Clipping eletrônico - PRIMEIRA EDIÇÃO - 29/09/2003
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De volta ao palanque
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Testemunha ouvida por relatora é morta
Índios do Amazonas querem intérpretes nas escolas
CARLOS HEITOR CONY
Caridade ou crime?
FOLHATEEN
Pirataria não vai parar de crescer
O ESTADO DE S.
PAULO
FÓRUM DE DEBATES
Jovens e excluídos
CIDADES
Assassinato de testemunha choca relatora da ONU
ECONOMIA
Imóvel na planta exige atenção redobrada
NACIONAL
Progressistas da Igreja já dão sinais de impaciência
GERAL
Parlamentares querem mudanças na MP dos transgênicos
VALOR
ECONÔMICO
1º CADERNO
Indústria farmacêutica vai à Justiça por reajuste de 7%
A atabalhoada assinatura da MP dos transgênicos
CARTAS
Desarmamento
EMPRESAS
Brasil reivindica mais prazo para se adequar à nova
legislação portuária
IBS é contra plano de fusão no setor
AGRONEGÓCIOS
Royalties da soja transgênica geram discórdia
CORREIO
BRAZILIENSE
POLÍTICA
Eliminação total
‘‘Inimigo em decomposição’’
PT promete recompensa para aliados do governo
BATE-PRONTO
Propaganda ilegal
OPINIÃO
Louvor ao STF
Na rota da tortura
BRASIL S/A
Vai um transgênico aí?
SR. REDATOR
Cartel
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BRASÍLIA
CLÁUDIO HUMBERTO
Cláudio Humberto
OPINIÃO
Combate aos abusos policiais
BRASIL
Mundo conhecerá relatório
CARLOS HONORATO
Carlos Honorato
ECONOMIA
Instituto de Defesa do Consumidor vai à Justiça
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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VEJA |
RADAR |
28/09/2003 |
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Desde 20 de setembro, a Polícia Federal
não recebe novas cadernetas de passaporte. Há quem vá esperar três meses para
ter o seu. Faltaram as capinhas verdes que cobrem as cadernetas. A entrega será
regularizada em outubro.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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VEJA |
BRASIL |
28/09/2003 |
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A espantosa crônica de duas armas que,
juntas, passaram sete vezes pelas mãos da polícia e dos bandidos
Alexandre Oltramari
Uma submetralhadora Halcon, de número 55373,
e uma pistola Steyr, de número 40335, são armas de fabricação estrangeira, mas
são conhecidas pela polícia de São Paulo como se fossem de casa. A argentina
Halcon, que dispara 700 tiros por minuto, anda no crime desde 1996. Essa mesma
arma já foi usada em dois assaltos, causou a morte de duas pessoas e deixou
outras cinco gravemente feridas. A austríaca Steyr, pistola de calibre 7.65,
passeia pela criminalidade há mais tempo, dez anos, mas seu currículo é menos
sangrento. Com procedências e prontuários distintos, a submetralhadora e a
pistola são um símbolo assustador de uma das piores chagas de um país que não
cansa de reclamar da violência – a inépcia do Estado em cumprir seu dever de
garantir a segurança dos cidadãos. Juntas, as duas armas já foram apreendidas
pela polícia sete vezes. Repita-se: sete vezes. Pela lei, deveriam ter sido
confiscadas na primeira apreensão, guardadas pela Justiça durante a instrução
do processo criminal e, depois de periciadas, devidamente destruídas. Em vez
disso, num macabro bumerangue, elas se livram do cerco da Justiça e voltam à
praça para cometer crimes.
O inacreditável trajeto das duas armas, que
saem das mãos dos bandidos, aparecem nos cofres do Estado e ressurgem em posse
da bandidagem, é parte de uma investigação sigilosa aberta pela corregedoria da
polícia paulista. A investigação tem onze volumes e procura reconstituir o
passeio de nada menos que 100 armas de fogo de todos os tipos – metralhadoras,
pistolas, carabinas e revólveres. Trata-se da maior investigação do gênero de
que se tem notícia no país. Em Minas Gerais, existem apenas duas armas
ambulantes sob investigação. No Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança
informa que não há nenhuma arma nessa situação no Estado – embora, talvez, o
mais acertado seja dizer que a polícia fluminense jamais flagrou uma crônica
semelhante. O que chama a atenção no caso da submetralhadora Halcon e da
pistola Steyr que perambulam pelo Estado de São Paulo é o número de vezes que
entraram e saíram dos depósitos públicos. Com quatro apreensões, a pistola
Steyr é a campeã nacional. A submetralhadora Halcon fica em segundo lugar, com
três apreensões.
Sua história, no entanto, é alarmante. Há
sete anos, a Halcon foi usada por oito bandidos para assaltar uma fábrica em
Jacareí, no interior de São Paulo. Cercados pela polícia, os assaltantes
responderam com uma saraivada de balas. Quatro policiais militares e um
porteiro da fábrica ficaram feridos. Um dos bandidos morreu. A arma foi então
encaminhada ao Fórum de Jacareí e, depois, ao Exército. Dois anos depois,
misteriosamente, a mesma Halcon voltou a ser apreendida. Estava dentro de um
Palio, na Rodovia Castello Branco, em poder de duas mulheres que transportavam
um arsenal. Além da submetralhadora, elas portavam duas granadas, duas
pistolas, um fuzil e um revólver. Segundo a polícia, as armas foram enviadas,
dessa vez, a um depósito da Justiça em Sorocaba. Por fim, em fevereiro de 2000,
a Halcon foi usada novamente em um assalto. Dessa vez, o alvo foi uma agência
do Bradesco, na capital paulista. Cercado, o assaltante Adriano Pereira dos
Santos, 22 anos, abriu fogo e morreu no tiroteio. Ninguém sabe a mágica que
liberta as armas, mas é certo que isso só acontece porque agentes do Estado se
deixam corromper ou extorquir.
"Contra essas mágicas, não há lei que
resolva", diz o criminólogo Tulio Kahn, que dirigiu a filial brasileira do
Ilanud, órgão da ONU que trata da violência na América Latina. Em Brasília,
existe uma lei em discussão no Congresso Nacional, batizada de "estatuto
do desarmamento", que até pode ajudar a combater o problema. Em sua versão
original, a lei, com trinta artigos, torna o porte ilegal de arma um crime inafiançável.
Ou seja: quem for pego com arma ilegal tem de ficar preso até ser julgado. Em
novembro de 2000, por exemplo, a pistola Steyr foi apreendida nas mãos de
Adelmo da Silva Carvalho, 22 anos, 1º grau incompleto. Ele pagou uma fiança, de
apenas 100 reais, e foi libertado. Com certeza, tornar inafiançável o porte
ilegal não impedirá que uma arma apreendida pela polícia acabe voltando ao
submundo da criminalidade, mas contribui, pelo menos, para o combate à
circulação de armas clandestinas no país. E não se trata de pouca coisa.
Estima-se que haja 3 milhões de armas ilegais circulando no Brasil – e que elas
cometam sete de cada dez homicídios causados por arma de fogo no país.
O "estatuto do desarmamento", no
entanto, está sob ameaça. A versão original, relatada pelo deputado Luiz
Eduardo Greenhalgh, do PT paulista, definia critérios rigorosos para autorizar
o porte de arma, suprimia a fiança para os casos de porte ilegal e, por fim,
previa a realização de referendo em 2005, no qual a população decidiria se
seria proibida de vez a comercialização de armas no país – medida extrema de
desarmamento geral adotada apenas no Japão, onde a criminalidade, diga-se, é
baixíssima. Na tramitação, o projeto caiu nas mãos da deputada Laura Carneiro,
do PFL do Rio, e tudo isso – critérios rigorosos, crime inafiançável e
referendo em 2005 – acabou sendo suprimido. Greenhalgh alimenta a esperança de
que, ao passar pela Comissão de Constituição e Justiça, esses pontos possam ser
restituídos ao projeto.
"É preciso acabar com a farra de armas
no Brasil", diz Greenhalgh. "É ela que alimenta o mercado
clandestino." A intenção da lei é das melhores. Afinal, cerca de um terço
das armas clandestinas que hoje circulam no Brasil foi legalmente registrado
antes de cair nas mãos de criminosos. Se o porte legal for restrito a casos
especialíssimos, como previa o projeto original antes da intervenção da
deputada Laura Carneiro, o Brasil estará caminhando pela mesma trilha de países
como Inglaterra, Austrália e Canadá. Com a restrição da circulação de armas,
esses países conseguiram diminuir a incidência de crimes. Não custa lembrar, no
entanto, que em cada um deles o Estado tem sido capaz de fazer cumprir as leis.
Aqui, como mostra o exemplo das armas ambulantes de São Paulo, os próprios
agentes do Estado são os primeiros a violá-las.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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VEJA |
BRASIL |
28/09/2003 |
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Gugu errou ao exibir a falsa entrevista
com o PCC. E a Justiça errou ao ressuscitar a censura prévia
Ricardo Valladares
No domingo passado, o programa Domingo
Legal, apresentado por Gugu Liberato no SBT, não pôde ir ao ar por decisão
judicial. Uma liminar foi pedida por uma procuradora, concedida por uma juíza e
mantida por uma desembargadora. O motivo: a exibição, duas semanas antes, de
uma entrevista com dois encapuzados que se diziam integrantes da organização
criminosa paulistana Primeiro Comando da Capital (PCC). Na entrevista, a dupla
ameaçou de morte o padre Marcelo Rossi, o vice-prefeito de São Paulo, Hélio
Bicudo, e os apresentadores Marcelo Rezende, da Rede TV!, José Luiz Datena, da
Rede Bandeirantes, e Oscar Roberto Godoy, da Rede Record. Era uma farsa. Os
bandidos não eram bandidos, mas desocupados contratados pela produção do
Domingo Legal. Dois produtores do programa, Wagner Mafezoli e Rogério
Casagrande, foram indiciados pela polícia por divulgação de notícia falsa.
Amilton Tadeu dos Santos, o Barney, contratado para arranjar os desocupados, é
acusado de apologia do crime. Gugu Liberato só não foi indiciado porque seu
advogado pediu um habeas-corpus preventivo. No depoimento que teve de prestar,
ele negou que soubesse da armação e disse que era "apenas um apresentador
e que a exibição do programa está sob a responsabilidade da emissora". Se
isso é verdade, é curioso que o dono do SBT, Silvio Santos, não tenha sido
informado de que o Domingo Legal mostraria uma entrevista tão explosiva. Ele só
assistiu ao quadro dias depois, quando a farsa já havia sido desmascarada (veja
entrevista abaixo). Não se sabe exatamente a razão, Gugu também aproveitou para
dizer à polícia que era amigo do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.
De todo esse imbróglio, sobram duas
constatações. A primeira é que o nível da televisão brasileira continua tão
abissal quanto na época em que Gugu enganava os telespectadores com aquele
quadro fajuto do táxi, desmascarado por VEJA em 1996. Salvo exceções que
confirmam a regra, a programação é uma porcaria. Sensacionalismo, exploração da
miséria, mentiras, baixarias – em maior ou menor grau, o cardápio é quase
sempre o mesmo. Reconheça-se, porém, que não se trata de uma especialidade
nacional. A televisão é um lixo no mundo todo. A única maneira eficiente de
controlá-la é mexendo no bolso de quem comanda as emissoras ou apresenta os
programas. Gugu, provavelmente, vai puxar o freio, porque o escândalo que se
seguiu à falsa entrevista fez com que ele perdesse contratos publicitários e
anunciantes. Faustão, da Rede Globo, recuperou prestígio e audiência depois que
seu programa aboliu as baixarias mais gritantes que manchavam a reputação de
seus patrocinadores. Vive-se, hoje, um momento em que o público brasileiro
parece mais voltado para as atrações familiares. O que não quer dizer que
amanhã não voltará a privilegiar as torpezas. O nível da televisão melhora ou
piora um pouco conforme o gosto do público – e o público, seja no Brasil, na Itália
ou no Sri Lanka, é de uma volubilidade impressionante.
Dado este fato da vida, há quem defenda a
censura, pura e simples, muitas vezes apresentada sob o eufemismo de
"controle social dos meios de comunicação". Trata-se de um perigo,
como demonstra a outra constatação a ser tirada do imbróglio de Gugu. Sem poder
de censurar, a Justiça, por meio da procuradora Eugênia Fávero, da juíza Leila
Paiva e da desembargadora Anna Maria Pimentel, atropelou clamorosamente a
Constituição ao tirar do ar o programa do apresentador. Até o ministro da
Justiça, Márcio Thomaz Bastos, considerou a punição abusiva.
"O sistema condicional (legal) brasileiro pre vê o controle a posteriori, e
não a censura prévia", disse o ministro. A ele fazem coro juristas
eminentes, como Miguel Reale Júnior. "O SBT pode ter eventualmente
infringido o artigo 16 da Lei de Imprensa, por divulgar fatos distorcidos, mas
não está dentro da legislação a punição prévia porque um programa anterior
violou a lei", explica ele. Se a Justiça errou sem dispor de instrumentos
de censura prévia, é de imaginar o estrago que faria se dispusesse deles. Nesse
terreno, todo cuidado é pouco, porque podem falar mais alto antipatias
pessoais, ideológicas ou moralismos exacerbados. Gugu deveria ser punido
estritamente de acordo com a lei e só depois de cumpridos todos os passos de
uma investigação rigorosa. Censurar o seu programa o transforma em vítima de
uma pegadinha da Justiça.
"Logo percebi que era uma bobagem
para dar Ibope"
Veja – O senhor assistiu à farsa exibida no
programa de Gugu Liberato?
Silvio – Não assisti ao programa. Vi o
quadro só uns dois dias depois, no vídeo do meu camarim, quando a confusão já
estava nos jornais. Dois diretores do SBT levaram a fita para mim.
Veja – O senhor acreditou que os encapuzados
fossem integrantes de uma organização criminosa?
Silvio – Pela minha experiência, logo
percebi que aquilo tudo era uma bobagem feita para dar ibope. Mas não foi
malfeita.
Veja – Depois de desconfiar que tudo não
passasse de uma armação, o senhor fez alguma recomendação aos diretores do
programa de Gugu?
Silvio – Disse que, se o quadro era
verdadeiro, como eles afirmavam, o programa deveria exibir uma outra entrevista
com essas mesmas pessoas no domingo seguinte.
Veja – E o que eles disseram?
Silvio – Que não era necessário, que o
programa estava coberto pela Lei de Imprensa, que não tinha de provar nada.
Veja – O senhor não acha que há um excesso
de armação nos programas de auditório?
Silvio – Acho. Eu, por exemplo, não deixo
armações irem ao ar no meu programa. O telespectador não é bobo.
Veja – Gugu disse que não assistiu ao quadro
antes de ele ir ao ar. É uma falha, não?
Silvio – Sim, mas o Gugu está com sérios
problemas familiares. Anda abatido. Eu conversei com ele e tenho certeza de que
Gugu não sabia que era uma armação.
Veja – O senhor acha que o fato de a Justiça
ter proibido a exibição do programa Domingo Legal, na semana passada, foi um
ato de censura condenável?
Silvio – Realmente não sei. Já ouvi no rádio
que sim. Mas também li nos jornais que não. Ainda não consegui tirar uma
opinião sobre o assunto.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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VEJA |
BRASIL |
28/09/2003 |
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A história de progresso e riqueza escrita
pelas lavouras de soja no interior do Brasil
José Edward
Oitenta e cinco famílias gaúchas foram
assentadas pelo Incra no meio do nada, no norte de Mato Grosso, a 350 quilômetros
de Cuiabá. Diferentemente de assentamentos que tocaram a agricultura de
subsistência, esse pequeno núcleo de produtores preferiu plantar soja.
Construíram uma lavoura, depois trocaram seus barracos por casas de alvenaria,
conseguiram comprar algumas máquinas, ampliaram a superfície plantada, tornaram
a área um vilarejo e alcançaram a condição de município. Hoje, a cidade que
eles ergueram, Lucas do Rio Verde, de 27.000 habitantes, exibe o quarto melhor
índice de desenvolvimento humano entre os 139 municípios do Estado, arrecada
para os cofres municipais 21,3 milhões de reais em impostos, tem 80% das ruas
asfaltadas e 100% das casas na área urbana com água tratada. Tem também nove
ginásios poliesportivos, dez postos de saúde e dez escolas municipais, além de
um hospital construído com dinheiro doado por sojicultores. E faz apenas vinte
anos que eles começaram. "A soja irriga e aduba a nossa economia
aqui", festeja o prefeito Otaviano Pivetta, ele mesmo outro exemplo do
crescimento da riqueza na região. Em 1983, Pivetta deixou a cidade gaúcha de
Caiçara para levar uma mudança, de caminhão. Gostou, acabou ficando, entrou na
agricultura. Hoje tem uma lavoura de 50 000 hectares, o suficiente para encher
três navios a cada safra.
A soja proporcionou transformações como
essas em várias regiões brasileiras. Responsável por 42% da última safra
nacional de grãos, que foi o recorde de todos os tempos, o agronegócio da soja
movimenta perto de 45 bilhões de reais por ano no país, uma quantia equivalente
ao PIB do Uruguai. O Brasil acaba de ultrapassar os Estados Unidos e tornar-se
o maior exportador mundial do produto. A expansão da cultura, iniciada na
década de 1960, sobretudo em razão da demanda por óleo vegetal para substituir
a banha de porco, começou no Rio Grande do Sul, avançou sobre Santa Catarina,
Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul nos primeiros dez anos. Mas explodiu
mesmo na década seguinte, quando tecnologias desenvolvidas pela Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária e entidades dos produtores permitiram à
cultura expandir-se pelas regiões de cerrado. Hoje, já faz divisa com as
franjas da Floresta Amazônica e assusta ambientalistas, como registrou
recentemente o diário americano New York Times. "Esse grãozinho foi
responsável pelo desbravamento de promissoras fronteiras agrícolas, pela
conquista de novos mercados e pela incorporação de modernas tecnologias ao
campo", diz o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que também tem
uma área plantada de 4.000 hectares de soja na região de Balsas, no sul do
Maranhão. Juntando todas as fazendas brasileiras em que se produz soja, tem-se
um território equivalente às áreas de Portugal e Hungria juntos.
Mato Grosso é um símbolo desse milagre e tem
como governador o mais novo rei da soja, o paranaense Blairo Maggi, de 47 anos,
cuja fortuna foi feita no Estado. Recentemente, Blairo arrebatou do empresário
Olacyr de Moraes o título de o maior produtor individual de soja do mundo,
colhendo 300.000 toneladas em um único ano. Sua base eleitoral são outros
milhares de migrantes do sul do país que levaram para o Estado a capacidade
técnica para aproveitar bem a topografia plana, propícia à mecanização, e um
clima quase perfeito para a agricultura, com chuvas regulares e insolação o ano
inteiro. Rapidamente, velhos latifúndios, que só rendiam desmatamento, garimpos
poluidores e gado maltratado, deram lugar a fazendas profissionalizadas e aos
homogêneos campos verdes entremeados de cidades promissoras. Numa das
propriedades da família Maggi nasceu, por exemplo, a pequena Sapezal, uma vila
de colonos que evoluiu para município, hoje com 12.000 habitantes. Com nove
anos de emancipação, o lugar já é o terceiro maior celeiro de soja do Estado.
Cidade planejada, tem quase todas as ruas asfaltadas e rede de telefonia com
cabos de fibra óptica. Desde a divisão do Estado, em 1979, a população de Mato
Grosso cresceu uma vez e meia, alcançando 2,7 milhões de habitantes. Nesse
mesmo período, a arrecadação do imposto de circulação de mercadorias e serviços
no Estado aumentou cerca de 5.000%, chegando a 2 bilhões de reais. Metade desse
dinheiro tem origem nos negócios ligados à soja. Um relatório da ONU já mostrou
que as cidades que brotaram com a soja possuem mais qualidade de vida, melhores
indicadores sociais e renda per capita mais alta que no restante de Mato
Grosso. A lavoura e a industrialização do grão geram 265.000 empregos. Para
melhorar ainda mais a vida do Estado, que também é o primeiro na produção de
algodão e o segundo na de arroz, a soja, na entressafra, permite a cultura de
milho, aumentando o ganho dos agricultores. "A soja fixa o nitrogênio e
deixa vários nutrientes no solo", explica o pesquisador Amélio Dall'Agnol,
da Embrapa.
Milhares de empreendedores têm encontrado
uma chance de testar a sorte nos negócios na região. Na cidade mato-grossense
de Lucas do Rio Verde, o goiano Orcival Guimarães, hoje com 46 anos, escreveu
uma biografia de progresso espantoso. Há pouco mais de duas décadas, ganhava
dois salários mínimos vendendo peças para trator. Agora é proprietário de seis
revendedoras de máquinas e equipamentos agrícolas, mais 10.000 hectares de
terra e 5.000 cabeças de gado. No ano passado, seus negócios renderam mais de
80 milhões de reais. A tecnologia desenvolvida nas últimas décadas fez a
Orcival e seus colegas desbravadores um milagre semelhante ao produzido pela
soja. Antes de se mudar para Mato Grosso, ele cultivava com o pai e oito irmãos
uma roça de milho e feijão no interior de Goiás, à base da enxada e do arado
com tração animal. Só uma colheitadeira de algodão das que utiliza atualmente é
capaz de fazer, num único dia, o trabalho de mais de 500 homens, pilotada por
empregado que desfruta ar-condicionado a bordo, câmbio automático e equipamento
de GPS – o sistema de posicionamento global que orienta o trabalhador num lugar
em que todo o horizonte é um manto verde e uniforme.
Muitas localidades já vivem a fase posterior
ao sucesso na agricultura, aquela em que a primeira onda de prosperidade atrai
indústrias que multiplicam ainda mais a riqueza. No eixo de um conglomerado de
dezoito cidades nas quais a soja injetou 1 bilhão de reais na última safra, o
município goiano de Rio Verde tornou-se um pólo de atração para as fábricas.
Ali, nos últimos quatro anos, empresas como a Perdigão criaram mais de 6.000
empregos diretos. Há cinco edifícios de apartamentos em construção na cidade,
com preço médio de 250.000 reais. Todas as unidades foram vendidas na planta. O
americano Douglas Ferrel, de 48 anos, sente-se como um pioneiro do Oeste de seu
país reeditado nos trópicos. Nascido em Maryland, numa família de agricultores,
ele desembarcou no Brasil em 1974, com 30.000 dólares no bolso. Comprou uma
caminhonete e uma colheitadeira e passou a prestar serviços para produtores da
região de Ponta Grossa, no Paraná. Em menos de uma década, já possuía uma
fazenda de 3.200 hectares em Rio Verde, onde passou a plantar soja. O preço do
hectare na região decuplicou desde então. Os negócios de Ferrel com soja, milho
e bois, também. Seu patrimônio já alcança os 15 milhões de dólares. A extensão
de suas terras multiplicou-se por dez. "Nos Estados Unidos quase não há
mais oportunidades para fazer fortuna nessa velocidade", ele compara.
Os desbravadores da soja já avançam para
além do Brasil central, na direção do Norte e Nordeste. No chamado corredor de
exportação norte – integrado por Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará – começam a
brotar as plantações e seus primeiros resultados. Em Uruçuí, no sudoeste do
Piauí, a multinacional Bunge Alimentos está investindo 420 milhões de reais na
implantação de um complexo agroindustrial. A planta estará inteiramente pronta
em 2007, mas muitas ruas foram asfaltadas nos últimos cinco anos, o comércio
tem ritmo frenético e as casinhas modestas convivem com as instalações de uma
unidade da Universidade Estadual do Piauí, com cinco cursos superiores.
"Já temos até celular e internet", entusiasma-se a prefeita, Maria do
Espírito Santo.
Num outro ponto, no oeste da Bahia, a 900
quilômetros de Salvador, as lavouras de soja já ocupam quase 1 milhão de
hectares. Uma parte é do paranaense Walter Horita, de 40 anos, que migrou para
lá em 1984. Formado em engenharia mecânica e atento aos riscos da monocultura,
ele tem também 6.500 hectares de algodão. "Há grande demanda no exterior
pelo algodão brasileiro, mas sem a soja não teríamos nenhum progresso por
aqui", diz Horita. A cidade de Luís Eduardo Magalhães, naquela região, é
uma surpresa para quem a viu ainda como um distrito de Barreiras, alguns anos
atrás. O melhor comércio do lugar era um posto de gasolina. Agora, com 35.000
habitantes, o município abriga, entre outros, vários grupos americanos que
cultivam soja, catorze agroindústrias e concessionárias das principais
indústrias de máquinas e implementos agrícolas. Cerca de 15% dos moradores têm
renda superior a vinte salários mínimos e mais de duas centenas freqüentam uma
faculdade particular que oferece cursos de filosofia e administração do
agronegócio – entre os estudantes está o prefeito Oziel Oliveira. "Tenho
de me atualizar para acompanhar o progresso", ele justifica.
A Região Sul do país é precursora do novo
capítulo relativo à soja, o dos transgênicos. A legislação regular ainda não
permite o uso de sementes geneticamente modificadas, mas estima-se que mais da
metade das lavouras gaúchas já as adotem. Foi necessária uma medida provisória,
em março, para permitir a venda do resultado dessas culturas. Em Brasília há
uma queda-de-braço entre o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues,
favorável à liberação dos transgênicos, e a ministra do Meio Ambiente, Marina
Silva, contrária (veja o quadro). A solução dessa confusão pode fazer muita
diferença num país que está de olho no crescimento de 4% da demanda mundial de
soja a cada ano. Só a importação da China cresceu 27% na última safra. Rica em
proteína, barata e fácil de misturar a dezenas de outros alimentos, ela é uma
das melhores alternativas para alimentar animais, produzir óleo e dar origem a
subprodutos. O país da soja, que deve exportar mais de 8 bilhões de dólares do
grão neste ano, está aí para fazer negócios com quem precisar.
A polêmica dos transgênicos
Ficou demonstrado na semana passada que a
questão dos transgênicos é séria demais para ser entregue a gestores com o
discernimento do vice-presidente José Alencar. Mesmo havendo um amplo acordo
para a assinatura de uma medida provisória liberando o plantio de soja
transgênica em pelo menos mais uma safra, com sementes já compradas pelos
produtores, o presidente em exercício refugou, montou comissão de última hora e
procrastinou o que pôde diante da responsabilidade.
Do ponto de vista da ciência, passada quase
uma década do advento das culturas de transgênicos em vários países, entre eles
a Argentina e os Estados Unidos, essa incerteza de Alencar é quase uma
superstição. "Não há estudo que tenha descoberto um mal para o consumidor
ou um dano ao meio ambiente decorrente dos transgênicos", diz o
pesquisador Elíbio Rech, do departamento de recursos genéticos e biotecnologia
da Embrapa. No desenvolvimento de um produto desses, os especialistas induzem a
planta, por engenharia genética, a tornar-se mais nutritiva, produtiva ou
resistente a algum inimigo. No caso da soja Roundup Ready, criada pela
multinacional Monsanto, o que se fez foi dar à variedade a capacidade de
resistir ao herbicida Roundup, que a própria empresa fabrica. Assim, o produto
pode ser aplicado sobre a plantação para matar ervas daninhas. Mais limpa, a
lavoura torna-se também mais produtiva e rentável.
O outro argumento contra os transgênicos é
econômico e parte do temor de que as empresas que desenvolvem sementes venham a
controlar e explorar os países produtores quando eles estiverem totalmente
dependentes das variedades modificadas. Essa é uma das questões a resolver com
uma proposta de legislação definitiva sobre o assunto, coisa que o governo vem
prometendo fazer desde a edição da medida provisória que permitiu a
comercialização dos transgênicos da última safra de soja. Mas não fez ainda.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ISTOÉ |
CARTAS |
28/09/2003 |
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Com base na reportagem “Onde estão os R$ 170
milhões?” publicada pela revista ISTOÉ 1773, cumpre fazer-se algumas ponderações,
uma vez que a dita reportagem apresentou-se incompleta ao omitir as informações
abaixo descritas. Inicialmente, cumpre esclarecer que os episódios narrados na
reportagem em questão (objeto de denúncia apresentada por Jorge Anibal Ferreyra
perante a Polícia Federal) já encontram-se julgados pelo dr. Ricardo
Humberto Silva Borne – juiz federal substituto da 2ª Vara Criminal de Porto
Alegre, determinando, na data de 9/6/2003, o arquivamento do processo por falta
de provas. Note-se que a matéria tratada na reportagem em comento já foi objeto
de coisa julgada, ou seja, já foi apreciada pelo Judiciário através de processo
criminal e onde foi proferida sentença, já transitada em julgado, portanto,
tornam-se completamente descabidas as informações e maliciosas insinuações
feitas por Ferreyra veiculadas por esta conceituada revista. O contrato em
comento era de financiamento de construção civil e somente se perfectibilizaria
com a liberação da primeira parcela no valor de US$ 4.000.000 (quatro milhões
de dólares) que se destinaria ao pagamento de comissões, projetos e instalação
do canteiro de obras. As demais parcelas seriam liberadas conforme cumprimento
de cronograma físico-financeiro do empreendimento. Conforme comprova
correspondência do dr. Michael Ortiz (advogado, em Miami, da empresa Premar), a
primeira parcela, apesar de anunciada, nunca foi recebida, logo o canteiro de
obras não foi instalado, a obra objeto do financiamento não foi executada e
consequentemente o cronograma físico não foi cumprido, donde se conclui que o
desembolso financeiro jamais poderia ser despendido, não podendo, destarte,
falar-se em “sumiço” de determinada quantia. Continuamos aguardando o andamento
do inquérito policial apresentado na 4ª DP contra Ferreyra por ameaça de
extorsão e, agora, estamos ajuizando processo criminal de calúnia contra a
mesma pessoa. Por tudo isso, cumpre asseverar que a palavra “sumiço”, utilizada
como chamada de reportagem, foi empregada de forma equivocada, uma vez que para
a ocorrência de um “sumiço” é necessária a preexistência de alguma coisa, no
caso os R$ 170 milhões. Como a referida quantia nunca existiu, não há que se
falar em “sumiço”, pois não some aquilo que nunca existiu.
Antonio D’Amico
Diretor do Grupo Capão Novo
Porto Alegre – RS
Programa do Gugu
Não sou a favor do tipo de matéria
lamentável que causou esse problema gigantesco. Foi um erro, já admitido e
sofrido por Gugu. Mas o que vemos agora é um linchamento público partindo de
oportunistas de plantão. Linchamento ao ser humano e não apenas ao episódio.
Tristes pessoas, falsos paladinos da moral e da ética, que se beneficiam, têm
seus momentos de “estrela”, a partir da tragédia alheia que chegou a uma
censura absurda, retrógrada, e atinge não apenas Gugu, mas todos nós que vivemos
de televisão, de informação. Hoje, calam o programa dele. Amanhã, pode ser a
ISTOÉ ou uma novela. “Gugu investigado” (ISTOÉ 1773).
Letícia Dornelles
Rio de Janeiro – RJ
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ISTOÉ |
BRASIL |
28/09/2003 |
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Para atender ao lobby dos ruralistas,
governo atropela os ambientalistas e libera os transgênicos
Eduardo HolLanda e Leonel Rocha -
Colaboraram: Cláudia Pinho, Darlene Menconi e Lia Vasconcelos
Tudo indica que a safra de soja deste ano
será inesquecível. Antes mesmo de qualquer definição sobre a legalidade dos
plantios geneticamente modificados, 150 mil famílias do Rio Grande do Sul
ameaçavam iniciar o plantio das sementes transgênicas contrabandeadas da
Argentina, que foram cultivadas e vendidas ao longo de 2002, apesar de
proibidas pela Justiça. Num roteiro digno de novela mexicana, o governo atropelou
sua principal ambientalista, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, ao
editar a Medida Provisória 131, que autoriza o plantio de soja modificada em
todo o País.
A decisão provocou a primeira crise do
governo Lula. Marina ameaçou pedir demissão diante do constrangimento de ter
que engolir uma decisão contrária a uma de suas bandeiras políticas mais
importantes. Para evitar um desgaste maior, o Palácio do Planalto aceitou
inserir no texto algumas exigências dos ecologistas. Proibiu o plantio da chamada
soja maradona no entorno das unidades de conservação ambiental, nas regiões
consideradas prioritárias para a preservação, em terras indígenas e ao longo
dos rios que servem para o abastecimento de água.
A ministra exigiu que no prazo de até seis
meses fosse feito um estudo sobre o impacto ambiental das sementes alteradas. E
que os fazendeiros assinassem um termo de compromisso assumindo a
responsabilidade jurídica por eventuais desastres. Marina sabia que a guerra
interna no governo estava perdida desde antes da viagem do presidente Lula à
reunião da ONU, em Nova York. Sua estratégia foi aumentar a pressão para evitar
uma MP ainda mais desastrosa. Conseguiu uma derrota parcial: só os agricultores
que já disponham de sementes modificadas poderão cultivá-las este ano. A MP
definiu o prazo até dezembro do próximo ano para o comércio da soja plantada a
partir de 1º de outubro. Se os agricultores não venderem todo o produto até o
final de 2004, terão que incinerar o restante.
Marina Silva teve que jogar duro. Na
quarta-feira 24, ao receber a solidariedade de alguns deputados petistas, ela
recordou Chico Mendes e sua luta pelo meio ambiente. E chorou. A essa altura, a
batata quente de Lula já tinha deixado confuso o vice-presidente José Alencar.
“Isso confronta a legislação brasileira. E o pobre coitado do presidente em
exercício, lá de Minas Gerais, tem que assinar essa medida”, lamentou, durante
um seminár io no Itamaraty.
Para dividir responsabilidades, Alencar
formou uma comissão e promoveu um último debate. Da reunião participaram Marina
Silva e seus principais assessores, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, Roberto Rodrigues, da Agricultura, Miguel Rossetto, do
Desenvolvimento Agrário, e o advogado-geral da União, Álvaro Rodrigues da
Costa. No meio do tiroteio, o governo optou pela governabilidade. É que a
bancada ruralista do PMDB, liderada pelos gaúchos, ameaçava dificultar a
aprovação das reformas previdenciária e tributária, pelo Senado. O texto final
da MP só foi divulgado às 9h da noite da quinta-feira 25, depois de um dia
inteiro de discussões, comandadas por um angustiado presidente em exercício.
Indecisão – A possibilidade de batalhas
jurídicas caso a MP mantivesse o espírito de liberação total foi uma das preocupações
de Alencar. A solução foi autorizar para plantio apenas a soja transgênica em
poder dos agricultores gaúchos. Ainda assim, o procurador-geral da República,
Cláudio Fonteles, avisou que vai analisar a MP, já que há decisões judiciais
anteriores proibindo o plantio de transgênicos. “A preservação do meio ambiente
e a saúde das pessoas são itens que não podemos deixar de considerar”, disse
Fonteles.
Mesmo com a permissão de sementes
geneticamente modificadas, outras restrições previstas na MP foram comemoradas
pelos ambientalistas, dentro e fora do governo. Para plantar soja transgênica,
mais produtiva, os agricultores terão que comprar as sementes produzidas pela
americana Monsanto, única indústria química a produzir, ao mesmo tempo, as
sementes geneticamente modificadas e também o herbicida Roundup, que combate
ervas daninhas sem destruir a lavoura. “A Monsanto disse que vai cobrar
royalties atrasados pelas sementes contrabandeadas. Falam em US$ 16 por
tonelada, o que dá um dólar por saca e pode comer o lucro do produtor”, ataca o
deputado estadual gaúcho frei Sérgio Gorgen (PT).
A confusão foi tanta que ficou difícil até
para os leigos se posicionarem. O escritor Luis Fernando Verissimo resumiu bem
a situação. Sua posição era um claro e firme “não sei”. Como a grande maioria
da população, Verissimo está em cima do muro. Se for levado em conta o que
dizem os cientistas, as possibilidades abertas pelo plantio de transgênicos são
promissoras. Sob o ponto de vista dos consumidores, sempre fica a dúvida sobre
a segurança desses alimentos à saúde.
A comunidade científica deixou clara a sua
posição. Cerca de 800 cientistas internacionais reunidos em Recife para um
simpósio latino-americano sobre transgênicos elaboraram um documento endereçado
ao governo. A chamada Carta de Recife foi assertiva: “o debate ideológico e
desprovido de fundamentação científica representará um caminho sem volta e
irrecuperável para o Brasil, mais grave do que a reserva de mercado para a
informática”. Segundo os especialistas, a lei nacional de biossegurança serviu
de modelo a outros países da América Latina e permitiu o avanço da
biotecnologia. A Embrapa, centro de referência em tecnologia agrícola, é um
exemplo. Desenvolveu batata, feijão e mamão para resistir a pragas e a doenças,
mas suas pesquisas de campo foram interrompidas pelo imbróglio jurídico
provocado pela soja.
Rotulagem – A pendenga se arrasta desde
1998, quando a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, a CTNBio, autorizou
a Monsanto a plantar a soja Roundup Ready, que possui um gene para resistir ao
herbicida Roundup. Há cinco anos o assunto atrai entusiastas e críticos
ferrenhos, na mesma proporção. Entidades de defesa do consumidor, como o Idec,
e os ecologistas do Greenpeace, os principais opositores dos transgênicos,
conseguiram barrar na Justiça o plantio de grãos modificados.
O maior entrave nacional hoje é a falta de
uma legislação definitiva que regulamente tanto o plantio quanto a
comercialização dos transgênicos no País, o que a MP do governo Lula não
cumpre. Outro ponto de discórdia é a rotulagem dos alimentos modificados, que
deixariam claro ao consumidor o que ele está comprando. Na prática, já existem
muitos produtos com ingredientes transgênicos à venda no Brasil. Desde a famosa
batatinha Pringles até sopas e alimentos para bebês. Enquanto a pendenga não se
resolve, o governo precisa apagar incêndios. Como o que obrigou o presidente
Lula a assinar, em março deste ano, uma MP autorizando a colheita e a venda de
quatro milhões de toneladas de soja argentina, plantadas pelos agricultores
gaúchos na safra passada.
O atraso em definir o rumo dos transgênicos
tem impacto imediato nas pesquisas científicas. “Essa demora inviabiliza que a
biotecnologia seja desenvolvida no País. Está tudo atrasado. Na CTNBio há o
pedido de análise do milho e do algodão geneticamente modificados, tudo parado
por causa da soja”, alerta o advogado Antonio Monteiro, especializado em
direito ambiental. Pelo visto, ainda deve levar tempo até que o governo resolva
enfrentar o lobby de ecologistas e agricultores, cujos interesses são tão
incompatíveis quanto água e óleo.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ISTOÉ
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BRASIL |
28/09/2003 |
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Governador de Roraima diz que está acabando
com o esquema de corrupção que imperava no Estado
Eduardo Hollanda
Nada menos que cinco mil funcionários
incluídos na folha de pagamento do governo do Estado de Roraima recebiam, no
total, R$ 70 milhões por ano. Só que esse contingente, correspondente a pouco
mais de 10% dos 42 mil funcionários públicos do Estado – que tem apenas 330 mil
habitantes, sendo 40% indígenas –, tinha uma particularidade. Recebia mas não trabalhava.
O dinheiro, na verdade, nem chegava às mãos deles, em sua enorme maioria gente
humilde que, segundo investigações conjuntas do Ministério Público Federal, do
MP estadual e da Polícia Federal, nem sabia que era personagem de uma
gigantesca maracutaia. Segundo as investigações, por trás dos gafanhotos, como
a população de Roraima chama a turma “que come folhas de pagamento”, estavam
todos os 20 deputados estaduais, conselheiros do Tribunal de Contas e outros
funcionários graduados do Estado. “Fui surpreendido com a denúncia e as
informações sobre o desvio de salários. E mandei tomar as medidas cabíveis”,
afirma o governador Flamarion Portela (PT-RR), reeleito em 2002, que, na época
do escândalo, era vice e assumiria o cargo após a renúncia do então governador
Neudo Campos, que disputou e perdeu uma cadeira no Senado.
A tramóia era engenhosa. Os mentores da
roubalheira conseguiam procurações das pessoas garantindo que os deputados iram
“arrumar alguma ajuda” mensal. No passo seguinte, os “procuradores” passavam a
receber o dinheiro no Amazon Service Bank, empresa que era encarregada de pagar
o enorme contingente de funcionários. Retirado o dinheiro, um grupo pequeno
ficava com a parte maior. Um deputado estadual, Jalser Padilha, de 31 anos,
tinha procurações de 135 gafanhotos que totalizavam R$ 243 mil mensais, dos
quais ele embolsava quase tudo. Jalser, que era radialista, tem hoje uma enorme
mansão em Boavista. O esquema foi montado durante o governo de Neudo Campos,
que comandou o Estado por oito anos, de 1995 a 2002. Segundo Flamarion Portela,
a descoberta do trambique deixou à mostra uma sangria equivalente a 10% do
Orçamento do Estado, 80% bancados pela União. “Na verdade, na teoria, todos
eram funcionários de um quadro enorme. Bastou fazer recadastramentos de pessoal
que 2.500 desses gafanhotos sumiram, não se apresentaram. Com relação ao fato
mais grave, o desvio do dinheiro, primeiro mandei cancelar o contrato com a
Amazon feito pela Secretaria de Fazenda sem meu conhecimento”, afirma o governador.
O passo seguinte foi transferir todas as contas do Estado para o Banco do
Brasil. O pagamento dos funcionários passou a ser feito por cartão eletrônico.
“Acabou a farra das procurações dos gafanhotos. Como o cartão é individual,
ninguém pode sacar o dinheiro de outro”, garante.
Mas o governador sabe que por trás de
esquemas organizados de desvio do dinheiro público está a própria estrutura de
pessoal do Estado. Depois que deixou de ser território, Roraima manteve uma
curiosa forma de contratação de funcionários públicos, sempre sem concurso.
“Chegamos ao absurdo de 42 mil funcionários públicos, mais de 10% da população
atual. Isso tinha que acabar”, afirma. O governador comenta que, em um primeiro
momento, teve que manter todos os funcionários nas funções. “Eles não tinham
culpa de terem ingressado no serviço público pela nomeação pura e simples,
esquema montado pelo primeiro governador eleito, Otomar Pinto, e mantido pelo
seguinte. Mas era fundamental institucionalizar o Estado e isso só poderia ser
feito através dos concursos, como manda a lei”, garante. Este mês, o governo
realizou o primeiro concurso público para o funcionalismo de Roraima. Foi um
festival de inscritos. As dez mil vagas oferecidas atraíram 110 mil candidatos,
praticamente toda a mão-de-obra ativa de Roraima. Entre os candidatos estão os
22 mil funcionários recadastrados e 1.500 policiais civis. “Só vai ficar quem
passar nas provas”, garante Flamarion Portela. Apenas com o concurso, ele
enxugará o quadro em mais de 13 mil pessoas. As três empresas públicas, que
hoje têm 2,5 mil funcionários, também terão que fazer concurso, reduzindo o
quadro no final”, afirma o governador.
Flamarion Portela garante que, daqui para a
frente, terá que desenvolver o Estado, criando condições para geração de
empregos, absorvendo, por exemplo, o pessoal que vai ser demitido do quadro de
funcionários. Ele confia que o programa Vale Alimentação, que dá R$ 60 por mês
a mais de 50 mil famílias no Estado, contribua para ativar o comércio e a
produção. “São mais de R$ 3 milhões mensais injetados na economia local. Em um
Estado pequeno como o nosso, é uma quantia significativa,” comenta. O
governador destaca ainda que medidas tomadas no final do ano passado, como a
anistia fiscal e a de devedores de programas habitacionais, obedeceram à mesma
lógica de estímulo à economia. “Não quero polemizar, mas meu adversário na
eleição, o ex-governador Otomar Pinto, me processou durante a campanha. E todos
os processos foram derrubados no Tribunal Regional Eleitoral. A Justiça me deu
razão”, comemora o governador.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ISTOÉ |
COMPORTAMENTO |
28/09/2003 |
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Beneficiado por uma liminar, Gugu não é
indiciado e volta a dizer que não sabia que a entrevista com falsos membros do
PCC era uma farsa
Madi Rodrigues
O apresentador Gugu Liberato, do SBT, foi
ouvido no Departamento de Investigação Sobre o Crime Organizado de São Paulo
(Deic), na quinta-feira 25, e repetiu a mesma coisa que já havia dito no
programa de Hebe Camargo, no dia 15, ou seja, que não sabia do conteúdo da
entrevista com falsos membros do PCC, levada ao ar no seu programa Domingo legal.
“Minha convicção continua a mesma. Ele cometeu os mesmos crimes que Alfa, Beta,
Barney e etc., mas foi beneficiado com uma liminar e por isso não pôde ser
indiciado”, lamentou o delegado Alberto Pereira Júnior. Ele defende a tese de
que Gugu seja responsabilizado, com base no artigo 16 da Lei de Imprensa, que
proíbe publicar ou divulgar notícias falsas ou fatos verdadeiros truncados ou
deturpados. Mesmo assim, Gugu ainda deverá prestar esclarecimentos às comissões
de Direitos Humanos; Ciência e Tecnologia e Defesa dos Consumidor, em Brasília.
A confusão com o apresentador começou no dia 7, quando foi ao ar no Domingo
legal uma entrevista comandada pelo repórter Wagner Maffezoli com dois
encapuzados – Alfa e Beta – que diziam ser do PCC e ameaçavam autoridades e
apresentadores, entre eles Marcelo Rezende, que desmascarou a encenação.
A partir daí, descobriu-se que Alfa e Beta
eram na verdade os “atores” Wagner Faustino da Silva e Antônio Rodrigues da
Silva, que haviam sido contratados pelo produtor Hamilton Tadeu dos Santos, o
Barney, para a execução do serviço. “Cada um recebeu R$ 150 pela gravação e
eles confirmaram a farsa”, conta Pereira Júnior. Barney, por sua vez, recebeu
R$ 3 mil da produção para intermediar a entrevista. Os três foram indiciados
por apologia ao crime e Barney teve a sua prisão preventiva solicitada por
ameaçar uma testemunha. O repórter
Wagner Maffezoli e o produtor Rogério
Casagrande foram indiciados por divulgar notícia falsa. Em depoimento na
quarta-feira, disseram que não sabiam que a entrevista era uma armação e que
tinham contratado Barney para produzir a matéria.
Além de ir à polícia, Gugu também ficou fora
do ar no domingo 21. A Justiça suspendeu o programa a pedido do Ministério
Público. A punição gerou controvérsias. “Foi uma decisão equivocada que não
deixa de ser uma espécie de censura prévia”, afirma o deputado Corauci Sobrinho
(PFL-SP), presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara. “Foi um
retrocesso e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, também pensa
assim”, ressalta. “Estão querendo forçar uma situação dizendo que ocorreu
censura. O que houve foi uma punição em razão de uma infração cometida
anteriormente”, esta é a tese do deputado Orlando Fantanzzini (PT-SP),
coordenador da campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania e
presidente do Conselho de Ética da Câmara. “As televisões estão pagando o preço
do veneno delas mesmas de não aceitar que haja qualquer tipo de regulação nesse
aspecto”.
Telespectador – “As emissoras fazem o que querem
para obter audiência e vender espaço publicitário sem nenhum compromisso ético
com o telespectador”, analisa Ana Olmos, membro da Comissão de Acompanhamento
da Programação de Rádio e Televisão da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.
“Somos reféns de uma programação sem referência”, acredita Wagner Bezerra,
diretor e roteirista de programas educativos. Autor do livro Manual do
telespectador insatisfeito, ele diz que o Brasil está tateando na regulação do
seu produto televisivo. “Não por falta de modelo, porque na maioria dos países
desenvolvidos a televisão aberta é submetida a uma legislação específica, que
impõe regras e limites.” Na sua opinião o conteúdo dos programas dominicais
precisa mudar. “Não pela imposição, mas pela percepção da responsabilidade
social, porque tudo que a televisão emite está atrelado com educação.”
A controvérsia também se estendeu ao campo
jurídico. Para uns a determinação da Justiça foi legal e para outros
inconstitucional. “A decisão da Justiça foi acertadíssima. Ninguém pode se
valer de um meio de comunicação para difundir notícias falsas, sobretudo
ameaçar pessoas e provocar intranquilidade”, defende o criminalista Luiz Flávio
Gomes. Para ele, a suspensão de um programa só foi pouco. “Tinha que ter tirado
uns dois ou três do ar.” O jurista Damásio de Jesus pensa diferente. “O
princípio constitucional do estado de inocência vale para todo o direito
brasileiro. Enquanto não houver sentença condenatória definitiva ninguém pode
ser considerado culpado.” Segundo ele, a suspensão do programa, como medida
preliminar, correspondeu a uma verdadeira pena. “Uma medida extrema como essa
só pode ser aplicada em processo regular, com direito de defesa e
contraditório. E só caberia suspensão se houvesse indícios seguros de que a
exibição causaria dano à moral e aos bons costumes.”
“Fiquei perplexo. A decisão judicial
deflagrou uma preocupação com algo que resvala num precedente muito perigoso de
ameaça à liberdade de expressão”, afirma o vice-presidente da Rede
Bandeirantes, Marcelo Parada. “Se algum erro foi cometido ele deve ser apurado,
as pessoas devem ser punidas, mas jamais um programa pode ser tirado do ar sob
nenhuma circunstância.” E mais: “Tão grave quanto o erro cometido no programa
do Gugu foi tirar o programa dele do ar.” Em apoio ao Ministério Público
Federal que entrou com ação civil pública contra o SBT e acusa a empresa de
abuso de liberdade de imprensa e de ferir a ética ao dar voz ao crime, o
procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, divulgou uma nota: “Os promotores
agiram no correto desempenho funcional de defesa dos valores constitucionais e
o programa foi suspenso, por decisão judicial, por desobediência a tais
princípios.”
Para substituir o Domingo legal, o SBT
reprisou o Troféu Imprensa, o Grammy latino, o Programa do Ratinho e outros.
“Os anúncios que estavam programados para o Domingo legal foram exibidos nos
intervalos das reprises”, limitou-se a dizer a assessoria de imprensa do SBT. A
empresa não comenta os fatos, mas estima-se que o SBT e Gugu deixaram de
faturar R$ 1 milhão. Além disso, Gugu também perdeu o merchandising da
Petrobras, de R$ 1,7 milhão, que a emissora deverá realocar em outros
programas. Na segunda-feira 22, a casa rompeu o silêncio e mandou uma carta
para anunciantes e publicitários em que diz que “aguarda a conclusão das
investigações para tomar as providências necessárias e aplicar as punições
cabíveis”. De qualquer modo, o Ministério das Comunicações abriu processo
interno para investigar se o SBT infringiu a regulamentação do setor. O
procedimento pode resultar em advertência, multa ou suspensão da concessão.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ÉPOCA |
PORTAL |
28/09/2003 |
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É grande o constrangimento no Palácio do
Planalto. Pegou de surpresa a cúpula do governo a notícia de que o
secretário-executivo do Ministério da Agricultura, José Amauri Dimarzio, vendeu
em 1998 para a multinacional Monsanto a empresa Braskalb Agropecuária
Brasileira Ltda., produtora de sementes híbridas de milho e sorgo. Dimarzio foi
o mais apaixonado defensor da MP dos transgênicos dentro do governo. O Planalto
não vê ilegalidade no gesto. Mas o desconforto é enorme, já que a Monsanto é
uma das beneficiadas com a MP. A assessoria do Ministério da Agricultura
informa que o negócio de Dimarzio com a Monsanto não interferiu em seu ponto de
vista sobre o tema dos transgênicos.
Caso de polícia
O deputado Félix Mendonça (PFL-BA), do grupo
de ACM, decidiu entrar com uma notícia crime contra o deputado José Carlos
Martinez (PTB-PR). Também vai pedir uma investigação da Polícia Federal
para que esclareça a história do Rolex falsificado com que o petebista
presenteou o ministro José Dirceu. Detalhe: até há pouco tempo, Félix era do
mesmo partido de Martinez. Ele deixou o PTB brigado com Martinez.
De investigador a investigado
O ex-subgerente do Banestado Valderi Werle
em Foz do Iguaçu está sob a proteção da Policia Federal. Ele confessou à CPI
sua participação no esquema para facilitar o envio de dinheiro sujo ao
Exterior. Valderi Werle também contou aos parlamentares que a funcionária Vera
Márcia dos Santos Lima era quem arregimentava "laranjas" para as
operações. Na época, Vera era casada com o procurador da República Carlos
Fernando dos Santos Lima, o encarregado pelo Ministério Público de apurar o
escândalo do Banestado. Se a denúncia de Valderi for confirmada, o procurador
pode trocar de papel e passar de investigador a investigado.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ÉPOCA |
A SEMANA |
28/09/2003 |
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O Departamento de Investigações sobre o
Crime Organizado (Deic) concluiu o inquérito que investiga a falsa entrevista
que pessoas disfarçadas de membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) teriam
dado ao programa Domingo Legal em 7 de setembro. O delegado Alberto Matheus
Júnior pedirá à Justiça que Gugu Liberato seja processado por crime baseado na
Lei de Imprensa, por veicular reportagem mentirosa. Segundo ele, por coordenar
o programa, Gugu também deve ser responsabilizado, ainda que alegue não ter tido
conhecimento prévio do conteúdo da matéria. Os dois entrevistados e os três
produtores já foram indiciados. Na tarde da quinta-feira, Gugu prestou
depoimento à polícia. De acordo com o deputado estadual Vanderlei Siraque (PT
SP), que acompanhou o depoimento, Gugu responsabilizou indiretamente o SBT Ele
teria dito que é contratado apenas como apresentador e que desconhecia o
conteúdo da entrevista e sua forma de produção. Por determinação da Justiça
Federal, o programa não foi exibido no dia 21. O ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, criticou a decisão, classificando-a como "censura
prévia". "O sistema constitucional brasileiro prevê o controle a
posteriori e não a censura prévia", afirmou.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ÉPOCA |
ECONOMIA |
28/09/2003 |
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Policiais e auditores brigam por causa de
apreensão de jóias em São Paulo. Comando da PF e o da Receita abafam o caso
DAVID FRIEDLANDER E RONALD FREITAS
“Sirvo ao Deus vivo e não uso armas. Pode me
matar", gritou o auditor da Receita Federal Antônio de Souza Coelho,
enquanto abria o paletó e escancarava o peito para o agente Luís Álvaro
Navarro, da Polícia Federal.
"O meu Deus é morto", teria
respondido o policial.
"Então mate."
Esse bate-boca, ocorrido no dia 11 no
desembarque internacional do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, está
registrado num relatório reservado feito pelo auditor Coelho. No episódio, um
vigia da alfândega, que teria ameaçado sacar sua arma em defesa do funcionário
da Receita, foi desarmado por outros agentes da PF e levado para a delegacia do
aeroporto. Depois da detenção, o vigia foi parar no hospital e se recusa a
falar sobre o caso. Mal explicada desde o começo, a briga vem sendo abafada
pelos comandos da Polícia e da Receita Federal em São Paulo. Procurados por
ÉPOCA, dirigentes dos dois órgãos não querem falar sobre o assunto. Por meio de
assessores, admitem que houve um mal-entendido no aeroporto, mas, quando
explicam alguma coisa, apresentam versões diferentes. O relatório do auditor da
Receita diz que o documento que registra oficialmente os acontecimentos omite
"os detalhes reais do conflito".
O pivô da briga no aeroporto de Guarulhos é
o italiano Raffaele Cortegiani, preso quando tentava sair com US$ 190 mil em
jóias de ouro não-declaradas. Cortegiani chegou a São Paulo por volta das 18
horas do dia 11, num vôo da Alitália. Não tinha malas, apenas a sacola em que
carregava as jóias, e ficou perambulando pelo free shop até que o movimento de
passageiros diminuiu. Nesse momento, tentou sair do aeroporto pela área de
embarque. Só que Cortegiani foi surpreendido por um araponga da Agência
Brasileira de Inteligência (Abin), que o impediu de entrar no elevador e
deu-lhe ordem para que seguisse até a alfândega.
Como voltou para o free shop, o italiano foi
detido pela PF e levado ao pessoal da Receita. Sua sacola, pesando 16 quilos, foi
colocada sobre o balcão número 1 e começou a ser aberta por um agente da PE
Coelho, o auditor da Receita, reagiu dizendo que aquela função era dele. Os
dois começaram a disputar a sacola cada um para seu lado, até que o embrulho
rasgou e as jóias apareceram. Policiais e auditores da Receita começaram a
discutir violentamente até que o agen
te Navarro teria ameaçado Coelho, que é
pastor evangélico. Em depoimento ao delegado da Policia Federal Rubens
Maleiner, Navarro admite o desentendimento" com Coelho sem fazer menção à
suposta ameaça de morte.
Também há divergências no relato sobre a
intervenção do vigia Sandro Aranda Ferreira, funcionário de uma firma que
presta serviços de segurança na alfândega. Em seu depoimento, Coelho diz que,
depois de desarmado e dominado pelos policiais, Ferreira foi arrastado
"com violência" e levado para a delegacia da PF no aeroporto. Mais
tarde, conta o auditor, os dois se encontraram e o vigia disse que tinha sido
agredido. A PF reconhece que usou a força para desarmar Ferreira e levou-o ao
chão, mas nega que tenha havido agressão depois. Apesar de existir uma
delegacia de Polícia Civil no aeroporto, Ferreira não se submeteu ao exame de
corpo de delito. Procurado por ÉPOCA, o vigia não quis comentar o ocorrido. O
italiano foi preso pela Polícia Federal e indiciado pelos crimes de
falsidade ideológica e descaminho.
É difícil entender por que os comandos
paulistas da PF e da Receita decidiram abafar o caso. Em seu relatório, o
auditor Coelho afirma que o delegado da PF no aeroporto, Roberto Troncon, e o
inspetor-substituto da Receita, João Figueiredo, "assumiram o controle da
situação, propondo a elaboração de um documento que omite" parte do que
aconteceu. Extra-oficialmente, policiais e fiscais lançam suspeitas uns sobre
os outros. Os auditores dizem estranhar o interesse dos agentes da PF em
revistar a bagagem do italiano. Cortegiani fez mais de 30 viagens ao Brasil nos
últimos tempos. Na avaliação dos fiscais, para carregar uma quantidade de jóias
como aquela, o italiano tinha a certeza de que não seria apanhado. Os policiais
também fazem suas insinuações.
"Temo que haja interesses escusos, uma
tentativa de desestabilizar a força-tarefa", afirma o delegado Wagner
Castilho. Nos últimos dois anos, um grupo de auditores e policiais que
trabalham em conjunto apreendeu 1,6 tonelada de cocaína, 6.400 pontos de LSD e
10 mil comprimidos de ecstasy. Ultimamente, no entanto, o relacionamento entre
esses dois órgãos, que deveriam trabalhar sempre juntos, azedou. No dia 10 de
julho, fiscais e técnicos da Receita que dão expediente no aeroporto
denunciaram por carta ao superintendente da Receita Federal em São Paulo,
Maurício Prado de Almeida, "um verdadeiro clima de guerra" entre os
dois grupos de servidores públicos. O alerta foi ignorado.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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ÉPOCA |
DITADURA |
28/09/2003 |
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Após três décadas, a família consegue a
exumação do corpo da militante Iara Iavelberg - que, na versão oficial, cometeu
suicídio
PALOMA COTES
O corpo de Iara Iavelberg, retirado da cova
do Cemitério Israelita, em São Paulo, na segunda-feira 22, prova que os anos de
chumbo da ditadura militar permanecem insepultos. Militante da Vanguarda
Popular Revolucionária (VPR), companheira do guerrilheiro Carlos Lamarca,
militar que se tornou um dos lideres da luta armada contra o regime, a
psicóloga Iara tinha 27 anos quando morreu. Era 20 de agosto de 1971, governo
do general Emílio Garrastazu Médici, período que computou a maior lista de
prisões políticas e denúncias de tortura no país. Suicídio, segundo a versão
oficial, amparada em laudos médicos duvidosos, que desapareceram ao longo dos anos.
Trancada no banheiro de um apartamento, em Salvador, cercada por policiais,
Iara teria dado um único e certeiro tiro no peito. Vizinhos do apartamento e a
porteira do prédio afirmaram ter escutado vários disparos e um grito de
rendição. Um médico do Exército, Lamartine Andrade Silva, disse ter ouvido de
um sargento, Rubens Otero, que Iara havia sido executada. O sargento faleceu. O
médico recuou. Há 32 anos a família busca a verdade.
A mãe de Iara, Eva Iavelberg, nunca saberá o
que realmente aconteceu com a filha. Morreu três meses atrás, aos 80 anos.
Desde o dia em que reconheceu o corpo de Iara, através do vidro na tampa do
caixão, passou a dormir de luz acesa. Iara foi enterrada com os pés junto à
lápide, num canto do cemitério, o destino determinado pela religião judaica aos
"impuros" - os que cometem o suicídio. Seu corpo não pôde sequer ser
banhado antes do enterro. Só na semana passada a família conseguiu a exumação
dos restos mortais. "Queremos saber se foi homicídio ou suicídio",
diz seu irmão Samuel Iavelberg. Iara sabia que não sobreviveria à tortura nem
sairia viva da prisão. Se ela se matou, o fez para não perder a dignidade e não
delatar."
A busca ainda não chegou ao fim. A
descoberta da verdade, agora, depende das análises de laboratório e de uma
meticulosa investigação. Cerca de 10% das autópsias realizadas horas depois da
morte não chegam à definição da causa mortis. No caso de Iara, as dificuldades
aumentam. "Os restos mortais têm mais de 30 anos", pondera o legista
Daniel Munoz. "Vamos iniciar um trabalho de pesquisa e testar
metodologias, mas não posso dizer se vamos chegar a uma definição."
Para a ditadura, a morte de Iara não era
suficiente. Seu corpo foi vilipendiado uma vez mais, usado como
"isca" na caçada a Lamarca. Ficou por quase 30 dias numa gaveta do
necrotério de Salvador. Os militares acreditavam que ele procuraria pela mulher
- o que não aconteceu. Pouco tempo depois, o guerrilheiro foi executado no
sertão da Bahia. Só então a notícia da morte de Iara desabou sobre a residência
dos Iavelberg. "Minha mãe nunca mais se recuperou", conta Rosa
Iavelberg, irmã de Iara. Os irmãos Samuel e Raul, também militantes, estavam
exilados no Chile. Só voltaram para o país depois da Anistia, em 1979. Eva
tomou-se uma mulher triste. Não suportava as batalhas judiciais. "Nós
queríamos contar uma parte da história do país, mas minha mãe achava que
nenhuma luta valia a morte da filha", diz Rosa.
Quatro anos depois da morte de Iara, em
1975, o jornalista Wladimir Herzog foi encontrado na prisão com um pedaço de
pano em torno do pescoço e dado como suicida - hábito do regime para justificar
as mortes sob tortura ou a simples execução. Pelas tradições israelitas, Herzog
também seria enterrado no canto do cemitério. Mas as marcas da tortura
inscritas no corpo mudaram seu destino. Teve um sepultamento digno.
O que realmente se passou pode nunca ser
descoberto. A morte de Iara é mais um retrato brutal de um pesadelo histórico
que ainda não acabou. Na mesa do legista, não está apenas o corpo de uma
vítima, mas as entranhas da ditadura que precisam ser exuma das para que o país
tenha o direito negado à mãe de Iara: dormir em paz.
Arquivos proibidos
A Guerrilha do Araguaia assombra o governo
Lula
A saga dos lavelbergs não é a única. Outras
138 famílias também não sabem onde estão os corpos dos parentes que morreram
nas mãos do Estado durante a ditadura. Nesse total, estão incluídos os 61
militantes e camponeses que se juntaram à luta na Guerrilha do Araguaia -
travada entre 1972 e 1974, no sul do Pará e norte do Tocantins. Para essas
famílias, a busca da verdade dura 22 anos e empilha 16 liminares.
O último embate, ainda nos tribunais, é
travado com o governo Lula, justamente o mais improvável por reunir uma
constelação de lideranças que foram presas, perseguidas e torturadas pela
ditadura. Dos 23 ministros, oito estiveram exilados. A Justiça determinou a
abertura dos arquivos do Exército e deu aos familiares o di reito de procurar
os mortos. A União recorreu. Decepcionados, os familiares preparam um
contra-recurso. "É um retrocesso", protesta Elizabeth Silveira e
Silva, da ONG Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro.
Na tentativa de revertera crise, o governo
anunciou a criação de uma comissão interministerial com a atribuição de
localizar os corpos de desaparecidos. 0 secretário nacional de Direitos
Humanos, Nilmário Miranda, ex-militante que escreveu Dos Filhos
Deste Solo, obra de referência usada pelos familiares nos processos de
indenização, diz que isso "é tudo o que as famílias querem". Não é o
que parece. "Quando o governo não quer resolver o problema, cria uma
comissão", critica Criméia de Almeida, sobrevivente do Araguaia.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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CARTA CAPITAL |
ESPECIAL |
28/09/2003 |
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Mototáxis, macbodes, parabólicas, ilhas
de irrigação e modernidade, meninas prostituídas, fome... Retratos do Brasil
feitos ao longo de 38 mil quilômetros de viagem.
POR XICO SÁ
As parabólicas – muitas delas enviadas pelos
filhos que moram em São Paulo - enfeitam o telhado da maioria das casas. Mesmo
as mais pobres. Os velhos culpam a tevê pela "perdição" nos costumes,
como moça casar sem ser mais virgem. O sonho de muitos jovens é juntar
dinheiro, nem que tenham de penar um pouco em alguma metrópole, para comprar
uma moto no consórcio. Esses veículos ocupam o lugar que sempre foi do jumento,
hoje um animal abandonado.
É o sertão em transe, cuja paisagem sofre
como nunca com a desertificação, desastre que já comeu o equivalente ao Estado
do Ceará no semi-árido até a lama esturricada dos açudes, imagem tradicional
fincada no imaginário dos brasileiros pela mídia, agora é aproveitada para
fazer cerâmica, o que tem ajudado a alargar a tragédia ecológica.
Nesta reportagem, você vai saber também que
mulher magra, como Gisele Bündchen, não faz sucesso nos sertões. Lá, a
preferência é pelas cheinhas (quadro na pág. 15). Os repórteres Xico Sá e U.
Dettmar percorreram, de junho a setembro, cerca de 38 mil quilômetros por dez
Estados - Minas Gerais e os nove nordestinos. A viagem faz parte do projeto
Nova Geografia da Fome, organizado pelo Banco do Nordeste, que será editado em
livro. A seguir, parte dessa crônica da estrada.
O jegue, que já carregou a nação semi-árida
nas costas e foi celebrizado como "nosso irmão" em música de Luiz
Gonzaga, espanta-se, dá coices em vão na besta imaginária da modernidade. Tem
sido trocado pelas motos. Um enxame delas faz zoada em tudo quanto é vereda por
aí. Montados nas suas máquinas, muitos sertanejos tangem gado e bode, buscam
água longe de casa e ainda alugam como mototáxi, um fenômeno no Nordeste. Com
as moças, vixe!, cai muito bem a sedução motorizada.
"Carrego uns 2 mil litros d'água por
dia", conta o motoqueiro e agricultor Ubiraci de Macedo Costa, 27 anos,
pai de dois meninos, em Monte Santo, Bahia, caminho de Antonio Conselheiro rumo
a Canudos, a terra onde a modernidade chegou há mais de um século - com o
estrondo republicano do Whitworth 32, o canhão inglês conhecido até hoje como
"matadeira", exposto ali na praça da cidade.
A moto de Costa puxa um tambor que abastece
as escolas locais. "Meu barulho só mata a sede", diz, direcionado
pelo repórter - ah, os vícios jornalísticos da coleta forçada da boa frase - a
comparar as novidades de ontem e de hoje no município.
O sertão em transe não aparece na tevê nem
no cinema, ainda escravo da caricatura e da piedade. Seria hoje, para lembrar
noites de Juazeiro/Petrolina, as metrópoles da Caatinga, uma montagem de Deus e
o Diabo na Terra do Sol com O Selvagem da Motocicleta. Glauber Rocha e Coppola.
Sebastianismo latente e passeio no shopping. Aliás, River Shopping, por conta
da beira do rio São Francisco, o Velho Chico.
"Jualina", a mistura das duas
cidades, como propõem os moradores que menosprezam a rivalidade antiga, é o
exemplo mais chamativo da metamorfose dos sertões. Há 15 anos, tinham pouco mais
de roo mil habitantes. Hoje reúnem cerca de 500 mil. Graças a urna
agroindústria de ponta, com a Embrapa Semi-Árido na linha de frente das
pesquisas, que faz da região a maior exportadora de frutas do País 96% da uva
(com três safras anuais) e 90% da manga produzidas no Brasil, o que rende cerca
de US$ 78 milhões por ano. A região tem ainda três vinícolas, a Milano, a
Garziera e a Miolo.
A beira do submédio São Francisco é um raro
pedaço do mapa nordestino que possui uma classe média rural, pequenos produtores
que vivem distanciados da imagem do sertanejo faminto, ainda real por ali
mesmo. Tanto na Caatinga, que não é alcançada pela irrigação, quanto nos
arredores de juazeiro e Petrolina há uma babilônia de taipa, tábua e barracos
de sacos plásticos, sobras completas e não-recicláveis da mesma arrancada de
progresso.
Um diálogo travado entre o geógrafo
pernambucano Manuel Correia de Andrade, um dos maiores conhecedores dos dramas
do Nordeste, e o economista Celso Furtado funciona como dialética do esclarecimento
para este caso dos excluídos das benesses.
"Outra coisa que me apavora é o
crescimento tecnológico com concentração de renda e empobrecimento do
trabalhador. O que seria possível fazer, dentro das estruturas políticas
atuais, contra isso? Como fazer uma modernização que beneficie realmente os
trabalhadores?", pergunta Andrade.
"Se houvesse uma reforma agrária, já
seria uma maneira de desconcentrar a propriedade e a renda (...) ", aponta
Furtado. A conversa está no livro Seca e Poder, editado pela Fundação Perseu
Abramo.
O que não falta na paisagem das beiras do
Velho Chico são acampamentos de sem-terra. Os projetos de irrigação tocados
pelo governo nos últimos 2o anos, sonho do próprio economista criador da
Sudene, até que conseguiram reduzir a tragédia da terra concentrada nas mãos
das oligarquias - mas ainda em uma dose muito cordial para o que poderia ter
sido feito.
- Aqui, os jovens têm três caminhos: o
primeiro é ficar, o segundo é arriscar no Sul - que anda difícil - e o terceiro
é correr estrada com os sem-terra, pra aventurar um terreninho qualquer, uma
beira de pista, seja lá o que Deus quiser - diz Francisco Rodrigues Correia, 18
anos.
Correia se vira como guia turístico uri
pouco adiante de "Jualina”, mas também na beira do São Francisco. Em Poço
Redondo, Sergipe, ele conduz os visitantes, com pedagogia e boa narrativa, até
a gruta de Angicos, onde Lampião e mais nove cangaceiros do bando foram
chacinados em 1938.
Ali está um marco de outro embate entre o
dito arcaísmo, o cangaço, e a volante, que representava a força policial.
Depois de reinar por quase duas décadas, Virgulino Ferreira foi surpreendido
pela modernidade, que atendia, à época, pela abertura de estradas, o que
facilitou a sua busca.
Ficar ou ir embora, para voltar ao drama
sugerido pelo jovem Correia, é um embate que dividiu o pensamento de dois dos
maiores escritores brasileiros, Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, que
esteve no Nordeste no fim do século XIX, e Mário de Andrade, o andador de O
Turista Aprendiz, que esteve no semi-árido no fim dos anos 20 do século
passado.
Para o primeiro, o sertanejo é antes de tudo
um forte por resistir na terra, repetindo o drama dos arbustos teimosos da
Caatinga; para o segundo, forte e sabido é quem vai embora, evitando a tragédia
dos antepassados. A terceira via da questão, engajar-se nas fileiras dos
sem-terra, não foi prevista por nenhum dos dois.
Na peleja do sertão arcaico e do moderno, a
saudade dos "bons tempos" está na boca dos mais velhos, como Joaquim
Nunes, 59 anos, agricultor que a reportagem encontrou no caminho entre
Petrolina e Santa Maria da Boa Vista, ali nas redondezas:
- Agora tem mais cabra safado, vai pro Rio e
São Paulo e volta tudo ladrão, tudo esquisito, mesmo gente de boa cria. Não
perdoam, roubam tudo que é ônibus nessa estrada.
Não há estatística formada, mas o medo é
grande na área conhecida co
mo "polígono da maconha". É
difícil encontrar um motorista que tenha coragem de sair na estrada depois das
18 horas. Sob reserva, um agente de Salgueiro, município pernambucano onde fica
a sede da Polícia Federal .na região, contou que a PF teme entrar na
maioria das ilhas do São Francisco, redutos de plantações. "São tão
armadas quanto os morros do Rio", disse. "Qualquer família tem na
base de 20 metralhadoras importadas, para não contar outras assombrações
rotineiras."
O sertão em transe que não aparece no cinema
cordial brasileiro é quase sempre assustador para o olhar dos ditos
civilizados. Os postos de gasolina são cheios de meninas prostituídas ainda em
botão e a fome é infinitamente maior do que supõe o cinismo metropolitano.
Juntam-se a isso os refugiados do MST e outros movimentos de sem-terra, gente a
perder de vista na beira das rodovias.
Uma legião que lembra, pelo modo que é
compreendida na dita grande imprensa, o dilema levantado por Euclides da Cunha
há mais de um século. Para o escritor, o Brasil vivia o triste embate entre
"a rua do Ouvidor e as Caatingas". A peleja prossegue até agora.
A Ouvidor concentrava, na época, os maiores
jornais do Brasil, na cidade do Rio de janeiro. Independentemente do endereço
da metáfora, o autor de Os Sertões só queria dizer que há sempre uma forçada de
barra na imprensa para fazer valer a versão preconcebida. Naquele tempo,
significava sustentar "a verdade" que as tropas republicanas
massacravam, a todo instante, o "atraso" dos jagunços de Conselheiro.
A resistência sertaneja era evitada a qualquer preço.
Em Guaribas (PI), cidade-laboratório do
Programa Fome Zero, as donas de casa criaram a pizza de feijão, com massa do
cereal no lugar do trigo. Em Cabaceiras (PB), o bode e o cabrito substituem a
calabresa. Em Delmiro Gouveia (AL), vale a velha e boa mussarela. Em Canindé do
São Francisco (SE), o sortimento é variado, como em qualquer boa casa do ramo.
Seja de que jeito for, a pizza é um novo
fenômeno sertanejo, resultado do vaivém dos nordestinos para São Paulo.
"Na maioria das vezes, o cara trabalha em pizzaria por lá, junta um
dinheiro e vem botar um negócio aqui", conta Expedito de Souza, 35 anos,
pai de quatro meninas – “lá em casa, o único macho que
entra sou eu" -, que planeja abrir um
negócio do gênero em Campina Grande (PB), depois de uma década em terras
paulistanas. "Fui garçom de pizzaria o tempo inteiro."
A entrada da iguaria italiana no cardápio
não significa abandono das pedidas tradicionais. O bode, por exemplo, que não
passa de um cabrito envelhecido, vive seu melhor momento. Depois de enfrentar a
resistência no próprio sertão, que sempre preferiu carne de gado, o caprino
reina. Em Petrolina (PE), existe um complexo de bares e restaurantes, o
"Bodódromo", lugar mais badalado da metrópole do semi-árido, onde é
possível comer o bicho de todas as formas possíveis. O "macbode",
versão hambúrguer, também é servido na merenda escolar de Pernambuco.
UMA ELITE DE APOSENTADOS
Na maioria das cidades, 70% da renda
domiciliar vem da Previdência
Bote fé no velhinho, que o velhinho é
demais. A marchinha que serviu de jingle para a candidatura de Ulysses Guimarães
à Presidência, em 1989, bem que poderia ser entoada todo dia de pagamento na
agência dos Correios de Barcelona, no interior do Rio Grande do Norte, a cidade
xará da metrópole catalã. Os 500 aposentados sustentam a economia local, neste
município de pouca chuva onde vivem 4.727 almas.
Depois do dia 15 de cada mês, quando é
encerrado o recebimento dos benefícios, de R$ 240 por cabeça, o comércio fica
às moscas. "0 bodegueiro não carece nem abrir as portas", conta José
Ferreira de Vasconcelos, de 79 anos, um dos aposentados rurais. "A nossa
força é grande mesmo aqui, cada um de nós segura quatro, cinco netos dentro de
casa."
A mesma história se repete na maioria das
cidades do interior do Nordeste, onde cerca de 70% da renda domiciliar tem como
fonte os benefícios da Previdência. Uma ajuda suada para quem começou a
trabalhar na roça ainda criança e nunca tem direito à ajuda antes de meio
século de sol quente na moleira.
São 6,8 milhões de aposentados rurais no
País, com benefício assegurado pela Constituição de 1988. Em 60% dos municípios
do sertão, o valor dos recursos movimentados pelos idosos supera o Fundo de
Participação dos Municípios (FPM).
GISELE BÜNDCHEN NÃO E MODELO
"Não sou cachorro pra roer osso",
resume um sertanejo do Piauí
Talvez por causa da história de escassez e
fome, na nação semi-árida brasileira, gente bonita de verdade é gente forte -
pra não dizer gorda -, corada, pisando firme, como sugere o apanhador de
sabedorias Câmara Cascudo nos seus livros.
Embora já se avistem muitas moças e senhoras
em caminhadas e cooper na beira das rodovias do sertão, para os homens com mais
de 40 anos, esse negócio de mulher esquelética não vinga de jeito nenhum.
- Rapaz, a gente aqui gosta mesmo é de
fartura. Chega de passar necessidade - diz João Bertoldo, 76 anos, pai de 15
filhos, dos quais apenas oito sobreviveram.
Às gargalhadas, ele fala que "mulher
boa" mesmo é de 100 quilos para cima.
Bertoldo é morador da zona rural de Guaribas
(PI), município piloto do Programa Fome Zero, do Ministério Extraordinário de
Segurança Alimentar e Combate à Fome (Mesa). Os mais jovens da região vão na
mesma cantiga.
- Não sou cachorro pra roer osso, solta o
agricultor Francisco Feitosa, da vizinha cidade de Caracol.
Em dez estados onde a reportagem circulou -
sertões mineiros e nordestinos - só os mais jovens e as mulheres também mais
novas aprovam a estética à Gisele Bündchen.
MENOS SURRAS
Bolsa Escola gera respeito
Dona Josefa dos Santos, 60 anos, feirante de
Própria, interior de Sergipe, se espanta com as mudanças nos costumes:
"Ah, depois dessas ajudas do governo, menino não leva mais uma surra por
aqui". Ela teve apenas três, já adultos, quantidade rara em sua geração.
A tese da vendedora de legumes e cereais: o
Bolsa Escola é um benefício condicionado à presença e comportamento da criança
na sala de aula. Se sofrem maus-tratos, os alunos podem boicotar os pais e
prejudicar o recebimento dos R$ 15 por menino - um máximo de três inscritos por
família.
Só no Nordeste, o programa chega a cerca de
3 milhões de famílias, com entrada na economia de algo na casa dos R$ 60
milhões.
Menino e velho aposentado mandam no
“sertãozão", diz Paulo Machado, 60 anos, também feirante, pai de 16
"barrigudinhos", como se refere às criaturas. "Se não fosse o
dinheiro deles, a gente tava era lascado aqui nesse comércio." Manuel
Alves dos Santos, de 52 anos, pai de quatro, vendedor de cachaça com raiz,
relata que o novo costume não chegou na sua casa: "Se brincar, toma cipó
de marmeleiro no lombo. Fui criado assim, na ordem, e eles também".
Surra de cipó ou de cinturão de couro é
regime em pleno desuso. No livro Infância, Graciliano Ramos conta como travou
conhecimento pela primeira vez com a noção de injustiça: havia sido vítima de
uma sova do pai.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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CARTA CAPITAL |
A SEMANA |
28/09/2003 |
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O vice José Alencar, presidente em
exercício, assina a contragosto a MP que libera a soja transgênica
A questão dos transgênicos carrega em sua
gênese o dom de promover polêmica. A última delas atingiu o topo do escalão em
Brasília. O vice-presidente, José Alencar, na quarta-feira 24, chegou a
desabafar: “Isso confronta com a legislação brasileira. Um pobre coitado de um
presidente em exercício, lá de Minas Gerais, tem de assinar essa medida
provisória”. De fato a assinou, relutante até o fim, na noite da quinta-feira
25. A medida provisória que libera para este ano o plantio de soja
geneticamente modificada no País fortalece o ministro da Agricultura, Roberto
Rodrigues, em detrimento da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que até
chorou.
Com isso, Alencar cumpriu as ordens
expressas do presidente Lula, em viagem para os Estados Unidos e Cuba, e do
ministro da Casa Civil, José Dirceu, hoje à frente das negociações sobre o
tema. O mesmo que havia garantido, anteriormente, a proibição dos organismos
geneticamente modificados: “O governo tem instrumentos para cumprir a lei. Está
gravado: a lei vai ser cumprida”.
A lei, hoje, proíbe o cultivo e a
comercialização da soja, conforme a decisão do Tribunal Regional Federal de
Brasília, tomada em 8 de setembro. A batalha jurídica em torno da questão já
dura cinco anos. E continuará contribuindo para complicar as relações já não
muito fáceis entre os poderes Executivo e Judiciário. O desembargador do TRF de
Brasília, Antônio Souza Prudente, declarou que a edição da MP transformaria o
País numa “ditadura do Executivo”.
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Ministério da Justiça - Assessoria
de Comunicação Social |
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CARTA CAPITAL |
PLURAL |
28/09/2003 |
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O Ministério Público aperta o cerco, mas
o apresentador tenta tirar o corpo.
Por Ana Paula Sousa
Na tarde da quinta-feira 25, a sede do
Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado de São Paulo, o Deic,
parecia destinada a servir de locação para algum programa televisivo – o
Domingo Legal, talvez. Câmeras, antenas, microfones, cabos e dezenas de
figurantes postaram-se à frente do edifício localizado na zona norte da cidade
para acompanhar as novas tomadas do “caso Gugu”. O trânsito da avenida Zaki
Narchi parou. Trinta policiais foram mobilizados para isolar a área.
O “caso Gugu” – alcunha que, de tão
martelada na mídia, já é familiar a todos os brasileiros – levou ao Deic pelo
menos 40 pessoas da imprensa e mais meia centena de fãs do apresentador,
curiosos e exibicionistas. A estrela do caso surgiu no cenário às 13h08. Entrou
no prédio pela garagem, numa Blazer de vidros escuros e de lá só saiu às 15h30,
com o carro cantando pneus. Os fãs chegaram a bater nos vidros, gritando “Gugu!
Gugu!”, repetidas vezes, mas ele se foi.
Nessas duas horas e meia, Augusto Liberato
teve de responder às perguntas da polícia no inquérito que apura a entrevista
fraudulenta levada ao ar na emissora de Silvio Santos no domingo 7. Mas quem
foi ao Deic para vê-lo não queria saber de inquérito nenhum. Muito menos de
acusações.
Senhoras com envelopes na mão propalavam,
aos quatro ventos, que estavam ali para entregar cartas e pedidos de ajuda ao
apresentador. E se viesse um autógrafo de lambuja, nada mal. Maria das Dores
Correia, que há 18 anos vende salgadinhos à porta da sede policial, quase
conseguiu um:
– Vi ele bem de pertinho porque entrei lá
dentro. É bem mais bonito do que eu imaginava! Coitado, né? Ele é uma pessoa
tão boa, ajuda os pobres... Errar todo mundo erra. Sou amiga de todos os
policiais, mas acho que eles não deviam fazer nada contra o Gugu, né?
No fim das contas, a polícia não pôde mesmo
formalizar nada contra Gugu. As explicações sobre o inquérito começaram a ser
dadas à imprensa às 16h15, numa sala grande, destinada a entrevistas. No
corredor que leva a essa sala, uma placa em que se lê “a cortesia não
compromete a valentia” indica o tom do depoimento. Ao abrir a entrevista, o
diretor do Deic, Godofredo Bittencourt, comprova que a máxima foi seguida:
– O Gugu confirmou o que disse no programa
da Hebe. Quer dizer, tudo o que vocês já sabem. Ele disse que chega a se sentir
constrangido pelo fato de uma equipe que trabalha há tanto tempo com ele ter
feito isso.
À postura cortês de Bittencourt contrapôs-se
o ar contrariado do delegado responsável pelo inquérito, Alberto Pereira
Matheus.
– Para mim, não importa se ele sabia ou não
do conteúdo da entrevista. Desde o início, minha linha de investigação conduziu
para que ele fosse responsabilizado.
Não pôde ser responsabilizado porque a
Justiça, na véspera do depoimento, concedeu a Gugu um habeas corpus preventivo
que o poupava do indiciamento. À primeira vista estranho, esse privilégio é
absolutamente legal, uma vez que o inquérito apura a prática de um crime
definido na lei como “de menor potencial ofensivo”. Isso não significa, porém,
que o apresentador venha a ser poupado também da denúncia por parte do
Ministério Público.
O promotor Roberto Porto, presente no Deic,
afirmou que, aberto o processo judicial, Gugu poderá ser denunciado por
infringir o artigo 16 da Lei de Imprensa, que prevê detenção de um ano ou pena
alternativa para quem publicar ou divulgar notícias falsas ou fatos verdadeiros
truncados ou deturpados.
Foi com base nesse mesmo artigo que a
polícia indiciou o repórter Wagner Maffezoli, o produtor Rogério Casagrande e
os falsos integrantes do PCC Alfa e Beta. O promotor Roberto Porto ressalta
que, no Ministério Público, todos os envolvidos serão tratados da mesma
maneira.
Pelo visto, mais uma vez, será no Ministério
Público que Gugu terá os calcanhares apertados. Enquanto a polícia tem as mãos
atadas pela concessão de uma liminar judicial, o Ministério da Justiça
estuda com cuidado a reclassificação etária do Domingo Legal e o Ministério das
Comunicações instaura um processo que se anuncia longo, vários promotores
lançam artilharia pesada contra o SBT.
Por trás da ação que tirou do ar o programa
do domingo 21 estão dois procuradores do Ministério Público Federal. Por trás
de uma ação que trata os espectadores como consumidores e, portanto, protegidos
pelo Código de Defesa do Consumidor está uma representante do Ministério
Público Estadual, de São Paulo. Acompanhando o inquérito policial estão os
promotores Mauricio Porto e Márcio Chistino, do Grupo de Atuação Especial de
Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Também será no Ministério Público, na
terça-feira 30, que o vice-prefeito Hélio Bicudo, um dos ameaçados pelos falsos
criminosos, entregará uma representação ao procurador-geral Luiz Antonio
Marrey, solicitando novas providências em relação ao caso.
“O Poder Judiciário deve agir sempre que a
Constituição for desrespeitada”, crava o promotor André de Carvalho Ramos, que
assinou a polêmica ação civil pública que fez com que o programa fosse tirado
do ar. O pedido, aceito pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região, fez com
que recaíssem sobre o Ministério Público e sobre a Justiça as acusações de
censura e radicalismo.
O próprio ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, disse, à rádio CBN, que impedir a exibição do programa
sem conhecer o conteúdo pode caracterizar censura prévia.
– O Ministério da Justiça, que
tem competência para isso, fez uma advertência escrita ao programa do Gugu e ao
SBT, dizendo que aquilo era intolerável e que não poderia existir. Mas, por
outro lado, efetivamente, eu não gosto da idéia de se suspender um programa
previamente.
Mas a observação do ministro da Justiça
parece não constranger o Ministério Público. Na quinta-feira 25, o
procurador-geral da República, Claudio Fonteles, manifestou apoio aos
procuradores. André Ramos recorre ao artigo 273 do Código de Processo Civil e
ao artigo 221 da Constituição para definir como “despropositada” a acusação de censura:
– A lei estabelece a cassação da concessão
como pena máxima para as emissoras que não cumprirem com suas
responsabilidades. Antes de chegar a esse ponto, há um caminho de punições que
pode ser seguido.
Em coro, o promotor Carlos Cardoso, assessor
da Promotoria de Direitos Humanos do Ministério Público Estadual, está certo de
que a decisão foi acertada:
– Ao Ministério Público cabe suprir as
lacunas da lei com decisões que estabeleçam o limite entre liberdade de
expressão e parâmetros éticos. Se o governo seguir omisso, a Justiça continuará
atrás de brechas para defender a sociedade.