FOLHA DE S. PAULO
10/03/2007 Lacerda fica mais três meses no comando da PF
10/03/2007
Americano toca e dança em entidade, onde até crianças
foram revistadas pela polícia
10/03/2007 Laura Bush ouve poema, samba e história
O GLOBO
10/03/2007 Prédio da PF tem projeto aprovado
10/03/2007 Mistura de marketing e caldo de cana
CORREIO BRAZILIENSE
10/03/2007 Primeira-dama se emociona com crianças
10/03/2007 Cana, Filé e Ganzá
10/03/2007 Resistência americana
ÉPOCA
10/03/2007 Votos a R$ 100?
10/03/2007 Os terroristas estão aqui?
O ESTADO DE S. PAULO
10/03/2007 Sala de aula tem dia de ‘classroom’
FOLHA DE S. PAULO
Lacerda fica mais três meses no comando da PF
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O diretor-geral da Polícia Federal, delegado Paulo Lacerda, ficará no cargo por pelo menos mais três meses. O prazo foi definido depois que o presidente Lula avisou ao ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) que ele irá suceder Márcio Thomaz bastos no Ministério da Justiça, cuja estrutura abriga a PF. Definido o chefe na estrutura, confirmou-se a permanência de Lacerda, que até o ano passado estava decidido a deixar o cargo como Bastos.
Americano toca e dança em entidade, onde até crianças foram revistadas pela polícia
DA REPORTAGEM LOCAL
Cercado por cem crianças e adolescentes da ONG Meninos do Morumbi,
o presidente dos EUA, George W. Bush, arriscou tocar ganzá (espécie
de chocalho) e ensaiou alguns passos de dança com a primeira-dama americana,
Laura, embalados pela canção "Aquarela do Brasil",
de Ary Barroso.
O casal aplaudiu quando, durante a demonstração da banda, duas
meninas saltaram de suas cadeiras e começaram a dançar para
eles.
Antes, Bush e Laura visitaram uma oficina de informática -já
premiada por entidade dos EUA. O dois conversaram com 20 adolescentes que
participam do programa.
A sala de dança da entidade foi usada para abrir uma mesa-redonda com
Bush, coordenadores do projeto e algumas crianças. "Eu acredito
na construção de uma sociedade baseada na compaixão e
creio que você pode mudar a sociedade [tocando] um coração
de cada vez", afirmou Bush, segundo informações da Agência
Brasil.
A visita foi acompanhada pela secretária de Estado norte-americana,
Condoleezza Rice.
Por meio dos agentes do consulado, o presidente e a primeira-dama foram presenteados
com um CD da banda, uma camiseta do projeto, um tamborzinho decorativo e duas
esculturas de ferro -também produzidas pela ONG.
Até criança
Nem as crianças e adolescentes que participaram da apresentação
organizada para o casal Bush se livraram de passar pela revista da Polícia
Federal, montada na entrada do prédio da entidade.
Em fila, os participantes da Meninos do Morumbi, de oito a 14 anos, se apresentaram
para uma funcionária do consulado, que conferiu os nomes e os encaminhou
aos agentes da PF. De braços abertos, foram revistados com detector
de metal manual. Cada revista durava em torno de dez segundos.
Segundo a PF, a revista de todas as pessoas, independentemente da idade, faz
parte da segurança do presidente.
Às 17h34, após deixar o prédio da ONG Meninos do Morumbi,
Bush e sua comitiva foram vaiados por moradores que foram proibidos de entrar
no bairro. O presidente norte-americano ainda acenou para os manifestantes.
Só depois que Bush deixou o prédio da entidade, o trânsito
foi liberado para as pessoas. A frota de carros foi escoltada por três
helicópteros.
O presidente norte-americano e sua comitiva seguiram direto para o aeroporto
internacional de Guarulhos, rumo ao Uruguai, onde continua a viagem pela América
Latina.
Laura Bush ouve poema, samba e história
Em visita a duas ONGs, primeira-dama dos EUA assiste a aula de mentirinha de alfabetização da AlfaSol e não fala com jornalistas
Na Cidade Escola Aprendiz, sob um sol de 34ºC, Laura sorriu para as crianças, conversou um pouco, mas não tocou em nenhuma
LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL
Uma aula de mentirinha foi montada na manhã de ontem no Jardim Paulista,
área nobre de São Paulo. O objetivo era mostrar para Laura Bush
como funciona um dos mais bem-sucedidos programas mundiais de alfabetização,
o Alfabetização Solidária (AlfaSol).
A atividade era parte da agenda oficial da primeira-dama americana na cidade.
Professora e bibiliotecária por formação, Laura Bush
quis conhecer, além do AlfaSol, outra ONG do campo educacional: a Associação
Cidade Escola Aprendiz.
Terninho cinza com pespontos vermelhos, brincos vermelhos, colar de contas
vermelhas, batom vermelho combinando, tudo arrematado por escarpins de couro
pretos, Laura Bush chegou às 10h à AlfaSol.
Depois de conversar com a direção da ONG, a primeira-dama foi
conduzida a uma sala, onde se encontrou com oito anfabetizados, todos na casa
dos 50 anos, negros e pardos, oriundos de Estados nordestinos e de Minas Gerais,
e com dois alfabetizadores, que simulariam uma aula do programa.
"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. As aves que aqui
gorjeiam não gorjeiam como lá", a "Canção
do Exílio", de Gonçalves Dias, foi lida em uníssono.
Fundado por Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,
o AlfaSol completou dez anos e soma 5,3 milhões de alunos atendidos
em 2.088 cidades.
Os oito jornalistas que acompanhavam o roteiro da visita estavam proibidos
de dirigir pergunta a Laura Bush.
Neusa Silva dos Santos, 53, baiana, vendedora de "comida afro-brasileira"
em São Paulo, como se apresentou, contou que escreveu um livro ainda
sem nome e atacou: "Eu gostaria muito que a senhora patrocinasse a publicação
dele", pediu, séria. Traduzida a mensagem, a primeira-dama riu.
De lá, o comboio com duas limusines, vans, jipões, ônibus,
carros da Polícia Federal e até uma ambulância, total
de 15 veículos, saiu rumo ao bairro da Vila Madalena, onde fica o Aprendiz,
ONG que aplica o conceito de educação comunitária. Chegou
às 11h20.
Doze crianças com idades entre cinco e sete anos, uma vestida de médico,
estetoscópio de brinquedo examinando uma boneca, outro com óculos
de aros coloridos sem lente e capacete de operário, mais alguns brincando
de casinha, foram apresentadas à primeira-dama. Estavam em um cercadinho,
sob sol forte, quase a pino. A temperatura era de 34ºC.
Laura Bush sorriu para as crianças, conversou pouquinho. Não
tocou em nenhuma. Gotinhas de suor porejavam no rosto da primeira-dama.
Ela foi então levada para o Café Aprendiz, do outro lado da
a rua cujo trânsito estava interrompido por homens da PM, da PF, do
Exército, além dos armários do Serviço Secreto
americano, terno e cabelo escovinha. Tinha também três grandalhões
de cabelos mais compridos e sem gravata -eram mulheres.
O grupo de chorinho Coisa Linda de Deus, no meio do caminho, tocava "O
Samba da Minha Terra", de Caymmi. Laura Bush foi em frente.
Ouviu a história da ex-menina de rua e ex-usuária de drogas
Esmeralda Ortiz. Sete anos no Aprendiz, Esmeralda abandonou as drogas e as
ruas, e se formou jornalista. No fim, a ex-menina de rua pediu a Laura Bush
uma pós em antropologia nos Estados Unidos. A primeira-dama ficou de
estudar.
Do outro lado da rua, o grupo de chorinho era entrevistado: Vocês apóiam
a intervenção americana no Iraque? "Somos contra."
Por que vocês não falaram isso para a primeira-dama? "E
pode falar?", respondeu um jovem. E o grupo continuou a tocar. Às
12h, Laura Bush voltou ao hotel.
O GLOBO
Prédio da PF tem projeto aprovado
Restauração de edifício tombado na Praça Mauá deve durar três anos
O secretário estadual de Cultura, Luiz Paulo Conde, e o diretor-geral
do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), Marcus Monteiro,
aprovaram ontem as modificações feitas pela Polícia Federal
no projeto de restauração e modernização da sede
da PF, na Praça Mauá. O projeto começa a ser analisado
depois de amanhã pelo Conselho Estadual de Tombamento, como determina
a lei. Essas modificações foram sugeridas pelo secretário
Conde, por Monteiro e por técnicos do Inepac logo após uma visita
que fizeram ao prédio da PF em janeiro deste ano.
Mistura de marketing e caldo de cana
Informais, Bush e Lula usam capacete da Petrobras e dispensam gravata
Aguinaldo Novo
SÃO PAULO. Um George W. Bush bem-humorado e informal - só de camisa azul, sem gravata e paletó, e com um capacete branco da Petrobras na cabeça - apareceu ontem cedo durante visita ao terminal de armazenamento e distribuição de combustíveis da Transpetro, subsidiária da Petrobras, em Guarulhos. Acompanhado do presidente Lula, que também deixou a gravata de lado, mas compôs o figurino com uma jaqueta bege com o brasão da República, Bush ouviu uma exposição sobre o processo de fabricação do álcool combustível a partir da cana-de-açúcar.
Ao examinar alguns tubos contendo combustível, Bush foi instado por Lula a cheirar o conteúdo de um deles. Era biodiesel. Um jornalista quis saber a opinião do presidente americano.
- Not so bad (não tão ruim) - disse.
A apresentação, que teve direito a caldo de cana, foi dividida em duas partes. A primeira aconteceu sob uma tenda branca refrigerada, que protegeu os dois presidentes do forte calor. Cerca de 20 pessoas participaram da conversa. Segundo relato de um deles, Bush fez perguntas sobre a evolução recente do mercado no Brasil e como é a formação de preços do etanol. Também quis detalhes sobre a produtividade dos produtores brasileiros.
Na parte seguinte, já fora da tenda, Bush e Lula vistoriaram cestas com produtos a partir dos quais é possível fabricar combustível, como mamona e soja, além de pedaços de cana-de-açúcar, e uma maquete de uma refinaria. Dois carros equipados com motor flex, fabricados pelas americanas General Motors e Ford, também estavam estacionados no local. Inicialmente, o cerimonial previa a simulação de abastecimento dos carros, mas isso foi vetado pela segurança de Bush.
Do lado de fora do terminal da Petrobras, bem em frente ao portal principal, cerca de 20 petroleiros organizaram uma manifestação contra a presença de Bush. Eles levaram ao ar um balão com cerca de três metros de diâmetro com os dizeres "Fora Bush" em português e inglês. Eles não foram incomodados pela forte segurança, que incluiu, além de agentes americanos e da Polícia Federal brasileira, soldados do Exército e três helicópteros.
CORREIO BRAZILIENSE
Primeira-dama se emociona com crianças
Périplo de Laura Bush inclui visita a projetos sociais com estudantes carentes. Ela dançou até forró
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Da Redação
A primeira-dama dos Estados Unidos, Laura Bush, se emocionou e chegou a chorar
ao ouvir as histórias de vida dos alunos da Alfabetização
Solidária (AlfaSol), durante uma visita ontem de manhã à
sede do projeto social. A organização não-governamental
ensina jovens e adultos a ler e escrever. Além de visitar a sede do
AlfaSol, no bairro dos Jardins, Laura Bush conheceu o projeto Cidade Escola
Aprendiz, na Vila Madalena, e caiu no samba ao lado do marido com as crianças
da iniciativa Meninos do Morumbi.
Laura Bush chegou à sede do Alfabetização Solidária por volta das 10h, cercada por um forte aparato de segurança. Dezenas de homens do Exército e da Polícia Federal se somaram aos seguranças da Casa Branca para evitar qualquer incidente. A pista da Marginal do Pinheiros, na região do Hotel Hilton, na Zona Sul de São Paulo, foi totalmente interditada por volta das 9h15 para a saída da comitiva da primeira-dama. Pouco antes da chegada dela ao bairro dos Jardins, policiais vistoriaram carros que estavam parados nas imediações do prédio do AlfaSol. Um automóvel chegou a ser retirado pela Polícia Federal.
A visita de Laura Bush à sede do Alfabetização Solidária durou cerca de uma hora. A primeira-dama conversou com representantes de empresas e universidades parceiras do projeto e declarou-se impressionada com a capacidade de articulação de parcerias da AlfaSol. Ela afirmou que esse é um dos motivos que explica o sucesso da iniciativa. Em seguida, acompanhou as atividades de uma sala de aula em funcionamento, conversando com 10 alunos e dois professores.
De acordo com Daniel Gonçalves, diretor de Relações Internacionais e Governamentais do AlfaSol, Laura Bush disse ter ficado impressionada com a capacidade da instituição de manter os alunos interessados na continuidade do processo educacional. “Quem aqui tem filhos?”, perguntou a primeira-dama aos alunos. E para aqueles que levantaram a mão, ela respondeu: “Essa experiência é muito importante e vai deixá-los muito orgulhosos de vocês.” Um aluno disse a ela que aprender a ler foi como se tivesse “passado a enxergar”. Em resposta, Laura sorriu e respondeu “muito bem”. Na saída, acenou para curiosos aglomerados em frente ao prédio, na Rua Pamplona.
Em seguida, Laura Bush seguiu para a Vila Madalena, na Zona Oeste de São Paulo, onde visitou a organização não-governamental Cidade Escola Aprendiz. Ela chegou ao local às 11h10 horas. Várias ruas foram fechadas. Durante uma hora, a primeira-dama conheceu os programas do Projeto Aprendiz, que tem o objetivo integrar a escola e comunidade, criando conexões entre os vários atores sociais. Praças, ateliês, lojas, cinemas, cafés e a vizinhança se transformam em salas de aula informais sintonizadas com os currículos escolares. “Adorei essa história de bairro-escola”, declarou.
À tarde, a primeira-dama foi ao encontro do marido e da secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice. Ela dançou ao som de ritmos brasileiros ao visitar a ONG Meninos do Morumbi. Foram recebidos com uma roda de capoeira e apresentações de música. O evento acabou às 17h30. Após deixar a ONG, Laura e George Bush seguiram para o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, de onde viajaram para o Uruguai, a segunda parada do giro de Bush pela América Latina.
Na visita a São Paulo, Bush conheceu o álcool brasileiro, se fartou em banquete e até tocou instrumento
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O presidente George W. Bush desembarcou em São Paulo às 20h05 quinta-feira e se dirigiu ao hotel Hilton Morumbi, na Zona Sul. O dia de ontem foi marcado por uma intensa agenda, que teve como ápice a visita às instalações da Transpetro, em Guarulhos (SP). Mas a rápida passagem pelo Brasil teve espaço para diversão. Bush se esbaldou no samba, ao conhecer uma organização não-governamental. O homem mais poderoso do mundo pareceu criança, ao tocar ganzá (espécie de chocalho).
09:40
FLORESTA NA AVENIDA
Depois de uma madrugada tranqüila, o presidente George W. Bush deixou
o hotel Hilton Morumbi às 9h40. Todo o complexo permaneceu cercado
e vigiado por soldados do Exército e policiais militares e civis, além
de agentes da Polícia Federal. Durante a passagem da comitiva, de 40
veículos, Bush acenou para curiosos. No caminho, foi surpreendido por
manifestantes fantasiados de árvores. Os ativistas, da organização
não-governamental Efeitoparalaxe, protestavam contra o desmatamento
da Amazônia e a proposta da companhia norte-americana de biotecnologia
Arkhos Biotech para comprar a floresta tropical brasileira (foto).
10:26
GARAPA? NO, THANKS!
Bush foi recebido às 10h26 no terminal da Transpetro, em Guarulhos,
com uma típica bebida brasileira: caldo de cana, ou garapa. No entanto,
segundo fontes presentes no evento, ele recusou o refresco. O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva havia chegado cerca de 10 minutos antes. Os petroleiros
não conseguiram ter acesso às instalações, mas
encontraram uma forma criativa para protestar. Um balão de 3m de diâmetro,
preso ao solo, trazia as expressões “Fora Bush” e “Bush
out”, em inglês (foto). Da tenda onde Lula e Bush se encontraram,
era possível avistar o balão. Depois de uma conversa reservada
na sala VIP improvisada, o líder brasileiro mostrou ao colega um pé
de cana-de-açúcar, de onde é extraído o álcool.
Em seguida, ambos foram verificar a tecnologia do carro flex (bicombustível).
Usavam capacetes de segurança da Petrobras e estavam acompanhados por
cerca de 200 empresários. Bush também manuseou um vidro com
etanol. Os dois líderes discursaram por 10 minutos.
13:55
VINHO BRASILEIRO NO ALMOÇO
Os dois presidentes se reuniram por 40 minutos no Hilton, em caráter
reservado. Lula e Bush almoçaram por volta das 13h55, acompanhados
dos ministros Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), Celso Amorim (Relações
Exteriores), Silas Rondeau (Minas e Energia) e do assessor especial da Presidência
da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia.
O governador de São Paulo, José Serra, também participou
do banquete. Do lado norte-americano, acompanhavam Bush a secretária
de Estado, Condoleezza Rice, a secretária de Comércio, Susan
Schwab, e assessores. No cardápio, salada de legumes com camarão,
filé mignon ao molho com champignon, manga e musse de maracujá,
além de vinho brasileiro. O encontro não pôde ser filmado
ou fotografado, e os jornalista ficaram isolados em outra área do hotel.
Por volta das 15h20, os dois chefes de Estado participaram de uma entrevista
conjunta. Ao final da sabatina, Bush fez uma piada com os jornalistas americanos
e pediu que tomassem cuidado com os bares da capital paulista.
16:43
NA CADÊNCIA DO SAMBA
Acompanhado da primeira-dama, Laura Bush, e da secretária de Estado,
Condoleezza Rice, Bush chegou à ONG Meninos do Morumbi depois das 16h.
No local, participou de uma mesa redonda com integrantes do projeto, que trabalha
a música como alternativa às drogas e à delinqüência
juvenil de 4 mil crianças provenientes de favelas da região.
Bush se disse encantado com o programa social. “Podemos transformar
a sociedade com atitudes solidárias como essa. É um lugar lindo,
com almas também lindas”, afirmou. Pouco depois, o presidente
norte-americano deixou o protocolo de lado e caiu no samba durante uma apresentação
no local. Laura Bush dançou forró com um dos meninos beneficiados
pelo projeto. Às 18h39, o avião Air Force One decolou do Aeroporto
Internacional de Guarulhos, com destino a Montevidéu. São Paulo
voltava ao normal.
Mariana Mainenti
Da equipe do Correio
O encontro de ontem entre os presidentes dos Estados Unidos, George W. Bush, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi positivo do ponto de vista político — mas, comercialmente, nem tanto. Essa é a avaliação que fazem analistas ouvidos pelo Correio, com base na declaração conjunta feita por Bush e Lula em São Paulo. “Acho que o encontro foi bom. Os dois países estão num ponto ótimo de suas relações políticas. Mas, na área comercial, embora os discursos sejam também positivos, na prática as questões não andam. A dimensão disso é revelada pela falta de avanço real em relação às negociações de Doha e às barreiras ao álcool brasileiro nos Estados Unidos”, afirmou a professora de Relações Internacionais da Unibero-SP Cristina Pecequilo.
A analista lembrou, no entanto, que o Brasil ainda tem uma chance de tentar reverter esse quadro na próxima visita de Lula aos Estados Unidos, dia 31. “Vamos ver se Lula consegue fazer essas questões andarem durante sua viagem aos EUA, daqui a três semanas”, acrescentou a acadêmica. Mas as perspectivas são ruins. “Convencer Bush é uma coisa, que ele tenha poder sobre isso é outra. Bush não tem poder de reduzir a tarifa imposta ao álcool brasileiro. Só o Congresso pode fazer isso. E o Parlamento deve, pelo contrário, tirar dele em breve o poder de empreender negociações comerciais. Por isso, acho até mais fácil fazer com que o governo alemão tente convencer os europeus a cortar subsídios do que levar Bush a conseguir o mesmo nos EUA”, declarou David Fleischer, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília.
O analista também lembrou que a passagem por São Paulo foi boa para o norte-americano. “Dentro do possível, o encontro foi razoável. Acho que a vinda ao Brasil ajudará Bush, que está com a popularidade baixa. Os temas abordados foram bons para o público norte-americano, como biocombustíveis e meio ambiente, e o Brasil se encaixa muito bem nesse cenário”, explicou Fleischer.
Flexibilidade
Phillip McLean, do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, de
Washington, é mais otimista quanto a progressos nas negociações
sobre Doha. “É importante lembrar que os Estados Unidos têm
sido sempre mais flexíveis que a Europa. Tanto nos EUA como na Europa,
os interesses agrícolas têm poder político desproporcional.
Mas, para os negociadores europeus, a Política Agrícola Comum
torna tudo mais difícil, porque é essa política que mantém
a União Européia unida”, afirmou McLean, acrescentando
que o Brasil deve aproveitar as brechas que se abrirem com uma mudança
na legislação norte-americana. “A lei dos EUA sobre a
agricultura será renovada neste ano e, com os agricultores favorecidos
pelo atual clima econômico, há espaço para reformas.”
Os analistas enfatizam ainda que, embora não tenha se referido diretamente ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, Bush incluiu uma mensagem subliminar ao seu inimigo político no discurso de ontem. “Bush está tentando diminuir a influência de Chávez no continente. Os Estados Unidos sempre afirmam que a Venezuela não é uma democracia. Quando ele elogia a democracia brasileira, isso é um código cifrado para bater na Venezuela”, disse Fleischer.
“Hugo Chávez é, obviamente, uma preocupação dos Estados Unidos. Mas note que, em seus discursos recentes, Bush não menciona Chávez, nem terrorismo, nem drogas, mas fala sobre as necessidades dos pobres e o que os Estados Unidos poderiam fazer para ajudar a maioria dos latino-americanos que não vivem em boas condições”, concorda McLean.
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Mudanças no trânsito
Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio
Pelo segundo dia consecutivo, o paulistano teve a impressão de ser
protagonista de um filme de Hollywood. Ruas interditadas, homens vestidos
de preto e soldados fortemente armados mudaram a rotina da metrópole.
Os bloqueios para a passagem da comitiva do presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush, começaram logo após o amanhecer. Por volta das
7h, helicópteros militares passavam em vôos rasantes na Zona
Sul, próximo ao hotel Hilton Morumbi. No total, 90km de vias tiveram
o fluxo de veículos interrompido. Ainda assim, os técnicos da
Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) não notaram grandes
pontos de estrangulamento no trânsito de São Paulo, e o congestionamento
ficou na média de sexta-feira.
“A chuva aqui é bem mais nefasta do que Bush”, disse ao Correio o empresário Marcos Bentes, de 43 anos, morador do bairro do Morumbi. “Mas, como o trânsito estava ruim, tive de buscar alternativas nas ruas menores de São Paulo.” Pela manhã, 200 manifestantes interromperam por uma hora a Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, onde o presidente ficou hospedado. Prejudicados, os motoristas realizaram um buzinaço. Diante da presença do homem mais poderoso do mundo na cidade, algumas pessoas preferiram adotar a cautela como estratégia para evitar atrasos no trabalho. “Como boa paulistana, me precavi e sai às 7h para o escritório, a fim de não pegar trânsito. Como só trabalho quatro horas, voltei às 11h e não sofri com congestionamentos”, relatou a médica veterinária Alida Catelli, de 27 anos, moradora do Jardim Paulista. Ela garantiu que até sentiu a cidade mais tranqüila, talvez porque muitos tivessem preferido ficar em casa.
Paciência
O trânsito só ficou mais pesado às 19h, minutos depois
que o Air Force One — o avião presidencial com sistema antimísseis
— levantou vôo em Guarulhos (SP), levando Bush e sua parafernália
de segurança. Naquele horário, a CET registrou 144km de congestionamento,
pouco acima dos 132km de média. Resultado: motoristas e passageiros
de ônibus tiveram de ter paciência ontem à noite. O engenheiro
André Antônio Dantas, de 42 anos, mora no bairro Liberdade e
tem uma empresa em Santa Efigênia, no centro de São Paulo. Os
seis quilômetros que separam sua casa da firma normalmente são
percorridos de ônibus em meia hora. “Ontem, perdi só nessa
viagem pelo menos uma hora e meia. Deveria ter chegado em casa às 18h30,
mas só consegui às 20h”, afirmou. “Quando meu ônibus
chegou, estava atrasado. Motorista e cobrador, nervosos. Depois, o carro lotou
até ficar como uma lata de sardinha.”
A zona de segurança havia sido montada num raio de 40km entre o Hilton e a sede da Transpetro, onde Bush conheceu o etanol brasileiro. Se os números do CET eram relativamente tranqüilos, quem mora no Brooklin — na Zona Sul — sentiu num estado de sítio. Nenhum carro pôde estacionar durante todo o dia de ontem nas ruas vizinhas ao Hilton. Para entrar em algumas das vias, só com o nome cadastrado pela Polícia Federal e depois de uma minuciosa revista. Proteção para um homem só.
ÉPOCA
A Polícia Federal acusa governador e senador eleitos em Rondônia
de comprar quase mil eleitores
Leandro Loyola
O Brasil é considerado um dos países mais avançados do mundo na tecnologia de realizar eleições. A urna eletrônica é exportada para vários países e as contas de campanha estão disponíveis na internet. Quando o assunto são as práticas dos políticos, porém, o atraso parece persistir. A Justiça Federal examina uma denúncia, com base em investigação da Polícia Federal, de que o governador Ivo Cassol e o senador Expedito Júnior, ambos do PR (novo nome do antigo PL), teriam se beneficiado de um esquema de compra de votos na eleição de 2006, em Rondônia. Segundo as denúncias, as candidaturas de Cassol e Expedito seriam responsáveis por subornar 959 funcionários de uma empresa, ao preço de R$ 100 cada voto.
A empresa é a Rocha Segurança, companhia de vigilância privada pertencente a Irineu Ferreira, irmão do senador Expedito. Ela mantém contratos de prestação de serviços de mais de R$ 8 milhões anuais com o governo Cassol. No ano passado, cinco vigilantes da Rocha denunciaram à PF ter recebido dinheiro em troca da promessa de votar na coligação comandada por Cassol. Expedito e Cassol são muito ligados: os dois eram candidatos pelo PPS e, depois de eleitos, mudaram para o PR. Além do governador, a coligação incluía o senador, sua mulher, Valdelise Martins dos Santos, candidata a deputada Federal, e seu irmão José Antônio Gonçalves Ferreira, candidato a deputado estadual. Valdelise e José Antônio não se elegeram.
"Tive três mandatos de deputado Federal e nunca precisei recorrer à compra de votos", afirma o senador Expedito Júnior. Procurado por ÉPOCA, o governador Ivo Cassol não comentou a acusação. De acordo com sua assessoria, ele estava em viagem ao interior do Estado, numa região sem possibilidade de comunicação. Sua assessoria de imprensa afirma que Cassol era líder disparado nas pesquisas e não precisava comprar votos, por isso está interessado na apuração para provar sua inocência.
De acordo com a investigação da Polícia Federal, um mês antes da eleição de 2006, dois funcionários da Rocha Segurança ofereceram dinheiro a vários vigilantes em troca de votos. Cada um recebeu santinhos com o nome dos candidatos e teve de assinar um falso contrato de prestação de serviço - um recurso para justificar o pagamento à Justiça Eleitoral. Dois dias antes da eleição, segundo a PF, mais de 900 funcionários da Rocha receberam os prometidos R$ 100 cada um. A PF comprovou que mais de 300 deles receberam o suposto suborno em contas no Bradesco e no Banco do Brasil. O golpe teria sido flagrado pelas imagens das câmaras de segurança dos caixas eletrônicos do Banco do Brasil. Por meio delas, os policiais identificaram Sidney Matos Lima e seu irmão Sidcley, que faziam os depósitos em envelopes.
Sidney é funcionário do Instituto de Pesos e Medidas (Ipem) de Rondônia, em cargo nomeado pelo governador Ivo Cassol. De acordo com a PF, o dinheiro vivo teria sido passado a ele pelo diretor do Ipem, José Robério Alves Gomes, que foi coordenador financeiro da campanha de Expedito Júnior ao Senado. Procurados por ÉPOCA, Sidney e Sidcley não quiseram falar. José Robério não foi localizado.
No mês passado, os cinco vigilantes que fizeram a denúncia inicial e suas famílias sumiram de Porto Velho. Eles foram incluídos no Programa de Proteção à Testemunha do governo Federal, porque houve denúncias de que eles vinham sendo ameaçados. Três vigilantes disseram que dois policiais civis do Estado rondaram suas casas com uma caminhonete branca e os intimaram a prestar depoimento na Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio. Queriam que as testemunhas desmentissem o que já haviam declarado à PF.
O vigilante Ednaldo de Souza Mota disse à PF que a casa de seus pais foi atingida por três tiros. Outro vigilante, Joelson Picanço Lima, relatou mais ameaças. Segundo Picanço, policiais lhe sugeriram que "maneirasse" no novo depoimento. "Vocês são cinco formiguinhas, enquanto o homem é um trator, que pode passar por cima de vocês e não acontece nada com ele", teriam dito os policiais, segundo Lima.
Todos os envolvidos no caso foram denunciados pelo Ministério Público Eleitoral de Rondônia ao Tribunal Regional Eleitoral do Estado. Em última instância, se forem condenados, Ivo Cassol e Expedito Júnior podem perder o mandato. Uma denúncia criminal contra os dois também foi encaminhada a tribunais superiores. Por ser senador, Expedito Júnior tem foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal (STF). O caso de Cassol foi enviado para o Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O caso de Rondônia é um exemplo concreto de uma ocorrência comum que foi medida por uma pesquisa divulgada no mês passado pela ONG Transparência Brasil. De acordo com o levantamento, feito pelo Ibope a pedido da entidade, nos últimos quatro anos quase triplicou a proporção de eleitores que admitem ter recebido propostas para vender o voto. Em 2002, esse número equivalia a 3% dos entrevistados. No ano passado, era de 8%.
É difícil dimensionar o fenômeno. Eleitores costumam esconder o fato. E esquemas de compra de voto são discretos. Um exemplo ocorreu no Espírito Santo. Uma empresa simulava uma pesquisa eleitoral e avisava a comunidade de que os benefícios dados por uma entidade vinculada a um candidato continuariam se ele recebesse um certo número de votos na região. Os dados seriam checados nos mapas de votação, após as eleições. "Os esquemas são variados, criativos", diz Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da Transparência Brasil. Com ou sem sofisticação, tais armações só atestam que a mais moderna tecnologia eleitoral também pode estar a serviço do atraso.
ÉPOCA foi investigar quem são os homens que os EUA acusam de
financiar o terrorismo na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina
A segurança de Mohamed Tarabain Chamas intimida. Para chegar à
sala dele, é preciso ultrapassar uma barreira de homens armados com
pistolas e escopetas - ÉPOCA contou dez pelo caminho. Nem parece que
vamos ao encontro de um negociante, o administrador da Galeria Pagé,
prédio comercial de cinco andares e 165 lojas no centro de Ciudad del
Este, cidade paraguaia vizinha a Foz do Iguaçu. Pode-se argumentar
que a segurança ostensiva é comum nos centros de compra paraguaios.
Para quem acabou de chegar do Brasil, o cenário parece dar razão
ao governo dos Estados Unidos, país onde Chamas está proibido
de entrar. Ele é acusado pelas autoridades americanas de ser responsável
pela contra-informação da organização islâmica
libanesa Hezbollah - o Partido de Deus - na região que separa Brasil,
Paraguai e Argentina, mais conhecida como Tríplice Fronteira.
De acordo com o governo de Washington, a Galeria Pagé, administrada por Chamas, seria uma espécie de ninho do terror islâmico na região. De lá, Chamas faria contatos freqüentes com radicais islâmicos no Irã e no Líbano. Com voz baixa e pausada, Chamas tenta desfazer a má impressão assim que se chega a sua sala. Diz que seu esquema de segurança é proporcional à ineficácia da Polícia local. "Temos de dar segurança aos lojistas. Trabalhamos com mercadorias. O dinheiro circula", afirma. Ele e outros oito muçulmanos radicados no Brasil e no Paraguai são acusados pelo governo dos EUA de financiar o terror islâmico. O nome deles aparece em um relatório do Departamento do Tesouro americano, entregue em dezembro do ano passado a autoridades brasileiras, paraguaias e argentinas. De acordo com o documento, Chamas e os demais suspeitos levantariam dinheiro por meio do contrabando, do tráfico de drogas e de armas, da falsificação de dólares e de passaportes. O lucro desses crimes ajudaria a bancar as atividades de grupos terroristas do Oriente Médio.
Há muito tempo Washington encara com desconfiança as comunidades muçulmanas de Foz do Iguaçu e de Ciudad del Este e tenta convencer os governos da região de que o terror não é coisa de outro continente. Até hoje não se descobriu nenhuma célula terrorista na Tríplice Fronteira. Ela seria, segundo os americanos, um refúgio para terroristas procurados, onde eles encontrariam abrigo e conseguiriam documentos falsos para viajar. Também seria um dos centros de coleta de recursos para financiar grupos radicais como o Hezbollah, organização fundada em 1982 para resistir à ocupação israelense do Líbano e considerada terrorista pelo governo de países como Estados Unidos ou Inglaterra - o Brasil considera o Hezbollah um partido político e um movimento de resistência. As suspeitas de presença de terroristas na Tríplice Fronteira envolvem não apenas o Hezbollah, mas também organizações como a Irmandade Muçulmana egípcia e até mesmo a Al Qaeda, rede comandada por Osama Bin Laden, que assumiu a responsabilidade pelo ataque às torres gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001.
Sabe-se que, em 1995, Khalid Shaikh Mohammed, um dos mentores dos ataques de 11 de setembro, passou cerca de 20 dias no Brasil para visitar integrantes da comunidade muçulmana de Foz do Iguaçu. Lá, teria ajudado a fundar uma entidade beneficente que seria financiadora da Al Qaeda. Capturado no Paquistão, hoje ele está preso na base americana de Guantánamo, vizinha a Cuba. Em 1996, a Polícia brasileira descobriu que o libanês Marwan Al Safadi, perito em explosivos acusado de participar em 1993 do primeiro atentado ao World Trade Center, em Nova York, vivia em Foz do Iguaçu. De lá, Safadi fugiu para o Paraguai, onde foi preso e depois extraditado para os EUA.
Esse tipo de história mostra por que a questão da Tríplice Fronteira foi um dos itens mais sensíveis na agenda da visita do presidente George W. Bush ao Brasil durante a semana passada. Não estava na pauta pública, dominada pelo etanol e pela busca de um acordo energético na área de biocombustíveis. Era, porém, um tema fundamental nas conversas reservadas entre diplomatas dos dois países. A Tríplice Fronteira tornou-se foco das preocupações dosEUA depois dos ataques de 11 de setembro. A posição do governo brasileiro - invariável sob Lula ou Fernando Henrique Cardoso - tem sido negar a presença na região de terroristas e a existência de uma rede de financiamento ilegal de grupos extremistas. As Polícias brasileira, argentina e paraguaia acompanham a movimentação de imigrantes muçulmanos na região desde que a Embaixada de Israel em Buenos Aires foi alvejada por um carro-bomba, em 1992, num atentado que matou 29 pessoas e feriu mais de cem. Imaginava-se, na época, que na Argentina já havia uma rede terrorista articulada, fato confirmado dois anos depois num segundo atentado em Buenos Aires, contra a Associação Mutual Israelita Argentina, que provocou a morte de 86 pessoas. Autoridades argentinas já afirmaram publicamente ter indícios de que os responsáveis pelos dois atentados tenham entrado no país pela região da Tríplice Fronteira.
E o Brasil? Estará livre de tragédias desse tipo? As acusações das autoridades americanas fazem algum sentido ou são pura fantasia, movidas apenas pelos interesses geopolíticos dos EUA no Oriente Médio? É verdade que o governo americano está naturalmente inclinado a potencializar o risco de terror em todo o mundo, por isso essas acusações devem ser vistas com cautela. Também é justificável a preocupação do Brasil em evitar a demonização de uma região e de uma comunidade de cerca de 700 mil pessoas, formada em sua maioria por gente respeitável. Mas até que ponto, ao crer que o Brasil seria um porto seguro livre de atentados, não estamos sendo ingênuos?
Para responder a essa pergunta, ÉPOCA conversou nas últimas três semanas com autoridades brasileiras, paraguaias e americanas sobre a suposta presença de bases de apoio ao extremismo islâmico na Tríplice Fronteira. Procurou os nove homens citados no relatório do Tesouro americano, seus parentes e amigos para discutir as denúncias contra eles (leia o quadro na sequência da matéria).
Chamas, o administrador da Galeria Pagé, aparenta tranqüilidade quando comenta as acusações. Recebeu ÉPOCA para conversar e aceitou posar para fotos montado em sua moto. Afirmou não ter nada a esconder. Disse ser um cidadão típico da comunidade árabe. Sobre sua mesa de trabalho, um exemplar do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, um aparelho de fax, um telefone fixo, o celular e um computador. Um monitor de vídeo reproduz as imagens do circuito interno de TV da Galeria Pagé. Na sala de reuniões ao lado, há uma máquina de café e uma TV de 29 polegadas geralmente sintonizada nos canais de notícias árabes Al Jazeera e Sirian Channel.
Nascido no Paraguai, Chamas afirma ter vindo com 1 mês de vida para o Brasil, onde se naturalizou. Conta que estudou em colégio católico até os 12 anos, quando a mãe decidiu mandá-lo ao Líbano para adquirir costumes muçulmanos. Foram dois anos de idas e vindas até ele estabelecer-se na Tríplice Fronteira. Chamas diz ser formado em Administração e afirma que trabalhou na loja de calçados do pai em Foz do Iguaçu, até assumir a administração da Galeria Pagé, há 18 anos. Fluente em português, árabe e guarani, ele diz falar os idiomas estrangeiros somente no horário de trabalho. "Nos fins de semana, só converso em português", afirma.
Chamas diz ter três irmãos, nenhum deles seguidor das tradições muçulmanas. Ele próprio diz ser um homem religioso. Sua rotina, segundo seu relato, começa com a leitura dos jornais no café-da-manhã. Depois ele diz recolher-se todo dia durante dez minutos para rezar antes de sair para o trabalho. Nas noites de quinta-feira, afirma freqüentar a mesquita de Foz do Iguaçu, onde ora por cerca de 40 minutos. Eventualmente, diz visitar a mesquita de Ciudad del Este às sextas-feiras. No ramadã, o jejum de aproximadamente 30 dias consagrado ao Alcorão, afirma seguir à risca as proibições da religião muçulmana. Entre as 5 horas e o pôr-do-sol, diz abster-se de água e comida. Para forrar o estômago, diz levantar-se às 4 da manhã, a tempo de um café-da-manhã à base de coalhada, queijos e chás sem açúcar, para evitar a sede depois que o dia nasce. À noite, sopas, saladas, peixes, lasanhas e muitos doces.
Em contraste com o pesado esquema de segurança na Galeria Pagé, Chamas diz que faz o percurso sozinho, de moto, na ida e na volta do trabalho. Às 8h30 está no escritório, de onde afirma sair por volta das 15 horas. Em casa, onde mora com a mulher libanesa e os quatro meninos nascidos no Brasil, conta que faz uma refeição rápida e dorme até o fim da tarde, antes de acompanhar Hussein, de 15 anos, à academia. O pai fala com orgulho do filho, hexacampeão paranaense e campeão brasileiro infantil de tae kwon do em 2005. Nos próximos meses, o garoto vai disputar três seletivas para o campeonato pan-americano de tae kwon do, previsto para este ano nos EUA. Acostumado a assistir às lutas do filho, Chamas não poderá acompanhá-lo caso Hussein conquiste a vaga. "Seria uma das maiores alegrias ver meu filho nessa competição. Mas estou proibido de entrar em território americano", diz.
Ele nega todas as acusações feitas pelo governo americano. Diz que não atua na contra-inteligência do Hezbollah. Afirma que não tem contato com a milícia islâmica e nunca transportou dinheiro para o Oriente Médio. Reconhece apenas a simpatia pelo Hezbollah, sentimento que diz ser comum à maioria dos 15 mil libaneses ou descendentes que vivem na região. "O Hezbollah é muito forte financeiramente. Você acha que eles dependem do dinheiro de comerciantes do Paraguai?", pergunta. É verdade que o grupo libanês tem fontes de recursos mais robustas, como os petrodólares iranianos. No rastreamento de remessas de dinheiro da região para o Oriente Médio, porém, o governo americano afirma ter identificado o envio de US$ 150 milhões ao Hezbollah, segundo noticiou o jornal O Globo na semana passada.
Outro dos acusados pelos americanos, o libanês Mohamad Fayez Barakat, foi seqüestrado na terça-feira 6, em Foz do Iguaçu. Seu carro foi abandonado no meio de uma rua de Ciudad del Este. Amigos de Fayez disseram a ÉPOCA que os seqüestradores pediram US$ 3 milhões para libertá-lo. No dia seguinte, reduziram o valor do resgate para US$ 1 milhão. Antes de ser seqüestrado, Fayez havia se recusado a falar com ÉPOCA. Segundo o governo americano, Fayez, hoje, seria tesoureiro do Hezbollah na região da Tríplice Fronteira. Ele é dono da loja Big Boss, na Pagé, onde são vendidos equipamentos eletrônicos no atacado, e é apontado pela colônia árabe como um dos empresários mais ricos de Ciudad del Este. Fayez é primo do libanês Assad Ahmad Barakat, preso pela Polícia Federal em 2002 e extraditado para o Paraguai, onde cumpre pena de seis anos por envolvimento com organização criminosa e sonegação de impostos. Segundo o governo dos Estados Unidos, Barakat seria o chefe da coleta de recursos destinados ao Hezbollah na região da Tríplice Fronteira. Na semana passada, O Globo publicou trechos de uma carta do líder máximo do Hezbollah, o xeque Hassan Nasrallah, ao clã Barakat. Na carta, Nasrallah agradece a colaboração com o programa da milícia de "proteção dos filhos dos mártires". Tal dinheiro é destinado, em geral, às famílias dos homens-bomba usados em ataques terroristas.
Os nove acusados no relatório do Tesouro americano seriam todos ligados ao clã Barakat. No relatório americano também são denunciados dois irmãos de Assad: Hatim Ahmad Barakat, de 45 anos, e Hamzi Ahmad Barakat, de 48. Segundo os americanos, Hamzi é suspeito de traficar drogas, armas e explosivos e falsificar dólares. De acordo com investigadores brasileiros, ele se mudou de Ciudad del Este para Curitiba, onde seria revendedor de telefones celulares. Os americanos afirmam ainda que o irmão Hatim captaria recursos para o Hezbollah na Tríplice Fronteira e no Chile. Ele foi detido no início de 2006 no Paraguai, acusado de sonegação de impostos, e está em prisão domiciliar em Ciudad del Este. Outro acusado pelos americanos é Farouk Omairi. Ele faria parte de uma rede de narcotraficantes e teria conseguido ilegalmente a cidadania brasileira. Farouk está foragido. Há contra ele um mandado de prisão expedido pela Justiça brasileira por falsificação de documentos.
Além de Chamas, ÉPOCA conversou com mais dois dos acusados. Um é o libanês Saleh Mahmoud Fayad, acusado pelos americanos de trabalhar na contra-inteligência do Hezbollah na Tríplice Fronteira, de arrecadar dinheiro para a milícia e de ter se encontrado com lideranças terroristas no Líbano e na Síria. Ele disse nunca ter se encontrado com lideranças da milícia libanesa. Não quis falar se viajou ou não para os dois países. Fayad afirma que faz remessas mensais de US$ 300 ao Líbano para ajudar sua mãe, de 55 anos, e seu pai, de 64.
Natural de Beirute, Fayad conta que se mudou para o Paraguai com 16 anos. Ele conversou com ÉPOCA na própria Galeria Pagé. Vestia uma camisa azul, calça jeans e meias - durante a conversa, o tênis ficou embaixo da mesa de trabalho, na loja New Pagé. Atrás da mesa, um desenho com caneta hidrográfica do personagem de desenho animado Homer J. Simpson. Fayad atende telefonemas em português, árabe e guarani. Embora diga não saber ler nem escrever em nenhum dos idiomas, maneja com destreza a calculadora e o computador antigo, modelo 386, de tela escura e letras verdes. Negocia principalmente aparelhos de DVD e microsystems, a maioria "made in China", que forram a estante. A seu lado, um técnico em eletrônica conserta os aparelhos trazidos pelos clientes. Ele diz achar graça quando o acusam de ser um operador do grupo islâmico. Usa o mesmo argumento de Chamas. "O Hezbollah tem muito dinheiro. Se eles quiserem, compram o Paraguai. Imagina se nós os financiamos", afirma.
Fayad foi preso pela Polícia paraguaia em outubro de 2001, um mês depois do ataque às torres gêmeas de Nova York, sob suspeita de terrorismo. "Fui solto porque não tinham nada contra mim", diz. "Sabe por que eles não têm nada? Porque sou um simples comerciante que estava no lugar errado, na hora errada, com barba na cara." Ao ser preso, Fayad estava na Galeria Pagé diante de uma das lojas de Assad Barakat. Segundo ele, nos nove meses de cadeia não prestou sequer um depoimento. "Não conseguimos provas do envolvimento dele com o terrorismo", afirma Augusto Lima, chefe de Relações Públicas da Polícia Nacional do Paraguai.
O terceiro acusado que aceitou receber ÉPOCA foi Ali Mohammad Kazan, diretor da Escola Libanesa Brasileira de Foz do Iguaçu. De acordo com Washington, ele seria o sucessor de Barakat no comando político da célula do Hezbollah na Tríplice Fronteira. Também é acusado de levantar fundos para o movimento. "Temos informações de que, no fim de agosto, Kazan ajudou a arrecadar mais de US$ 500 mil para o Hezbollah", disse em dezembro o secretário-assistente do Tesouro americano sobre Financiamento ao Terrorismo, Patrick O"Brien. Kazan seguramente recebeu dinheiro da comunidade árabe de Foz do Iguaçu. Mas, segundo a versão de comerciantes libaneses da cidade, os recursos foram aplicados na construção da escola.
Com mulher e quatro filhos, Kazan passa o dia na escola, um prédio construído em 2001, cuja arquitetura tem evidente inspiração islâmica. Os alunos se vestem como em qualquer colégio, com bermudas e camisetas. Algumas meninas usam xador, o véu que encobre a cabeça. Libanês naturalizado brasileiro, Kazan recebeu ÉPOCA no gabinete da diretoria da escola, uma sala ampla com duas mesas. Não quis dar entrevista sobre o que qualificou como "denúncias mentirosas" do governo americano. Ele é acusado de viajar com freqüência para o Líbano desde 2001, onde receberia orientações diretamente de Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah. "Podem falar o que quiserem, não estou nem aí", afirma Kazan. "Só tenho interesse em saber sobre meu governo, sobre o presidente Lula e sobre o que se passa aqui."
O empresário libanês naturalizado paraguaio Mohamad Youssef Abdallah, de 54 anos, é mais um acusado pelos americanos de ser líder do Hezbollah e um dos principais financiadores na Tríplice Fronteira do movimento islâmico. Segundo as acusações, ele teria levado pessoalmente dinheiro para a milícia libanesa e também recebido ajuda do Hezbollah para manter a estrutura do grupo islâmico na América do Sul. Os americanos afirmam que ele é o verdadeiro dono da Galeria Pagé, e o governo americano bloqueou seus depósitos em bancos nos EUA. Segundo comerciantes de Ciudad del Este ouvidos por ÉPOCA, Abdallah não é mais proprietário da galeria. Ele teria vendido sua parte para construir um prédio com 19 andares no centro da cidade.
O que mais chama a atenção na propriedade de Abdallah é a mesquita xiita localizada à frente do edifício. Ele teria tentado angariar recursos na comunidade árabe para a construção da Mesquita del Profeta Mohammed, mas só teria conseguido doações de objetos como tapetes e cadeiras. Teve de bancar a obra sozinho. Comerciantes libaneses dizem que Abdallah, um sujeito baixo e rechonchudo, vive em constante luta para emagrecer. Todo dia, segundo esses comerciantes, ele vai a uma academia para caminhar numa esteira e nadar. Em fevereiro, ele negou em entrevista qualquer ligação com terroristas: "Não me envolvo com política, houve apenas uma confusão de nomes". Por quatro vezes, ÉPOCA tentou falar com Abdallah. Amigos do empresário afirmam que ele não quer mais falar com a imprensa.
Segundo se queixam as autoridades brasileiras, as acusações dos EUA sobre os supostos terroristas são frágeis e causam danos indevidos à região e às populações que lá vivem. Os responsáveis pelo setor de inteligência financeira afirmam também que as informações repassadas pelos americanos ao Brasil sobre supostos esquemas de lavagem de dinheiro são imprecisas. "Em Ciudad del Este e Foz do Iguaçu há pessoas que mandam dinheiro para o Oriente Médio? Com certeza. E integrantes das comunidades muçulmanas que vivem na França ou em São Francisco (EUA) não mandam?", disse a ÉPOCA Gustavo Rodrigues, presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão do governo Federal que centraliza as informações sobre movimentações financeiras atípicas. "As suspeitas levantadas pelo governo americano em relação à Tríplice Fronteira devem ser vistas também como uma forma de justificar os astronômicos gastos com contraterrorismo e o discurso do presidente George W. Bush de que o terror está em toda a parte", disse a ÉPOCA um graduado diplomata brasileiro.
A reação do governo brasileiro causa insatisfação em Washington. "Alguns governos adotaram uma atitude ingênua, tratando a arrecadação de recursos do Hezbollah como inocentes casos de remessas para familiares. Isso dificulta a conversa com esses países sobre a presença de grupos terroristas dentro de suas fronteiras", disse recentemente o secretário-assistente do Tesouro dos Estados Unidos, Patrick O"Brien, em clara referência ao Brasil. "Os argentinos são mais sensíveis ao tema", afirmou um diplomata americano a ÉPOCA. "Eles já sofreram atentado terrorista e sabem que o risco é real." As divergências entre o Brasil e os Estados Unidos ficaram explícitas na visita a Brasília feita há um mês pelo secretário de Justiça americano, Alberto Gonzáles. Na audiência com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, Gonzáles ouviu a reclamação de que agentes policiais americanos estariam tentando obter informações diretamente de Estados e municípios, sem a interveniência do governo Federal, como manda o pacto de cooperação antiterrorismo assinado por Estados Unidos, Brasil, Argentina e Paraguai. Gonzáles, segundo o relato obtido por ÉPOCA, não retrucou.
São conhecidas a porosidade das fronteiras brasileiras e a dificuldade que o governo brasileiro tem de controlá-las. Na Tríplice Fronteira, onde há um tráfego intenso entre Brasil, Paraguai e Argentina, a vulnerabilidade é ainda maior. O movimento diário na Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este, é de 50 mil pessoas. Do lado brasileiro, há um posto de controle da Receita e da Polícia Federal, mas a fiscalização de veículos e pessoas é feita por amostragem. Há muitos anos, passam pela ponte trabalhadores, turistas, muambeiros, sacoleiros e também drogas, armas e todo tipo de produto contrabandeado e pirateado que vai para as grandes cidades brasileiras.
Esse ambiente de pouco-caso com a lei fica explícito em Ciudad del Este. Lá estão concentradas as atividades comerciais na fronteira, por causa das restrições às importações impostas pelo Brasil e do clima mais liberal do Paraguai. O trânsito no centro da cidade de 350 mil habitantes é caótico. Nas ruas, o espaço é disputado pelo lixo, por mototáxis brasileiros, velhos táxis da marca Toyota, camelôs, barracas inundadas de produtos chineses baratos e bugigangas eletrônicas de todo tipo, além de milhares de pessoas com sacolas em punho. Nas ruas, não é comum avistar policiais. Homens com pistolas e escopetas são mais freqüentes nas galerias comerciais, localizadas em ruas estreitas, onde se concentram as lojas. As galerias contam, quase sempre, com vigoroso esquema de segurança armada.
É o caso da Galeria Pagé, um prédio de cinco andares encravado em uma rua secundária de Ciudad del Este. Na Pagé, as lojas se concentram nos dois primeiros andares. Os três últimos são usados principalmente como depósitos de mercadorias. O forte dos comerciantes da Pagé é a venda no atacado. É raro encontrar turistas lá. Os clientes mais freqüentes, segundo os comerciantes libaneses, são pessoas usadas por grandes empresários para comprar os produtos expostos na Pagé e revendê-los no Brasil, driblando a fiscalização da Receita Federal. Em troca de uma pequena comissão, eles fazem as encomendas e emprestam suas contas bancárias para o depósito dos pagamentos. No dia em que ÉPOCA visitou a Pagé, havia muita gente sentada no corredor da galeria. Quando o fotógrafo de ÉPOCA apareceu com a câmera, o corredor se esvaziou.
O comércio fez a fortuna dos negociantes de origem libanesa que começaram a se estabelecer na região na década de 70 - quando eclodiu a guerra civil libanesa e começou a construção da usina de Itaipu. Eles se especializaram, no início, em atender às demandas dos operários recrutados para a obra da usina. Depois diversificaram seus negócios. Hoje, a comunidade libanesa da Tríplice Fronteira é estimada em 15 mil pessoas. A maioria oriunda do Vale do Bekaa, região leste do Líbano, de população muçulmana. Na paisagem de Foz do Iguaçu, as escolas e mesquitas são os traços visíveis da forte presença da comunidade islâmica.
É essa combinação de uma comunidade muçulmana numerosa com uma fronteira vulnerável a atividades criminosas que, na visão dos americanos, torna a região uma zona de risco para a proliferação de terroristas. "O excesso de atividades ilegais na região, como tráfico de armas e drogas, é indício da vulnerabilidade local", diz Walter Maierovitch, ex-secretário nacional Antidrogas. Depois dos atentados de 11 de setembro, a Polícia Federal criou um grupo específico para lidar com o terrorismo. Hoje, ele é composto de quatro delegados e 50 agentes. Eles monitoram supostos extremistas islâmicos não só na Tríplice Fronteira, mas em cidades como São Paulo e Curitiba. "O governo brasileiro está se esforçando para combater o terrorismo", disse a ÉPOCA o especialista em grupos islâmicos e terrorismo Magnus Ranstorp, diretor do Centro de Estudos de Ameaças Assimétricas da Escola Nacional de Defesa da Suécia. "Mas todo o esforço que for feito ainda será pequeno. O terrorismo é sofisticado demais. Até os países desenvolvidos têm dificuldade de enfrentá-lo." De acordo com Ranstorp, outros países da América Latina, como Venezuela e Colômbia, também têm um controle frágil nas fronteiras. Países africanos também vêm sendo acusados de abrigar células terroristas. Ranstorp declarou recentemente, porém, que, se fosse terrorista, se esconderia na América do Sul. Segundo Maierovitch, o Brasil deveria criar uma força-tarefa para a Tríplice Fronteira e torná-la alvo de preocupação permanente dos órgãos de segurança. Na era em que o terror também se globalizou, os especialistas adotaram uma máxima: não perca tempo perguntando se um atentado terrorista vai acontecer; tenha certeza de que ele vai e esteja preparado para detê-lo.
OS SUSPEITOS
As acusações contra os homens citados
no relatório entregue pelo Departamento
do Tesouro dos EUA ao governo brasileiro
MOHAMED TARABAIN CHAMAS, administrador da Galeria Pagé
• ACUSAÇÃO
Trabalharia na contra-inteligência do Hezbollah e teria transportado
dinheiro para o Oriente Médio
• O QUE DIZ
"Nunca trabalhei para o Hezbollah, nem tenho contato com eles. Nunca
transportei dinheiro para ninguém"
SALEH MAHMOUD FAYAD, comerciante na Galeria Pagé
• ACUSAÇÃO
Seria da contra-inteligência do Hezbollah e teria coletado dinheiro
para a milícia em julho do ano passado
• O QUE DIZ
"Acusam sem prova. Não trabalho para o Hezbollah"
SOBHI MAHMOUD FAYAD, preso no Paraguai por sonegação de impostos
• ACUSAÇÃO
Seria oficial sênior do Hezbollah. Teria recebido treinamento militar
no Irã e no Líbano e estaria envolvido com falsificação
de dólares e tráfico de drogas
• O QUE DIZ
ÉPOCA não conseguiu falar com ele. O irmão Saleh desmente
as acusações
ALI MOHAMMAD KAZAN, diretor da Escola Libanesa Brasileira em Foz do Iguaçu
• ACUSAÇÃO
Seria o novo comandante do Hezbollah na Tríplice Fronteira. Em agosto
de 2006, teria ajudado a arrecadar mais de US$ 500 mil para enviar à
milícia
• O QUE DIZ
"É tudo mentira. Podem falar o que quiser"
MOHAMAD YOUSSEF ABDALLAH, administrador de uma mesquita em Ciudad del Este
• ACUSAÇÃO
Seria o tesoureiro do Hezbollah na Tríplice Fronteira. Estaria envolvido
em contrabando, falsificação de passaporte, fraudes com cartões
de crédito e tráfico de dólares falsos
• O QUE DIZ
Não quis responder às acusações
HAMZI AHMAD BARAKAT, comerciante na Galeria Pagé
• ACUSAÇÃO
É suspeito de traficar drogas, armas e explosivos, além de falsificar
dólares
• O QUE DIZ
Não foi localizado
HATIM AHMAD BARAKAT, preso em regime domiciliar em Ciudad del Este
• ACUSAÇÃO
Seria encarregado de enviar informações e dinheiro para o Hezbollah
no Líbano
• O QUE DIZ
Não quis falar com ÉPOCA. Disse que isso poderia complicar sua
situação na Justiça
MOHAMAD FAYEZ BARAKAT, comerciante na Galeria Pagé, seqüestrado
na semana passada
• ACUSAÇÃO
Também estaria envolvido com o financiamento do Hezbollah na Tríplice
Fronteira
• O QUE DIZ
Não quis falar com ÉPOCA
FAROUK OMAIRI, foragido da Polícia
• ACUSAÇÃO
Integraria uma rede do narcotráfico. Condenado por falsificação
de documentos para obter cidadania brasileira
• O QUE DIZ
Não foi localizado
O TERROR E A TRÍPLICE FRONTEIRA
Desde a década de 90, há suspeitas de que a região da
fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai abriga militantes de movimentos
extremistas islâmicos
1975
A eclosão da guerra civil no Líbano intensifica a emigração
de libaneses muçulmanos para a região da Tríplice Fronteira.
Eles são atraídos pela construção da usina de
Itaipu
1992
Atentado contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires mata 29 pessoas. Suspeitas
são levantadas contra militantes do Hezbollah na Tríplice Fronteira
1994
Ataque contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia)
mata 86 pessoas. Os autores, diz a Justiça argentina, foram o Hezbollah
e o Irã
1995
Khalid Shaikh Mohammed, um dos mentores dos ataques a Nova York em setembro
de 2001, passa cerca de 20 dias no Brasil e visita integrantes da comunidade
muçulmana de Foz do Iguaçu
1996
A Polícia descobre que o libanês Marwan Al Safadi, acusado de
participar do atentado ao World Trade Center, em Nova York, está em
Foz do Iguaçu. Safadi foge para o Paraguai, onde é preso e extraditado
para os EUA
2001
Os ataques de 11 de setembro da Al Qaeda colocam a Tríplice Aliança
no foco do governo dos EUA e da guerra contra o terrorismo declarada pelo
presidente George W. Bush
2002
A Polícia Federal prende em Foz do Iguaçu o libanês Assad
Ahmad Barakat, acusado pelo Paraguai de ser o comandante do Hezbollah na Tríplice
Fronteira
2006
O Departamento do Tesouro dos EUA acusa nove integrantes da comunidade muçulmana
da Tríplice Fronteira de participar da rede de financiamento do Hezbollah
montada por Barakat
AS FACÇÕES DO TERROR
Os conflitos do Oriente Médio deram origem a vários
grupos radicais. Um deles, o Hezbollah, um partido
no Líbano, tem simpatizantes na Tríplice Fronteira
1 -HEZBOLLAH
O Partido de Deus
Fundado em 1982 para lutar contra a invasão israelense do Líbano,
perpetrou ataques contra americanos, bombardeou Israel e é suspeito
de ataques contra alvos israelenses na Europa e na Argentina. Financiado pelo
Irã, é hoje um partido poderoso no Líbano liderado pelo
xeque Hasan Nasrallah
2 - JAMAA AL ISLAMIA
Grupo Islâmico
Originado da Irmandade Muçulmana, o grupo liderado pelo xeque Omar
Abdel Al-Rahman tentou derrubar o World Trade Center em 1993. Também
foi o responsável pelo ataque que matou 62 turistas em Luxor, Egito,
em 1997
3 - AL QAEDA
A Base
O grupo liderado pelo arquiterrorista Osama Bin Laden congrega células
espalhadas pelo mundo todo. Formado durante a resistência à invasão
soviética do Afeganistão, nos anos 80, é o grupo responsável
pelo ataque ao World Trade Center e ao Pentágono em 11 de setembro
de 2001, o maior ataque terrorista da História
4 - JIHAD
Guerra Santa
Fundado nos anos 70, é o mais antigo grupo radical islâmico
palestino. Age nos mesmos moldes do Hamas, perpetrando ataques suicidas contra
alvos civis em Israel
5 - HAMAS
Resistência Islâmica
Defende a formação de um Estado palestino islâmico. Ataca basicamente civis israelenses por meio de terroristas suicidas e é o grupo mais ativo desde a Intifada, revolta palestina do fim dos anos 80. Ocupa o governo da Autoridade Palestina desde o ano passado
O ESTADO DE S. PAULO
Sala de aula tem dia de ‘classroom’
Recém-alfabetizados aprendem inglês para receber primeira-dama dos EUA
ADRIANA CARRANCA E LUCAS NOBILE
A sala de aula virou “classroom” e o banheiro “restroom”, sinais da visita internacional. Quando Laura Bush entrou na classe, dez alunos aplicados, de todo o Brasil, liam o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Elegante, em um terninho cinza básico, a primeira-dama não interrompeu. Sentou-se em uma cadeira deixada vazia para ela, entre os dez estudantes, na faixa dos 50 anos, do Alfabetização Solidária (Alfasol). Foi o primeiro compromisso na agenda social da primeira-dama, ontem, que incluiu visita ao Projeto Cidade Escola Aprendiz. À tarde, acompanhou o marido e a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, à ONG Meninos do Morumbi.
Professora e bibliotecária de formação, Laura Bush assistiu à aula simulada para a sua visita. Reginaldo, de 59 anos, que veio de Riachão do Dantas (SE) só para conhecer a primeira-dama, tapa o rosto com as mãos para demonstrar o que sentia antes de aprender a ler. “A ignorância é como uma cegueira”, disse. Depois, arregala os olhos. “Hoje eu enxergo a estrada do conhecimento na minha frente.” Rozileide, da Paraíba, relatou à primeira-dama a dificuldade de fazer coisas simples como pegar ônibus, quando não se entende as palavras. Terezinha, de 56 anos, contou de seu sonho de ser professora. Robson disse que, sabendo ler, conheceu o que acontece “do outro lado do planeta”, onde vive a primeira-dama. “Os livros levam a gente para o mundo todo.”
A primeira-dama sorria e, entre um e outro “Great!” ou “Terrific!”, disse aos alunos que deveriam sentir orgulho de si mesmos, chegando a arrancar lágrimas de gente simples como Joel Peixoto da Silva, de 65 anos. “Nunca pensei na vida que fosse encontrar de perto gente importante assim. Logo eu, que plantava cacau e só vim conhecer chocolate em São Paulo.” A baiana Dona Preta, que há 18 vende acarajé no Vale do Paraíba, não teve vergonha e logo pediu patrocínio para um livro. “Ela sorriu e não respondeu nada. Mas me deu um abraço muito forte”, contou, mais tarde. Deu também o cartão de sua secretária, com “telefones da Casa Branca”. E recebeu uma redação, feita a 20 mãos, sobre a importância de ler e escrever. Antes de sair, cumprimentou um a um e tirou fotos com todos.
Bastou ela sair para começar o fuzuê: “Você viu o batom? Vermelho. Os brincos vermelhos. O colar vermelho. É para combinar. Digno de uma primeira-dama”, disse Marinalva. “E tem pele bem tratada, olhos cor do céu, brilhantes como nunca vi”, comentou Maria de Fátima, que achou o tailleur básico da primeira-dama “muito simples, mas bonito.” “Ela é bonita demais”, disse José Alves Pereira.
A primeira-dama também se reuniu com representantes de empresas, universidades e fundações, Ministérios das Relações Exteriores e da Justiça, parceiros do Alfasol, por 30 minutos. Acompanhada da embaixatriz dos EUA no Brasil, Barbara Sobel, prometeu mais investimentos em programas de alfabetização, mas na África. Elogiou o baixo custo do programa - US$ 10 dólares por criança, por mês - e disse que pretende adotar o modelo dos EUA.
No Café Aprendiz, fez uma visita relâmpago. Não gastou mais de 10 minutos com as 12 crianças, entre 5 e 7 anos, que brincavam no local. Pausa para foto, sob sol forte - a essa altura, gotinhas de suor escorriam do rosto da primeira-dama. E, já de saída, ouviu O Samba da Minha Terra, de Dorival Caymmi, interpretado pelo grupo Coisa Linda de Deus. Deu tempo de ouvir o pedido de uma ex-menina de rua e ex-usuária de drogas, Esmeralda Ortiz, que conseguiu formar-se em jornalismo e sonha estudar antropologia dos EUA. A primeira-dama prometeu estudar o pedido e encerrou a visita às 12 horas.
Laura Bush circulou em uma limusine blindada preta, com vidros escurecidos - o carro fora trazido pela Casa Branca para a ocasião - e sob forte esquema de segurança. A Polícia Federal inspecionou os locais, pouco antes de sua chegada, com detectores de bombas e cães farejadores. No prédio da Alfasol, a garagem foi reservada para o carro da primeira-dama, assim como o elevador, e havia um soldado do Exército em cada andar. Quem se encontraria com ela era revistado.
A primeira-dama era acompanhada de perto por agentes do Serviço Secreto americano - todos loiríssimos, grandalhões, vestidos de terno escuro e munidos de walkie-talkies, entre eles, duas mulheres. A comitiva reuniu 15 carros e motos das Polícias Militar, Civil, Rodoviária e Federal, da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e um ônibus, que levava jornalistas estrangeiros e brasileiros, previamente credenciados para acompanhar a primeira-dama, mas impedidos de lhe dirigir a palavra.
As quadras por onde ela passou foram interditadas para carros e pedestres - moradores eram impedidos de entrar e sair enquanto ela estivesse nas redondezas. Uma promotora de eventos que havia estacionado o carro na Alameda Pamplona na noite anterior teve o veículo guinchado e removido uma quadra adiante. A ordem foi da Polícia Federal, que tentou localizar o proprietário, mas a placa era de Campinas. Segundo o agente da CET Alex da Silva, os espaços de estacionamento nas quadras onde a primeira-dama estaria foram reservados com cavaletes 24 horas antes.
Em função desse esquema, pouquíssimos curiosos puderam ver apenas um ou outro discretos tchauzinhos, de dentro da limusine. Manifestantes não conseguiram chegar perto. Na Vila Madalena, havia cartazes pedindo a proteção da Amazônia e uma bandeira do Vietnã. Um homem xingou o presidente Bush e foi preso. Nos Jardins, estudantes de uma perua escolar impedida de atravessar a quadra da Alameda Pamplona onde estava Laura Bush escreveram em pedaços de papel: “Fora Bush”. Outros, reclamavam: “Como é que pára o Brasil por causa desses americanos?”, dizia a empregada Nilse Medeiros, de 53 anos.
Laura Bush nem notou. O PM Flávio, incumbido de manter o povo longe,
era o mais xingado entre os agentes. “Calma, gente. Por mim, eu deixava
todo mundo passar, sou brasileiro também.”