence todas as discussões. Na minha opinião, o governo
brasileiro deveria ter adotado a mesma estratégia nas negociações com o FMI.
ISTOÉ – Como o sr. avalia esse novo acordo fechado com o FMI?
Chang – Não sou especialista em macroeconomia brasileira, mas acho que, se o
Brasil está com um superávit primário de mais de 5%, a economia não está
crescendo e o índice de desemprego é um dos mais altos dos últimos dez anos,
não é o caso de renovar o acordo com o FMI. Acordos com o FMI são recomendados
para economias que padecem de hiperinflação. O Brasil está vivendo outro tipo
de problema. Chegou a hora de mudar. Acho que a renovação desse acordo criou
uma certa decepção com o novo governo. Não quero ser excessivamente crítico
porque a situação do País é bastante difícil, mas o governo brasileiro deveria
ter usado de mais habilidade com o FMI. Não será com o acordo que o País
conseguirá baixar juros, aumentar investimentos e crescer.
ISTOÉ – O presidente Lula tem viajado muito e a impressão geral é de que tem
conseguido conquistar capital político mundo afora. O sr. concorda?
Chang – O Brasil está se tornando um líder mundial. Junto com a China e a
Índia, criou recentemente o G-22. O novo grupo foi criado durante a rodada da
OMC em Cancún, no México, e já se transformou numa bruta dor de cabeça para os
países ricos. Liderados pelo Brasil, estes países estão pedindo sacrifícios aos
ricos. A formação desse bloco fortaleceu bastante a imagem do Brasil e agregou
capital político para o presidente Lula no cenário internacional. É incrível a
credibilidade que o Brasil vem alcançando nessa esfera. O presidente Lula tem
demonstrado grande inteligência e integridade.
ISTOÉ – Países em desenvolvimento têm força para levantar uma barreira contra
os países desenvolvidos?
Chang – Se o Brasil souber jogar bem o jogo, terá condições de trazer mudanças
positivas no âmbito da OMC. Essas mudanças irão ajudar não só o Brasil como o
resto do mundo todo. O Brasil tem uma grande responsabilidade nesse sentido. Os
sinais de mudanças no comércio exterior começaram a surgir logo após a posse do
presidente Lula, que ocorreu simultaneamente à entrada da China na OMC. Desde
que o Brasil, a China e a Índia se uniram, os países desenvolvidos não
conseguem mais impor sua agenda de desenvolvimento.
ISTOÉ | ECONOMIA | 17/11/2003
Baralho na
manga
Avanço nas negociações com
a Europa dá ao Brasil um trunfo importante para renegociar os termos da Alca
Eduardo Hollanda - Colaborou:
Hélio Contreiras
Foi apenas um dia de reunião e negociações entre ministros do Mercosul e da
União Européia, na quarta-feira 12 em Bruxelas. No final, os dois blocos tinham
avançado de modo surpreendente no rumo de um poderoso acordo de livre comércio
que já tem até data para entrar em vigor: outubro de 2004, três meses antes do
prazo marcado para a estréia da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em
janeiro de 2005. O Programa de Trabalho de Bruxelas, apresentado com satisfação
pelo chanceler brasileiro Celso Amorim, em nome de seus pares do Mercosul, e
pelos comissários europeus para o Comércio, Pascal Lamy, e Assuntos Externos,
Chris Patten, no final do dia, surpreendeu porque, além de já falar em
negociações sobre “textos comuns” na próxima reunião marcada para dezembro,
determina que os temas agrícolas e seus polêmicos subsídios entrem em discussão
imediatamente, ao contrário da Alca, na qual a agricultura virou tabu. “É
importante que tenha sido reconhecida a prioridade para o tema agrícola”,
comemorou Celso Amorim. Mas quem se mostrou mais entusiasmado com um futuro
acordo Mercosul-UE foi Patten. “Ninguém deve subestimar a importância que
atribuímos à conclusão de um ambicioso acordo com o Mercosul”, afirmou
sorridente.
Para o Brasil e seus parceiros de continente, o sucesso de Bruxelas chegou na
melhor hora possível: uma semana antes do início de uma reunião de ministros
dos 34 países que, teoricamente, formarão a Alca. Com o cronograma de Bruxelas
na mão – que prevê para julho a conclusão do texto do acordo de livre comércio
–, a turma do Mercosul entrará na agenda em Miami, na quinta-feira 20, como um
jogador que chega na mesa de pôquer não com um ás escondido na manga, mas com
um baralho inteiro, pronto a dominar o jogo.
A reunião, que pela vontade dos americanos seria para colocar a Alca em
velocidade máxima, deverá ser marcada pela adoção de um novo – e mais pobre –
modelo para a área de livre comércio. Com a decisão do Brasil em não discutir
mais a questão dos bilionários subsídios que os EUA destinam a seus
agricultores, mandando a questão para a Organização Mundial do Comércio (OMC),
a Alca caminha para ser, na verdade, uma míni Alca. Sem a agricultura na pauta,
o Brasil e a turma do Mercosul não querem mais discutir temas polêmicos, como
compras governamentais, investimentos e propriedade intelectual. O modelo joga
areia nos planos americanos, que querem que a Alca represente caminho livre para
suas empresas dominarem as concorrências de governo, ao mesmo tempo em que não
admitem quebra de patentes de medicamentos – como o Brasil e a Europa defendem
no caso da Aids, por exemplo.
Com isso, a Alca pode ficar limitada ao acesso a mercados, pelo menos no caso
do Mercosul, que deixa para discutir na OMC agricultura, compras
governamentais, investimentos e patentes, por exemplo. Pode também virar uma
salada, com países menores e mais pobres, sem o desenvolvimento de Brasil e
Argentina, aceitando o que os americanos querem impor em troca de vender seus
poucos produtos. E mesmo limitada ao comércio de bens e mercadorias, a questão
não é simples, pois terá que haver uma série de acordos sobre cada um dos itens
em disputa. O que os EUA sabem é que não podem abrir mão do Brasil e da
Argentina. Sem os dois e os companheiros do Mercosul, em vez de Alca, os
americanos ficariam com uma espécie de Naftão, acrescentando muito pouca coisa
ao Nafta, bloco que formam com Canadá e México.
Modelos à parte, o fato é que o período mais crítico das relações
Brasil-Estados Unidos, em que parecia haver uma espécie de diálogo de surdos,
foi superado com as reuniões realizadas na semana passada na capital americana.
O embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, disse que poderá haver
uma evolução nas negociações da Alca em Miami. “Houve um diálogo sobre como
avançar nas negociações que resultaram em um conjunto de idéias que poderá
significar um avanço positivo e realmente concreto nas negociações”, disse o
diplomata. Seu chefe, o chanceler Celso Amorim, também se revelou mais animado
com as perspectivas para Miami, ao sair de uma reunião na quinta-feira 13 com o
presidente Lula e os ministros Luiz Furlan (Desenvolvimento), Roberto Rodrigues
(Agricultura), Antônio Palocci (Fazenda) e Guido Mantega (Planejamento). “O que
acertamos é algo que preserva os interesses brasileiros”, disse. “Fiquei
encorajado pelas conversas porque nosso elemento de flexibilidade foi
compreendido. A Alca pode ser ampla, desde que seja equilibrada não só para um
lado”, afirmou Amorim, que pela primeira vez considerou factível publicamente o
horizonte de janeiro de 2005 para entrada em operação da área de livre
comércio.
A semana começou com a Organização Mundial do Comércio (OMC) anunciando a
condenação dos EUA por causa de sobretaxas ao aço produzido pelos europeus,
brasileiros, russos e chineses, entre outros. As taxas, que a OMC decretou
serem ilegais, foram determinadas no ano passado pelo presidente George W. Bush
para beneficiar as siderúrgicas americanas obsoletas, mas grandes contribuintes
de sua campanha presidencial. Ajudando as empresas, Bush conseguiu ainda que
seu partido, o Republicano, ganhasse as eleições parlamentares. O problema da
estratégia de Bush é que as indústrias que dependem do aço estão reclamando do
preço 30% maior da matéria-prima. Se Bush desobedecer à OMC, fica sujeito a
retaliações econômicas por parte dos países interessados nas exportações, como
o Brasil. Nada menos que US$ 2,2 bilhões seriam rateados entre os autores da
ação, que poderão bloquear exportações americanas a seus países no valor
correspondente.
Conflito – No que toca à Alca, as taxas de Bush transformaram o setor
siderúrgico em outro ponto de conflito, especialmente com o Brasil. Em
contraste, Mercosul e Europa não têm problemas no setor, que é uma das áreas
incluídas no texto comum a ser fechado em dezembro. Outra área é a indústria
automobilística, que já tem pronto para ser passado a limpo em dezembro o
rascunho de um acordo automotivo. A própria decisão brasileira de colocar a
agricultura fora das discussões da Alca, saudada por muitos como “um
progresso”, tem outra leitura, segundo técnicos do governo. O Brasil não vai
questionar os subsídios americanos em relação ao preço adotado no mercado dos
EUA. Mas, em mercados onde produtos agrícolas do Mercosul e dos EUA concorrem,
será perfeitamente possível que os sul-americanos encontrem formas diretas e
indiretas de ajudar seus agricultores a baixar o preço de venda para o
Exterior.
Talvez por tudo isso o secretário de Comércio dos EUA, Robert Zoellick, tenha
tido reações tão curiosas como na quarta-feira, quando, depois de elogiar a
posição brasileira de deixar a agricultura de lado, pediu ajuda aos países
latino-americanos. “Formem uma coalização latina para o comércio e pressionem
os congressistas americanos no sentido de que aprovem a Alca”, afirmou, para
uma platéia surpresa. Ele deve saber do que está falando. No ano que vem,
George W. Bush terá que enfrentar uma eleição presidencial. Os parlamentares
também irão em busca de novo mandato e, normalmente, tendem a ser mais
protecionistas na defesa “dos empregos americanos para os americanos”. A Alca
pode emperrar mesmo é em casa.
Rota errada
Wall Street: Financistas reunidos em São Paulo dizem que o Brasil vai crescer
entre 3% e 3,5% no ano que vem
"Temos ótimos pilotos, mas na rota errada. Deveríamos estar voando para o
Norte, mas estamos indo para o Sul.” A analogia com a política externa
brasileira é de autoria do diretor da Goldman Sachs em Nova York, o brasileiro
Paulo Leme. Ele participou, com outras três cabeças coroadas do sistema
financeiro internacional – Paulo Vieira da Cunha, do HSBC, Sergio Werlang, do
Itaú, e Ibrahim Eris, da Linvest – de um seminário sobre o crescimento da
economia brasileira promovido pela Brazilian-American Chamber of Commerce. O
primeiro a se pronunciar, Vieira da Cunha, diretor do HSBC em Nova York, foi
sincero: “Não é comum para mim, mas vou falar sobre o lado real da economia.”
Confessadamente pouco afeitos ao tema, os financistas terminaram o encontro,
realizado num hotel de São Paulo, com um consenso: o PIB brasileiro vai avançar
entre 3% e 3,5% em 2004 – em grande parte por conta do surto de exportações que
já fez a balança comercial brasileira superar os US$ 20 bilhões este ano.
Para um horizonte um pouco mais largo, os homens de Wall Street têm sérias
dúvidas sobre a nossa capacidade de promover o desenvolvimento. “Essa retomada
não tem nada de especial”, disse Cunha, para quem a baixa eficiência do capital
investido no Brasil segura o ritmo de expansão da economia. Werlang falou que o
Brasil precisa elevar a qualidade da educação se quiser entrar num ritmo forte
de crescimento. Eris, ex-presidente do Banco Central, vituperou contra as taxas
de juros, mas não se arriscou a grandes previsões. “Eu não tenho acertado muito
ultimamente...”
ÉPOCA | ECONOMIA | 17/11/2003
O gigante
cercado
Sobretaxas dos EUA que
prejudicam o aço brasileiro devem ser suspensas, ordena a OMC
ANA MAGDALENA HORTA
Brasil e outros 21 países estão cantando vitória sobre a maior potência do
mundo. Na semana passada, a Organização Mundial do Comércio determinou aos
Estados Unidos a suspensão de sobretaxas de até 30% sobre importações de aço, cobradas
desde 2002. Para a OMC, estava sendo violado o princípio básico que os
americanos mais prezam no discurso: o livre-comércio. No caso brasileiro, as
sobretaxas causam um prejuízo anual de US$ 150 milhões, segundo números do
Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS).
Sem apelação possível, o governo de George W Bush agora tem poucas escolhas. Se
não acatar a decisão, deverá sofrer a mais pesada retaliação comercial de que
se tem notícia na história da OMC. Além disso, prejudicará sua imagem de
defensor da abertura comercial justo no momento em que tenta convencer 33
parceiros no continente a abrir seu mercado dentro da Área de Livre Comércio
para as Américas (Alca). Até agora, porém, a Casa Branca não demonstrou a menor
inclinação para acatar ordens. O porta-voz Scott McLellan sustentou que as
taxas são "integralmente coerentes com as leis comerciais" e que seu
governo discorda do relatório. Na quinta-feira, Bush avisou que vai analisar
primeiro a situação do setor siderúrgico americano para só depois tomar uma
decisão.
Os 15 países da União Européia têm pressa e já anunciaram sanções de mais de
US$ 2 bilhões para produtos de origem americana caso os EUA não suspendam logo
as sobretaxas. Os outros vencedores no processo - China, Coréia do Sul, Japão,
Noruega, Suíça e Nova Zelândia - ainda não definiram punições. Já o governo
brasileiro, em plena negociação da Alca com os americanos (a próxima reunião
acontece em Miami, na semana que vem), prefere apostar num desfecho sem traumas
e ainda não avaliou que atitude vai tomar se os EUA não respeitarem a decisão
da OMC. "O que desejamos é que aconteça a retirada imediata das medidas de
salvaguarda", disse a ÉPOCA o chefe da coordenação-geral de Contenciosos
do Itamaraty, Roberto Carvalho de Azevedo.
Para Bush, há mais em jogo do que o saldo da balança comercial. As salvaguardas
contam no mapa da reeleição e garantem votos em Estados como Pensilvânia,
Virgínia ou Ohio. Quando aplicou as sobretaxas em março de 2002, Bush prometeu
ao setor siderúrgico três anos de mercado interno praticamente fechado para que
ele pudesse se reestruturar e garantir empregos para os atuais 150 mil
trabalhadores. Desde o início dos anos 90, mais de 30 indústrias foram à lona
por causa da mortal combinação entre preços baixos no mercado mundial e pouca
competitividade ante as importações. O poderoso lobby siderúrgico defende a
manutenção das sobretaxas por ainda 18 meses, pelo menos. "Grande parte da
indústria americana não é competitiva. É um mercado ainda muito pulverizado",
explica Beatriz Fortunato, analista de siderurgia do banco Opportunity.
No aço, os brasileiros são concorrentes de primeira linha. Neste ano, as
exportações devem alcançar o recorde de US$ 4 bilhões, cerca de 35% acima do
ano passado. Mais de 50% desse volume vão para países que comporão a Alca, os
EUA em primeiro lugar. Nos últimos anos, a indústria investiu US$ 12 bilhões
para modernizar o parque e alcançar um dos melhores desempenhos mundiais.
Consegue manter o custo das placas de aço produzidas entre US$ 135 e US$ 171 a
tonelada. Nos EUA, a tonelada mais barata sai por US$ 179, e há quem a venda
por até US$ 248. "O Brasil está conseguindo aumentar suas vendas externas
apesar de todas as barreiras", diz Marco Polo de Mello Lopes,
vice-presidente-executivo do IBS. "Mas o setor poderia ter resultados
muito mais significativos sem esses entraves." Ele exemplifica: no caso de
laminados a frio, antes das sobretaxas o Brasil exportava para os EUA 195 mil
toneladas. Em 2002, esse volume caiu para 15 mil. Em 2003, até setembro, não
chegou a 700 toneladas.
Os europeus incluíram na lista de produtos americanos visados itens como as
motos Harley-Davidson, tecidos e frutas cítricas produzidas sobretudo em
Estados onde Bush tem dificuldades eleitorais. Para o presidente americano, uma
solução seria adiar ao máximo um desfecho para o caso, provocando, por exemplo,
uma batalha jurídica sem fim sobre o valor das retaliações.
CARTA CAPITAL | A SEMANA | 17/11/2003
NA OMC, A
FORÇA FAZ O DIREITO
Os Estados Unidos só
respeitam o poder de quem lhes pode causar reais prejuízos
Em 10 de novembro, a organização
mundial do Comércio (OMC) reafirmou a decisão de julho: julgou os EUA culpados
de violar as normas comerciais internacionais ao impor tarifas de salvaguarda
de até 30% à importação de produtos siderúrgicos de 22 países, inclusive União
Européia, China, Japão, Coréia do Sul e Brasil, enquanto isentava importações
do Canadá, do México, de Israel e da Jordânia.
Um imperial projeto do Senado quer até formar uma comissão de juízes
norte-americanos para julgar a OMC. O governo Bush, que não teve como provar
que sua indústria foi afetada por um súbito fluxo de importações baratas, nem
como justificar a discriminação entre parceiros comerciais, esboçou várias
possíveis reações. Nenhuma delas no sentido de acatar a decisão.
Falou em trocar as tarifas de salvaguarda por taxas antidumping ainda mais
proibitivas – o que implicaria reiniciar a disputa – ou criar benefícios ou
exceções apenas para a UE, o único parceiro com reais condições de retaliar – e
que preparou sobretaxas de 8% sobre US$ 2,2 bilhões em importações de suco de
laranja, frutas, papel e motocicletas norte-americanas.
Se houver alguma concessão, será à força da Europa e sua capacidade de
prejudicar interesses caros a George W. Bush – inclusive o de seu irmão Jeb,
governador da Flórida e de suas laranjas. É mais uma evidência a ser anotada –
e lembrada nas próximas reuniões da Alca e da OMC – de que Washington só
respeita a força e pouco se importa em viabilizar regras internacionais
estáveis, se não puder usá-las em seu próprio interesse.
CARTA CAPITAL | A SEMANA | 17/11/2003
SANGUE NOVO
NA LONGA DISTÂNCIA
A intenção da MCI de se
desfazer do controle da Embratel é bem recebida pelos investidores
O já intrincado setor de
telecomunicações ganhará novos contornos assim que for definido quem será o
novo dono da Embratel. Na quarta-feira 12, a norte-americana MCI, controladora
da empresa, anunciou a intenção de se desfazer do negócio. No dia seguinte, a
reação na Bolsa de Valores de São Paulo foi imediata. As ações ordinárias da
Embratel dispararam 39% na quinta-feira 13, dia em que o Índice Bovespa bateu
recorde histórico, com 19.115 pontos.
Ao interpretar esses números, analistas de investimento explicam que a alta
deveu-se à perspectiva de um novo controlador injetar mais dinheiro na empresa.
Além disso, há a possibilidade de os atuais acionistas receberem um prêmio na
operação de troca de controle.
Tudo dependerá, é claro, de quem assumir a empresa. Quando os analistas falam
em “novo controlador”, pensam especialmente em Carlos Helú Slim, dono da maior
fortuna da América Latina e do controle da Telmex. No Brasil, Slim está à
frente da Claro, operadora de telefonia móvel.
No mês passado, o empresário esteve no País, ocasião em que se encontrou com
executivos de grandes companhias e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A assessoria de imprensa da Claro diz não ter nada a declarar sobre o assunto.
A Telecom Italia é tida como outra candidata a levar a Embratel, pelo menos
enquanto estiver fora do controle societário da Brasil Telecom.
As ações dispararam, independentemente de se saber o comprador, só pelo fato de
a MCI sair das rédeas, já que essa corporação ainda tenta se refazer das perdas
causadas pelo escândalo contábil no qual esteve envolvida no fim de 2001, que a
levou à bancarrota. O desfecho da operação de venda da Embratel ainda depende
da autorização do juiz da massa falida da corporação norte-americana.
A venda da empresa brasileira seria parte dos planos de reestruturação da
empresa, que, segundo Dan Crawford, presidente do conselho de administração da
Embratel Participações, são de se dedicar ao mercado norte-americano.
De acordo com o presidente da Embratel, Jorge Rodríguez, a companhia mantém o
interesse pela operadora de telefonia local Vésper. Essa aquisição agregaria
valor à empresa, tornando-a mais charmosa para atrair compradores.
|
MJ-CONSUMIDOR |
O ESTADO DE S. PAULO | NACIONAL | 17/11/2003
EUA têm
operação de guerra para proteger soja
Em laboratório de
segurança máxima, o esforço contra a doença que já atingiu o Brasil
ELIZABETH WILLIAMSON
The Washington Post
Cientistas americanos estão trabalhando num projeto de US$ 500 milhões que
pretende conter uma ameaça agrícola capaz de devastar as plantações de soja do
país. A ferrugem da soja, fungo transmitido facilmente pelo vento ou por
eventuais agroterroristas, já destruiu milhares de hectares na Ásia, na África
e na América do Sul. No Brasil, plantações foram atingidas em 2001.
Biólogos estimam que se a doença chegar aos EUA o prejuízo aos agricultores
seria de mais de US$ 7 bilhões por ano. “É a nossa maior ameaça no futuro
próximo”, diz Douglas Luster, pesquisador chefe da Unidade de Pesquisas de
Doenças do Departamento de Agricultura em Fort Detrick, Maryland. “Se isso se
espalhar, será difícil de erradicar.
Em Fort Detrick, cientistas do governo trabalham para detectar e evitar doenças
que afetam lavouras nos EUA e em outros países. O projeto da ferrugem é o
centro de uma rede de pesquisas que se estende pelos EUA e envolve centros na
China, Tailândia, Zimbábue, Brasil e Paraguai. “Nos EUA, Fort Detrick é o único
lugar onde as pesquisas com a ferrugem da soja podem ser realizadas porque aqui
o fungo não ocorre naturalmente e está sob contenção”, diz a patologista
especializada em plantas da Universidade de Illinois e pesquisadora do Departamento
de Agricultura, Glen Hartman.
Guerra Fria – O local das pesquisas atuais com a soja foi palco de uma série de
pesquisas americanas com fins militares durante boa parte da Guerra Fria. Foi
em Fort Detrick que o Exército dos EUA testou armas biológicas e químicas como
o agente laranja, desfolhante usado na Guerra do Vietnã. Hoje, diversas
organizações de pesquisas médicas e biológicas trabalham nas mesmas estufas com
um objetivo oposto de seus antecessores: proteger o fornecimento global de
alimentos contra ameaças – algumas delas similares às cultivadas pelo Exército
americano no passado.
O centro de pesquisas está no nível 3 de biossegurança (o mais alto).
Cientistas têm de passar por duas portas e vestir roupas especiais. A estufa é
protegida por duas folhas de vidro e por uma um sistema de pressurização que
mantém agentes contaminantes confinados.
As precauções se justificam: muitas das doenças e pragas que afetam lavouras
são transmitidas pelo vento ou vêm “de carona” em turistas.
A ferrugem da soja é provocada por minúsculos esporos que pousam nas folhas
criando manchas vermelho-amarronzadas que retiram da planta os nutrientes que
ela precisa para produzir os grãos. Em duas semanas, as manchas aparecem,
liberando esporos que se espalham para outras plantas.
A doença foi registrada pela primeira vez em 1902, no Japão. Em1998, atingiu o
Zimbábue, grande produtor mundial de soja. Em uma das regiões do país, a doença
se espalhava tão rapidamente que um grupo de produtores que havia deixado suas
propriedades para uma viagem pesca encontrou as lavouras devastadas quando
retornaram, dias depois. Reid Frederick,um dos pesquisadores de Fort Detrick,
estava no Zimbábue nessa época. Os esporos formavam uma nuvem tão densa no ar
“que parecia uma tempestade de areia”, lembra Frederick. “Essa é mais agressiva
doença que os fazendeiros podem conhecer.”
Em 2001, a ferrugem devastou lavouras não apenas no Brasil, mas também no
Paraguai. Dez cientistas do Departamento de Agricultura dos EUA trabalham em
Fort Detrick – financiados pelo governo e por produtores – em colaboração com
colegas de outros países que coletam esporos e fazem teste de campo com novas
cepas de plantas desenvolvidas por Frederick.
O ESTADO DE S. PAULO | ECONOMIA | 17/11/2003
Chile e
Canadá querem mudanças na Alca
Oposição à proposta do
Brasil e dos EUA é o 1.º curto-circuito nas negociações de Miami
PAULO SOTERO
Enviado especial
MIAMI – O Canadá e o Chile propuseram ontem alterações fundamentais da minuta
de declaração que o Brasil e os Estados Unidos prepararam para a mapear a fase
final das negociações do acordo de criação da Área de Livre Comércio das
Américas (Alca) e provocaram o primeiro curto-circuito nos entendimentos preparatórios
à reunião ministerial do grupo, que começa quinta-feira em Miami, em meio a
extraordinárias medidas de segurança.
A expectativa da chegada à cidade de aproximadamente 20 mil manifestantes
contrários ao acordo e a presença de cerca de 2 mil funcionários de governos e
empresários que participam de vários eventos paralelos levaram as autoridades a
ativar ontem à noite um perímetro de segurança que isolará uma área de seis
grandes quarteirões no centro de Miami durante toda a semana.
Num documento de quatro páginas, o Canadá e o Chile, que já têm acordos de
livre comércio com os Estados Unidos e com vários outros países do hemisfério,
expuseram as diferenças que persistem na negociação do tratado ao defendere uma
Alca baseada num “acordo integral, equilibrado e multilateral”.
Ecoando posição já manifestada publicamente pelo representante comercial
americano, Robert Zoellick, mas que não consta da proposta de declaração
ministerial que os Estados Unidos acertaram com o Brasil, o texto apresentado
pelos chilenos e os canadenses afirma também que “os benefícios do acordo serão
condicionados ao nível de compromissos e disciplinas assumidos” pelos países.
Essa posição, que é compartilhada também pelo México, reflete o fato que esses
países já pagaram o preço do acesso ao mercado dos Estados Unidos e não aceitam
que competidores, como o Brasil, ganhem esse acesso a um custo mais baixo.
Mas a questão do contingenciamento dos benefícios é um ponto inegociável para o
Brasil. A proposta de texto elaborada pelo Brasil e pelos Estados Unidos deixa
a questão vaga, mencionando apenas a busca de um “equilíbrio apropriado de
direitos e obrigações que permita aos países colherem os benefícios de seus
receptivos compromissos”.
Na semana passada, o chanceler Celso Amorim disse que a insistência num
contingenciamento do acesso aos benefícios ao nível de obrigações levaria a
um“impasse” nas negociações do acordo de liberalização do comércio hemisférico.
A menção a uma Alca “multilateral” na proposta do Canadá e do Chile bate de
frente com a possibilidade de os países poderem “celebrar negociações
plurilaterais dentro da Alca para definir as obrigações em c a d a área
respectiv a ” , q u e consta do quarto parágrafo da proposta de declaração que
o Brasil e os Estados Unidos negociaram com base no tênue compromisso alcançado
por Amorim e Zoellick para evitar que o encontro de Miami se transforme numa
repetição do fiasco da reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio
(OMC), em Cancún, em setembro.
A proposta canadense-chilena levou à suspensão da sessão plenária do Comitê de
Negociações de Comércio da Alca apenas meia hora depois de seu início e à
convocação de uma reunião de emergência pelos co-presidente brasileiro nas
negociações, o brasileiro Adhemar Bahadian e o americano Peter Allgeier.
Primeiro encontro sobre comércio em nível ministerial realizado nos Estados
Unidos desde a desastrosa reunião ministerial da OMC, em Seattle, em dezembro
de 1999, a reunião dos 34 ministros da Alca ameaça converter- se num grande
exercício de salvação de aparências para esconder as profundas divergências que
existem entre os países – principalmente os Estados Unidos e os países que já
tem ou estão negociando acordo de livre comércio, de um lado, e o Brasil e o
Mercosul, de outro. “
A principal preocupação aqui é evitar a repetição do fracasso de Cancún”, disse
ao Estado Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas. “Mas os
sinais até agora não são promissores, pois a muito desacordo em questões
fundamentais sobre a estrutura da Alca”. Essas divergências não dizem respeito
apenas à visões ou graus de ambição diferentes que países ou grupos de países
têm em relação à Alca, mas também aos detalhes do funcionamento do acordo.
A proposta do Canadá e do Chile deixam isso claro, por exemplo, quando
comparada com a que o Mercosul apresentou ontem detalhando as várias partes dos
benefícios e obrigações que seriam contemplados pela Alca.
Canadenses e chilenos querem, por exemplo, que o acordo “amplie o acesso aos mercados
de compras governamentais”. No capítulo de investimentos, defendem o
estabelecimento de “um marco legal justo e transparente” para o hemisfério e
advogam que se utilize “o enfoque de lista negativa” na identificação dos
setores que cada países ofereceria abrir a investimentos.
O Brasil já deixou claro que não fará oferta de abertura em compras
governamentais, não se submeterá a um regime hemisférico regulador de
investimentos e se dispõe a fazer ofertas de acesso a mercado apenas com base
em lista negativa, na qual são liberalizados apenas os setores especificamente
mencionados, ficando os demais fechados.
VALOR ECONÔMICO | LEGISLAÇÃO&TRIBUTOS | 17/11/2003
As indenizações por violação à propriedade intelectual
Por
Marcelo Goyanes
A necessidade ou não de prova do prejuízo para condenar o infrator por perdas e
danos ainda gera controvérsias na área de propriedade intelectual. Na doutrina
especializada, prevalece entendimento de que a prova da violação acarreta o
dever de indenizar por parte do ofensor, independentemente da comprovação
específica e material dos prejuízos causados ao ofendido. Mas há resistência de
corrente que não admite a prova implícita de danos. Os tribunais nacionais
ainda vacilam em adotar uma ou outra posição.
A lei civil brasileira instituiu que a comprovação do dano é essencial para
configurar a responsabilidade civil. Comprovado o dano, passa-se a perquirir
critérios para fixar a reparação, a fim de aliviar a vítima.
O artigo 944 do novo Código Civil prevê reparação integral à vítima dos
prejuízos que sofreu, abrangendo o desfalque sofrido e o reflexo futuro no
patrimônio da vítima, e ainda as ofensas morais. A necessidade de provas
específicas para reconhecer o direito à reparação refere-se, na verdade, aos
elementos suficientes à comprovação da existência de danos. O melhor
entendimento é o de que a comprovação do dano se confunde com a comprovação da
pirataria.
Na Lei da Propriedade Industrial, o fato material da violação do direito à
exploração exclusiva do bem intelectual e o ato de concorrência desleal - que
gera a indução do consumidor em erro ou confusão - são reprimidos como crimes.
O artigo 207 da lei autoriza ajuizar ações para reparar os males causados pelo
criminoso industrial e o artigo 208 diz que "a indenização será
determinada pelos benefícios que o prejudicado teria auferido se a violação não
tivesse ocorrido."
A legislação brasileira segue os princípios internacionais, mas a falta de
combate à pirataria é abrasiva.
O artigo 209 da Lei de Propriedade Industrial autoriza, em recente
interpretação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a reparação material se
houver violação de direito da propriedade industrial, o que restringe a prova
do dano à configuração da falsificação. O artigo 210 da lei estabelece
critérios abrangentes para fixar a indenização por lucros cessantes, tornando
claro que a fabricação e comercialização de produtos contrafeitos trazem
prejuízos que devem ser reparados. A "mens legis" desses dispositivos
mostra, implicitamente, que não há casos em que a contrafação não gere danos.
A Lei de Direitos Autorais reafirma o que foi exposto. O parágrafo único do
artigo 103 diz que "não se conhecendo o número de exemplares que
constituem a edição fraudulenta, pagará o transgressor o valor de três mil
exemplares, além dos apreendidos." Logo, mesmo sem prova para apurar o
valor do prejuízo, o titular será indenizado, pelo fato de o dano existir.
O argumento do enriquecimento sem causa (artigo 884 do novo Código Civil)
também pode ser usado na defesa do dever de indenizar. Para enquadrar uma
conduta nessa teoria não é necessária prova do dano, mas apenas enriquecimento
às custas da esfera jurídica alheia sem causa que o justifique. Enunciados
aprovados pelo Conselho da Justiça Federal sobre o novo Código Civil confirmam
esse conceito.
Analisando por outro foco, a prova dos danos causados pela pirataria pode ser
difícil e custosa. Não se pode exigir que um criminoso industrial tenha livros
contábeis em ordem. Ademais, mesmo sem queda no lucro, em razão de publicidade
ostensiva - que pode causar até aumento das vendas para o titular -, o dano
existe, pois ele poderia estar lucrando mais, sem gastos para anular a
falsificação.
O entendimento do STJ sobre esse assunto já foi de que os danos materiais só
seriam devidos com comprovação efetiva. Houve evolução desse posicionamento,
com a promulgação da Lei de Propriedade Industrial e com o grande volume de
ações semelhantes e recursos admitidos no STJ.
A grande confirmação de que o Judiciário tem dado progressiva atenção à
proteção dos direitos intelectuais foi o recurso da Louis Vuitton Distribuidora
contra a Caliente Comércio de Modas. A ministra Nancy Andrighi, do STJ,
reconheceu a necessidade de uma "evolução interpretativa, considerando o
quadro social vigente". Em seu voto - seguido por unanimidade - afirmou
que a reparação material deve ser concedida "se houver ato de violação de
direito de propriedade industrial, o que, no presente processo, constitui fato
devidamente comprovado com a apreensão de bolsas falsificadas".
A empresa foi condenada por danos materiais (artigo 209 da Lei de Propriedade
Industrial) e morais, pela vulgarização do produto e depreciação da reputação
comercial do titular da marca. A decisão do STJ deve ser seguida pelos
tribunais inferiores, o que representará grande avanço no combate à pirataria.
Apesar da evolução interpretativa, ainda há distorções que afastam o Brasil do
modelo de proteção às criações intelectuais. Segundo a Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) da Pirataria, em 2002, a indústria de software deixou de
faturar US$ 1,36 bilhão e o fisco perdeu US$ 324 milhões com as falsificações.
Um terço dos cigarros consumidos no país é de marcas contrafeitas e, em 2003,
as perdas tributárias foram estimadas em R$ 1,5 bilhão.
O paradoxo reflete o que parece ser a tendência histórica brasileira na
aplicação da lei. A legislação segue os princípios internacionais, mas a falta
de combate à pirataria é abrasiva. A questão da reparação dos danos é central.
O infrator deve ser condenado ao ressarcimento de danos, com a simples prova de
que violou a propriedade intelectual.
Marcelo Goyanes é advogado associado do Veirano Advogados e mestre em direito
da propriedade intelectual pela George Washington University
VALOR ECONÔMICO | AGRONEGÓCIOS | 17/11/2003
50 mil assinam TAC
O Ministério da Agricultura informou que, pelo menos, 50.400 produtores de todo país assinaram o termo de compromisso, responsabilidade e ajustamento de conduta (TAC) declarando que vão plantar soja transgênica na safra 2003/04. Baseado em dados da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag), o Ministério informou que no Rio Grande do Sul, há cerca de 50 mil documentos assinados. O TAC é uma exigência da Medida Provisória 131, que liberou o plantio do grão modificado na safra 2003/04.
VEJA | ECONOMIA | 17/11/2003
A soja
ideológica
Deputado petista
pró-transgênicos leva a melhor sobre a ministra natureba
O deputado gaúcho Paulo Pimenta é
um petista de tipo raro – é o único, pelo menos até agora, a defender
abertamente os transgênicos. "Em matéria de biotecnologia, a questão não é
ser contra ou a favor. É criar regras para a pesquisa, pois o país não pode
viver sem pesquisa", diz. Na semana passada, o deputado fez valer sua
convicção. Como relator da medida provisória sobre a soja transgênica, elaborou
– e aprovou – um texto em que autoriza o registro, para fins de pesquisa, das
42 variedades de soja transgênica ora em estudo no país. Proposta pelo governo,
a medida provisória, além de autorizar a pesquisa, também libera o plantio de
soja transgênica neste ano e a comercialização da soja colhida em safras
anteriores. Para chegar ao texto final, Paulo Pimenta analisou 109 emendas, mas
aceitou, no todo ou em parte, apenas dezessete. Agora, a medida precisa ser
aprovada pelo Senado para começar a valer.
A medida provisória, nos termos em que foi aprovada pela Câmara, é um avanço, mas,
como a discussão sobre o assunto começou atrasada, criou-se uma situação
esquizóide: está tudo liberado, mas só até a próxima colheita, em 2004. A
votação representa nova derrota para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva,
que é contra todo e qualquer transgênico e ficou especialmente irritada com a
autorização para a pesquisa. Ela supõe que se trata de um passo para a
legalização definitiva da soja transgênica. Pode até ser que venha a acontecer,
mas isso não retira o caráter medieval, pré-iluminista, de sua posição
contrária à pesquisa científica. Enquanto o Congresso debate medida provisória,
e ainda debaterá um projeto de lei definitivo sobre o assunto e a instalação de
uma CPI para descobrir como a semente transgênica chegou ao país, a realidade
já está muito mais longe. No Rio Grande do Sul, em 90% da área plantada a soja
já é transgênica (veja tabela abaixo).
Além da ministra Marina Silva, a multinacional Monsanto, dona da patente da
semente transgênica, também não gostou do resultado final. Para a empresa,
seria importante incluir no grão um gene, batizado de terminator, que não deixa
que a soja nascida de uma semente transgênica produza novas sementes igualmente
transgênicas. Com isso, a Monsanto poderia impedir que a plantação de hoje produzisse
sementes transgênicas para a plantação de amanhã. A medida provisória, no
entanto, proíbe a empresa de inserir o terminator nas sementes. Outro artigo
define que a cobrança de royalties pela dona da patente só pode ser feita sobre
a semente adquirida pelo agricultor, e não sobre toda sua produção, como queria
a Monsanto.
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MJ-ELABORAÇÃO LEGISLATIVA |
O ESTADO DE S. PAULO | FÓRUM DE LEITORES | 17/11/2003
O menor e o crime
Agora que, uma vez mais, o País se queda estarrecido por um crime nefando cometido por um menor e pela certeza de sua impunibilidade, garantida pelo irresponsável Estatuto da Criança e do Adolescente, é hora de lembrarmos as principais responsáveis pela elaboração e aprovação de tal aberração: a sra. Marta Suplicy Favre, atual prefeita de São Paulo, e a ex-deputada federal Rita Camata (ES). A sociedade brasileira, indefesa, amedrontada e enlutada, sugere às duas senhoras que, daqui a três anos, acolham em seu lar a besta- fera “demenor”, tão protegida pelo estatuto nascido da sua insensatez e do maldito estelionato do “politicamente correto”. Alexandre de Macedo Marques (ammarques@uol. com.br), São Paulo
O ESTADO DE S. PAULO | FÓRUM DE DEBATES | 17/11/2003
Sem cabimento
O caso da morte dos adolescentes
Liana e Felipe trouxe à tona a discussão sobre a redução da idade de
responsabilidade penal de 18 para 16 anos (há quem defenda a redução para os 12
anos!). Essa idéia não tem cabimento. Podemos perceber desde logo que, para a
jovem Liana, ter 16 anos significou a falta de consciência quando mentiu aos
pais e foi viajar com o namorado, considerada atitude normal para adolescente.
Já para Champinha, o adolescente acusado de ter cometido o crime, 16 anos é
idade suficiente para ter consciência de seus atos.
O criticado ECA prevê sim a punição de adolescentes e não os protege com a
impunidade. Infelizmente a instituição responsável pela internação e reinserção
posterior dos jovens infratores não tem cumprido seu papel, mas o que diremos
então das penitenciárias que “abrigam” os adultos criminosos? A lei é severa o
suficiente, é necessário apenas que seja aplicada e que as instituições cumpram
seu papel. JoanaZylbersztajn (jozylbers@uol.com.br)
Leis mais adequadas
A ocorrência de mais um crime bárbaro, como sempre, provoca manifestações de
repúdio à elasticidade da nossa legislação sem que as autoridades competentes
movam um dedo sequer para modificá- la. As leis são criadas para coibir o crime
e punir, segundo a gravidade do delito, os que o praticam. A repetição de atos
criminosos específicos leva a sociedade a criar leis, também específicas, para
a sua proteção. É óbvio que o ato delituoso antecede e gera a legislação
punitiva. Cabe aos legisladores, que têm a obrigação de atender ao clamor da
sociedade contra delitos já acontecidos, analisá-los e formular as leis
adequadas.Épreciso dar um basta àqueles que num complexo de culpa “freudiano”
consideram a sociedade a única responsável pela criminalidade crescente.
Arnaldo Amado Ferreira Filho (aamadoff @terra.com.br)
Vítimas da sociedade?
Precisamos, definitivamente, parar de afirmar que os menores assassinos são
vítimas da sociedade. Isso é pura falácia. Senhores parlamentares, não sejam
omissos, coloquem empauta de votação os grandes projetos engavetados e provem
para a sociedade que ela está errada em exigir mudança quanto à maioridade
penal. Discuta com ela o assunto. O que um ser humano de mentemediana entende,
senhores, é a diferença entre agir comdolo e agir com culpa. O que deve ser
analisado não é a capacidade financeira dos criminosos (se for pobre, é vítima
da sociedade). Se assim fosse, pobres do Fome Zero estariam autorizados a fazer
guerra. José Rosa, São Paulo
Sal da terra
Ad.Aloísio Lorscheider, que defendeu a redução da maioridade penal, parece que
sem levar em consideração a humilhante injustiça social em que vivemos e apenas
para oficializar barbáries praticadas contra nossas crianças e jovens,
principalmente nas periferias dos grandes centros, peço que releia Mateus
(5,13-14). Concordo com ele que é mais fácil fazer isso, tirar essas pessoas
“indesejadas” de nossa vista. Difícil é ser o sal da terra, evitar que nossas
crianças cheguem a esse estágio humilhante, missão que Cristo deixou para
todos, mas que infelizmente só alguns têm coragem de assumir. Reinaldo dos
Santos Lima, São Paulo
Alterar o quê?
O argumento “pode votar, pode ir para a cadeia” é o mais frágil de todos, para
justificar o rebaixamento da idade da responsabilidade penal, pois, se fosse
válido, deveriam ser penalizados os menores de 9, 10 anos, pois desde cedo
sabem distinguir entre o certo e o errado, sobretudoematos violentos.Como a
prisão não está resolvendo o problema, a solução está em alterar-se o ECA,
eliminando-se os prazos das medidas aplicáveis. Alyrio Cavallieri,
desembargador
Cláusula pétrea
É lamentável a discussão que alguns juristas e deputados iniciaram afirmando
não poder reduzir a maioridade penal pois esta seria cláusula pétrea
constitucional. Não é porque a previsão não está no rol do artigo 5.º da
Constituição. E, mesmo que estivesse e assim fosse considerada cláusula pétrea,
nem por isso seria imutável. Existe a figura jurídica da emenda constitucional
condicionada a um referendo popular. Com este referendo o poder constituinte
originário seria legitimamente chamado para decidir a questão. De modo que a
alegação de precisar de nova Constituição para mudar uma possível cláusula
pétrea é virtude de ignorância ou má-fé. Heitor Fabiano Menegatti de
Vasconcelos, advogado
Dureza
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,
está misturando as bolas ao defender a permanência dos 18 anos paramaioridade
penal. Ninguémemsã consciência poderia imaginar um menor, mesmo que assassino,
preso com criminosos maiores de idade.Oque a população brasileira pede é lei
mais dura. Nossos deputados deveriam pura e simplesmente eliminar o limite de
idade e deixar somente a penalidade máxima. E caberia ao governo adequar prisões
de acordo com a idade do criminoso. Antonio Favano Neto (a.favano.nico@uol.
com.br)
O ESTADO DE S. PAULO | NACIONAL | 17/11/2003
Crise no
Congresso ‘engole’ reforma
Impasse nas votações tem
travado discussão sobre uma mudança ampla no ministério
VERA ROSA e CHRISTIANE SAMARCO
BRASÍLIA – A reforma ministerial foi praticamente “engolida” pela crise que
atazana o governo no Congresso. Em jantar reservado com deputados e dirigentes
petistas, que começou quintafeira e varou a madrugada, o ministro-chefe da Casa
Civil, José Dirceu, lamentou o ambiente hostil entre a Câmara e o Senado.
Dirceu gostaria que a mudança na Esplanada fosse ampla, não apenas para
acomodar o PMDB, mas para reduzir o número de ministérios e secretarias, que
hoje são 35. Mas a operação “salva-reformas”, para tentar superar o impasse na
votação das propostas tributária e da Previdência, tem dominado a cena
política.
Para agravar a situação, Dirceu não fala com o líder do governo no Senado, Aloizio
Mercadante (PT-SP).Ogoverno nega que haja divergências na equipe, mas os dois
vivem às turras desde a eleição e, de uns tempos para cá, tudo piorou. Vira-
e-mexe, Dirceu recorre ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Nessas
ocasiões é obrigado a ouvir, de novo, a insatisfação por causa da demora do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva em definir o naco de poder peemedebista.
Na frente interna, outra rixa permanente tem atrapalhado o governo: entre
Mercadante e o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP). O senador vive
chamando o deputado para o ringue, dando estocadas no funcionamento da Câmara.
Até agora, João Paulo, que estava no jantar de quinta-feira, segura a vontade
para não responder às críticas do companheiro. Mas seus colegas não são tão
controlados: “Nós não somos problema para o governo. Tanto é verdade que somos
solução que prioridades do Planalto, como a Lei de Falências e a do
Desarmamento foram aprovadas pelos deputados e travaram no Senado”, observa o
vice-líder do governo deputado Professor Luizinho (PT-SP).
Antes de ir para a “confraternização” da quinta, o presidente do PT, José
Genoino, ligou para João Paulo e pediu que ele tentasse convencer o senador
Paulo Paim (PT-RS) a mudar de idéia e votar a favor da reforma da Previdência.
“Estamos fazendo um apelo político e até humanoao senador Paim”, confirmou
Genoino. “O PT nunca faltou ao Paim em sua trajetória e tem autoridade política
para pedir fidelidade. Mas, se com tudo isso o senador não considerar que o PT
e Lula merecem o voto dele na reforma da Previdência, sómeresta lamentar.”
Muito cansado, Dirceu corre deumlado para o outro, na tentativa de apagar o
incêndio. Ainda procura um articulador político para dividir as tarefas
acumuladas na Casa Civil. Na semana passada, omais cotado era o deputado Paulo
Rocha (PT-PA), mas o ministro ainda avaliava a possibilidade de encontrar outra
solução.
No Planalto, uma das idéias em estudo passa pelo “núcleo duro” do governo,
formado por Dirceu e os ministros Antônio Palocci (Fazenda), Luiz Gushiken
(Comunicação de Governo) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência). É
possível que haja uma reformulação do perfil da pasta capitaneada por Dulci,
para melhor divisão das “missões” na seara política.
Hipertrofia – Dulci, porém, não fará o trabalho reclamado por Dirceu no
Congresso, até porque os dois têm estilos muito diferentes. Quem conhece o
chefe da Casa Civil acha que, no fim das contas, ele não vai repartir nada,
apesar das queixas de que está sobrecarregado.
Para o deputado Paulo Bernardo (PT-PR), vice-líder do governo, existe uma
hipertrofia administrativa e Dirceu tem razão ao defender o enxugamento da
máquina. “Seria razoável se o governo conseguisse reorganizar sua estrutura
para aglutinar ministérios”, afirma.
No seu diagnóstico, a crise enfrentada pelo Planalto tem um pé na comunicação
da equipe, que não flui como deveria. “Não parece razoável um presidente
despachar com 35 ministros. Se na prática não funciona assim, por que, então,
não se faz uma estrutura hierarquizada, com 15 ministérios?”.
VALOR ECONÔMICO | 1º CADERNO | 17/11/2003
Reformas têm semana decisiva no Senado
De
Brasília
O governo federal e sua base de apoio no Congresso terão uma semana decisiva
para o cronograma da votação das reformas constitucionais e do Orçamento. Hoje,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve se reunir com seus articuladores no
Senado para definir qual estratégia que será adotada para garantir a votação de
pelo menos parte da reforma tributária este ano.
Há duas possibilidades. Uma é o chamado "fatiamento" da reforma, em
que o Senado aprovaria sem alterações a proposta que veio da Câmara dos
Deputados apenas em alguns pontos essenciais para o caixa do governo e dos
Estados. São a manutenção da CPMF, a prorrogação da Desvinculação de Receitas
da União (DRU), a partilha de recursos da Contribuição de Intervenção no
Domínio Econômico (Cide).
Os demais pontos, modificados pelo Senado, seriam enviados para novo exame da
Câmara dos Deputados. A outra possibilidade é a aprovação da emenda
constitucional na forma como veio da Câmara, com a elaboração de uma emenda
paralela em que seriam concentradas as modificações acertadas no Senado.
A primeira saída conta com o apoio do líder do governo no Senado, Aloizio
Mercadante (PT-SP), dos governadores e dos líderes oposicionistas. Mas dentro
do próprio governo há o receio de que o fatiamento seja contestado
juridicamente. Neste caso, a única maneira de garantir a entrada em vigor no
ano que vem dos pontos que interessam ao governo seria a aprovação da reforma
na íntegra, com a elaboração da emenda paralela. Definido o caminho a seguir, o
governo partiria para a negociação final com os senadores de oposição e governadores
para tentar votar a reforma tributária até o final de dezembro.
A discussão sobre a reforma tributária poderá ser influenciada pela reforma da
previdência, que começa hoje a sua última semana de tramitação antes de ser
votada em primeiro turno pelo plenário, provavelmente no dia 26. Amanhã, a
Comissão de Constituição e Justiça deve examinar as emendas apresentadas em
plenário ao texto do governo, em uma sessão sem surpresas: o governo tem
controle absoluto sobre a CCJ e deve conseguir a rejeição de todas as propostas
de mudança.
Em plenário, o governo começa a garantir condições para uma aprovação
tranquila. A pressão dos governadores tucanos e pefelistas sobre os senadores
da oposição deve virar a favor da reforma doze dos 33 votos da oposição, o que pode
compensar as dissidências. Pelo menos cinco votos da base governista com
certeza devem desaprovar o texto votado pela Câmara, mas o total de rebeldes
pode chegar a nove. Ainda assim, a tendência é que o Planalto seja derrotado em
um dos pontos da reforma, o que permite subtetos diferenciados nos Estados. O
PMDB deve votar em bloco a favor de uma emenda supressiva, com o apoio de parte
do PSDB e do PFL.
É neste ponto que uma reforma pode influenciar a outra. Se prevalecer na
reforma previdenciária o entendimento que a supressão do subteto diferenciado
não impede a promulgação do restante da reforma, retornando para a Câmara
apenas a emenda que foi suprimida, fica fortalecida a tese do fatiamento da
reforma tributária. Mas se o entendimento for que a emenda supressiva implica
no retorno de toda a reforma para novo exame dos deputados, a inclinação dos
governistas será pela aprovação da reforma tributária sem qualquer mudança.
Ainda deve ser definido esta semana o prazo para se votar o Orçamento Geral da União
para 2004. Já foram definidos os sub-relatores setoriais e se encerra esta
semana a apresentação de emendas. Não está certa a votação do Orçamento ainda
este ano. Os próximos dias deverão ainda ser marcados pela retomada da reforma
do Judiciário e do Estatuto do Desarmamento no Senado. (CF)
JORNAL DE BRASÍLIA | EDITORIAL | 17/11/2003
Em favor do desarmamento
O
Jornal de Brasília inaugura hoje uma campanha em favor do desarmamento da
população. O tema está em discussão no Congresso Nacional, onde tramita projeto
de criação do Estatuto do Desarmamento, cujo formato final ainda é uma
incógnita. Pesquisas demonstram que a maioria do povo brasileiro vê a redução
drástica da quantidade de armas na sociedade como boa estratégia para reduzir a
criminalidade e a violência, cujo impacto extrapola a óbvia, mas trágica, perda
de milhares de vidas a cada ano. O avanço da barbárie resulta também em
significativos danos econômicos. Tome-se por exemplo o Rio de Janeiro, que há
pelo menos duas décadas sofre êxodo de empresas, inclusive internacionais, em
virtude do receio diante da bandidagem. Levantamento do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, divulgado na semana passada, mostrou que o Rio foi o
único estado brasileiro sem registrar expansão da atividade industrial no mês
de outubro. Acrescente-se que a violência urbana é apontada também como o
principal motivo pelo qual a capital fluminense perde turistas para destinos
menos atraentes fora do País. Ao manifestar-se de forma inequívoca pelo
desarmamento, o Jornal de Brasília espera estar fazendo bem mais do que uma
campanha politicamente correta, capaz de angariar simpatia para nosso veículo.
Na verdade, queremos é nos juntar a todos que procuram fazer com que o clamor
popular soe com nitidez, especialmente no momento em que o Congresso oscila
entre a restrição efetiva do porte de armas e a elaboração de uma lei de efeito
reduzido.
ISTOÉ | CAPA | 17/11/2003
Uma velha polêmica
Menos de 24 horas depois do enterro de sua filha Liana, o advogado Ari
Friedenbach empunhou uma bandeira cada vez mais popular no País: a redução da
maioridade penal. Um anseio desejado por 89% dos brasileiros, segundo pesquisa
do Instituto Toledo e Associados, encomendada pela Ordem dos Advogados do
Brasil e divulgada na segunda-feira 10. “O monstro que matou minha filha vai
ficar no máximo três anos na Febem para depois voltar às ruas. Isso é um
absurdo”, desabafou Friedenbach. “Se alguém tem capacidade para matar, deve ter
capacidade para ser punido, independentemente da idade.” Embalados pela comoção
provocada pelo bárbaro assassinato de Liana e de Felipe Caffé, não faltaram
aqueles que radicalizaram e na última semana voltaram a defender a tese da pena
de morte. Radicalismos à parte, na quinta-feira 13, os adeptos de punições mais
severas aos menores de idade ganharam um aliado de peso. Pouco antes de
encontrar-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cardeal arcebispo de
Aparecida do Norte (SP), dom Aloísio Lorscheider, defendeu que a maioridade
penal passe para 16 anos. “As leis estão muito brandas para fazer frente à
violência”, afirmou.
No mesmo dia, o ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, disse ser contra a medida. “Essas idéias nunca
resolveram os problemas da criminalidade”, afirmou o ministro. “É preciso
cuidado com o sentimento de pânico em torno da questão, pois gostaria,
pessoalmente, que o problema de segurança pública pudesse ser resolvido por um
simples tiro de canhão.” Segundo o ministro, a violência só poderá ser reduzida
se o governo aumentar a eficiência da polícia, fazer a reforma do Judiciário e
melhorar as condições do sistema prisional.
No final de abril, o deputado Luiz Antônio Fleury Filho (PTB-SP) apresentou
projeto que propõe mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente. Ele
defende o aumento de três para seis anos no tempo de internação de menores
infratores e que, em casos excepcio nais, o adolescente seja privado de
liberdade, podendo permanecer incomunicável, mediante decisão judicial.
“Existem vários menores que pertencem a organizações criminosas, tendo
participado de sequestros, homicídios e crimes graves. É importante que eles
não contaminem os demais menores infratores”, sustenta Fleury.
A primeira proposta para modificar a Constituição a fim de determinar uma
redução na maioridade penal foi feita em 1993, pelo então deputado Benedito
Domingues (PPB-DF). Até hoje, o projeto não saiu do lugar. Passados dez anos,
já existem outras 15 propostas anexadas ao projeto original com teor idêntico.
O atual relator da emenda – já existiram três antes dele –, deputado Osmar
Serraglio (PMDB-SC), não hesita dizer que tem dúvidas sobre a eficácia da
medida. Segundo os relatórios da ONU em 55 países sobre criminalidade, o
porcentual de jovens responsáveis por infrações chega a 11,6%. No Brasil, este
índice é ainda menor: os adolescentes infratores respondem por 10% dos crimes.
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MJ-EXECUÇÃO PENAL |
FOLHA DE S. PAULO | COTIDIANO | 17/11/2003
Após rebelião, crianças são proibidas em presídio
A direção do Sistema Prisional de Rondônia decidiu ontem que crianças não poderão visitar os presos na Casa de Detenção José Mário Alves (a 12 km de Porto Velho). A medida de segurança ocorreu após uma rebelião que começou às 18h de sexta e acabou às 18h20 de anteontem (20h e 20h20 em Brasília) no setor de triagem, onde 24 detentos fizeram reféns 21 familiares, entre mulheres e cinco crianças de colo.
CORREIO BRAZILIENSE | DIREITO & JUSTIÇA | 17/11/2003
A lei penal e os adolescentes
Por Josemar Dantas
O assassinato de um casal de estudantes em sítio da Grande São Paulo repõe em
cena a polêmica sobre a redução da maioridade penal. Um jovem de 16 anos
confessou a prática da chacina com ajuda de dois comparsas. A crueldade bestial
utilizada na tarefa sinistra chocou a população de um a outro extremo do país.
Policiais calejados na investigação de crimes executados com requintes de
brutalidade mostraram-se horrorizados ao encontrarem os corpos das vítimas.
É expediente rotineiro na hierarquia do crime organizado armar o braço de
crianças e adolescentes para matar pessoas. É regra, também, utilizar menores
em diversas outras empreitadas criminosas — roubo, assalto, tráfico de drogas,
contrabando de armas, seqüestros. Nos morros e favelas do Rio e São Paulo,
cumprem eles a missão adicional de patrulhas avançadas para advertir as
quadrilhas sobre a aproximação de contingentes policiais.
Aí está a fórmula engendrada pela mente perversa dos facínoras para escapar ao
alcance da lei. Jovens vitimados pela pobreza e marginalidade social cedem com
facilidade às seduções do crime. Afinal, a contrapartida da remuneração vai
muito acima de suas ambições, algo inimaginável para os que sobrevivem na
condição de excluídos.
E não há nada a perder. A pedagogia ministrada pelas quadrilhas ensina que os
menores de 18 anos estão a salvo de punição pela prática de delitos penais.
Explica-lhes que se sujeitam, apenas, se grave a infração praticada, ao máximo
de três anos de internação para cumprimento de medidas socioeducativas (art.
121, § 2º, do Estatuto da Criança e do Adolescente). A custódia por três anos
só se aplica, na prática, aos delitos de homicídio e latrocínio.
A inimputabilidade dos adolescentes não contribui apenas para convertê-los em
sicários das sociedades de celerados. Tampouco para fazê-los imolar-se em lugar
dos verdadeiros bandidos. Funciona, mais grave ainda, como exortação para que
novos grupos venham sentar praça na delinqüência. Não escapam do aceno bárbaro
filhos das classes média e rica. São cada vez mais freqüentes as violências
oriundas de semelhante circuito social.
Não guarda lógica o ECA permanecer imune a alterações diante do quadro
alarmante. Está posta a conveniência de admitir, em relação aos crimes com
resultado morte ou lesões graves incapacitantes, tratamento alternativo às
medidas socieducativas. A vida e a intangibilidade física das pessoas são os os
bens mais valiosos protegidos pela ordem jurídica. Logo, não devem ceder tal
primazia a outro pressuposto de direito.
Às teorias penais modernas não ofende investigar os desvios de conduta de
adolescentes entre 16 e 18 anos de idade motivados por disfunções íntimas. A
lei estaria mais sintonizada com os anseios da sociedade se homicidas ou
autores de latrocínio (da mencionada faixa etária) fossem avaliados para o fim
de excluí-los ou enquadrá-los na responsabilidade penal.
Comissões de psicólogos, pedagogos, psiquiatras, sociólogos, assistentes
sociais estariam capacitadas a realizar exames conclusivos nos infratores.
Acaso comprovado que o agente tinha plena consciência do ato praticado e de
suas conseqüências, justo submetê-lo ao processo criminal aplicável aos adultos.
Se o diagnóstico concluir que o investigado é vítima de alguma síndrome
patológica, seria o caso de interná-lo para tratamento e liberá-lo após curado.
Nos demais casos, aplicar as medidas socioeducativas.
JOSEMAR DANTAS É EDITOR DO SUPLEMENTO DIREITO & JUSTIÇA
CORREIO BRAZILIENSE | BRASIL | 17/11/2003
Uma questão
de Justiça
Reunidas em missa na
Catedral da Sé, em São Paulo, mais de 100 famílias de vítimas da violência
pedem a redução da maioridade penal no país
Da Redação
Parentes de vítimas da violência lotaram ontem a Catedral da Sé, em São Paulo,
durante missa acabou se transformando numa manifestação pela redução da
maioridade penal. Entre eles, estavam os pais de Felipe Silva Caffé, de 19
anos, Reinaldo e Lenice Silva Caffé. Felipe e a namorada, Liana Friedenbach, de
16 anos, foram mortos na semana passada por um bando, do qual fazia parte o
adolescente R.A.A.C., de 16 anos, o Champinha.
O culto, celebrado pelo cônego Severino Martins, foi promovido pela Associação
Nacional de Defesa dos Direitos das Vítimas da Criminalidade (ADVC). Também
estavam presentes integrantes da organização Mães da Sé, do Movimento Paz e
Justiça Ives Ota, da Associação Vítimas de Violência do Estado e o
vice-governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL).
As mais de cem famílias de vítimas carregavam faixas de protesto, flores e
fotos dos parentes. Vestiam ainda camisetas com frases de manifestação em
defesa da redução da maioridade penal. No meio do protesto estava Fumiyo Tokunaga
Kurisaki, mãe de Danilo Masahiko Kurisaki - estudante de medicina que morreu
com uma bala perdida, em 2001, em Mogi das Cruzes.
Fumiyo faz parte da ADVC e trabalha para ajudar as famílias atingidas pela
violência. ‘‘Desde a morte de meu filho, luto para que essa criminalidade
diminua. Sou a favor da redução da maioridade penal e da prisão perpétua. Esses
monstros têm de trabalhar na cadeia pelo resto da vida para sustentar suas
famílias.’’
Campanha
O pai do menino Ives Ota, o comerciante Masataka Ota, que preside o Movimento
Paz e Justiça Ives Ota, também participou da missa. Há seis anos, desde que o
filho foi seqüestrado e morto, ele lidera campanha contra a violência.
‘‘Trabalho para que as pessoas respeitem a vida e vivam em paz. Mas a gente só
tem visto a criminalidade aumentar.’’
A questão é polêmica entre especialistas, que estão divididos. Uma ala de
juristas pregam a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — a fim
de estabelecer um tempo maior de internação para os infratores que cometem
delitos graves, como Champinha. Mas há também os que são favoráveis à alteração
constitucional para que esses mesmos adolescentes, e somente eles, possam ser
processados.
JORNAL DE BRASÍLIA | CIDADE | 17/11/2003
O
"barril de pólvora" de Goiás
Sistema prisional do
Entorno reúne superlotação, instalações precárias e falta de efetivo policial
Superlotação,
precariedade das instalações, falta de efetivo de policiais e de agentes
penitenciários e salários atrasados. A rebelião de 70 presos, no dia 1º deste
mês, na Cadeia Pública de Águas Lindas (GO), mostrou que nada mudou no sistema
prisional do Entorno desde a série de reportagens publicadas pelo Jornal de
Brasília, há cinco meses. Dados de junho da Agência Goiana do Sistema Prisional
revelam que no Estado de Goiás há cerca de dez mil detentos e apenas sete
presídios estaduais. Desse total, 11%, ou 1,1 mil presos, estão em celas de
cadeias comuns nas cidades do Entorno. Estatísticas do Ministério Público do
Estado de Goiás mostram que, no mesmo período, a Justiça condenou 264 pessoas
ao regime fechado e concedeu a 182 detentos a progressão para o sistema
semi-aberto. O então presidente da Agência Goiana do Sistema Prisional, Rodrigo
Gabriel, afirmou, na época, que a inauguração do Presídio de Luziânia, com
capacidade para receber 131 internos, iria desafogar o sistema. Mas, até hoje,
de acordo com a própria agência goiana, apenas 57 detentos foram transferidos
para a nova unidade. Havia também a promessa de se construir outro presídio em
Formosa, com 150 vagas. O empreendimento ainda não saiu do papel. A cadeia da
cidade, projetada para abrigar 36 presos, tem 128 distribuídos por oito celas
com capacidade para abrigar quatro presos cada. Do total de detentos, 34 são
condenados por crimes hediondos e, por lei, deveriam estar cumprindo pena em
penitenciárias. A cadeia está interditada desde abril por ordem do juiz da
Comarca, Clauber Costa Abreu, mas, por falta de outra alternativa, continua a
receber detentos. "A situação é delicada. Estamos administrando um barril
de pólvora", comenta o delegado Regional, Odair José Soares.
JORNAL DE BRASÍLIA | CIDADE | 17/11/2003
Cadeias cheias de horror
O
novo presidente da Agência Goiana do Sistema Prisional, Edmundo Dias de
Oliveira Filho, disse que a maioria das cadeias públicas instaladas no Entorno
do DF não é de responsabilidade do órgão. Segundo ele, a agência ainda está
estudando as condições estruturais do sistema e, depois da análise, passará a
absorver as cadeias públicas aos poucos. Mesmo assim, ele prometeu a construção
de um presídio em Formosa – o que, na opinião da maioria dos delegados de
polícia do estado, não resolverá a questão. precariedade A poucos quilômetros
de Formosa, em Planaltina de Goiás, 154 presos convivem num espaço destinado
para 36. Em cada uma das oito celas da unidade, projetadas para abrigar quatro
detentos, há 19. De acordo com o delegado titular da cidade, Waldir Soares de
Oliveira, "precariedade" é a palavra que melhor resume o estado da
cadeia. As condições da unidade foram informadas às autoridades responsáveis
pelo sistema prisional por meio de 30 ofícios. "Vivemos uma situação de
caos que oferece risco à comunidade. Na última fuga em massa, os detentos
cavaram um túnel que saiu no pátio da escola, ao lado da casa de
detenção", conta o delegado. misturaA história se repete em outras cidades
do Entorno. Em Cristalina, a falta de espaço e de condições adequadas obriga os
policiais a colocarem na mesma ala, misturados, contrariando a lei, menores,
mulheres e homens adultos condenados. O mesmo ocorre em Alexânia. Segundo o
delegado titular da delegacia e Cadeia Pública da cidade, Antonio Carlos dos
Santos, 47 condenados, com penas até 40 anos de reclusão, dividiam as seis
celas destinadas a receber 24 detentos. Agora, porém, depois de duas fugas
consecutivas nos últimos dois meses, o número caiu para 34. Para investigar
crimes, executar buscas, tomar depoimentos e solucionar problemas administrativos,
há, além do delegado, apenas um policial civil que também se reveza com dois
policiais militares na guarda dos internos. "Acontecem muitas brigas entre
os detentos. Na maioria das vezes, um deles sai furado por estoques, antes
mesmo de conseguirmos controlar a situação", revela. Próxima ao DF, a
cerca de 50 km de Brasília, a Cadeia Pública de Santo Antônio do Descoberto é a
repetição do quadro de superpopulação carcerária e precariedade estrutural das
outras cidades goianas. As seis celas acomodam 73 presos. Há 12 detentos no
mesmo cômodo quando a capacidade é para quatro em cada. Dos 73, 15 foram
julgados e considerados culpados pela prática de crimes como latrocínio,
homicídio e roubo, mas permanecem misturados com detentos provisórios.
VEJA | RADAR | 17/11/2003
O placar do seqüestro
Na
semana passada, oito seqüestros estavam em curso em São Paulo.
Socorro!
Mais um motivo de preocupação para a polícia e para a população paulista: entre
os prisioneiros que fugiram na semana passada da Penitenciária do Estado, em
São Paulo, estavam quatro líderes de gangues de seqüestradores.
ÉPOCA | A SEMANA | 17/11/2003
A festa não era do PCC
A polícia de São Paulo deu vexame na madrugada da terça-feira. Soube de uma festa "suspeita" num bufê em Sapopemba, na Zona Leste, e achou que se tratava da turma do Primeiro Comando da Capital, o PCC, comemorando a fuga de 78 presos da Penitenciária do Estado e os atentados que vêm ocorrendo desde o feriado de Finados. Fechou o tempo: 147 pessoas foram parar no Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic) e tiveram de passar horas se explicando. Por acaso, três dos convivas eram procurados pela Justiça, e um deles estava usando nome falso - mas não se sabe ainda se têm alguma ligação com o PCC. Os outros 144 foram liberados. Não sem estrago, já que a festa foi parar em todos os meios de comunicação, inclusive em rede nacional de TV Algumas pessoas perderam o emprego. Outras tiveram de pagar o mico extra de dar satisfação à família e aos amigos.
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MJ-INSTITUCIONAL |
JORNAL DO BRASIL | BRASIL | 17/11/2003
Jobim quer
Conselho de Justiça
Futuro presidente do
Supremo apóia criação de organismo que teria poder disciplinador
Israel
Tabak
O ministro do STF Nelson Jobim deverá ser escolhido presidente do tribunal em
maio, mas já se mostra otimista quanto ao entendimento que começa a ser
esboçado entre os três poderes para a discussão e a tentativa de um consenso em
torno da reforma do Judiciário.
As conversas decisivas só deverão começar a ocorrer depois do carnaval, admite
o ministro, que é favorável ao funcionamento efetivo de um órgão de controle, o
Conselho Nacional de Justiça, já aprovado pela Câmara e que agora está sendo
apreciado pelo Senado.
Além de 15 integrantes majoritários do Poder Judiciário, o conselho teria mais
quatro: dois eleitos pelo Senado e pela Câmara e dois indicados pela Ordem dos
Advogados do Brasil.
- Será que essas quatro figuras - diríamos, os paisanos da comissão,
representariam o tal ''controle externo''? - ironiza Jobim.
Nomenclaturas à parte, o ministro do STF vê claras vantagens no funcionamento
do conselho, que teria, na prática, uma função de controle, entre outras.
- A lógica do conselho é a de pensar nacionalmente o Poder Judiciário, o que
não se faz hoje - disse Jobim, que visitou o Jornal do Brasil.
O conselho representaria uma uniformização administrativa do Judiciário, ''para
que se possa saber, por exemplo, qual é o custo da Justiça no Brasil''.
- Ninguém sabe qual é o custo médio de uma sentença. Isso é impossível hoje
porque não há um órgão centralizador. Há muitos tribunais, todos com autonomia
administrativa.
Uma outra função do conselho seria o poder disciplinador, no sentido de coibir
distorções e eventuais irregularidades de qualquer natureza, no aparelho
judiciário, em todo o país.
- É claro que num primeiro momento todo mundo que se sentir prejudicado vai
querer recorrer ao conselho. Se alguém perder um processo, por exemplo, pode
alegar que houve corrupção. É natural que isso ocorra no início do processo,
mas depois a situação deve se acalmar - analisa.
Jobim não critica a criação de uma secretaria para a Reforma do Judiciário no Ministério da Justiça, pois ela se torna
necessária para instruir as iniciativas do Poder Executivo, ''o que não exclui
o diálogo com o Judiciário''.
- Tradicionalmente não existe a centralização do debate por parte do
Judiciário, pulverizado por representações de setores que às vezes têm
interesses conflitantes. Por isso, existe a necessidade do diálogo. É
importante chegar a um consenso interno, para ser levado, depois, ao Executivo,
que tem a iniciativa de fazer a proposta.
- A Justiça ainda funciona em organismos fechados que praticam uma
''solidariedade de turma'' - analisa.
A pulverização associativa cria a tendência de determinada organização querer
assumir a paternidade de propostas de reforma, o que traz problemas, segundo o
ministro do Supremo.
Como funciona em moldes ''fechados'', a negociação com os outros poderes ainda
não está consolidada na cultura dos representantes do Judiciário, diz Jobim.
Na avaliação do ministro, em vez de uma ou outra associação assumir a paternidade
de determinadas propostas, o setor deveria se partir para uma negociação prévia
com o Congresso. Na etapa seguinte, parlamentares apresentariam a proposta de
consenso.
O destaque dado pela mídia a informações sobre possíveis irregularidades envolvendo
magistrados é vista como ''salutar'', pois contribui para mostrar os problemas
do setor e encontrar as soluções adequadas.
Em relação ao casal de magistrados que foi aposentado em processo
administrativo, o ministro do Supremo explicou que eles perderão o cargo e a
remuneração, caso sejam condenados.
O crime organizado é um problema para a Justiça brasileira, segundo Jobim:
''Ainda não temos procedimentos para combatê-lo. Precisamos encontrar uma
legislação adequada''.
E o país deve também encontrar formas de superar, com rapidez, o déficit de
juízes, que contribui para a lentidão dos processos. Ao comentar a dificuldade
para preencher as vagas destinadas aos magistrados - devido ao despreparo dos
candidatos - Jobim sugere uma especialização.
-As faculdades deveriam direcionar mais o ensino. Só poderia, por exemplo,
prestar concurso para juiz, quem já estivesse encaminhado para essa atividade,
na própria universidade.
As transformações da vida moderna mudaram também o perfil do juiz ideal:
- As faculdades queriam formar grandes retóricos. Hoje precisamos de técnicos
para resolver problemas. Por isso, conhecimentos de contabilidade, por exemplo,
se tornam imprescindíveis.
JORNAL DO BRASIL | BRASIL | 17/11/2003
''Atormenta-me a perspectiva de não poder rezar ajoelhada sobre a terra que me viu nascer''
Eis
uma das cartas de Madre Maurina, na qual relata seu desejo de voltar ao Brasil:
''Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Alfredo Buzaid
Digníssimo Ministro da Justiça
do Brasil
Saudações
Conforme deve recordar-se Vossa Excelência, encontrava-me presa preventivamente
à disposição da 2ª Auditoria da Justiça Militar Federal na Penitenciária
Feminina de Tremembé, quando fui surpreendida com a inclusão de meu nome numa
lista de presos que foi elaborada pelos seqüestradores do Cônsul Japonês em São
Paulo e deveriam ser enviados ao Exterior como preço da libertação daquela
autoridade diplomática.
Aguardava, àquela oportunidade viesse a ser libertada pela Justiça Brasileira,
já que segura de minha inocência. (...) Isto eu afirmo com a certeza de não
estar traindo minha consciência de religiosa e brasileira.
Em face de tais circunstâncias me opus até o fim a deixar o país. E tanto isso
é verdade que fiz uma declaração perante o Dr. Fernando José Fernandes, então
diretor-geral do Departamento dos Institutos Penais do Estado, e as madres
diretoras do Presídio de Mulheres da Capital e da Penitenciária Feminina de
Tremembé, bem como a madre provincial da Congregação das Franciscanas da
Imaculada Conceição, em que consta textualmente o seguinte:
Que não tinha conhecimento da indicação do meu nome, para ser posta em
liberdade e removida para o México ou outro país, por qualquer organização
subversiva ou comunista, ou por quem quer que seja; que não conheço nenhum dos
integrantes da lista enviada pelos seqüestradores do cônsul-geral do Japão em
São Paulo; (...) Diante de Deus me declaro inocente. Não desejo viajar para o
México ou qualquer outro país. (...) Como já afirmei, sou inocente e não exerço
outra atividade que não religiosa.
Tal declaração, Senhor Ministro, representa integralmente a verdade.
Infelizmente, no entanto, fui obrigada a deixar o país. Resta-me o consolo de
haver contribuído para poupar a vida de um inocente homem. Quando releio a
cópia do documento a que me referi, relembro com lágrimas nos olhos e grande
amargura d’alma, o trágico momento em que precisei deixar meu país, minhas
irmãs em Cristo e minha família, para um exílio involuntário que seria de todo
insuportável não fosse o fraterno acolhimento no convento das irmãs de São José
de Lion, onde me encontro até a presente data.
No entanto, Senhor Ministro, quando um semelhante e triste episódio de
seqüestro se repetiu no Brasil, tive a oportunidade de tomar conhecimento pela
imprensa internacional que o governo, do qual Vossa Excelência é figura
eminente, houve por bem respeitar a vontade daqueles que se opuseram a deixar o
país. (...)
A carta que hora lhe envio, Excelentíssimo Senhor Ministro, visa exatamente
pleitear a permissão para o meu reingresso ao Brasil a fim de ser normalmente
processada e julgada. Tenho eu obrigações para com o meu país, demonstrar a
minha inocência.
Se a orientação do governo foi respeitar a vontade daqueles que se opuseram a
ser o preço da liberdade do embaixador suíço, se a Justiça Militar concluiu
pela conveniência de ser permitido o meu regresso, tenho a certeza de que em
breve serei readmitida no território nacional.
Peço-lhe, Senhor Ministro, encarecidamente, muito embora não esteja a pedir
favor, mas a clamar por justiça, que o meu apelo encontre ressonância. Não me
atormenta a perspectiva de vir a ser, eventualmente, recolhida à prisão onde me
encontrava.
Atormenta-me, isto sim, a perspectiva de não poder voltar a prosseguir na vida
de apostolado que escolhera em meu país, de não poder abraçar e beijar as
minhas irmãs de vocação e a minha família, de não poder rezar ajoelhada sobre a
terra que me viu nascer, onde caminhei pela primeira vez e que abrigará, confio
em Deus, meu corpo, quando então prestarei contas de minha vida ao Senhor Nosso
Pai.
Com todo o respeito, firmo a presente.
Irmã Maurina Borges da Silveira.
México, 30 de outubro de 1971''
A carta da madre deu entrada no ministério no dia 11 de agosto de 1971. No dia
7 de dezembro de 1971, tramitou com a seguinte recomendação: ''Prepare-se
Proposição de Motivos, submetendo o assunto à consideração do exmo. Sr.
Presidente da República.''
FOLHA DE S. PAULO | EDITORIAL | 17/11/2003
COMBATE AO CRIME
É
frequente, quando o país se vê diante de uma onda de violência ou de algum
crime bárbaro, com grande exposição na mídia, que surjam propostas de mudanças
nas leis com o propósito de "resolver" o problema da segurança
pública. Não raro, tais sugestões são drásticas: é a pena de morte, é a redução
da maioridade penal, é a transformação deste ou daquele delito em crime
hediondo. É o que alguns especialistas, entre eles o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, costumam chamar de
"legislação de pânico".
É compreensível que a crescente sensação de insegurança que se difunde nos
centros urbanos provoque essas reações. Certamente há o que aperfeiçoar na
legislação brasileira. Não será, no entanto, com medidas muitas vezes
irrefletidas, idealizadas sob impacto emocional, que o drama da violência irá
se resolver.
Nesse sentido, é auspicioso o fato de o Ministério
da Justiça ter reafirmado o intuito de prosseguir com o projeto
do Sistema Único de Segurança Pública após o pedido de exoneração de um de seus
idealizadores, o ex-secretário nacional de
Segurança Pública Luiz Eduardo Soares. De fato, o projeto contempla
um dos aspectos básicos para que as ações de combate ao crime venham a se
mostrar mais efetivas: a integração entre governos e polícias.
Há no país um quadro de desarticulação e desencontro, muitas vezes até mesmo de
conflito, entre as diversas instâncias e forças encarregadas de promover a
segurança pública. Os sistemas de informação não "conversam" entre
si, os cadastros são organizados de maneiras distintas, os dados não são
acessíveis de forma ágil e em escala nacional. Unificar procedimentos, melhorar
a gestão policial, integrar os esforços das diversas esferas governamentais são
objetivos que devem ser perseguidos. Não será de uma hora para outra que o país
irá solucionar um problema que vem se acumulando há décadas.
FOLHA DE S. PAULO | OPINIÃO | 17/11/2003
FRASES
"Neste momento, um juiz está
preso e outros dois sob investigação. Em contrapartida, há vários elementos do Ministério da Justiça. Para resolver esse
tipo de problema, precisaríamos de um conselho com integrantes da sociedade?
Seria tratar câncer com aspirina."
Carlos Velloso, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), que critica a
proposta de controle externo do Judiciário defendida pelo governo, ontem na
Folha.
SERVIÇO PÚBLICO "[Os juízes] são servidores públicos, que têm de prestar
contas à sociedade. E por que não, se todos nós, que estamos a serviço da
administração pública do país, temos de fazer isso?"
Sérgio Renault, secretário de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, que defende o
controle externo do Poder, ontem na Folha.
FOLHA DE S. PAULO | BRASIL | 17/11/2003
Após atrito,
projeto reaproxima Lula e juízes
De olho na reforma,
presidente deve liberar contratação de 12.120 pessoas para Judiciário e
Ministério Público
GABRIELA
ATHIAS
DA SUCURSAL DE BRASíLIA
Depois de meses de declarações pouco amistosas de lado a lado, o Palácio do
Planalto vai tomar medidas que deverão facilitar a reaproximação entre os
Poderes Executivo e Judiciário.
Nos próximos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve sancionar três
projetos de lei que autorizam a contratação de 12.120 funcionários até 2008
para o Judiciário e para o Ministério Público Federal.
Há ainda um quarto projeto que está na Câmara aguardando um sinal do Planalto
para ser votado pela base governista, o que deverá ocorrer nesta semana. O
texto autoriza a contratação de 5.700 funcionários para o TSE (Tribunal
Superior Eleitoral).
A sanção dos projetos ocorre em um momento em que o governo busca o
entendimento com o Judiciário, e Lula está para se encontrar com o presidente
do STF (Supremo Tribunal Federal), Maurício Corrêa, depois de um período de
atritos.
O encontro entre os dois não acontecerá no STF nem foi na data indicada por
Corrêa, o último dia 13. O campo escolhido acabou sendo a casa do presidente do
Senado, José Sarney (PMDB-AP), espécie de "território neutro".
As relações entre Lula e Corrêa estão abaladas desde que o ministro assumiu a
presidência do STF conclamando uma mobilização dos juízes contra a reforma da
Previdência, no início de junho, diante de Lula, que não tinha direito à
palavra.
Pouco antes, o presidente da República havia criticado a existência de uma
"caixa-preta" no Judiciário, em uma alusão à necessidade do chamado
controle externo, gerando uma crise institucional.
Para o Planalto, quanto melhores forem as relações, mais fácil será a aprovação
da reforma do Judiciário, que tramita no Senado. Além disso, os projetos
reduzem uma deficiência já crônica de pessoal no Judiciário.
O subchefe da Casa Civil para Assuntos Jurídicos, José Antônio Dias Toffoli,
afirmou que as negociações para a aprovação e a sanção dos projetos são uma
prova de que "nunca houve um problema institucional entre Executivo e
Judiciário".
Toffoli ressaltou que esses projetos já estavam no Congresso havia dez anos e
que sua aprovação representa um avanço para o Judiciário. Segundo ele, é
"coincidência" o fato de a sanção ocorrer num momento em que
esquentaram as negociações da reforma.
O acordo para a aprovação dos quatro projetos começou a ser alinhavado em
março. O consenso em relação a três deles foi obtido em julho, e os projetos
chegaram à Casa Civil para sanção entre os dias 3 e 6 de novembro. Pela data
regimental, o presidente tem 15 dias para sancioná-l os. O impasse nas negociações
foi o prazo das contratações. Os tribunais queriam um período máximo de três
anos para finalizá-las, mas o governo exigiu o prazo de seis anos.
Os projetos geram um impacto de R$ 1 bilhão por ano no Orçamento da União. Por
isso, serão aplicados gradualmente até 2008.
Projetos
Os três projetos dizem respeito ao Ministério Público Federal (cujos
procuradores atuam no Judiciário), à Justiça Federal e à Justiça do Trabalho. O
quarto -que se refere ao Tribunal Superior Eleitoral- está na Câmara e aguarda
uma sinalização do Planalto para ser votado, o que deverá ocorrer até o fim
desta semana.
Para a Justiça Federal, Lula vai sancionar a criação de 183 varas, 47 ainda
neste ano e o restante até 2008. Serão contratados 3.956 funcionários, entre
juízes, corpo técnico e auxiliares.
Na Justiça do Trabalho, no mesmo período, serão criadas 232 novas varas, cada
uma com dois juízes e oito funcionários, num total de 1.856 servidores.
Já o Ministério Público da União (incluindo Trabalho, Militar e do Distrito Federal
e Territórios) vai ganhar 6.308 funcionários, entre procuradores,
subprocuradores, corpo técnico e apoio, até 2008.
O escalonamento das vagas obedece a um critério financeiro: o Orçamento não
pode ser onerado em mais de R$ 250 milhões por ano. O TSE não concordou com o
período de escalonamento e ficou fora do acordo. Queria a contratação dos 5.700
funcionários (dois para cada zona eleitoral do país) em três anos.
Nas zonas eleitorais, o tribunal precisa recorrer a funcionários emprestados de
Estados e prefeituras. Mesmo assim, o governo não arredou o pé do prazo de seis
anos para autorizar o total de contratações.
Não é à toa que o Planalto está investindo para incrementar as relações com o
Judiciário. O texto que hoje está no Senado, apesar de polêmico, é apenas uma
pequena parte da reforma profunda que o governo pretende fazer no setor ainda
em 2004.
"A sociedade está pressionando por mudanças no Judiciário", afirma
Sérgio Renault, titular da secretaria de Reforma do Judiciário, vinculada ao Ministério da Justiça.
Para ele, as reformas são um passo para a consolidação da democracia no país,
na medida em que tornarão a Justiça mais rápida e mais acessível à parcela mais
pobre da população.
GAZETA MERCANTIL | NACIONAL | 17/11/2003
Tavares: mais estratégia e menos entusiasmo
São
Paulo, 17 de Novembro de 2003 - Brasil e Portugal não precisam esperar a
conclusão do processo negociador entre Mercosul e União Européia, e sim dar
passos significativos em direção a uma integração maior, baseada em parcerias
entre empresas de ambos os países. Em entrevista a este jornal, o ministro da
Economia português, Carlos Tavares, disse ser necessário agir em uma "via
de mão dupla e de forma menos entusiasmada e mais estratégica" do que foi
feito até hoje nas relações entre os dois países.
Na sua visão, a escolha do Brasil como destino para investimentos portugueses,
que teve seu maior fluxo a partir de 1996, resultou em experiências
bem-sucedidas, como no caso das telecomunicações (Portugal Telecom) ou de
auto-estradas (Brisa). "Mas também houve experiências que foram fruto
apenas de entusiasmo e não de estratégia".
Os contatos feitos no Brasil na semana passada, disse, vieram justamente
confirmar sua percepção de que "essa visão mais planejada para a
consolidação das relações entre os países" pode começar agora.
"Estive com os ministros Palocci (Fazenda) e Furlan (Desenvolvimento) por
ocasião da visita do presidente Lula a Portugal e desta vez conversei com empresários
na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Constatei que há
grande concordância em relação a como devem ser a relação
Brasil/Portugal."
Partindo da afinidade na língua, Tavares observa que o Brasil pode oferecer um
grande mercado a Portugal, "que tem produtos de qualidade mas não vende
bem por aqui". Segundo ele, 80% do comércio exterior de Portugal está
concentrado na UE, "mas há necessidade de diversificar esses destinos e o
Brasil é um dos primeiros nessa lista". O saldo da balança comercial entre
os dois países é favorável ao Brasil: de janeiro a setembro, o País vendeu US$
448 milhões de Portugal e comprou US$ 100 milhões.
De outro lado, o ministro aponta um caminho para o acesso mais fácil de
empresas brasileiras em toda a Europa através de parcerias na produção com
companhias portuguesas. "É uma forma de o Brasil vender na Europa sem
sofrer com barreiras aduaneiras", disse. "O grande segredo é
aproveitar o que cada país tem de melhor para firmar estratégias em conjunto,
isso pode trazer grandes vitórias."
Na contramão das boas intenções do ministro estão os números dos investimentos
portugueses no Brasil, em trajetória declinantes nos últimos anos: US$ 2,5
bilhões em 2000, US$ 1,7 bilhão em 2001, US$ 1,01 bilhão em 2002 e US$ 123 milhões
no acumulado de janeiro a setembro de 2003. "A queda dos investimentos no
Brasil está relacionada a um período em que os investimentos estrangeiros
diretos caíram em todo o mundo. Mas penso também que está ligada a um período
de transição nas relações entre os dois países".
Ao enfatizar a necessidade de uma economia estável para a atração de
investimentos produtivos, o ministro português elogiou a equipe econômica
brasileira e a melhora nos números da balança comercial, em especial das
exportações.
A economia portuguesa, lembrou Tavares, caminha para a recuperação depois de
dois anos sem crescimento - a expectativa para 2003 é de queda de 0,5% no PIB e
de crescimento entre 1% e 1,5% em 2004. "A recuperação começa a ser vista
depois de um período de ajustes nas contas públicas e de implementação de uma
política dirigida à atração de investimentos estrangeiros e nacionais de
qualidade."
Segundo ele, o modelo de parcerias público-privadas é usado em Portugal para
projetos de infra-estrutura, como a construção de hospitais e estradas. "É
uma parceria que funciona em Portugal. Somente no caso das auto-estradas o
modelo não funcionou bem porque o governo anterior resolveu não colocar
pedágios - aí o modelo de financiamento é que não funcionou."
(Gazeta Mercantil/Caderno A4)(Eva Rodrigues)
VEJA | RADAR | 17/11/2003
Duelo de titãs
É de enfrentamento o clima entre
o diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, e o superintendente do órgão em São
Paulo, Francisco Baltazar, que comandou a segurança de Lula em suas últimas
campanhas para presidente. Lacerda é homem de confiança do ministro Márcio Thomaz Bastos, enquanto Baltazar está
onde está pelas mãos de Lula.
Na gangorra
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,
quer levar para sua pasta o Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf). O órgão, que investiga lavagem de dinheiro, está subordinado ao
Ministério da Fazenda. Bastos tem feito gestões junto ao Palácio do Planalto,
mas até agora não conseguiu nada.
ÉPOCA | DIA-A-DIA | 17/11/2003
Nomeado
O secretário nacional de Segurança Pública o delegado Luiz Fernando Corrêa. Dia 10, pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.
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MJ-POVOS INDÍGENAS |
FOLHA DE S. PAULO | BRASIL | 17/11/2003
índio vira
"informante" da Polícia Federal na Amazônia
Sivam cria rede de
telefones via satélite para denúncias de tribos; das 940 unidades previstas,
361 já foram instaladas
KáTIA
BRASIL
DA AGêNCIA FOLHA, EM MANAUS
Uma rede de telefones via satélite tem permitido que índios de áreas remotas da
Amazônia falem entre si e com a Funai
(Fundação Nacional do índio) e informem à Polícia
Federal crimes ocorridos em seus territórios.
A rede faz parte do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), projeto de US$
1,4 bilhão inaugurado em julho do ano passado para controlar os 5,2 milhões de
km2 da Amazônia Legal -com a utilização de aviões, satélites, radares e outros
equipamentos.
O sistema de telefones se chama V-Sat. De acordo com o Sipam (Sistema de
Proteção da Amazônia), braço civil do Sivam, das 940 unidades previstas para
serem instaladas até o 2004, ao custo total de R$ 48 milhões, 361 já foram
colocadas desde julho do ano passado, sendo 161 em aldeias e postos da Funai. Há unidades ainda em prefeituras e postos
do Exército, da PF e de outros órgãos.
"Os índios estão onde nós não estamos, eles são nossos olhos. Alguma coisa
que, eventualmente, eles teriam que tomar as providências com as próprias mãos,
agora, com o sistema, eles podem avisar a polícia e evitar embates com
garimpeiros, madeireiros e invasores. é a polícia que tem que cuidar
disso", afirmou o delegado regional da Polícia
Federal do Amazonas, Sérgio Fontes.
Hoje em dia, muitos índios utilizam rádios para se comunicar. Mas eles só têm
canais nos rádios em determinados horários do dia, o que, por vezes, acaba
atrasando os pedidos de socorro.
Já o V-Sat é como uma rede de ramais de uma empresa. Ao tirar o fone do gancho,
o índio pode falar na hora com
qualquer outro ramal, seja o de uma aldeia, seja o da Funai ou o da PF.
Outra vantagem é a utilização de energia solar, que garante funcionamento
ininterrupto dos equipamentos. Quando a rede estiver integralmente instalada, a
previsão é que as unidades tenham também fax e computadores para envio de
e-mails.
Hoje o sistema ainda é muito instável. Segundo o Sipam, em 75% dos aparelhos já
instalados, a ligação nem sempre é completada na hora devido a problemas
técnicos que ainda estão sendo analisados. Em algumas aldeias, índios não sabem
usar o aparelho.
Na última semana, a Agência Folha testou o sistema, ligando do CRV (Centro
Regional de Vigilância) para aldeias, postos da Funai,
do Ibama, da PF e pelotões do Exército. As ligações que se completaram são
rápidas e sem ruído. A única diferença de uma ligação entre o telefone
convencional e o via satélite é que há um intervalo de dois segundos, que é o
tempo de transmissão entre a estação terrestre e o satélite Brasil Sat 2.
"O sistema é uma grande rede de troca de informações. Numa região
inóspita, de difícil acesso, onde a comunicação era zero, o sistema é muito
significativo. Nas comunidades indígenas, esse instrumento é também de inclusão
social", disse o diretor-executivo do Sipam, Edgar Fagundes Filho.
Segundo o Sipam, o uso do V-Sat já serviu para a deportação de um estrangeiro
que tentava gravar um documentário sem a permissão da Funai. Em 12 de agosto deste ano, índios uai-uai
da aldeia de Jatapuzinho (RR) usaram o V-Sat para informar ao CRV de Manaus que
o alemão Rudiger Nehberg, 70, desceu de helicóptero na aldeia, trazendo na
bagagem câmeras fotográficas e filmadoras.
Os índios uai-uai contam que, ao ser abordado, Nehberg disse que tinha
permissão da Funai para permanecer na
aldeia. Bastou um contato pelo telefone via satélite para saber que ele mentia.
FOLHA DE S. PAULO | BRASIL | 17/11/2003
Raoni quer criar TV Indígena com programas feitos no próprio Xingu
HUDSON CORRêA
DA AGêNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE
Meio século após tomar contato com o homem branco por meio do sertanista
Orlando Villas Bôas (1914-2002), o cacique Raoni, líder dos índios caiapós,
apresentou ao MinC (Ministério da Cultura) o projeto de criação da TV Indígena
Aldeia Virtual. Conseguiu, na quinta-feira, R$ 1 milhão pelo CNIC (Comissão
Nacional de Incentivo à Cultura).
Raoni, que calcula ter 79 anos, quer exibir pela TV programas feitos pelos
índios do Parque Nacional do Xingu, localizado numa faixa de terra a partir do
centro de Mato Grosso até a divisa com o Pará. A área é maior do que o Estado
de Sergipe. Pelo menos 21 lideranças indígenas assinaram documento apoiando a
TV.
Batizado pelos caiapós como Cabelo de Milho, 46 (o nome verdadeiro ele prefere
não dizer), o assessor do Instituto Raoni disse que, na aldeia, os índios já
possuem câmeras digitais e equipamentos para edição de imagens.
O instituto foi criado em 2000, durante visita do cacique ao presidente da
França, Jacques Chirac, e será responsável pela TV.
O secretário do Desenvolvimento das Artes Audiovisuais do MinC, Orlando Senna,
afirmou que a verba de R$ 1 milhão aprovada na CNIC deve ser usada na
elaboração do projeto e na compra de equipamentos. Senna disse que os índios
podem começar com um programa na TV pública.
A UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) é a dona da TV Universitária,
similar à TV Educativa existente em outros Estados. O reitor Paulo Speller
disse que a programação será ampliada para atender os movimentos sociais, incluindo
os índios.
Cabelo de Milho acrescenta que a idéia é ter um canal próprio, com sinal por
satélite. Esse modelo, segundo Raoni, foi inspirado nos "parentes dos
caiapós" no Canadá e nos Estados Unidos, onde haveria 54 emissoras
indígenas.
Documentário
Em 1976, Raoni teve o primeiro contato com as câmeras, quando ajudou a filmar o
documentário do francês Jean Pierre Dutilleux, "Mostrei a Floresta."
O documentário ficou famoso ao ser narrado por Marlon Brando, em 1979, com o
título "Raoni: a Luta pela Amazônia".
Um ano depois, o cacique ganhou fama ao assumir os assassinatos de 11 peões que
entraram nas terras dos índios. Na ocasião, ele mostrou a borduna (arma de
madeira), usada contra os homens. A partir daí, percorreu o mundo ao lado do
roqueiro inglês Sting com a bandeira de preservação da Amazônia.
Para os caiapós, o projeto da TV Indígena não é bem uma novidade. Em 1993, o
índio caiapó Kiabet Metuktire passou uma semana em São Paulo para levar imagens
da cidade grande para a aldeia.
Megaron Txucarramãe, sobrinho de Raoni, apresentou naquele mesmo ano, no Japão,
vídeos com imagens da aldeia.
ISTOÉ | SÉCULO 21 | 17/11/2003
Dia de índio
A Unesco declarou os padrões gráficos dos índios wajãpi, do Amapá, Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, na semana passada, em Paris. Conhecidos como kusiwa, esses desenhos narram a origem e a história da tribo. Todos os bens declarados nesse programa, que incluiu obras de outros 27 países, passam automaticamente a integrar a lista da Unesco de Patrimônios Imateriais, convenção aprovada na última Conferência Geral da entidade, e que em breve deverá entrar em vigor. Com a premiação, o Brasil assume o compromisso internacional de preservar a cultura dos wajãpi. São candidatos ao título folclores, conhecimentos, tradições, línguas e manifestações culturais e religiosas de um povo com grande importância para a humanidade.
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MJ-REFORMA DO JUDICIÁRIO |
O ESTADO DE S. PAULO | NOTAS E INFORMAÇÕES | 17/11/2003
Privilégios pestilenciais
Foi necessário que se passassem
15 anos e uma onda de lama envolvesse vários magistrados, acusados da atividade
escabrosa de venda de sentenças judiciais, para que a opinião pública brasileira
se apercebesse do grau de “pestilencialidade” de certos privilégios consignados
numa Constituição que já foi apelidada de cidadã. Depois que o casal de
magistrados – o desembargador Eustáquio da Silveira e sua mulher, a juíza
federal Vera Carla da Silveira –, em julgamento administrativo por “desvio de
conduta”, no Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (Brasília), foi
“condenado” a uma confortável aposentadoria compulsória, que lhe permitirá
viver sem trabalhar, sustentado vitaliciamente pelos contribuintes, passou-se a
ter uma real dimensão do espírito “igualitário” consignado na Constituição de
1988 – pelo qual os magistrados da República conseguiram se tornar bem mais
“iguais” do que todos os demais servidores públicos brasileiros.
Antes da Constituição “cidadã”, pela Lei Orgânica da Magistratura os juízes que
se mostrassem indignos de exercer uma das mais nobres funções públicas – como é
a de dizer o Direito e fazer valer a tutela jurisdicional do Estado – não só
podiam ser demitidos, como ter suspenso o recebimento de seus vencimentos. É
curioso como a Associação dos Magistrados Brasileiros agora (ou melhor, só
agora) defende “a revisão do estatuto que define as punições a juízes, a Lei
Orgânica da Magistratura”, como esclarece seu coordenador de Justiça Estadual,
Rodrigo Collaço, aduzindo que “é preciso mais transparência no julgamento de
ilícitos praticados por magistrados” (em matéria deste jornal, edição de
sexta-feira). Na verdade, também a votação unânime do Órgão Especial do TRF, na
“punição” do casal de magistrados com um tranqüilo ócio remunerado, não deixou
de despertar uma certa curiosidade: estaria ela de alguma forma ligada à
momentosa discussão sobre a instituição de um sistema de controle externo do
Judiciário – provocada pelo fato de o “interno”, exercido pelas Corregedorias,
ter se mostrado de todo ineficaz?
Registre-se que o TRF decidiu aposentar o casal de juízes, compulsoriamente,
como punição pelo suposto desvio de conduta, que apresentou ao orientar
advogados a encaminhar pedidos de habeascorpus em favor de traficantes de
drogas. Mas esse tipo de aposentadoria não precisa ser compulsório, pois a lei
faculta que os próprios acusados a requeiram, com o que estarão livres dos
processos administrativos, que assim se extinguirão. Isso diminui
substancialmente os “riscos” dos que transformam a função judicante em um
balcão de negócios – especialmente se já estão avançados em anos de serviço e
próximos do tempo de aposentadoria.
O episódio leva a considerar que a decantada Reforma do Judiciário, no que diz
respeito às funções e prerrogativas dos magistrados, deve merecer mudanças mais
amplas do que as até aqui sugeridas: antes, o que se cobrava era a correção
ética, administrativa e funcional, no sentido de que os encarregados da missão
judicante não se desviassem dos estreitos limites estabelecidos pela lei e pela
moral norteadora do comportamento dos servidores públicos. Agora, no entanto,
exige- se mais: que no caso de descumprimento das normas ou de “desvios de
conduta” não haja categoria alguma de cidadãos ou servidores públicos que
desfrute de premiações, disfarçadas de punições – tal o caso do ameno ócio
remunerado decorrente de uma aposentadoria compulsória.
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Maurício Corrêa, disse que o
Poder Judiciário brasileiro está vivendo um verdadeiro pesadelo. O ministro
está enganado. Na medida em que a cobrança da opinião pública vai fazendo
detonar – assim esperamos – arraigadas “pérolas” do privilégio corporativo,
algumas das quais têm se mantido meio camufladas pela Constituição cidadã, por
longos anos, o que se pode dizer é que é a sociedade que começa a despertar de
um verdadeiro pesadelo. Afinal de contas, impossível será recuperar a imagem e
a credibilidade da Justiça se os principais responsáveis pelo seu funcionamento
permanecem blindados a seu efetivo alcance. Funções e prerrogativas de juízes
precisam passar por revisão
VALOR ECONÔMICO | FERNANDO ABRÚCIO | 17/11/2003
Por uma
Justiça mais eficiente e democrática
Esta reforma deve ser
prioridade absoluta
Os
principais assuntos do país nem sempre devem ser procurados nas decisões do
presidente ou do Congresso, nas reuniões de cúpula internacional ou nos grandes
escândalos de corrupção. Tragédias como o cruel assassinato do casal de
adolescentes, noticiado na semana que passou, são importantes para mostrar ao
"mundo oficial" o que se passa na sociedade em seu funcionamento
efetivo, e o Brasil, faz um bom tempo, convive com níveis altíssimos de
insegurança que levam à barbárie e à perda de confiança nas instituições
públicas. Entretanto, há o perigo de se adotar uma postura histérica que, em
vez de buscar soluções racionais e de longo alcance, cede aos instintos mais
básicos de sobrevivência - é a volta da Lei do Talião, princípio, aliás, que
informalmente impera ainda em várias sociedades da África e da Ásia, aumentando
a violência e o caos nestes lugares.
Obviamente que não podemos mais banalizar a violência que se amplia no país.
Para uma sociedade que busca criar padrões razoáveis de civilidade, não há
solução fora do reino da política, como dizia o sociólogo alemão Max Weber. Com
efeito, é preciso descobrir o quê e como fazer para construir uma Justiça
eficiente e democrática no Brasil.
Não se pode dizer que a política brasileira esteve inerte nos últimos dez anos.
Tal período foi marcado por um processo amplo de reformas do Estado, algumas
bem sucedidas, outras equivocadas em sua implementação, mas, certamente, este
ciclo não terminará tão cedo. O Governo Lula e provavelmente mais alguns terão
de continuar esta tarefa para adequar nosso aparelho estatal a duas grandes
mudanças. A primeira se refere às transformações econômicas e sociais que vêm
ocorrendo no mundo desde a década de 1980, estabelecendo novos parâmetros para
o desenvolvimento das nações, embora não se possa confundir esta nova situação
com os argumentos baseados na idéia de que "o mercado resolverá
tudo". A segunda alteração é tão ou mais importante, apesar de menos realçada
pelos atores políticos: o Brasil precisa reorganizar sua administração pública
para responder às crescentes demandas da sociedade por maior transparência e
eficiência do Estado.
Comparando a forma como o sistema político tratou estes dois novos parâmetros,
percebe-se claramente que as reformas econômicas foram bem mais privilegiadas
no processo de reformas constitucionais. Sem querer interditar tal agenda, até
porque acredito que ela ainda tenha muitos temas pela frente, o fato é que a
alteração da lógica de atuação do Estado frente aos cidadãos precisa,
urgentemente, ganhar mais destaque para o Executivo e o Congresso. Curioso
notar que, mesmo numa agenda mais estritamente econômica, o modus operandi do
aparelho estatal tem sido um assunto menor na lista de prioridades dos
governos, que não colocam no topo de suas preocupações assuntos como a
dificuldade que qualquer pessoa tem para abrir um negócio no Brasil ou no custo
imposto pela legislação governamental e por toda sorte de "burocracias"
ao funcionamento das empresas.
O sistema de Justiça é um dos pilares de qualquer país minimamente civilizado,
e seu funcionamento no Brasil deixa muito a desejar, sensação que cresce a cada
dia. Mais do que isso, se há um assunto que atinge com tanta força as diversas
classes sociais é o da insegurança social. Curiosamente, as reformas de Estado
ocorridas nos últimos dez anos praticamente negligenciaram este tema. Em grande
medida, a explicação para isso está nas resistências enormes incrustadas dentro
do Estado.
E aqui vale a pena elucidar melhor o conceito de sistema de Justiça, como já
insisti em outra coluna: ele envolve não somente o Judiciário, como também
parcelas do Executivo e a alteração do arcabouço das leis, tarefa própria do
Legislativo. Começar por esta definição é mais correto do ponto de vista
normativo e, principalmente, do político, uma vez que retira de um ramo de
Poder (o Judiciário) toda a carga de culpa e obriga os demais a participarem
igualmente do processo de mudança. A escolha da melhor estratégia política para
ativar esta reforma é essencial porque os cidadãos não agüentam mais viver sob
os atuais padrões de insegurança coletiva e individual. Em outras palavras, bem
mais diretas: o Governo Lula precisa transformar a reformulação do sistema de
Justiça em prioridade absoluta.
Dois critérios devem nortear a reforma do sistema de Justiça: (1) a maior
eficiência, o que vai significar a modernização administrativa, orientando
estas organizações por metas e resultados, e não pelo formalismo jurídico e
pelo corporativismo reinantes; e (2) a democratização de tais instituições,
pois sem a transparência e a maior participação da sociedade, os policiais e os
juízes competentes e bem intencionados - que são muitos - não conseguirão mudar
suas estruturas e perderão a legitimidade social da qual dependem para o bom
exercício de suas funções. Os ocupantes dos altos postos do sistema de Justiça
devem ser os primeiros a ouvir o clamor dos pais dos adolescentes cruelmente
mortos na semana passada para evitar o histerismo social e ajudar a construir
uma estratégia racional e efetiva de mudança.
Fernando Luiz Abrucio é cientista político e professor da PUC-SP e da FGV (SP).
Escreve às segundas-feiras
E-mail: feabrucio@aol.com
ISTOÉ | BRASIL | 17/11/2003
Pisando no
gelo